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AFP via Getty Images

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Extrema-esquerda ou narcotráfico? Quem está por detrás dos ataques a prisões em França — com tiros de metralhadora e uma sigla enigmática

Prisões de França foram alvos de muitos ataques ao longo das últimas noites. Foram queimados carros e disparados tiros de Kalashnikov. Pistas difusas baralham autoridades quanto à autoria dos crimes.

Primeiro apareceram carros incendiados, na noite de domingo para segunda-feira, em três prisões. Apesar de configurar crime, as autoridades não anteviram um cenário com complicações nos dias vindouros, mas foi o que aconteceu. Nas duas noites seguintes, os ataques estenderam-se a sete novos estabelecimentos prisionais e não passaram só por carros queimados: houve pichagens de uma sigla enigmática e até rajadas disparadas por uma Kalashnikov.

Disparos de metralhadora e carros a arder. Prisões francesas alvo de ataques “coordenados”

A Procuradoria Nacional Antiterrorista de França, que assumiu o controlo da investigação, tenta apurar a autoria dos ataques, com a convicção de que terão sido coordenados. Para chegar aos responsáveis dos crimes cometidos em todo o país, as autoridades podem seguir as pistas da sigla desenhada nos locais — DDPF, que significará Direitos Dos Prisioneiros Franceses —, mas há quem acredite, nomeadamente o ministro da Justiça francês, que estas ações foram consertadas por organizações de narcotraficantes como retaliação pela estratégia de combate ao tráfico de drogas.

Dos primeiros carros incendiados aos tiros de Kalashnikov: como as prisões de França viveram noites de terror

“Há claramente pessoas que estão a tentar desestabilizar o estado, intimidando-o. (…) Não vamos recuar porque se o estado recuar não sobre nada, não resta proteção ao povo francês”. Em frente a uma prisão, em solidariedade com os funcionários prisionais, o ministro da Justiça de França, Gérald Darmanin, deixou este aviso, em reação aos ataques recentes um pouco por todo o país.

Começaram na noite de domingo para segunda-feira, com sete carros destruídos ou danificados pelas chamas no estacionamento da Escola Nacional de Administração Prisional em Agen — e que levou à retirada de cerca de mil alunos do alojamento perto do local onde apareceram as viaturas queimadas.

As autoridades demoraram pouco a identificar uma pessoa relacionada com a ocorrência: o caso foi filmado por uma testemunha. O suspeito, detido na manhã de segunda-feira, foi rapidamente libertado. Outras imagens, partilhadas no Telegram, mostravam duas pessoas encapuzadas a regar carros com gasolina para atear fogo, descreve o Le Monde.

Pouco depois, a cerca de 700 km do primeiro ataque, o carro de um funcionário de uma prisão foi totalmente queimado no centro de detenção de Melun, antes da detenção de quatro pessoas que seguiam num carro em Châlons-en-Champagne relacionadas com a descoberta de engenhos pirotécnicos dentro de uma prisão.

A noite de agitação à volta das prisões francesas não terminou sem antes, em Valence, terem sido incendiados dois carros de guardas prisionais e de ter sido descoberta uma inscrição no chão a dizer “DDPF”. Um dos suspeitos, de acordo com o Le Monde, escreveu a sigla antes de fugir numa scooter.

Os primeiros ataques afetaram as prisões de Agen, Nîmes e Réau e foram apenas o tiro de partida para a escalada de violência que se sucedeu. A noite seguinte, de segunda para terça-feira, esclareceu as autoridades: seria mesmo um ataque coordenado.

Em pelo menos cinco prisões deflagraram incêndios em carros, quase em simultâneo, e em Marselha pegaram fogo a um carro perto das instalações do Serviço de Proteção Judiciária da Juventude, num parque de estacionamento que serve um complexo de habitação social ocupado por vários funcionários prisionais.

O ‘modus operandi’ parecia ser semelhante em todos os locais, mas foi ligeiramente alterado noutros, o que confunde a investigação judiciária. Se em Aix-Luynes se repetiram os incêndios, desta feita não em carros mas sim numa das portas de entrada, em Toulon foram disparadas rajadas de tiros de Kalashnikov. Ação que também foi tentada em Aix-Luynes, mas um grupo fugiu antes de disparar.

Na noite de terça para quarta-feira, os ânimos acalmaram, mas não pararam. No centro prisional de Tarascon, em Bouches-du-Rhône, foram incendiados três carros num estacionamento “isolado”, vedado e com acesso reservado a funcionários através de um código, informou o Franceinfo. Na mesma localidade, foi queimado um carro à frente da casa de um guarda prisional e, em Seine-et-Marne, foi atirado um cocktail molotov para o hall de entrada de um prédio onde mora outro guarda prisional.

Suspeitos incendiaram carros e dispararam contra prisão para intimidar guardas prisionais. Ataques estendaram-se, durante três noites, a mais de dez estabelecimentos prisionais em França.

“Não dispararão Kalashnikovs de forma impune”. Autoridades prometem resposta forte

Na terça-feira, Bruno Retailleau, ministro do Interior francês, revelou que deu ordens às forças prisionais para reforçarem a segurança das prisões, lembrando que a “reposta do Estado deve ser implacável”.

“Ontem [segunda-feira] à noite, vários ataques inaceitáveis tiveram como alvo funcionários e propriedades prisionais. Condeno veementemente estes atos e instruí as autoridades para reforçar imediatamente a proteção dos guardas e dos estabelecimentos. Quero expressar o meu apoio aos agentes penitenciários que foram alvos de bandidos. Aqueles que atacam prisões e agentes devem ser trancados nessas prisões e monitorados por esses agentes”, escreveu no X.

A resposta foi rápida e tentou estancar a sangria de ataques que se multiplicou por vários locais de França — com incidência, sobretudo, no sudeste do país. Dada a dimensão dos atos, o caso foi assumido rapidamente pela Procuradoria Nacional Antiterrorista.

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O FO Justice (central sindical que representa os trabalhadores do Ministério da Justiça e Prisional) denunciou “atos criminosos” que representam “um ataque frontal contra a República e contra os agentes que a servem diariamente”. Os sindicatos, segundo o Libération, reivindicam um reforço dos guardas prisionais, um maior policiamento nos arredores dos estabelecimentos e que os funcionários prisionais possam estacionar num local reservado, impedindo assim serem alvo destes ataques.

O ministro da Justiça ainda partilhou a intenção de “reunir todos os diretores de estabelecimentos prisionais” para consertar uma resposta a estes ataques. “Não dispararão Kalashnikovs de forma impune”, rematou Retailleau, citado pelo Le Figaro.

"Não dispararão Kalashnikovs de forma impune", defendeu o ministro da Justiça. Os sindicatos reivindicam um reforço dos guardas prisionais e um maior policiamento nos arredores dos estabelecimentos 

Extrema-esquerda ou narcotraficantes. Quem foram, afinal, os autores?

A grande questão que as autoridades tentam decifrar é a autoria dos crimes cometidos. Se a repetição da sigla associada aos direitos dos prisioneiros poderia antever uma investigação simples, as diferenças no ‘modus operandi’ complicaram a missão das autoridades.

As primeiras reações dos ministros apontavam num único sentido: o narcotráfico. “A República está a enfrentar o narcotráfico e está a tomar medidas que vão desestruturar profundamente as redes criminosas. Ela é desafiada e será firme e corajosa”, explicou no X o ministro da Justiça.

Horas mais tarde, o próprio Gérald Darmanin não parecia estar tão convicto da teoria que tinha sugerido pouco antes: “Não sei se [estes ataques] têm alguma coisa a ver com a luta extremamente forte que estamos a travar contra a desordem nas prisões”, disse, citado pelo Libération, à porta da prisão de Toulon, onde foram disparados os tiros de Kalashnikov.

Nesse sentido, o Ministério Público de Agen (onde apareceram os primeiros carros queimados) disse que era “cedo para identificar pistas específicas, incluindo a motivação do(s) autor(es) do crime”.

Ao mesmo tempo, começaram a ser divulgadas pela imprensa francesa imagens das pichagens com a sigla repetida — “DDPF” –, que identifica um grupo de defesa dos direitos dos prisioneiros que leva a cabo ações violentas com ataques a prisões e guardas prisionais.

Além das pichagens, a atividade de um grupo de conversas no Telegram alimentava a possibilidade de que este movimento seria o responsável pelos ataques. Nesse chat foi partilhado um vídeo que mostra o carro de um guarda prisional envolto em chamas, antes de surgir a sigla “DDPF”. Antes, as imagens permitiam identificar, pela cara e pelo nome, o guarda prisional.

“Aqui está um guarda do centro de detenção de Luynes, fala muito nas entrevistas e está muito envolvido no boicote diário aos presos. Gérald Darmanin [ministro da Justiça] não te vai proteger, nem à tua mulher, nem aos teus filhos. Saibam, todos os guardas prisionais, que é hora de mudar de rumo e refletir sobre as suas convicções pessoais, isso estará além de vocês”, escreveram no grupo, segundo o Le Figaro.

No canal foram partilhados muitos vídeos dos ataques dos últimos dias, além de mensagens contra o atual sistema prisional, visando, sobretudo o atual ministro da Justiça. “Não somos terroristas, estamos aqui para defender os direitos humanos dentro das prisões. Foi o senhor, Darmanin, que começou a guerra, nós só queremos que os direitos humanos sejam respeitados”, acusam.

Imagens amplamente partilhadas num grupo de Telegram associado ao DDPF aumenta suspeitas sobre a autoria dos ataques. No entanto, os diferentes 'modus operandi' baralham as autoridades.

Quanto à origem do grupo suspeito, surgem várias teorias entre os peritos em segurança consultados por diferentes jornais franceses, que se dividem, maioritariamente, entre a extrema-esquerda e os narcotraficantes.

“As pichagens lembram um modus operandi típico da extrema-esquerda”, mas os códigos e a roupa dos suspeitos captados nas imagens partilhadas nas redes sociais afastam esta hipótese, garante uma fonte policial ao Le Figaro. Quanto aos traficantes de droga, só os disparos de metralhadora parecem configurar um método dos narcotraficantes. “Queimar carros e pichar não lhes é habitual”, avança outra fonte ao mesmo jornal.

Em Toulon, onde foi disparada uma rajada de tiros com uma Kalashnikov, em vez de “DDPF” apareceu a sigla “DDFM”, sendo que as autoridades não compreendem se tem outro significado, ou se é apenas um lapso.

O presidente francês, Emmanuel Macron, reservou a reação para esta quarta-feira, quando denunciou a intimidação dos agressores aos funcionários prisionais. “Algumas pessoas estão a tentar intimidar os nossos funcionários da prisão e estão a atacar os estabelecimentos com uma violência inaceitável. Eles serão encontrados, julgados e punidos”, escreveu no X.

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