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FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Júlia Palha: "Achava que não tinha talento suficiente e que ia voltar a estudar Economia" /premium

Aos 21 anos, é o mais recente trunfo de Daniel Oliveira no despique entre canais. No ecrã, Júlia é uma estrela em ascensão. Com o Observador, falou sobre família, redes sociais, assédio e soutiens.

Júlia pode ter nascido ontem — tem 21 anos e mais um aniversário marcado para o fim deste mês –, mas está há muito familiarizada com o mediatismo à portuguesa. Durante a conversa com o Observador, na esplanada do Village Undergorund, em Lisboa, recordou os pequenos eventos onde debutou e as idas à ModaLisboa, à boleia da mãe, Ana Cáceres Monteiro, atualmente diretora das revistas Lux e LuxWoman.

“Nunca queria aparecer”, deixa escapar. Aos 16 anos, mudou-se para Cascais. O campo era, até então, o seu ambiente. Cresceu em Castanheira do Ribatejo, localidade a dois passos de Lisboa, terra da tradicional família Van Zeller Pereira Palha. Fala num conservadorismo amenizado pela audácia da nova geração, mas também pelo embate de formas de pensar. Ela representa isso mesmo — o encontro entre uma família de jornalistas e um clã de ganadeiros.

Hoje, mostra-se consciente da sua imagem, sobretudo dos prós e contras de ser consensualmente bonita, dar nas vistas e publicamente exposta, também no Instagram, onde soma mais de 333 mil seguidores. A beleza “abre portas”, mas o foco parece continuar a ser uma carreira como atriz, a mesma carreira para a qual diz só ter despertado verdadeiramente “há coisa de dois anos”, no dia em que sentiu a profissão entrar-lhe no corpo.

Enquanto volta a ter de adiar o curso em Londres, prepara-se para a sua primeira protagonista, na produção que a SIC mantém no segredo dos deuses. Fez questão de retocar a personagem, torná-la menos comum e mais desafiante. No fim do dia, só uma coisa importa: provar ao público e aos pares de que Júlia Palha é uma boa atriz.

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FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Constou-me que tem andado muito ocupada.
É um facto. De repente, começaram a surgir as novidades, as apresentações das novidades e ainda a campanha da Intimissimi. Foi muita coisa aos mesmo tempo. Torna-se um bocado difícil de gerir, mas é tranquilo.

Diria que nunca teve a agenda tão preenchida?
Bem, nunca há um momento de agenda tão preenchida como quando estamos a gravar uma novela e ainda acumulamos todos os extras. Ainda não comecei a gravar, por isso é uma agenda preenchida mas controlável. Se estivesse a gravar e com estas apresentações todas, acho que dava em maluca. Mas sim, em termos de notícias à volta da minha pessoa e da minha carreira é a altura mais preenchida que já tive.

No último mês, foi protagonista de uma campanha de moda. Como é que é andar na rua e ver-se num outdoor?
É uma sensação gira. Mal saiu, comecei logo a receber imensas fotografias, quer da família, dos amigos e dos meus seguidores nas redes sociais. Esta campanha, especialmente, esteve em todo o lado. Dava dois passos na mesma rua e via dois outdoors. Estava a andar de caro e era: “Olha eu. Olha eu”. Não estava habituada, até porque nunca tinha tido nada desta dimensão, e tenho consciência de que fui a primeira portuguesa a protagonizar uma campanha espalhada pelo país inteiro. De certa forma, é um orgulho.

Júlia Palha na campanha da marca italiana de lingerie Intimissimi

Sei que, de certa forma, também não é só mais uma campanha.
É verdade. As marcas estão, cada vez mais, a apostar em todo o tipo de corpos. Não podíamos ficar para sempre nesta mentira que víamos nas passerelles. Em Portugal, a própria marca já tinha clientes com essa exigência. Eu própria ia buscar soutiens para fotografar e não havia o meu tamanho. Estas situações devem ter feito a Intimissimi acompanhar a evolução da moda, da sociedade e do mundo, ao criar uma linha para toda a gente. Quer dizer, é claro que ainda não é para toda a gente — vai só até à copa F — mas já é uma abrangência muito maior, tendo em conta que só ia até à copa C.

A campanha trouxe-lhe ainda mais exposição, além da que já tem como atriz e mesmo nas redes sociais. Haverá, certamente um lado bom, mas também um lado menos bom nisso.
O menos bom é, de facto, passarmos a ter as nossas vidas mais expostas. Isso fragiliza-nos e tira-nos privacidade. Mas não sou hipócrita, diria que 80% dos efeitos da exposição são positivos. É bom vermos o nosso trabalho ser reconhecido, é bom receber o carinho e a atenção das pessoas e é bom, sobretudo quando se trabalha em meios mediáticos, que a nossa imagem seja reconhecida, é sinal de que estamos a fazer alguma coisa bem.

"Sou muito ansiosa, quero sempre as coisas no momento e concretizar os meus sonhos todos agora. Mas o facto é que tenho visto tudo acontecer com calma. Já tenho seis ou sete anos de carreira e agora é que vou fazer a minha primeira protagonista. Está a ser um processo muito constante, o que me faz manter os pés bem assentes na terra"

Fazendo um balanço, são mais as alegrias do que os dissabores.
Nem sequer chegam a ser dissabores, é só chato. Há dias em que queres privacidade, ir despenteado para o centro comercial, ir ao supermercado comprar leite sem que ninguém olhe para ti. Nesse aspeto, a falta de privacidade é um bocado chata, tirando isso nunca tive razão de queixa.

Quando é que deixou de poder ir ao centro comercial sem ser reconhecida?
Apesar de tudo, Portugal ainda é um país muito bom para isso. Acho que nunca ninguém se sentiu perseguido ou atacado , tirando um ou outro caso muito específico. Comecei a ser abordada com mais frequência há coisa de três anos, quando fiz “A Herdeira”, uma novela que teve muita visibilidade. Depois, foi crescendo. Sou muito ansiosa, quero sempre as coisas no momento e concretizar os meus sonhos todos agora. Mas o facto é que tenho visto tudo acontecer com calma. Já tenho seis ou sete anos de carreira e agora é que vou fazer a minha primeira protagonista. Está a ser um processo muito constante, o que me faz manter os pés bem assentes na terra, mas também me deixou habituada às abordagem das pessoas e à falta de privacidade. Não houve um dia em que acordei e, de repente, já não podia sair à rua. Tem acontecido cada vez mais, mas tem sido fácil lidar com isso.

Nunca se sentiu intimidada pelo contacto com público?
Nunca. Esse tipo de intimidação acontece mais através das redes sociais, das quais podemos simplesmente desligar-nos, do que propriamente ao vivo.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Atribui essa naturalidade ao processo gradual que foi a sua ascensão mediática, mas a variedade é que começou a ter contacto com o meio ainda em criança. Isso preparou-a?
É possível que sim. Lembro-me de, com os meus 12 ou 13 anos, começar a ir com a minha mãe à ModaLisboa. E, antes de ser atriz, fazia algumas coisas em moda e já ia a pequenos eventos. Ou seja, mesmo antes de ter algum reconhecimento mediático, já tinha um certo conforto nesse tipo de situações. Sempre estive minimamente familiarizada e se calhar a minha mãe, trabalhando no meio, ajudou.

O que é que pensava na altura? Tinha uma ideia concreta do que queria?
Digo sempre que nunca quis isto, mas quando olho para trás e vejo certas coisas, começo a perceber que havia ali tendências. O meio fascinava-me, como acho que fascina toda a gente, de certa forma — há glamour, há luzes, há atenção. Mas nunca foi uma coisa que desejasse muito, aliás, nunca queria aparecer, fugia quando me diziam para tirar fotografias com a minha mãe. Nunca fui de mediatismos.

"Durante os meus primeiros projetos, achei sempre que ia ficar por ali e que não me iam voltar a chamar. Achava que não tinha talento suficiente e que ia voltar a estudar [...] De repente, continuava a ser chamada e se isso acontecia era porque algum talento tinha"

Até que fiz o meu primeiro filme [“John From”, de João Nicolau, em 2015]. Só ia ter uma participação, mas depois o realizador fez-me seis castings seguidos. Achei aquilo tudo muito estranho, até que me disse: “Quero-te para protagonista”. Na altura, até lhe respondi: “Ah não, obrigada”. Tinha 14 anos, ia de férias para o Algarve com os meus amigos e não me apetecia estar a gravar durante três meses. Ele insistiu — não estava nada à espera que dissesse que não — e andou a ligar-me para aí duas ou três semanas. Por outro lado, nunca tinha dinheiro para nada, os meus pais nunca me davam e estava sempre a ter de me desenrascar com trabalhinhos aqui e ali. Resolvi aceitar para experimentar e gostei imenso. Foi a partir daí que comecei a ver este mundo com outros olhos e a aprender a gostar.

Durante os meus primeiros projetos, achei sempre que ia ficar por ali e que não me iam voltar a chamar. Achava que não tinha talento suficiente e que ia voltar a estudar — na área de Economia, na altura, porque queria ir para Gestão. De repente, continuava a ser chamada e se isso acontecia era porque algum talento tinha. Comecei a ganhar uma paixão por aquilo que fazia e a perceber que não conseguia viver sem esta vida de estúdio.

Em 2015, protagonizou o primeiro filme: "John From", realizado por João Nicolau

Descreve um processo muito racional, com pouca margem para o deslumbramento, que é algo frequente nesse meio.
Os deslumbramentos devem-se a duas coisas: quando algo está completamente fora da nossa realidade, é tão irreal e um sonho que nos deslumbramos. Como cresci neste meio, não tinha como sentir isso. Depois, tem a ver com querermos muito uma coisa. No meu caso, não era um sonho de infância. Não era algo que quisesse demasiado, o que às vezes pode levar-nos a fazer escolhas erradas. Fui aprendendo a gostar, a querer e a decidir se fazia ou não e isso fez-me sempre ponderar muito.

Até porque o plano oficial era ir para Gestão.
Era. Eu era uma irmã mais velha e mandona, que achava que ia ter a minha empresa para mandar em toda a gente. Pelo menos, era o que dizia com sete ou oito anos.

Parece um bom plano.
Não vejo por que não. Mas pronto, não aconteceu. Vou continuar a mandar só nos meus irmãos e mesmo assim já sem sucesso nenhum.

Recentemente, publicou um texto no Instagram a denunciar a “quantidade de ódio” que tem visto na internet. De onde é que acha que ele vem no seu caso? Ou, pelo contrário, não personaliza?
Ainda bem que fazes esta pergunta porque é uma forma das pessoas perceberem o que quis dizer com esse texto. Quando o escrevi, nem estava a pensar em mim, mas recebi imensas mensagens de amigas e de familiares. Até a minha avó me mandou mensagem — “Querida, o que é que te disseram?”. Não me tinham dito nada, mas claro, uma rede social torna as coisas muito pessoais.

Tenho visto muito ódio e agressividade e de uma forma crescente de há um ano para cá. Há muitas pessoas a comentar através de perfis falsos e nesses casos é bloquear e nem ler, porque só faz mal. Aconteceu-me nas últimas duas semanas e dei por mim a bloquear a mesma pessoa umas 15 ou 16 vezes. Quão mal ela tem de estar para se dar ao trabalho de criar tantos perfis falsos para ofender uma pessoa que nunca a viu na vida? Não se sente este tipo de ódio no contacto ao vivo e duvido que alguém me abordasse assim cara a cara.

Muita gente me diz para não responder, para não escrever nada sobre o assunto, que os haters vão sempre existir. Isso não é verdade. Temos de dizer que não está certo. Não sou pessoa de ficar calada quando vejo coisas que estão erradas, nunca vou ser, seja com perfis falsos ou com uma situação do dia a dia em que acho que alguém está a ser injusto. Enquanto tiver uma plataforma com vários seguidores e puder expressar-me e relembrá-los que o mundo pode ser um lugar melhor, vou fazê-lo.

Mas encontra alguma explicação para esse aumento da agressividade?
As coisas também ficaram muito violentas com a quarentena. As pessoas ficaram fechadas em casa, com menos coisas para fazer e houve muita gente a passar mal com a situação. Não é que seja desculpa, mas sou muito apologista de que não podemos julgar ninguém sem saber o que está do outro lado. Se calhar é uma justificação que quero encontrar para o facto das pessoas andarem tão revoltadas. Também admito que as redes sociais são um mundo um bocado falso, às vezes. Está sempre tudo bem e isso pode ser difícil para alguém que está em casa e não está bem. As pessoas podem ficar frustradas e irritadas com aquela ideia de perfeição.

Júlia fala sobre uma família de opostos: jornalistas do lado da mãe e ganadeiros do lado da pai

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Parece conseguir defender-se bem dessas situações, mas outras pessoas não terão essa resistência.
Não e é legítimo. As pessoas esquecem-se de que, deste lado, está um ser humano e que todos temos dias maus, todos passamos pelas mesmas situações — perder pessoas, perder trabalhos e chegar ao fim do dia e não querer que venha alguém deitar-nos ainda mais abaixo. Não é por acaso que as pessoas que vivem da imagem e com mais visibilidade lidam mais com depressões e ansiedade. Não é fácil porque depois não sabes se aquela pessoa tem razão, se aquela crítica é mesmo construtiva ou não — é porque depois há críticas disfarçadas e tu já não sabes se, de facto, precisas de melhorar ali ou se é só mais uma pessoa a ser má. É um trabalho psicológico diário para não nos deixarmos ir abaixo e para não nos deixarmos ir demasiado acima.

A solidez da estrutura familiar também ajuda a ter essa resistência?
Diria que sim. Os meus pais são separados, mas tanto o meu pai como a minha mãe são pessoas ponderadas, que sempre me deram bons conselhos, me apoiaram no que fiz e me ensinaram a ver o bem nos outros. O meu pai tem o lado mais bondoso — “filha, tens de perdoar, tens de saber ouvir, não podes ver o mal”. A minha mãe tem o lado mais pés na terra e sabe dizer-me quando os comentários são maldosos. Sou um bom balanço — vejo sempre os dois lados, mas também não sou ingénua. Gosto que eles sejam assim tão diferentes e de ter um bocadinho dos dois.

Considera-se uma rapariga do campo ou uma rapariga da cidade?
Agora, sou uma rapariga da cidade, definitivamente. Não posso ver uma aranha que começo aos gritos. Mas cresci como uma rapariga do campo. Aliás, ainda tenho muito da minha rapariga do campo. Quer dizer, Vila Franca não é campo. É uma cidade e fica muito perto de Lisboa. Mas cresci numa quinta e tenho essa memória de chegar a casa e ir subir às árvores, brincar para no mato e nadar na piscina.

Foi uma infância passada ao ar livre.
Sempre. Voltava da escola e íamos sempre para a rua, fizesse chuva ou fizesse sol. Se chovesse, púnhamos galochas e levávamos guarda-chuvas. Foi bom. Mas mudei muito o meu ambiente, porque passei de Vila Franca, que é uma cidade mais pequena, um ambiente mais rural, para Cascais, que é muito mais citadino e tem mais de tudo: mais vida, mais turistas, mais pessoas que se julgam umas às outras. Senti um bocadinho essa mudança, efetivamente. Mas juntei o lado bom de cada sítio. No interior, há uma simplicidade maior e acho que trouxe essa maneira de ver e de ler as pessoas da minha vida em Vila Franca.

"Mesmo que houvesse aquele preconceito -- que ouvi algumas vezes -- do "isso não é profissão, tens de ter um plano b", tenho estado sempre a trabalhar, projeto atrás de projeto. Estou a fazer o meu dinheiro, as pessoas estão a começar a saber quem sou. Acho que não é preciso plano b"

Olhando para a sua família paterna — ribatejana e com raízes aristocráticas — diria que é um lado mais conservador.
O lado do meu pai é um meio bastante conservador e é aí que ataca o lado da minha mãe, que é tudo menos isso. E adoro isso em mim. Já tive alturas em que discordei por completo com opiniões do meu pai por ser parecida com a minha mãe e outras em que discordei por completo de opiniões da minha mãe por ser parecida com o meu pai. Eles foram a melhor coisa que me podia ter acontecido, precisamente por ter dois lados tão opostos na minha educação. Se há coisa que sei que é uma qualidade minha é isto: nunca julguei ninguém sem tentar ouvir primeiro. Depois, pelo meio onde trabalho e pelas pessoas com quem me comecei a dar, tornei-me um bocado mais parecida com a minha mãe. Além disso, estes lados mais conservadores das famílias estão a ser amenizados aos poucos — da minha e de outras. As pessoas ficam mais liberais, estão a perder-se certas ideias. Há muitas coisas que o meu pai pensa, com as quais não concordo, mas que sei que lhe foram incutidas. Já vejo algumas a mudar e fico orgulhosa.

Talvez algumas dessas mudanças até tenham sido por ação sua.
Sim. Acho que uma atriz ali na família a trocar-lhes as voltas fá-los pensar de outra maneira.

Enveredou primeiro pelo mundo da moda, mais tarde veio a representação. Foram escolhas bem recebidas?
Foram. Ao início, tive medo que não fossem, precisamente por causa desse lado mais conservador do meu pai, mas foi em vão. Não houve nenhuma vez em que sentisse que alguém não estava do meu lado. A verdade é que, também devido ao meu talento e dedicação, a vida tem-me corrido bem a nível profissional e não tenho parado de trabalhar. Mesmo que houvesse aquele preconceito — que ouvi algumas vezes — do “isso não é profissão, tens de ter um plano b”, tenho estado sempre a trabalhar, projeto atrás de projeto. Estou a ganhar o meu dinheiro, as pessoas começam a saber quem sou. Acho que não é preciso plano b.

Foi sempre uma rapariga desenrascada?
Muito desenrascada, tive de aprender a ser. Sou a irmã mais velha — tenho três irmãos muito seguidos, mas um é mais novo, do segundo casamento do meu pai. A minha mãe diz que nunca fiz uma birra nem nunca reclamei, mas que houve um dia em que cheguei ao pé dela, com quatro anos — ou seja, já tinha o meu irmão com dois e a minha irmã acabadinha de nascer — com uma maçã para ela descascar. Ela disse: “Agora não”. Voltei com uma vassoura de brincar e bati na minha irmã recém-nascida. Ela conta que foi a primeira vez que me viu a queixar-me de alguma coisa e que percebeu que não podia desligar-se tanto só porque era a mais velha e me desenrascava.

Júlia com os irmãos mais novos, Francisco e Carminho

Fotografia cedida por Júlia Palha

E sim, nesse aspeto, os meus pais sempre me ensinaram a conquistar as minhas coisas. A certa altura, até tinha vergonha de pedir presentes de Natal acima de 15 euros. Isso é bom: ensinarem-te logo desde cedo a independência, a desenrascares-te e a seres altruísta. Primeiro, ainda fiz alguns eventos como hospedeira. Depois, comecei a trabalhar em anúncios, coisas em moda — dava mais dinheiro e era mais fácil, então aproveitei para fazer uns trocos. Aprendi cedo o valor do trabalho e a respeitar horários. Fiz pequenas produções, nunca nada para nenhuma marca grande, mas lembro-me de trabalhar das oito da manhã às oito da noite, no inverno mas com roupa de verão e em estúdios frios. Quando entrei neste mundo da televisão não me custou nada e teria custado se não tivesse esta experiência de trás, porque são muitas horas, consegue ser muito duro.

Como é que faz a passagem para a televisão?
É um bocado intuitivo. Quando estamos a fotografar não deixamos de ser personagens. Requer expressão e corpo, mas não requer voz nem emoção. A representação é decididamente mais complicada, não desvalorizando o trabalho do modelo. São coisas diferentes.

Quando é que percebeu que ser atriz era uma vocação?
Demorei. Durante os primeiros projetos achei que não era boa o suficiente, mesmo já em televisão. Achava que não tinha talento e, por isso, que não era isto que queria fazer. Só comecei a perceber há coisa de dois anos, com “Na Corda Bamba”. A meio do projeto, de repente, deu-me um clique. Senti uma mudança dentro de mim que não sei explicar. Era só mais um dia, não tive aulas nem formação ali pelo meio. Do nada, era mais fácil chorar, as lágrimas saíam com uma facilidade enorme. Do nada, era mais fácil ficar nervosa e respirar dessa maneira. Era mais fácil rir às gargalhadas. Parecia que a profissão tinha entrado dentro de mim. A única maneira de justificar isto é pensar que foi ali que comecei a acreditar em mim e, quando acreditas em ti, fazes tudo de maneira melhor.

Foi quando percebi que tudo o que aprendi até agora — porque a televisão é uma grande escola de atores — aprendi sozinha e que já não consigo aprender mais para além disto. Antes da quarentena, ia fazer um curso em Londres. Estava super contente, iam ser três meses fora — bom para o meu inglês, para viver noutra cultura, conhecer pessoas novas, até tentar castings, mas acima de tudo para aprender. Ia aprender as bases, coisas que ainda não tenho, como colocação de corpo e de voz, coisas mais práticas das quais sinto falta. Com a quarentena, não pude ir. Mas é definitivamente uma coisa que tenho de fazer para o ano ou quando acabar este próximo projeto.

"Do nada, era mais fácil chorar, as lágrimas saiam com uma facilidade enorme. Do nada, era mais fácil ficar nervosa e respirar dessa maneira. Era mais fácil rir às gargalhadas. Parecia que a profissão tinha entrado dentro de mim. A única maneira de justificar isto é pensar que foi ali que comecei a acreditar em mim"

O que é que a ajudou a passar a acreditar mais em si?
Não sei, foi muito estranho. Foi muito por causa da ajuda da equipa que tínhamos a trabalhar connosco. Os realizadores e os diretores de atores vieram do Brasil e eles são muito intensos a trabalhar, no bom sentido. Puxavam muito por nós, faziam-nos repetir as vezes que fossem precisas, que às vezes é algo que não é tão fácil fazer na televisão, aqui em Portugal. Foi uma ajuda grande dessas pessoas, mas acho que foi mesmo qualquer coisa… Chamemos-lhe maturidade.

O talento pode ser decisivo, mas a imagem também é importante. Ser uma cara bonita ajudou-a ou atrapalhou-a?
Não vou mentir: ser uma cara bonita chama a atenção e abre portas. Mas uma vez chamada a atenção e com as portas abertas não fica quem não tem talento e quem não se dedica. Às vezes, estás lá, tens o talento e a dedicação, e continuam a tratar-te ou a julgar-te, ou então percebes que as pessoas acham que só estás lá por seres uma cara bonita. Aí, acabas por ter aquela batalha interior em que sentes que tens de provar mais, o que não é justo.

Sentiu isso na pele em algum momento?
Nada em concreto. Mas sei perceber isso à minha volta, por comentários, por opiniões de pessoas nas redes sociais, por coisas que vou lendo. Às vezes, até no olhar das pessoas percebo certas coisas. Mas já estou aqui há algum tempo, marquei a minha posição e que já não tenho de lutar tanto contra essa barreira. Aliás, vou fazer agora uma personagem onde pedi ao Daniel [Oliveira] para puxarmos por isso, para desconstruir a beleza da personagem e a típica protagonista perfeita, para poder ouvir finalmente: “Ok, ela é uma boa atriz”.

Aos 16 anos, deixou Castanheira do Ribatejo e mudou-se para Cascais

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Tópicos como o assédio e o abuso de poder continuam a ser notícia. Mais recentemente até na moda. Sempre trabalhou em ambientes saudáveis nesse contexto?
Nunca senti na pele nenhum tipo de assédio. Claro que já senti o desconforto de ser uma miúda nova e bonita e de às vezes as pessoas estarem a falar comigo de uma maneira que não gosto. Mas nunca uma situação em que me sentisse na obrigação de fazer ou aceitar algo.

Refere-se a atitudes mais subtis, como o uso de um tom condescendente ou paternalista?
Sim ou até a atirarem-se. No trabalho, quando é uma posição acima da tua, percebes porque é que tantas mulheres e também homens que são vítimas de assédio. Quando és novo, acabaste de entrar num sítio e tens alguém com poder a fazer-te acreditar nalguma coisa, é normal que tenhas medo. É isso que temos de ensinar cada vez mais, e cada vez mais cedo, às pessoas: a não terem medo de se dar ao respeito e de dizer não, para que ninguém tenha de fazer nada que não queira para se sentir aceite ou para conseguir algo.

Nota as pessoas mais alerta?
Com o mediatismo que o assunto tem tido, ou as pessoas têm cuidado ou sabem que são denunciadas com uma facilidade enorme.

Por outras palavras: menos gente a assobiar para o lado também.
Nem podemos assobiar para o lado, porque se finjo que não reparei numa coisa porque sou mais segura de mim própria e aquilo não me diz nada, talvez um dia venha uma miúda cinco anos mais nova, com medo de perder o trabalho, e aceite estas coisas. Deves denunciar, mesmo que sintas que não te está a afetar, nem que seja para proteger as pessoas que não se protegem tão bem como tu.

“Ordem Moral” é o seu último trabalho em cinema a vir cá para fora. Enquanto atriz, sente uma validação diferente quando deixa de estar só vinculada à ficção televisiva?
Há um bocado esse preconceito. Nunca o senti na pele, até porque comecei no cinema. Não julgo as pessoas do cinema por pensarem assim, a verdade é que é uma arte feita com outro cuidado, outro olhar. Nem todo — há lados do cinema que percebo que sejam snobs, mas há outros que não. Mas não tem de ser tirado valor à televisão, é outro tipo de trabalho, tem outra exigência, outra dificuldade e só por isso não tem o mesmo cuidado e a mesma atenção. Sei que os profissionais que fazem televisão em Portugal teriam esse cuidado, não têm porque não conseguem, porque não há tempo e porque se as pessoas querem ver um episódio da novela todos os dias, as coisas têm de ser feitas com outra pressa. São dois contextos diferentes e nenhum tem mais mérito do que o outro. Há projetos em televisão que são melhores do que projetos em cinema e vice-versa, depende de cada artista e de cada produção.

"Não vou mentir: ser uma cara bonita chama a atenção e abre portas. Mas uma vez chamada a atenção e com as portas abertas não fica quem não tem talento e quem não se dedica"

Onde é que se sente mais em casa?
Ultimamente, estou mais familiarizada com a televisão. Mas confesso que gosto do tempo que se tem em cinema, do tempo que tenho enquanto atriz, para preparar a personagem, para moldá-la. E como é uma coisa que vês numa hora e meia, é para fazer um crescendo da personagem. Ora, não se consegue ter essa noção num projeto de dez meses. São gostos diferentes, mas diria que o cinema tem aquele gostinho especial.

Temos visto vários nomes nacionais irem para fora e integrarem produções internacionais. Gostava que o seu futuro passasse também por aí? Há algum projeto nesse sentido?
Ainda não, mas quero que o meu futuro passe por aí, definitivamente. Vejo uma atriz, de quem sou amiga, a Daniela, a integrar uma produção em Hollywood. Que orgulho para Portugal e que invejazinha boa. Depois vejo uma artista como a Alba a fazer uma protagonista na maior plataforma de streaming do momento. Dá a noção de que é possível atingir estas coisas tão novo, de que não é preciso esperar uma vida inteira para ter um papel destes, é só lutar, esforçar-me e procurar nos sítios certos. É um sonho.

E há dois novos filmes seus para sair.
O “Campo de Sangue”, do João Mário Grilo, mas onde tenho apenas uma pequena participação. A personagem, embora apareça pouco tempo, tem uma mensagem importante. Depois, tenho o filme de um realizador brasileiro, o Hermano Moreira. Já filmou muitas coisas, sobretudo séries, para a Fox e para a HBO, mas esta é a primeira longa-metragem dele. É um género de uma comédia romântica, chama-se “Amo-te Imenso” e a minha personagem é assim super leve, divertida, toda das energias e da espiritualidade, cheia de saídas cómicas. Diverti-me muito.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Há algum nome de topo com quem gostasse de trabalhar?
Meu Deus, tantos. Tenho a Julia Roberts, que é a minha crush desde pequenina. Adoro-a.

Acabou de chegar à SIC, vinda da TVI. O que é que faz de si uma boa contratação?
Vi no outro dia um título, mesmo à jornal de futebol, que dizia: “Júlia Palha anima mercado de transferências”. Em termos assertivos, sou uma boa contratação porque sou nova, porque a minha carreira está no início e é sempre bom ter alguém em quem se pode investir. Acho que foi por aí que o Daniel pensou. Indo à parte mais narcisista em que falo bem de mim, acho que sou uma boa contratação porque sou muito dedicada e toda a equipa da SIC vai perceber isso durante este projeto. Quando começo um trabalho, não me queixo, faço as coisas até ao fim e tento sempre dar o máximo de mim. Tenho muito talento, mas para mostrá-lo é preciso haver quem que acredite. Sou uma boa contratação e agradeço-lhes porque vêm aí muitos projetos que vão ser bons para mim. Para já, vem aí uma protagonista. Não posso contar muito ainda, mas é uma rapariga muito simples, diferente de tudo o que já fiz.

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