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Apesar do confinamento, as pessoas podem sair para fazer desporto

Thierry Monasse/Getty Images

Apesar do confinamento, as pessoas podem sair para fazer desporto

Thierry Monasse/Getty Images

Irlanda e Bélgica confinaram e diminuíram os novos casos. Mas são mesmo exemplo para Portugal? E vão ter Natal? /premium

Irlanda e Bélgica, ambos em confinamento e a descer do pico da segunda vaga, foram dados como exemplo e comparados com Portugal. Mas as realidades são distintas. E também podem não ter Natal.

Depois de 10 anos a viver e trabalhar em Londres, Brendan Owens estava finalmente de regresso ao país de origem, a Irlanda. Estávamos em medados de fevereiro e não tinha como imaginar que cerca de mês e meio depois, a 29 de março, se veria forçado a ficar em casa, uma medida do governo irlandês para combater a pandemia de Covid-19 que desde março assolava o país. O objetivo era ter ido trabalhar para a Science Gallery de Dublin, mas a verdade é que a maior parte do seu trabalho tem sido feito a partir de casa e, neste momento, está a viver um novo confinamento.

Irene*, uma italiana a viver na Bélgica há 15 anos, também está novamente fechada em casa, depois de ter visto aquele país ser o líder desta segunda vaga e ultrapassar os 20 mil casos diários em vários dias do final de outubro. Está cansada da pandemia e critica o governo belga por ter agido tarde e ter comunicado mal.

Em termos de números de casos diários, os dois países não podiam ser mais distintos: a Irlanda só chegou aos 1.500 casos diários uma vez, ainda na primeira vaga; a Bélgica entrou na segunda vaga já com os casos a rondar (ou ultrapassar) os dois mil por dia. Ao contrário de Portugal, ambos decidiram impor medidas de confinamento imediatas para controlar a segunda vaga da pandemia. Por isso os dois países foram usados como exemplos por Baltazar Nunes, investigador no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), na reunião do Infarmed, esta quinta-feira, sobre as lições que se devem aprender com ambos e as lições a aprender dos dois casos. O Observador questionou o investigador, mas não foi possível obter uma resposta até à hora da publicação deste artigo.

Na reunião, no entanto, Baltazar Nunes deu a entender que se Portugal tivesse decidido tomar medidas mais restritivas dos movimentos, como aconteceu com os confinamentos na Irlanda e na Bélgica, tinha conseguido baixar o R (o índice de transmissibilidade, que em Portugal era na última semana de 1,17). “Quanto maior é a redução de mobilidade, menor o R”, referiu o especialista, acrescentando que estes dois países têm “níveis de confinamento mais elevado e trabalho presencial mais reduzido” e já começam a mostrar um abrandamento do número de novos casos.

Apesar dos resultados obtidos na Bélgica, Irene não acredita que o confinamento termine antes do final de janeiro. Já na Irlanda, os planos mantém-se para iniciar as medidas de desconfinamento já a 1 de dezembro e, tal como em Portugal, o objetivo é poder salvar o Natal. Falta saber o impacto que poderá ter o fim das medidas restritivas em cada um destes países e se os cidadãos são capazes de manter uma atitude preventiva, mesmo sem ser por imposição de restrições por parte dos governos.

Mas o que une e separa Irlanda, Bélgica e Portugal no contexto da pandemia de Covid-19?

Abrandar a segunda vaga usando travões diferentes

Não havia grandes dúvidas que a segunda vaga iria atingir a Europa depois do verão, quando as pessoas retomassem as atividades normais, os empregos voltassem a ser maioritariamente presenciais e os alunos voltassem às escolas. A grande diferença esteve, não só na capacidade instalada dos serviços de saúde nacionais, mas na celeridade e agressividade da resposta por parte dos governos. Portugal tem negado a possibilidade de um confinamento generalizado, como na primeira vaga, pelo impacto que tem na economia, na educação e a nível social. A Irlanda e a Bélgica, pelo contrário, fecharam os cidadãos em casa, mas as situações não são assim tão semelhantes como esta simples descrição poderia deixar parecer.

Quando a Irlanda saiu do confinamento da primeira vaga, a 18 de maio, o número de casos diários era menor que 100 e assim continuou nos meses seguintes, praticamente até ao final de agosto. O segundo confinamento começou no dia 21 de outubro, depois de no dia 18 se ter atingido o número de novos casos mais alto da segunda vaga: 1.284 (segundo a plataforma Big Local News). Qualquer tentativa de comparação com Portugal ou Bélgica baseada no número de casos (ou até na taxa de incidência) parece totalmente desenquadrada: no dia 18, Portugal registava 1.856 novos casos (ainda longe da média acima de 6.500 dos últimos dias) e a Bélgica 9.138 novos casos (duas vezes e meia menos — sim, leu bem, menos — do que viria a registar no pico da segunda vaga).

A Bélgica iniciaria o seu confinamento da segunda vaga 15 dias depois, dia 2 de novembro. Nesse dia, registava 6.337 novos casos, a Irlanda já baixara para 748 e Portugal subira para 2.506. No início do mês, Portugal estava na rampa ascendente (e ainda estará), enquanto a Bélgica já descia a montanha, mas por um atalho. Tudo porque no dia 21 de outubro, a Bélgica mudou a política de testagem: todos os contactos de alto risco que se mantivessem assintomáticos já não tinham de ser testados, como acontecia antes, apenas tinham de fazer quarentena durante 10 dias.

Esta redução do número de casos pode ter sido, por isso, artificial: de 105 mil novos casos na semana em que se mudou a política de testagem, passou para 33 mil em três semanas — com os testes realizados reduzidos para menos de metade. Não se pode, portanto, descartar a possibilidade de o número de casos diários voltar a aumentar quando se retomarem os testes aos contactos de risco, já a partir de segunda-feira, dia 23 de novembro, como está previsto.

Irene considera que o governo belga demorou muito tempo a impor medidas em todo o país. Mas Portugal conseguiu que as novas regras chegassem ainda mais tarde do que isso. O estado de emergência, com recolher obrigatório e sem confinamento, teve início no dia 9 de novembro, depois de Portugal ter ultrapassado 6.600 casos no dia 7 — mais ou menos os valores registados pela Bélgica no domingo 8, mas com o país já do outro lado da curva, em descida acentuada. A Irlanda, por sua vez, já estava a jogar noutro campeonato, nesse dia 9 teve apenas 265 novos casos.

Quantos casos de Covid-19 há no seu concelho? Quais são os dez municípios mais afetados? E os menos? A pandemia em gráficos

No dia 20 de novembro, a plataforma Big Local News mostrava a Irlanda com 111,2 casos por 100 mil habitantes nos 14 últimos dias, a Bélgica com 614,6 e Portugal com 798,5 casos por 100 mil habitantes. Este foi o critério usado pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, pelo qual o Governo português se guiou também para definir o grau de risco dos concelhos que entraram para a lista de restrições mais apertadas, sendo que alguns têm mais de 2.000 casos por 100 mil habitantes. Portugal não tem só a incidência, mais alta como ainda está a escalar a montanha cujo pico poderá ser atingido na próxima semana.

O segundo confinamento custa mais

Quando decretou o nível 5, o mais alto das medidas de contingência no combate à pandemia, a Irlanda disse que seriam impostas durante seis semanas, até dia 1 de dezembro, e ainda não mudou de ideias. Ou melhor, é certo que não vai encurtar esse período, mas Brendan Owens não sabe o que virá depois. É que, apesar da descida abrupta nas primeiras semanas do confinamento, nos últimos 10 dias, o número de novas infeções parou de descer e está mais ou menos estável, próximo das 400 por dia.

Brendan não consegue explicar porquê, até porque as medidas — que assume como “necessárias” — não mudaram durante o período de confinamento. Desde 21 de outubro, que os irlandeses têm de permanecer em casa tanto quanto possível — embora haja exceções, como ir às compras ou à farmácia —, adotar o teletrabalho também sempre que possível, não se afastar mais de cinco quilómetros da habitação, fazer exercício físico sozinho e evitar os ajuntamentos. Quanto aos bares e restaurantes só estão abertos para take away ou entregas ao domicílio.

Já as escolas continuaram a funcionar presencialmente. Brendan Owens ainda chegou a trabalhar fisicamente em três escolas de Dublin, mas com o número de casos diários a aumentar, decidiu-se que o trabalho passaria a ser exclusivamente online. “Tentamos fazer com que seja divertido, mas para as atividades hands on [que implicam fazer coisas mais práticas] é mais difícil.” O sistema está bem montado e os monitores conseguem falar com todo os alunos da turma, mas o comunicador de ciência admite que se sente como “se estivesse a olhar pelo buraco de uma fechadura”.

O irlandês não está impedido de sair de casa, mas confessa que o faz menos vezes do que durante o primeiro confinamento. Em parte porque anoitece mais cedo — por volta das 16 horas já começa a escurecer —, em parte porque está mais frio, mas sobretudo porque está “mentalmente mais restrito”. Não é medo, é menos vontade, diz. E lembra como no primeiro confinamento experimentou coisas diferentes, como vídeos no YouTube ou pão caseiro, fora os inúmeros contactos com todos os colegas a nível nacional e internacional para trocarem ferramentas e experiências de como poderiam manter as atividades de comunicação de ciência à distância. Em março, estar confinado ainda era novidade e o mote “Vamos vencer isto”, agora há mais consciência que o fim está distante e a mensagem é de resistência: “Mantenham-se firmes”.

Em Bruxelas, Irene também está cansada: cansada da incerteza e cansada de não poder ver a família. O verão, mais calmo no que diz respeito aos números da pandemia, permitiu que visitassem a família dela, mas a do marido não vêem há quase um ano. No primeiro confinamento, e apesar de ter ficado em casa com um filho demasiado energético para estar fechado dentro de quatro paredes, Irene ainda estava motivada com o seu trabalho como consultora de comunicação, sobretudo pela perspetiva de poder trazer conteúdos científicos sobre a pandemia para o grande público.

Um governo em formação no meio de uma pandemia

Ter de estar sempre a par das notícias, do que se passa na Bélgica, em Itália e em outros países europeus, e ter de ler muitas, muitas coisas sobre a doença e o vírus que a provoca, deixou de ser uma atividade que fizesse com tanto prazer, confessa a gestora de conteúdos. “Quando estou de férias tenho de me comprometer a só ler notícias uma vez por dia”, conta.

“Havia ruas em Bruxelas em que era obrigatório usar máscara de um lado da rua, mas não do outro, porque pertenciam a regiões administrativas diferentes.”
Vitalba Crivello, italiana em Bruxelas

Ter um conhecimento tão diversificado e usar as comparações com outros países também lhe permite fazer uma comparação com as medidas do governo belga: não comunicaram bem quando os casos ainda eram poucos, demoraram a reagir quando os casos começaram a aumentar e, para agravar a situação, o facto de se tratar de um estado federativo fez com que as medidas não fossem uniformes e demorassem a ser implementadas.

“Agora, a resposta foi implementada a nível federal”, igual para todo o país, diz a italiana em Bruxelas. Mas houve uma altura em que o governo federal só dava as orientações e as decisões eram tomadas a nível regional e local. “Havia ruas em Bruxelas em que era obrigatório usar máscara de um lado da rua, mas não do outro, porque pertenciam a regiões administrativas diferentes.” Além disso, pensando talvez que a pandemia estaria controlada, a Bélgica decidiu finalmente formar governo depois de ter estado quase dois anos com um governo em gestão.

Além de estarem com a atenção desviada da pandemia, as mensagens do governo acabaram por ser pouco claras, diz Irene, cujo trabalho passa exatamente por melhorar a comunicação de ciência. “A narrativa era que a segunda vaga não era tão preocupante, porque estava a afetar mais os jovens”, conta. “Mas depois começou a chegar aos mais velhos e houve muitas mortes e internamentos.” Há tantos anos a viver na Bélgica, Irene considera que os belgas são muito cumpridores das mensagens do governo: se é para ficarem fechadas em casa, ficam, mas se o governo diz que não há problema de ir ao restaurante, as pessoas vão sem preocupações.

E os restaurantes foram outra das questões que a gestora de conteúdos diz ter sido mal comunicada. Os estudos feitos nestes e noutros espaços fechados que mostravam o risco de contágio nunca foram devidamente divulgados, diz. Por isso, quando o governo decidiu encerrar os bares e restaurantes as pessoas não perceberam porquê. Mas aquilo que mais a intriga é o motivo de se ter permitido que 10 pessoas de diferentes agregados se juntassem na mesma mesa de um restaurante, mas duas pessoas do mesmo agregado familiar não pudessem ir juntas às compras.

Especialistas defenderam que Governo devia ter tomado medidas mais cedo

O encerramento dos restaurantes fez a grande diferença na descida dos casos, diz a italiana a viver em Bruxelas. Mas defende que outras coisas precisavam de ser mais bem comunicadas: o número de contactos pessoais que cada pessoa podia ter estava sempre a mudar e a obrigatoriedade das máscaras também. O que torna difícil para as pessoas acompanharem as medidas, especialmente as que não falam bem a língua, como nas comunidades de emigrantes. “Houve alguns surtos nas comunidades estrangeiras. Não houve uma comunicação dirigida a estes grupos”, diz. “Mas como estas comunidades são fortes, como a de Molenbeek [um bairro de Bruxelas, com muitos imigrantes do Médio Oriente], as medidas não foram reforçadas.” Irene acha que o governo teve receio de ser acusado de discriminação.

As medidas impostas pelo governo belga no dia 2 de novembro vão durar pelo menos até dia 13 de dezembro. Há um recolher obrigatório entre as 22 e as 6 horas, um dever de confinamento geral e não se pode receber visitas em casa. Mantém-se abertas as escolas para crianças até 12 anos e as lojas que vendam produtos alimentares, farmácias, floristas, lojas de bricolage e lojas de tecidos — para que as pessoas possam fazer as suas máscaras em casa.

O Natal tem mesmo de ser diferente

Ainda sem ter divulgado a estratégia para depois de dia 13 de dezembro, o primeiro-ministro belga, Alexander De Croo, deixou claro que o Natal terá de ser celebrado de forma diferente: “A última coisa que queremos é que haja uma nova vaga depois do Natal. Se nos descuidarmos perto do Natal, será esse o resultado passadas três ou quatro semanas” — quase o mesmo que Marcelo Rebelo de Sousa disse esta sexta-feira à noite aos portugueses.

As regras atualmente em vigor na Bélgica permitem apenas um contacto próximo além do agregado familiar, o que impede que Irene faça um Natal como costuma, recebendo os pais, os sogros, o irmão e a cunhada. “Não vai ser possível desta vez.” O primeiro-ministro belga parece, no entanto, ser menos restritivo do que isso, ao afirmar que vai passar o Natal com a família imediata — que se considera, normalmente, pais, filhos, avós, netos e irmãos.

“Não podemos estar sempre dependentes do que o governo nos diz. Temos de aprender a fazê-lo sozinhos.”
Brendan Owens, irlandês em Dublin

Em Portugal, o primeiro-ministro António Costa disse que “as famílias numerosas vão ter de fazer um Natal repartido”, mas durante algum tempo pareceu a alimentar a esperança de se ter uma celebração próxima do convencional: incentivou as compras de Natal (evitando, claro, ajuntamentos nas lojas) e até usou a época natalícia como recompensa do esforço pedido por as medidas mais duras agora em curso.

“O objetivo de podermos ter todos um Natal em segurança deve ser a motivação que devemos ter no meio familiar para perceber como este momento é mesmo o momento de fazer um esforço suplementar”, disse António Costa, depois do Conselho de Ministros de 7 de novembro, dois dias antes de entrar em vigor o primeiro estado de emergência desta segunda vaga da pandemia de Covid-19.

Este sábado, depois do Conselho de Ministros ter decidido as medidas para o segundo estado de emergência, António Costa continuou sem revelar se haveria medidas mais restritivas para o final do mês de dezembro. “É cedo para especulações.” No entanto, acrescentou: “Ficaria muito surpreendido se no Natal não houvesse estado de emergência”.

Brendan Owens também ainda não sabe como vai ser o Natal na Irlanda, mas sabe bem como costumava ser antes da pandemia. “Normalmente, iríamos de casa em casa, visitar os familiares e entregar os presentes antes do Natal e novamente depois do Natal para ver como tinha corrido”, conta o irlandês. Além disso, os emigrantes costumam voltar a casa nesta época, mas agora o governo já aconselhou a não comprarem bilhetes para este ano — até porque é provável que tenham de fazer quarentena depois de entrar no país. Brendan imagina que se possam criar medidas mais restritivas nos concelhos que fazem fronteira com a Irlanda do Norte, para tentar controlar o número de casos que atravessam a fronteira. Entende que assim seja, mas lamenta, porque a mãe vive precisamente nessa região.

O irlandês quer voltar a ter uma vida dentro da normalidade, mas sabe que para isso cada pessoa terá de se lembrar das medidas de prevenção. “Não podemos estar sempre dependentes do que o governo nos diz. Temos de aprender a fazê-lo sozinhos.” Já Irene receia que os belgas também só sejam capazes de fazer o que o governo diz e que assim que se diga que se podem relaxar as medidas, volte tudo ao mesmo.

*Irene (nome fictício)

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