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Já lá mora, Juary bate Pfaff e desfaz a igualdade com o Bayern na final da Taça dos Campeões 1987

Já lá mora, Juary bate Pfaff e desfaz a igualdade com o Bayern na final da Taça dos Campeões 1987

Juary. “Andava sempre nu, era uma mania”

Antes de marcar o golo decisivo na final de Viena 1987, o avançado brasileiro estuda Direito, joga com Pelé mais Maradona e canta o samba "Sarà Così" para as vítimas do tremor de terra em Irpinia.

O número 13 dá galo, é o do azar. É mesmo? Na Última Ceia, sim. No livro do Apocalipse, idem idem. Numa sexta-feira, aspas aspas. No futebol, o 13 é inspirador. Veja-se o caso dos Mundiais. Só em matéria de melhores marcadores, há três com o 13: Eusébio 1966, Gerd Müller 1970 e Thomas Müller 2010. Uma final do Mundial com dois golos do 13? Fácil, RFA-Holanda em 1974. Começa com o penálti ultra-sónico de Neeskens e acaba com a revienga do mestre Müller. Último jogador do campeonato português a marcar num Mundial? O sportinguista Slimani com o 13 da Argélia, em 2014. Na história dos Europeus, 13 é o número do autor do primeiro golo de Portugal numa fase final (Sousa vs Espanha em 1984). E também é o 13 o número de golos nas finais de 1972 (Gerd Müller), 2000 (Wiltord) e 2012 (Mata). Se afunilarmos a pesquisa pelo 13, é obrigatório falar de Juary Jorge dos Santos Filho. É ele o homem do golo decisivo do FC Porto na final da Taça dos Campeões 1987, vs Bayern, e veste a camisola 13. É ele o suplente de luxo do Porto de Artur Jorge com 13 golos saídos do banco, três dos quais ao Barcelona.

Juary, Juary, Juary, Juary, Juary, Juary, Juary, Juary, Juary, Juary, Juary, Juary e Juary. Treze vezes. Ele merece. Porque sim, porque ainda me lembro de o ver a ajoelhar-se perto da bandeirola de canto na festa do 2-1 ao Bayern e porque atende o telefone às 13h13 do Brasil. A partir daqui é uma risota pegada. Juary ri-se por todos os poros.

Boa tarde, é o Juary?
Pois não, quem fala?

Daqui Rui Miguel Tovar, de Portugal.
Oi Rui, como estássss? [faz mesmo aquele sotaque português antes de se partir a rir] Estássss bem? [e continua a gozar o prato]

Tudo bem, e por aí?
Tudo óptimo [faz questão de acentuar o ‘p’]. Que queressss de mim?

Falar, só.
Opa, beleza.

A sério?
Pronto, prontíssimo. Se a chamada cair, volta a ligar se faz favor. Aqui a ligação é ruim.

Como é que é um menino do Rio vai parar a São Paulo?
Boa pergunta, ò Rui. Nasci na baixada fluminense e a minha família era pobre, embora nunca tivesse faltado comida. Nem a mim nem ao meu irmão. Só para veres, tínhamos pouca roupa. Aliás, eu andava quase sempre nu, era uma mania. Até aos oito anos, andava sempre nu. A minha mãe ficava desesperada comigo, eheheheh.

Só comecei a usar roupa a partir dos 8 anos de idade. Só que não tinha sapatos nem ténis. Como andava sempre descalço, partia sempre as unhas dos pés a jogar futebol no cimento ou na calçada.

Então?
Só comecei a usar roupa a partir dos 8 anos de idade. Só que não tinha sapatos nem ténis. Como andava sempre descalço, partia sempre as unhas dos pés a jogar futebol no cimento ou na calçada.

Com os amigos?
Com quem fosse. Queria era jogar.

E estudar?
Se não estivesse a jogar, estava a estudar.

O quê?
Direito. Sonhava em fazer a justiça.

Como?
Comecei bem cedo a trabalhar como auxiliar de despachante no escritório do meu cunhado.

E o futebol, jogavas só o de rua?
Não só, também jogava num time chamado Pavunense.

Pavu-quê?
Pavunense.

Peço desculpa, não conheço.
Sem problema, ò Rui. Estou aqui para elucidar-teee [lá está ele a meter-se comigo em português de Portugal]. O Pavunense é um clube do subúrbio do Rio chamado Pavuna.

E como saíste de lá?
Um amigo meu chamado Babá convidou-me para jogar nos juvenis do Santos.

Assim, sem mais nem menos?
Dizem-me que era rápido e fazia golos no meio dos mais velhos. Talvez isso tenha estado na origem do convite.

Aceitaste sem olhar para trás?
O Santos era o clube de referência do Brasil, da América do Sul e até do Mundo. Era o clube de Pelé, o clube que deu a volta ao mundo a convite de todos aqueles que o queriam ver em ação. Não havia como dizer não ao Santos. Além disso, a vida na baixada fluminense era dramática, caótica, violenta. Vi o meu tio ser assassinado dentro de casa por polícias.

O quêêêê?
Eles estavam atrás de um bando de marginais e caçaram o meu tio. Nunca me esqueci e dei o salto para Santos.

Não havia como dizer não ao Santos. Além disso, a vida na baixada fluminense era dramática, caótica, violenta. Vi o meu tio ser assassinado dentro de casa por polícias (...) Eles estavam atrás de um bando de marginais e caçaram o meu tio. Nunca me esqueci e dei o salto para Santos.

Que tal por lá?
Muito diferente e longe de casa.

Fizeste amigos?
Fiz sempre por onde passei. No Santos, encontrei uma turma bem boa.

Jogavas em que posição?
Ponta direita. Só que a chegada de Nilton Batata, do Atlético Paranaense, fez-me desviar para o meio.

Homem de área, é isso?
Número 9.

Tinhas de caprichar.
E caprichava, rapaiz. Até porque me senti em casa muito depressa. Estavam sempre a inventar apelidos para mim [no Brasil, apelido é alcunha].

Tais como?
Pretinho, cimentinho, pimentinha ou filhote de sagui. O roupeiro Sabuzinho era o homem dos apelidos, eheheh.

Como é que nasce a festa do golo, com aquela dança à volta da bandeirola de canto?
Antes de um dérbi com o São Paulo, um jornalista aproxima-se de mim no relvado, grita-me goooooooooollll aos ouvidos e pergunta-me se tenho uma celebração preparada. Digo-lhe que não, que improvisarei no momento. Aí, marco um golo e, sem pensar, corro para a bandeirola de canto e dou três voltas com o braço no ar. Poucos minutos depois, faço o meu segundo golo. E o meu terceiro.

https://www.youtube.com/watch?v=n6YaEbyMARM

Três golos?
Ao São Paulo.

Marcaste três golos num Santos-São Paulo?
Ganhámos 3-1 e o goleiro era o Valdir Peres, que, depois, foi o goleiro do Brasil na Copa 1982.

Que classe. Eras de marcar ao São Paulo?
Muito, eheheheh.

E festejavas sempre com a volta na bandeirola de canto?
Ué, deu-me sorte e continuei, claro. Levei essa ideia para Itália.

Antes ainda foste para o México.
Pois é, a proposta era realmente boa, superior à do Santos, e, aos 20 anos, estava no México.

Onde?
Guadalajara, a cidade das rosas. Há sempre um rosário imenso em cada esquina, é muito bonito. Gostei de viver lá.

Foi curto, certo?
Nem meio ano. De repente, já estava em Itália.

Como é que se salta do México para Itália nos anos 80?
Olha, foi uma viagem bem estranha, sabes? O campeonato mexicano já tinha acabado e estava preparado para voltar ao Brasil, de férias. Só que um dirigente do Guadalajara pediu-me para ir a Itália. Porquê, perguntei-lhe.

Sim, porquê?
A ideia dele era ver jogadores para a época seguinte e queria levar-me para escolhê-los bem. Não fiquei convencido, mas a verdade é que entrei no avião. Tínhamos acabado de descolar quando vi o secretário técnico do Guadalajara, o homem que geria o dinheiro do clube, e pergunto o que está ali a passar-se. Eles, nada. Servem-me um copo de vinho. Bebo e volto a perguntar. Nada. Segundo copo de vinho. Nada. Terceiro. Nada. Às tantas, digo ‘é melhor pedir uma garrafa, não?’. É então que eles me dizem que me tinham vendido ao Avellino.

O quê?
Foi assim que me disseram: ‘Juary, não podes escapar nem sequer há pára-quedas, vamos para Avellino’.

Uff.
Podes crer, uffff.

Chegas lá e quê?
Tenho uma reunião com o presidente Sibilia, do Avellino. Que até me pergunta se sou realmente um jogador de futebol.

Então porquê?
Meço um metro e 66. E pesava menos de 65 quilos. Eheheheh.

Que tal Itália?
Faço cinco golos na primeira época e mais oito na segunda.

Ao todo, 13?
Exatamente. Estava a ir bem, tão bem que fui parar ao Inter.

De Milão?
Esse mesmo.

Maravilha. Deste-te bem por lá?
Muito frio, nem imaginas. Em março, já na Primavera, usava luvas e dois pares de meias.

E?
A pressão pelo scudetto no Inter era demais e quem estava por cima era a Juventus. Ou então a Roma.

Jogaste o dérbi de Milão?
Não, porque o Milan estava na 2.ª divisão. Agora, pelo Avellino, marquei dois golos ao Milan. Um em casa, outro no San Siro. Grandes tardes.

Também dançavas à volta da bandeirola?
Ah pois, exportei esse movimento. E eles ficavam histéricos, mais contentes ainda. Como se tivéssemos marcado dois golos na mesma jogada. Era um sentimento especial, lá em Avellino. O que é normal, depois do tremor de terra.

Hein?
Não sabes?

Conta.
Há pouco, falei do assassinato do meu tio. Ainda hoje, o barulho da arma a disparar ecoa na minha cabeça. E só há um outro barulho tão intimidante como esse.

Qual?
O de terramoto de Irpinia. Até sei a data de cor: 23 de novembro de 1980.

Tínhamos ganho 4-2 ao Ascoli, com um golo meu, e tínhamos saído do último lugar, por troca com o Perugia. Estava a tomar banho em casa, depois de ter visto um programa desportivo da RAI muito conhecido, o 90.º minuto. De repente, um barulho ensurdecedor. Estava nu e saltei para trás da cama com medo que fosse uma bomba. Mas não, foi um tremor de terra. Um minuto bastou para provocar tantas mortes e tantos estragos. Lembro-me de ir no carro do guarda-redes Tacconi à procura dos nossos companheiros de equipa para ver se eles estavam bem.

Bolas.
Tínhamos ganho 4-2 ao Ascoli, com um golo meu, e tínhamos saído do último lugar, por troca com o Perugia. Estava a tomar banho em casa, depois de ter visto um programa desportivo da RAI muito conhecido, o 90.º minuto. De repente, um barulho ensurdecedor. Estava nu e saltei para trás da cama com medo que fosse uma bomba. Mas não, foi um tremor de terra. Um minuto bastou para provocar tantas mortes e tantos estragos. Lembro-me de ir no carro do Tacconi [guarda-redes italiano do Avellino, mais tarde titular da Juventus] à procura dos nossos companheiros de equipa para ver se eles estavam bem.

E estavam?
Todos escaparam, felizmente. Encontrámo-nos todos na praça onde costumávamos reunir depois dos jogos. Foi uma sensação inesquecível, a de perda de tantos habitantes [2914 mortes, 8848 feridos e 362 mil casas destruídas durante o terramoto de minuto e meio, 6.8 na escala de Ritcher].

Como é que o clube e a cidade se ergueram?
Olha, foi bem complicado. Desportivamente falando, ainda jogámos uma vez ou duas em Nápoles até o nosso estádio estar em condições de receber futebol. Na parte social, trabalhámos com toda a comunidade para seguir em frente. Tivemos a ideia de um disco e tudo.

Disco?
Sara cosi.

O Juary canta?
Canto, claro que sim. Canto mal.

Eheheheh.
O disco foi o meu melhor golo no Avellino.

E o Avellino salvou-se?
Escapámos à 2.ª divisão antes da última jornada.

Avellino, Inter. Que mais?
Como o Inter não deu certo, joguei ainda no Ascoli e na Cremonese.

E voltar para o Brasil, não?
Ainda esteve em cima da mesa, sabes? Só que o FC Porto entrou em cena.

Quem?
D’Onofrio, o empresário belga. Falou comigo. E vê bem, falou comigo na véspera do Santos voltar a entrar em contacto comigo.

O que fizeste?
Falei com o Juan Figger.

E ele?
Falou-me no Santos e eu disse-lhe do FC Porto.

Qual era a diferença?
Dinheiro, estatuto. O Porto jogava na Europa e estava a construir uma equipa forte, depois de ter perdido a final da Taça das Taças há menos de um ano.

Ainda te lembras do jogo de estreia pelo Porto?
Dois-zero ao Benfica, nas Antas. É o jogo em que o Eurico se lesiona ainda na primeira parte. Antes, aos quatro minutos, já tinha marcado ao Bento.

Que estreia, hein?!
Foi maravilhoso. O Porto foi maravilhoso do princípio ao fim.

Até aquele 3-1 ao Barcelona?
Essa noite foi bem amarga, viu? Entrei na segunda parte e marquei três golos insuficientes para derrubar o Barcelona [3-1]. Foi uma lição para o futuro. No ano seguinte, ganhámos a Taça dos Campeões.

Lembro-me bem de um golo teu ao Bröndby?
No jogo em que o Casagrande se lesionou gravemente. Recebi a bola, acho que do Futre, e rematei seco. A bola entrou entre o poste e o Schmeichel.

Num campo impróprio, não?
Aquilo era gelo. Corríamos com a ponta dos pés e não queríamos a bola em nosso poder mais de um toque. Era tocar e passar, tocar e passar, tocar e passar.

Na meia-final
O Dínamo Kiev. Era a equipa da URSS, inclusive o selecionador Lobanovsky. Ganhámos os dois jogos e mostrámos a nossa força.

Depois vieram as lesões de Lima Pereira e Gomes.
E a minha.

A tua?
Senti uma fisgada no jogo antes da final, em Portimão, com o Farense. Eles ganharam 1-0 [golo de Paco Fortes] e entregámos o título para o Benfica. Três dias depois, lá estávamos em Viena para fazer história.

Com o Juary em grande estilo.
Foi bom, muito bom.

Lembro-me de tudo sobre Viena. Lembro-me da viagem de avião, da chegada a Viena, do aparato televisivo que só falava do Bayern. Estava tão farto de ver o Bayern que saí do quarto para dar uma volta dentro do hotel. Às tantas, entrei na sauna. Só que não vi que era só para mulheres. Ò Rui, entendia lá o alemão..

Lembras-te desse dia, antes do jogo?
Lembro-me de tudo. Lembro-me da viagem de avião, da chegada a Viena, do aparato televisivo que só falava do Bayern. Estava tão farto de ver o Bayern que saí do quarto para dar uma volta dentro do hotel. Às tantas, entrei na sauna. Só que não vi que era só para mulheres. Ò Rui, entendia lá o alemão.

Eisch, e depois?
O Octávio apanhou-me e fiquei cheio de medo, a pensar que ia ser castigado ou assim.

E?
O Artur Jorge tinha absoluta confiança em mim. Como tinha sentido a tal fisgada, ele disse-me que só me queria por 30 minutos. Quando entrei, ele repetiu esse discurso. Fui lá para dentro e marquei o 2-1. Craque, o Artur Jorge.

O que ele disse ao intervalo?
Foi curto e conciso: ‘Vocês podem ganhar muitos campeonatos portugueses pela vida, agora a Taça dos Campeões é agora ou nunca; têm 45 minutos para fazer história.’ Aquilo entrou dentro da nossa cabeça e demos a volta ao favorito Bayern. Não façamos confusão, o Bayern era um timaço. Por fora, por dentro. Era um clube extraordinário, tinha eliminado o Real Madrid na meia-final e estava a ganhar 1-0 ao intervalo.

https://www.youtube.com/watch?v=I31mp_GVJKA

Quantas vezes já viu o seu golo nessa final?
Nem sei, só sei que choro sempre que o vejo. Cai sempre uma lágrima. Nostalgia é isso mesmo, né?

Imagino que sim, mas nunca marquei ao Bayern.
Eheheheheh. Três dias depois, ganhámos 6-0 ao Elvas e marquei quatro. Foi uma festa lá nas Antas.

E o que se passou na época seguinte?
O Artur Jorge saiu, o Tomislav Ivic entrou. No primeiro encontro comigo, disse-me que já sabia que eu não gostava de treinar. Pura mentira.

O Artur Jorge saiu, o Tomislav Ivic entrou. No primeiro encontro comigo, disse-me que já sabia que eu não gostava de treinar. Pura mentira, treinava para caramba. Um cara que está na boca do golo tem de treinar muito. E, olha lá, no Porto, os treinos eram bem duros. Sobretudo o de sábado. Ò Rui, aquilo era com caneleira. Valia tudo para jogar a titular no domingo seguinte.

Então?
Treinava para caramba. Um cara que está na boca do golo tem de treinar muito. E, olha lá, no Porto, os treinos eram bem duros. Sobretudo o de sábado. Ò Rui, aquilo era com caneleira. Valia tudo para jogar a titular no domingo seguinte.

E ninguém se magoava?
O grupo era fortíssimo. À sexta-feira, por exemplo, havia sempre almoço de grupo. Como não havia treino da parte da tarde, o pessoal reunia-se ao almoço e ficava ali horas a falar de tudo e mais alguma coisa entre futebol, família, carros, casas, praias e tal. A camaradagem era ilimitada. Lembro-me de todos os jogadores.

Todos?
Mlynarczyk, Zé Beto, João Pinto, Lima Pereira, Eurico, Amaral, Bandeirinha, Eduardo Luís, Laureta, Inácio, André, Frasco, o Frasco é gente fina demais, Quim, Sousa, Gomes, Jaime Pacheco, Jaime Magalhães, Paulo Ricardo, Celso, Semedo, Festas, Futre, Vermelhinho, quem mais, quem mais?

Madjer?
Xiiiiiii, claro: Madjer. Foi ele quem dobrou aquele cara do Bayern e cruzou-me a bola para o 2-1. Craque da cabeça aos pés, que maravilha. Esse Porto era fantástico.

Com o Ivic, também?
Pois é, estava a falar do Ivic. Disse-me que não gostava de treinar. Aí, comecei a jogar menos, menos e menos. Pedi ao presidente Pinto da Costa para me deixar sair e fui emprestado à Portuguesa dos Desportos.

Depois ainda jogaste no Boavista?
Isso já foi na época seguinte, com o Quinito. Ele queria-me no plantel, só que o treinador brasileiro Pepe chegou ao Boavista e quis-me muito. Falei com o presidente Pinto da Costa, expus-lhe a situação e voltei a sair.

Foste feliz no Boavista?
Joguei muito pouco, e o Pepe também não durou muito, mas lembro-me com saudades desses tempo. O presidente Valentim Loureiro era um personagem bem engraçado.

Acabaste aí a carreira?
Não, ainda joguei no Santos, outra vez, e no Moto Club.

Olhas para trás e sentes o quê?
Um enorme prazer: joguei no Santos, joguei em Itália, decidi uma final europeia pelo Porto e fui internacional brasileiro.

Ah foi?
Dois jogos, ambos para a Copa América 1979. Um, perdi com a Bolívia. O outro, ganhei à Argentina, no Maracanã. Nesse dia, joguei com o Maradona. Sabes o número da camisola dele?

Nem ideia.
Seis.

O Maradona, número 6?
Isso mesmo, e eu era o 23.

E porquê o 13 da final com o Bayern?
O Artur Jorge dava-me muitas vezes o 13, era uma questão de confiança e funcionava com regularidade.

E agora, o que fazes?
Treino os sub-13 do Santos.

Boa, boa. Sempre o Santos no sangue.
O Santos é a minha escola. Marquei aqui uma época, sabes? Marquei 101 golos. Quando o Neymar igualou-me, festejou com uma volta à bandeirola e falei com ele por telefone. Na altura, eu estava a treinar uma equipa em Itália.

E o que disseram um ao outro?
Uma coisa que me emocionou. Disse-lhe ‘quem me dera ter jogado com você’ e ele ‘que é isso, eu é que gostava de ter feito dupla com você, passei a vida a ver os seus golos.’ O Neymar a dizer-me isso, ’tás a brincar?

O Santos é a minha escola. Marquei aqui uma época, sabes? Marquei 101 golos. Quando o Neymar igualou-me, festejou com uma volta à bandeirola e falei com ele por telefone. Disse-lhe 'quem me dera ter jogado com você' e ele 'que é isso, eu é que gostava de ter feito dupla com você, passei a vida a ver os seus golos.' O Neymar a dizer-me isso, 'tás a brincar?

O Juary marcou 101 golos no Santos? Isso é muito.
Eheheheh, obrigado. Nove que é nove tem de marcar golos.

E títulos?
O Paulistão 1978, numa final com o São Paulo. É a primeira geração dos Meninos da Vila, todos formados no Santos. Só depois viria o Santos do Neymar, Ganso e tal.

E mais títulos?
Um ano antes, em 1977, joguei na despedida do Pelé, em Nova Iorque. Mais, fui o último parceiro de ataque do Pelé. Ele jogou a primeira parte pelo Cosmos e a segunda pelo Santos. Eu entrei após o intervalo, vê bem. Eheheheh.

Que coincidência.
Fantástico mesmo. Assim uma sensação igual só o projeto futebol comunitário.

Isso é o quê?
Depois de arrumar as chuteiras, dediquei um tempo à comunidade. Em São Paulo, ia às favelas três vezes por semana e era um prazer imenso. Sinto a falta desse contacto. O projeto era da prefeitura de São Paulo que convidou ex-jogadores. Eu tive a sorte de ser um deles, um dos que ia lá para dentro para ensinar os mais novos a jogar futebol, basquetebol, voleibol e atletismo para afastar as drogas e a criminalidade. Aquilo lá é barra pesada.

Há gente que não tem comida nem ganha para isso. Há muita miséria, mas nas favelas nem todos são bandidos. Gira muita droga mas não se consome. Ali prepara-se o produto para vender na cidade. É uma espécie de Estado dentro de outro Estado. No território deles, não se admite roubos nem nada disso. Mas vivem-se momentos duros. Uma vez, estava a treinar com os miúdos quando ouvi um estrondo. Corremos todos lá para fora e vimos um rapaz de 13 anos que tinha acabado de disparar sobre um de 20.

Quão pesada?
Há gente que não tem comida nem ganha para isso. Há muita miséria, mas nas favelas nem todos são bandidos. Gira muita droga mas não se consome. Ali prepara-se o produto para vender na cidade. É uma espécie de Estado dentro de outro Estado. No território deles, não se admite roubos nem nada disso. Mas vivem-se momentos duros. Uma vez, estava a treinar com os miúdos quando ouvi um estrondo. Corremos todos lá para fora e vimos um rapaz de 13 anos que tinha acabado de disparar sobre um de 20.

Chi-ça.
Barra pesada, amigo.

Obrigado por tudo.
Obrigado eu. Abraço, amigo.

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