Foi o grande recado deixado na parte final da reunião pelos especialistas que participaram esta quinta-feira na reunião Infarmed: o Governo podia e devia ter adotado medidas mais duras e mais cedo à semelhança do que fizeram vários congéneres europeus quando registavam números de contágio até inferiores àqueles que o país registava quando o Governo decidiu apertar a malha.

A crítica foi feita à porta fechada, já depois de desligadas as câmaras de televisão, mas confirmada por duas fontes ao Observador. Um dos especialistas que defendeu nessa parte da reunião que as medidas deviam ter sido tomadas logo em setembro foi o epidemiologista Manuel Carmo Gomes. A estratégia não foi essa e o retrato que ficou desta reunião que voltou a juntar especialistas de saúde, representantes dos partidos com assento parlamentar, parceiros sociais e as mais destacadas figuras do Estado é tudo menos animador: a vacina é ainda uma miragem, os hospitais estão perto da rutura, o pico da segunda onda da pandemia surgirá no final de novembro e nada garante que não venham a existir terceira e quarta ondas — antes pelo contrário. Entre muitas dúvidas, só uma certeza: apesar das medidas adotadas pelo Governo, o pior ainda está para vir.

Ao contrário do que aconteceu noutras reuniões foi a primeira vez que Marcelo Rebelo de Sousa permitiu que parte da sua intervenção fosse transmitida pelas televisões. O Presidente da República deixou um conjunto alargado de perguntas, nomeadamente sobre a eficácia das medidas adotadas, a existência ou não de uma possível terceira onda, o ponto de rutura dos cuidados intensivos ou o grau de contágio em escolas e universidades. Mas a questão mais importante era outra: por quanto tempo teremos de ter medidas restritivas?

“Por quanto tempo? Senhor Presidente, eu não tenho resposta a isso”, disse Manuel Carmo Gomes, epidemiologista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, quase em jeito de desabafo. No final, todos, partidos políticos incluídos, reconheceram o óbvio: a situação é muito grave.

Cuidados Intensivos em rutura

“Estou convencido que vai haver uma terceira e uma quarta onda e que teremos um período de tempo em que vamos ter de conviver com este vírus. Não podemos manter o tipo de expansão que temos agora, reativo, porque não é compatível com uma atividade médica normal. Não estamos em situação de catástrofe, ainda, mas estamos em rutura em muitos sítios”. Foi este o cenário traçado por João Gouveia, presidente da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos, em resposta a Marcelo Rebelo de Sousa, já depois de ter comparado os hospitais a um “balde cheio de água mas mal remendado, com a água a sair por todos os buracos”.

O especialista disse mesmo que o risco de não conseguir tratar todos os doentes Covid-19 é real e que a taxa de ocupação dos cuidados intensivos é muito preocupante, sobretudo a Norte do país. “Estamos com 84% de taxa de ocupação das camas dedicadas à Covid-19 e já em risco de não poder receber todos os doentes que precisem de medicina intensiva. É um valor com uma variedade regional enorme, temos unidades no Norte a 113% e outros com menos noutras zonas do país. Mas as que estão a 40% ou 60% são em serviços mais pequenos e por isso com menos camas”, notou.

Restauração é um problema? Talvez não

Outra das conclusões da reunião desta quinta-feira pode ter consequências na estratégia que o Governo desenhou para conter esta segunda onda da pandemia: Henrique de Barros, presidente do Conselho Nacional de Saúde, apresentou um estudo donde se pode concluir que “o uso de transportes coletivos, a frequência de espaços de restauração e a frequência de espaços comerciais e de hotelaria não parecem aumentar a probabilidade de infeção”.

Num momento em que o Governo está sofrer fortes pressões políticas para reabrir a restauração para lá dos horários de recolher obrigatório, estas conclusões podem obrigar António Costa a reajustar a estratégia. Em contrapartida, o especialista notou que os maiores focos de contágio acontecem em contexto laboral e em casa, sobretudo quando não existem condições de habitabilidade.

Universidades não devem fechar

Foi outro dos temas que dominou a agenda: na audiência com os partidos, Marcelo Rebelo de Sousa avançou a hipótese de encerrar as universidades para travar os contágios. Acabou contrariado por Manuel Heitor e, mais concretamente, por Henrique de Barros: “Não há sobre-exposição ao vírus relacionada com esta atividade”, sublinhou o especialista.

Pico deve acontecer no final de novembro

De acordo com Manuel do Carmo Gomes, com a atual tendência atual do índice de transmissão, o país vai atingir o pico desta segunda vaga entre 25 e 30 de novembro, com 7 mil casos por dia.

Além desta projeção, o especialista apontou o pico de óbitos motivado por Covid-19 para a segunda semana de dezembro, altura em que se devem registar 95 a 100 óbitos diários.

Outra conclusão, igualmente relevante, foi a apresentada por Óscar Felgueiras, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. De acordo com o especialista, é preciso “passar um mês e meio entre o momento em que as medidas são tomadas e o regresso da situação à incidência de partida”.

A necessidade de afinar a estratégia

Com os principais responsáveis políticos na audiência, Manuel Carmo Gomes defendeu que era preciso reajustar as medidas à realidade do terreno. “Sempre defendi que utilizássemos uma faca cirúrgica e não uma romba, que toma o país como um todo. Sempre defendi níveis de risco, com uma definição clara de como se passa de um nível para o outro e uma tentativa de adaptar a cada concelho medidas gerais e específicas”, sublinhou.

O especialista entende que o critério usado pelo Governo para definir os concelhos de maior risco — o número de novos casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias — pode, isoladamente, não ser o mais acertado e que é preciso olhar para o ritmo de novos contágios, a realidade dos concelhos envolventes e a origem dos surtos em cada concelho. O mix destes quatro critérios pode obrigar o Governo a repensar o mapa atualmente em vigor de concelhos em risco. “Há que fazer um refinamento das medidas de acordo com as realidades locais. E para isso é necessário contar com as autoridades de saúde locais que são quem conhece melhor a realidade”, alertou Carmo Gomes.

Tendência positiva, mas…

Outra nota deixada, desta vez, por Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge: o índice R (que mede quantas pessoas um doente pode infetar) está a estabilizar nas últimas semanas, mas a situação continua muito preocupante.

A transmissibilidade está “a crescer há 88 dias”, com uma média diária de 6.488 novos casos, que é “seis vezes superior” ao que se regista na primeira onda, entre março e abril.

Depois há outro dado: não basta baixar o R para 1; é preciso descê-lo significativamente “para um nível gerível em termos de entradas hospitalares”, alertou Manuel Carmo Gomes. Isto porque, explicou o especialista, mesmo que se consiga uma redução do R para 1, a incidência de novos casos por dia pode manter-se em vários milhares, entrando-se “num planalto do qual não é fácil sair”.

Vacina pode chegar em janeiro

Foi o dado mais positivo deixado na reunião: Rui Ivo, presidente do Infarmed admitiu as primeiras vacinações aconteçam no início do próximo ano. As entregas devem acontecer por tranches ao longo de 2021: cinco milhões de doses no primeiro trimestre, cerca de oito milhões no segundo trimestre e mais dois milhões no último trimestre de 2021.

Mas há muitas dúvidas, desde logo sobre o calendário para autorização da agência europeia que tutela o setor. Além disso, a nível europeu, não há qualquer contratualização com Moderna para a aquisição daquela que se apresenta como a vacina mais eficaz contra o vírus. E o Governo não apresentou dados sobre qual o nível de vacinação que é necessário para garantir a imunidade de grupo.

Contexto familiar afinal é o mais relevante?

Durante as intervenções, foram levantadas dúvidas ainda sobre se a maioria dos contágios acontecia ou não em contágio familiar. Nas suas últimas intervenções, António Costa e Graça Freitas têm apontado que o contexto de convívio familiar ou social tem sido responsável por 68% dos contágios.

Segundo os dados apresentados por André Peralta Santos, da Direção-Geral da Saúde, na reunião, em 81,4% dos casos de Covid-19 as autoridades não sabem onde a infeção aconteceu. Ou seja, em Portugal os sistemas de vigilância epidemiológica só conseguem chegar à origem de 19% dos contágios. Todos os restantes acontecem por transmissão comunitária, o que quer dizer que não se sabe de onde vêm, nem como acontecem.

Afinal, só 10% dos casos ocorrem comprovadamente nas famílias. Mais de 80% dos casos de Covid em Portugal são de origem desconhecida

António Costa chegou, inclusivamente, a apresentar um gráfico durante o briefing do Conselho de Ministros de 7 de novembro que indicava o contexto familiar como principal foco de contágio (responsável por 68% das infeções) sem referir que não se sabia da origem do contágio na esmagadora maioria dos casos.

Já esta quarta-feira, Marta Temido tinha explicado em entrevista a um podcast do PS que, dos dados recolhidos nos inquéritos epidemiológicos, apenas conseguiram conhecer o contexto do contágio em 25% dos casos na região Norte, o que lança a sombra sobre a origem dos surtos.

O reconhecimento da falta de dados suficientes foi o mote para que Ricardo Batista Leite, deputado e vice-presidente da bancada do PSD, lançasse duras críticas à estratégia do Governo. “Quando ouvimos que 68% das pessoas se teriam infetado em contexto familiar, hoje percebemos que na verdade é uma percentagem muito mais pequena, porque objetivamente não se sabe. E quando não se sabe, não se conseguem tomar medidas assertivas. Somos um barco à vela, que navega às escuras e sem bússola.”