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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Gurugú, o bairro de Badajoz onde os netos do contrabando prometem não esquecer Rui Nabeiro 

Uma linha de comboio junto à fronteira, um empresário com olho para o negócio e um bairro com urgência em sobreviver. Nos anos 50 e 60, Rui Nabeiro moldou o bairro do Gurugú e a herança ainda perdura.

Dois maridos, nove filhos e um beco sem saída. Nos anos que se seguiram à Guerra Civil Espanhola, Rosa María Rodriguez Mata não teve escolha. A miséria e a “falta de tudo” ditaram que seria o contrabando a sustentar a família, que ainda hoje carrega os apelidos da matriarca. Durante uns dias, a cadeia de Badajoz chegou a servir-lhe de morada. Rosa Rodríguez Mata foi uma das muitas contrabandistas que, nos anos 50, passavam mercadoria entre Portugal e Espanha, através do bairro do Gurugú. A “jóia da coroa” era o café de Rui Nabeiro.

Pode também ouvir esta reportagem em áudio aqui, com as histórias dos netos dos contrabandistas de viva voz.

Quando Nabeiro conquistou um bairro de contrabando

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Nasceu em Olivença, o que pode fazer dela portuguesa ou espanhola. “É como preferirem”, conta ao Observador o neto Julio Alberto Rodriguez Mata. “Ela tinha medo que o meu avô nos levasse, então pôs os apelidos dela aos filhos e aos netos”, para garantir que nunca lhes perderia o rasto. “Eu não tenho o apelido nem do meu pai nem do meu avó, só os dela”, revela o neto, com orgulho indisfarçável na voz. Na memória do telemóvel traz uma fotografia do passaporte da avó.

Foi graças ao contrabando do café de Rui Nabeiro que Rosa María conheceu o português que viria a ser o seu segundo marido e pai de quatro dos seus nove filhos. Adriano António Passarinho nasceu em Vila Viçosa e foi criado em Vila Fernando, uma antiga freguesia de Elvas. Mas foi no bairro do Gurugú, a norte de Badajoz, que se fez marido, pai e contrabandista.

Mas porquê ali, num bairro de casas térreas na margem direita do Guadiana, ao qual ainda hoje os locais desaconselham visitas? “Por causa do caminho de ferro” e da proximidade com a fronteira portuguesa, conta Ricardo Cabezas, presidente da associação de vizinhos do bairro de Nossa Senhora da Assunção, o outro nome pelo qual é conhecido o Gurugú. “A linha do comboio passa mesmo por aqui, e o comboio tem de abrandar muito porque a linha faz aqui uma curva em ‘U'”. Era nessa altura que os contrabandistas atiravam lá para dentro os sacos de café de Campo Maior, na altura Camelo antes de ser Delta, e que daí chegava a Madrid e a toda a Espanha.

A linha do comboio junto ao bairro do Gurugú era usada para contrabando.

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Entre o caminho de ferro e o bairro, a rua sem saída do Gurugú era muitas vezes o fim da linha dos contrabandistas. Era aí que o sistema informal de segurança do bairro começava a funcionar. “Nas açoteias das casas havia uma luz, e quando havia guardas, as pessoas acendiam a luz, para avisar os contrabandistas, que assim iam pela parte de trás das casas. Todos se ajudavam entre si, porque as pessoas viviam do contrabando”, conta Ricardo Cabezas.

Um café e um milhão de pesetas

Nunca foi contrabandista, mas é um dos guardiões da memória de Rui Nabeiro no Gurugú. “Até há poucos anos Nabeiro vinha aqui tomar café”, ao bar Juan Chaparro, que hoje já não é um bar. A primeira porta do Caminho de Santa Engrácia é uma casa como as outras. Quem lá mora não sabia que Nabeiro era visitante assíduo do Gurugú, mas o nome não lhe soa estranho. “Por aqui talvez só os mais velhos se lembrem bem dele, mas os mais jovens conhecem-no dos jornais”.

O bar Juan Chaparro, frequentado por Rui Nabeiro, ficava no caminho de Santa Engrácia.

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As visitas de Nabeiro eram vox populi no bairro. “Imagine, um homem daquela importância vir aqui”. Era estranho? “Para ele era normal, para nós sim, era estranho. Todo o bairro o conhecia”.

O filho de Ricardo Cabezas é um político de Badajoz com o mesmo nome. Ganhou as últimas eleições municipais pelo PSOE, mas não governa porque foi ultrapassado por uma coligação de três partidos da oposição. No próximo escrutínio, em maio deste ano, vai voltar a tentar. Desta vez, já sem o apoio de Rui Nabeiro. “Conheci-o há mais de 20 anos”, conta o pai do candidato.

O ponto de contacto foi uma associação de cidadania jovem da Extremadura, que promovia encontros dos dois lados da fronteira. As viagens dos jovens espanhóis a Campo Maior ou dos portugueses a Espanha eram patrocinadas por Nabeiro. Julio Alberto foi um dos jovens que fez parte do projeto, que em Campo Maior teve lugar na Associação Coração Delta. “Vinha gente de toda a Extremadura e de todo o Alentejo. O que ele começou ainda existe”.

Ricardo Cabezas e Julio Alberto no bairro do Gurugú.

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Os jovens do Gurugú vestiram, literalmente, a camisola do império Nabeiro. A associação do bairro tinha uma equipa de futebol com “oito ou dez escalões”. No início dos anos 2000, o empresário deu quase um milhão de pesetas ao clube para a compra de equipamentos. “Era um homem extraordinário”, não se cansa de repetir Ricardo Cabezas.

A escrava em ouro e um tiro que saiu pela culatra

Pedro Carapinha também cresceu com o nome de Nabeiro dentro de casa. E com uma herança do comendador. O avô, hoje com 101 anos, fazia parte de uma “quadrilha de contrabandistas” que compravam café a Nabeiro e distribuíam-no por toda a Espanha. O empresário português era uma figura respeitada no Gurugú, sublinha Pedro, porque “falava com os guardas” e tentava facilitar a vida aos espanhóis. Nem sempre recebia a dinheiro, recorda, porque era apreendido na fronteira. Às vezes pagavam-lhe com joias ou com partes de outros carregamentos que traziam. As trocas chegaram a ser feitas pelos chamados “chefes de quadrilha” no bar Juan Chaparro.

Julio Alberto e Pedro Carapinha, netos de contrabandistas de café.

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Numa das muitas vezes que visitou o bairro, Nabeiro ofereceu à avó de Pedro, Andrea, uma pulseira do tipo escrava, em ouro, com os nomes dos filhos gravados. A história, a pulseira e a memória de Nabeiro sobrevivem na casa da família de Pedro.

Foi pela voz dos avós que ouviu falar dos dias difíceis do contrabando. Como a fronteira de Badajoz era muito patrulhada pelos chamados “carabineros”, os contrabandistas iam dar a volta a Ouguela, menos controlada mas com um senão: tinham de atravessar a nado o rio Xévora. No inverno, eram frequentes as mortes. Por frio ou por afogamento. “Se aparecia um rapaz afogado, já se sabia o que era”, conta Julio Alberto. “Certamente que não tinha ido dar um mergulho”.

Nesses anos após a guerra, o contrabando era a principal fonte de rendimento de quem vivia no Gurugú. Carne, tabaco, roupa, galinhas e até louça de Macau, “muito popular em Portugal e um luxo em Espanha”, eram passados à revelia das autoridades. Mas nada vendia tanto como o café, graças à fábrica de Campo Maior.

O  negócio prosperava, mas o controlo também era intenso. “A polícia tinha muita autoridade. Não havia democracia, não havia liberdade”, diz Julio Alberto. A certa altura, conta, a polícia começou a perseguir os contrabandistas com cães. “Os mais velhos diziam que eram como leões, comiam-nos”. Deixaram de poder andar sozinhos. “Tinham de ir pelo menos três, e armados com paus”. As cargas que levavam era pesadas e, nas fugas, acabavam muitas vezes por ficar para trás. “Mas restava sempre uma pequena parte que vinha agarrada ao corpo”.

A violência chegava a extremos e não se sabe ao certo quantos perderam a vida nesses anos. Um tio-avô de Pedro Carapinha ficou com o contrabando marcado no corpo. “Entrou-lhe uma bala pela boca, acertou-lhe num dente e saiu pelo pescoço, ficou com uma ferida, mais nada”, conta. O tio mais velho de Julio Alberto teve uma arma apontada, depois de se ter defendido “de uma sova”. Teve de fugir de Badajoz logo a seguir. “Se o apanhavam…”.

Rui Nabeiro nunca escondeu o peso que o contrabando teve no início do império Delta. “O nosso contrabando foi sempre um contrabando de força, de tapar buracos. Trabalhámos sempre a vender café para os espanhóis”, disse em entrevista ao Expresso em 2016. Do Gurugú, expandiu para mais de 40 países.

O neto que aprendeu “português alentejano”

No dia em que falou com o Observador, o dia do velório de Rui Nabeiro, Julio Alberto tinha acabado de fazer o caminho que um dia foi o dos contrabandistas, cruzando a fronteira pela serra de São Mamede até à ermida da Lapa onde “escondiam os contrabandistas”. “Está-me no sangue”. Não diz se o fez em homenagem ao homem que fez prosperar o Gurugú com o contrabando de café, mas o exemplo e o legado de Nabeiro são uma espécie de guia de Julio Alberto. “Se os meus avós não tivessem trabalhado para ele, não se teriam conhecido, não tinham tido mais filhos, eu não teria nascido. Estudei a cultura portuguesa graças a esta história. Aprendi português”. Não só português, mas “português alentejano”.

A Avenida Comendador Nabeiro em Badajoz foi inaugurada em 2016.

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A relação de Nabeiro com Badajoz começou com o contrabando de café, e nunca se dissolveu. Na fronteira do Gurugú, há um pequeno armazém da Delta. “Foi aqui que começou a internacionalização do império”, contam os habitantes com vaidade. Outro armazém, muito maior, está situado a poucos quilómetros, no polígono industrial El Nevero.

Não é só em Campo Maior que famílias inteiras dependem da Delta. “O meu cunhado ganhou o prémio de melhor comercial de Espanha”, diz Julio Alberto. “Ele pôs a Delta aqui porque esta gente ajudou-o, deu-lhe um grande empurrão. Nabeiro ganhou muito dinheiro com o contrabando”. Com a morte do empresário, desaparece uma parte da história do Gurugú. Em Badajoz, há uma avenida com o nome do comendador. E um bairro com Nabeiro impregnado em toda a parte.

 
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