Kim Jong-un: do anonimato de uma escola pública na Suíça à mesa de negociações com Trump /premium

11 Junho 2018

Kim Jong-un não foi feito para ser líder. Em criança era viciado na NBA, mas cresceu depressa, ganhou respeito e meteu medo. Agora, tem pela frente o seu maior desafio: enfrentar Donald Trump.

Só na embaixada da Coreia do Norte é que sabiam exatamente quem era aquele rapaz baixo e redondo. Saía de manhã num carro luxuoso e blindado ao início do dia para ir para uma escola pública num bairro dos subúrbios de Berna, onde era conhecido pelo nome Un Pak. E, ao fim da tarde, tornava a subir ao carro da embaixada. Quando voltava, entre aquelas quatro paredes, voltava a ser como nasceu: Kim Jong-un, filho do “Querido Líder” Kim Jong-il e neto do “Eterno Líder” Kim il-Sung.

Para todos os que não frequentavam a embaixada da Coreia do Norte, Un Pak era o filho do embaixador de Pyongyang na capital Suíça. Conheciam-no por gostar de desporto, principalmente dos Chicago Bulls, admirando em particular Michael Jordan, cuja marca de ténis usava com gosto e vaidade. Por vezes, ia para o campo de basquetebol da escola, jogando até contra alunos mais velhos, diante dos quais tentava, sem sucesso, imitar os gestos do seu ídolo norte-americano. Ainda assim, era frequente haver um homem asiático, mais velho, a aplaudi-lo de forma excessiva do lado de fora da linha lateral. Os outros estudantes sempre acharam isso estranho — mas nunca fizeram caso.

Kim Jong-un, numa fotografia com a turma, na escola pública de Liebefeld-Steinhölzli, em Berna

Fora do campo, Un Pak via filmes e jogava videojogos sempre que podia nos seus tempos livres — e estes abundavam. No primeiro ano em que estudou na escola pública de Liebefeld-Steinhölzli, faltou a 75 aulas. No segundo, as faltas injustificadas foram 105. Não admira, por isso, que as suas notas não fossem espetaculares. Chumbava a Ciências Naturais; passava à tangente em alemão, inglês, artes e economia familiar, onde se aprendia costura, cozinha e outros ofícios. Uma das poucas disciplinas em que se destacava, embora aquém da nota máxima, era educação física — apesar de, aos 13 anos, já fumar cigarros de mentol.

Kim Jong-un, com a mãe Ko Young-hee, uma atriz japonesa, anos antes de ir estudar para a Suíça

Era de poucas conversas e também de poucos amigos. A exceção foi João Micaelo, um português nascido em Cabeço de Vide, Portalegre, que emigrou com os pais para a Suíça ainda criança. O português juntava-se ao amigo norte-coreano, Un Pak, com quem partilhava a carteira na escola e o facto de não dominarem o alemão que grande parte dos seus colegas falavam desde pequenos.

Um dia, contou João Micaelo em diferentes entrevistas, Un Pak revelou-lhe que, ao contrário do que lhe tinha dito a ele e a todos os outros, não era filho de um diplomata da Coreia do Norte. Tirou uma fotografia e, depois de se assinalar a ele mesmo, apontou para o homem que estava ao lado: Kim Jong-il, o ditador da Coreia do Norte, o seu pai.

Na escola, Kim Jong-un adotou o nome falso de Un Pak e dizia que era filho do embaixador da Coreia do Norte na Suíça. Quando contou ao melhor amigo, filho de emigrantes portugueses, qual era a sua verdadeira identidade, ele não acreditou: "Pensava que ele estava a inventar aquilo".

“Pensava que ele estava a inventar aquilo”, contou João Micaelo ao Telegraph, em 2010. O jovem português, que hoje é chef num restaurante em Berna, descartou aquela informação. Pouco sabia da Coreia do Norte, desconhecia a personalidade de Kim Jong-il e achou que o amigo estava pregar-lhe uma mentira.

Só no verão de 2010 percebeu que, afinal, era verdade: Un Pak era mesmo filho do ditador da Coreia do Norte. Algo que apenas descobriu quando foi contactado por vários jornalistas em 2010. Foi nessa altura que Kim Jong-un passou a aparecer ao lado do pai e foi oficiosamente apontado como sucessor na liderança do reino eremita da Coreia do Norte. Os jornalistas, sem dizer ao que iam, mostravam-lhe fotografias daquele rapaz norte-coreano e perguntavam-lhe se o conhecia. “Claro que conheço, é o Un Pak!”, chegou a responder-lhes João Micaelo. Faltava apenas mudar um detalhe para aquilo que tomou como uma mentira do seu amigo se tornar na mais pura das verdades: o seu nome não era Un Pak, mas sim Kim Jong-un, o “Sol Brilhante do Século XXI”.

À terceira foi de vez: como Kim Jong-un passou para a frente na linha de sucessão

Pouco se sabe da vida de Kim Jong-un entre o tempo em que esteve na Suíça — passagem confirmada por todos menos pelos norte-coreanos, que mantêm esse mistério — e a altura em que sucedeu ao pai no poder, a 30 de dezembro de 2011.

Aos olhos de Kim Jong-il, o filho mais novo era o preferido para lhe suceder no poder. Essa decisão passou a ser cada vez mais premente à medida que piorava a saúde de Kim Jong-il, que no final da sua vida lidou com problemas cardiológicos. Olhando para os três filhos, a escolha ter-lhe-á parecido evidente.

Kim Jong-nam, o mais velho, estava fora de questão. Primeiro, por ter sido causa de embaraço por ter sido apanhado com a mulher e filhos a tentar entrar no Japão, onde ia visitar o parque da Disneyland, com um passaporte falso. Depois, porque eram conhecidos os seus desejos de reforma económica e social na Coreia do Norte, fruto de ideias que cultivava no estrangeiro, onde passava grande parte do seu tempo, tendo vivido vários anos em Macau.

A seguir, na linha de sucessão, estava Kim Jong-chul. Depois da queda em desgraça de Kim Jong-nam, passou a ser treinado para suceder ao pai. Porém, este ter-se-á arrependido do esforço, por notar que ele era muito “fraco” e “efeminado” — fama que terá surgido por ele, em tempos, usar um brinco em cada orelha. Como jovem adulto, era também um melómano. Foi visto várias vezes no estrangeiro em concertos de Eric Clapton — e um telegrama diplomático chinês divulgado pela Wikileaks conta que, em 2007, convidou o músico britânico para tocar na Coreia do Norte. Sem sucesso.

Sobrava, então, Kim Jong-un. A sua rota para a cadeira mais alta da Coreia do Norte começou a ser confirmada em 2009, ano em que foi nomeado para diretor da Comissão Nacional de Defesa. Em 2010, foi promovido a general de quatro estrelas e vice-presidente do Comité Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte. Enquanto isso, passou a aparecer ao lado do pai em situações públicas. Uma delas foi a inauguração de um prédio de apartamentos com um aspeto futurista, em Pyongyang. Sério e austero, Kim Jong-il inspeciona as casas, abrindo armários de cozinha e experimentando a torneira da casa. Embrenhado no meio da imensa comitiva, Kim Jong-un assiste aos encontros do pai com as famílias que vão inaugurar as casas. Nalgumas ocasiões, salta para a fila da frente e faz ele de mestre de cerimónias.

Não faltou muito desde então para Kim Jong-un subir ao topo da nomenklatura norte-coreana. No dia 17 de dezembro, Kim Jong-il morreu daquilo que se pensa ter sido um ataque cardíaco. Nos dias que se seguiram, o país irrompeu naquilo que o regime mostrou ser um pesar coletivo, com imagens de civis a chorar convulsivamente nas ruas. O ponto alto desse momento nacional foi o funeral de Kim Jong-il, cujo caixão cruzou as principais ruas de Pyongyang perante fileiras de gente aparentemente desconsolada. Na véspera, durante o velório do pai, Kim Jong-un chorava de igual forma. Com a cara vermelha e contorcida, foi filmado a limpar as lágrimas com um lenço branco que levava no bolso do casaco.

Dias depois, a 30 de dezembro, Kim Jong-un assumia a liderança do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte e tornava-se no terceiro líder do país mais fechado do mundo.

Para não acabar como Kadhafi: executar, executar, executar

Quando chegou ao poder, Kim Jong-un era muito novo. Tinha entre 29 a 31 anos, dependendo da data de nascimento que considerarmos correta. De uma forma ou de outra, era o líder político mais jovem do mundo. E, por isso, tinha quase tudo a provar — tanto fora como dentro da Coreia do Norte.

Cerca de três meses antes de Kim Jong-un suceder a Kim Jong-il, Muhammar Kadhafi era morto por civis. Estava ali a prova de que, de um momento para o outro, um ditador podia ser espezinhado nas suas próprias ruas — bastando para isso uma revolta com contornos militares e ajuda exterior para fazer esta vingar.

Os primeiros tempos de Kim Jong-un foram de consolidação da sua base de poder, que no início era praticamente inexistente. “Antes de morrer, Kim Jong-il deixou tudo preparado para o filho lhe suceder e fez os possíveis para que os generais confiassem nele”, conta ao Observador John Cha, escritor radicado na Califórnia e autor de uma biografia de Kim Jong-il. “Mas Kim Jong-un era muito novo, não tinha praticamente experiência nenhuma, sobretudo se compararmos com a forma como o pai dele chegou ao poder”, refere. “Kim Jong-il esteve 20 anos a acompanhar de perto o pai dele, Kim il-Sung. Kim Jong-un só teve isso durante dois anos.”

“Quando ele assumiu o poder, tinha um de dois caminhos a tomar. Ou tomava o caminho da abertura do regime, ou tomava a abertura das purgas. E acabou por fazer o mesmo que o seu pai já tinha feito quando subiu ao poder: purgas a torto e a direito.”
John Cha, autor de uma biografia de Kim Jong-il

Com a chegada de um líder jovem e educado no estrangeiro, não faltou quem previsse ali uma oportunidade para uma abertura do regime, como se também na Coreia do Norte fosse possível haver uma perestroika. Mas desde cedo Kim Jong-un demonstrou que não era um segundo Mikhail Gorbatchov. “Quando ele assumiu o poder, tinha um de dois caminhos a tomar: ou a abertura do regime, ou a abertura das purgas. E acabou por fazer o mesmo que o seu pai quando subiu ao poder: purgas a torto e a direito”, explica John Cha.

De acordo com números dos serviços secretos da Coreia do Sul, entre 2011 e 2016 Kim Jong-un mandou executar pelo menos 340 pessoas com cargos de alta responsabilidade no regime norte-coreano, tanto na administração pública como no exército.

De todas as execuções levadas a cabo por Kim Jong-un, nenhuma terá sido tão importante como a do seu tio por afinidade, Jang Song Thaek, casado com a única filha de Kim Il-Sung. Em 2010, depois de ocupar vários cargos de destaque partidário, Jang Song Thaek foi nomeado vice-diretor da Comissão Nacional de Defesa em 2010 — a mesma que Kim Jong-un já dirigia desde 2009.

Jang Song Thaek foi acusado de preparar um golpe de Estado contra Kim Jong-un, entre outros crimes

Kim Jong-un via no tio uma ameaça. Em 2012, soube que este tinha feito várias viagens à China, ao mesmo tempo que as relações da Coreia do Norte com aquele que era o seu principal aliado mundial começavam a esfriar. É possível que Kim Jong-un tivesse visto ali uma tentativa de derrubá-lo com apoio interno (Jang Song Thaek teria boas relações com vários generais norte-coreanos) e externo (por parte da China).

Em 2013, Kim Jong-un executou-o. Horas depois de eliminar o tio, os media da Coreia do Norte publicaram uma longa explicação para a execução do homem que foi então descrito como “escumalha humana” e “pior do que um cão”. Entre os crimes que lhe foram atribuídos estava a preparação de um golpe de Estado. Naquela nota, foi até incluída uma citação onde Jang Song Thaek admitia ter um plano para derrubar o sobrinho: “Ia fazer um golpe de Estado com oficiais do exército que eram próximos de mim ou mobilizando forças armadas sob o controlo dos meus confidentes”. Também eram feitas outras acusações, como a de ter esbanjado 4,6 milhões de euros em casinos no estrangeiro ou permitir que o “estilo de vida decadente do capitalismo” entrasse pela sociedade norte-coreana adentro, distribuindo “todo o tipo de imagens pornográficas” junto daqueles que lhe eram mais próximos.

Enquanto isso, uma investigação da Comissão de Inquérito para os Direitos Humanos na Coreia do Norte, um órgão das Nações Unidas, apurou que há entre 80 mil a 120 mil norte-coreanos presos em campos de trabalhos forçados. Os autores da investigação concluíram que Kim Jong-un e o regime norte-coreano são culpados de 10 dos 11 crimes internacionalmente reconhecidos como crimes contra a humanidade. Deles todos, só a segregação racial não é utilizada pela Coreia do Norte.

Em 2017, o ditador norte-coreano voltou a merecer a atenção do mundo após um novo assassinato de um familiar. Desta vez, foi o seu irmão mais velho, Kim Jong-nam. Em fevereiro de 2017, duas mulheres de nacionalidade malaia agarraram-no por trás no aeroporto de Kuala Lumpur. Uma delas colocou um pano embebido num químico nervo-tóxico, acabando por matá-lo. As razões deste assassínio não são claras, sabendo-se apenas que Kim Jong-nam discordava dos métodos do regime do seu irmão mas que, ao mesmo tempo, não tinha intenções de subir ao poder.

Os contornos pouco claros deste homicídio ajudaram a fortalecer ainda mais a ideia em torno de Kim Jong-un como um líder inabalado por qualquer tipo de dúvida, agarrado acima de tudo ao seu poder e implacável com aqueles que ousam (ou que se pensa que ousam) pô-lo em causa.

Kim Jong-nam, o filho mais velho de Kim Jong-il, chegou a ser o designado para o lugar de Kim Jong-un, mas caiu em desgraça. Em 2017, foi assassinado (JoongAng Sunday/AFP/Getty Images)

Nalguns casos, essa fama deu lugar a notícias que mais tarde, já depois de terem corrido o mundo, vieram a ser desmentidas. Uma delas diz respeito à execução do tio de Kim Jong-un. Dias depois de esta ter sido conhecida, um perfil satírico na rede social chinesa Weibo pôs a circular um rumor que não tardaria a ser tomado por vários media ocidentais como verdadeiro: que Jang Song Thaek foi morto após soltarem 120 cães esfomeados sobre ele. Outro rumor, igualmente tomado como verdadeiro nalguns meios noticiosos, garantia que todos os homens norte-coreanos passariam a ser obrigados a ter o mesmo corte de cabelo de Kim Jong-un.

Quando Dennis Rodman conheceu Kim Jong-un, um “miúdo espetacular”

Uma coisa são os rumores que surgem desde fora da Coreia do Norte. Outra, são os gestos que Kim Jong-un faz chegar ao resto do mundo e alimentam uma ideia de excentricidade e que, ao mesmo tempo, com alguma boa vontade, podem ser considerados também uma pequeníssima abertura do regime. Foi já durante o seu consulado que a Coreia do Norte se entregou a projetos inusitados para um país onde 30,9% da população é subnutrida, como a construção de um centro de espetáculos com golfinhos ou de um resort de ski.

Porém, não há história mais invulgar do que aquela que se deu quando Kim Jong-un abriu as portas hermeticamente fechadas do seu país para receber o basquetebolista e enfant terrible dos Chicago Bulls da década de 1990, Dennis Rodman. Tudo isto foi concebido por Shane Smith, fundador do site de reportagens e lifestyle Vice, que queria acima de tudo filmar um documentário na Coreia do Norte — e acabou por fazê-lo, atraindo a atenção do mundo para aquele que era o primeiro encontro de Kim Jong-un com uma personalidade norte-americana. No seu regresso, Dennis Rodman descreveu o ditador norte-coreano como um “miúdo espetacular” e “não tão mau quanto se pensa”. A única maneira de esta história ficar ainda mais estranha seria repeti-la — e isso aconteceu. Até agora, Dennis Rodman já viajou à Coreia do Norte pelo menos cinco vezes. Ou seja, mais do que qualquer governante, dirigente político ou diplomata nascido nos EUA.

Este é um país que, nas imagens de satélite feitas durante a noite, deixa a ideia de que quase nada existe, já que é uma enorme mancha negra entalada entre a China e a Coreia do Sul. Por isso, Ramon Pacheco Pardo, presidente da Korea Chair da Vrije Universiteit de Bruxelas e professor no King’s College de Londres, nota um desejo de modernidade nestes gestos de Kim Jong-un. “Ele é muito diferente do pai e do avô”, diz ao Observador. “A maneira como ele fala é muito mais moderna do que a dos seus antecessores. Ele quer passar a imagem de que é uma pessoa comum, de quem é um homem do povo. É precisamente isso que a maior parte dos políticos quer fazer e ele, nesse sentido, é um verdadeiro político.”

Ao contrário do pai, que raramente falava em público, Kim Jong-un passou a instituir a prática de fazer discursos, nomeadamente no Ano Novo. Também é frequente vê-lo em eventos desportivos ou culturais. Em abril deste ano, estava no camarote quando, de forma inédita, uma banda de K-pop sul-coreano tocou para uma plateia norte-coreana, em Pyongyang. Também esteve presente noutro espetáculo musical, mais conservador, onde foi filmado a chorar depois de se ter emocionado com as canções. Afinal, um Kim também chora.

Também na economia se nota uma abertura do setor privado que, apesar de iniciada por Kim Jong-il para colmatar as áreas onde o Estado falhou em alturas de crise humanitária, como as fomes da década de 1990, é sob a liderança de Kim Jong-un que mais se faz sentir. De acordo com as estimativas do especialista russo em estudos coreanos Andrei Lankov, o setor privado compõe entre 30 a 50% do PIB da Coreia do Norte.

Ao Observador, Nicolas Levi, especialista na Coreia do Norte e professor na Academia das Ciências da Polónia, Kim Jong-un está a tentar encontrar um equilíbrio identificado já noutros países. “A Coreia do Norte está a tentar aproximar-se do modelo económico de países como o Irão, Cazaquistão e Turquemenistão, com a promoção da liberalização de uma economia, sem qualquer tipo de liberalização no que toca à política”, diz, numa resposta enviada por e-mail.

Ao contrário do pai, Kim Jong-un está habituado a fazer discursos em público (Ed Jones/AFP/Getty Images)

John Cha sublinha que, no aspeto social e económico, Kim Jong-un é bastante diferente do seu pai. “O pai de Kim Jong-un era um homem muito austero e secreto, nunca ou raramente falou para fora da Coreia do Norte. E Kim Jong-un gosta de falar em público, não tem medo disso, até gosta”, diz. Mas as diferenças param aí, adverte o escritor. “Eles têm o mesmo ADN, são os dois ditadores implacáveis. Matam muitíssima gente. Nesse aspeto importante, não há diferença entre um e outro.”

Mísseis nucleares: de sonho de família a seguro de vida

Desde a assinatura do Armistício de 1953, que pôs um intervalo na Guerra da Coreia, Pyongyang tem-se tornado, gradual mas irreversivelmente, num regime diplomaticamente isolado. Mesmo mantendo relações económicas com alguns países, algumas delas obscuras e até ilegais, a Coreia do Norte é acima de tudo um país sozinho. O próprio nome da ideologia de base da Coreia do Norte aponta nesse mesmo sentido: Juche ou, em português, autossuficiência.

Ao longo da sua história, a Coreia do Norte sempre procurou ter um programa de armas químicas e nucleares — um objetivo em linha com a ideologia Juche. Porém, foi preciso o país chegar às mãos de Kim Jong-un para aquilo que já era um objetivo do seu avô e também do seu pai tornar-se realidade.

Em agosto de 2012, Kim Jong-un mudou a Constituição da Coreia do Norte, para que esta se passasse a designar como um "Estado nuclear". A partir dessa altura, passaram a ser comuns os testes de mísseis balísticos de longa distância e também de mísseis nucleares. Ao todo, foram 78 testes em menos de seis anos.

Com Kim Jong-un, tudo começou com a tentativa de lançamento de um satélite em abril de 2012, naquilo que era um sinal claro para o mundo — afinal, quem consegue lançar um satélite também consegue lançar um míssil intercontinental. Pouco depois de levantar voo, o satélite de batismo de Kim Jong-un desfez-se e despenhou-se no mar, próximo da Coreia do Sul. Foi um fracasso para o líder norte-coreano, mas também um fracasso público e assumido nos media estatais, que anunciaram então que os cientistas estavam “a tentar encontrar a causa da falha”.

Foi um falhanço evidente, mas não o suficiente para demover Kim Jong-un. Em agosto do mesmo ano, levou para a frente uma revisão constitucional. A partir de então, a Coreia do Norte passou a ser, de acordo com o seu texto fundamental, um “Estado nuclear”. E, de acordo com aquilo que Kim Jong-un foi provando ao mundo, essa realidade não ficou só no papel.

Nos pouco mais de seis anos que leva na liderança a Coreia do Norte, Kim Jong-un já fez 78 lançamentos de mísseis — ao passo que o seu avô, durante perto meio século de poder, fez apenas 17; e o seu pai em quase uma década fez 45. Entre os lançamentos de Kim Jong-un, quatro foram testes para mísseis nucleares. Além disso, testou dezenas de mísseis balísticos. Alguns sobrevoaram território japonês ou passaram ao largo da Coreia do Sul, pondo em alerta autoridades e populações. Outros, sabe-se que têm capacidade para atingir alvos até 15 mil quilómetros de distância — ou seja, o suficiente para atingir os EUA e outras partes do mundo.

Nas Nações Unidas, Donald Trump disse que se os EUA podem "não ter outra escolha além de destruir totalmente a Coreia do Norte" (TIMOTHY A. CLARY/AFP/Getty Images)

Nem os alertas de Donald Trump, que prometeu atacar a Coreia do Norte com “fogo e fúria”, pareceram demover o ditador da Coreia do Norte. O pico da tensão deu-se após o discurso de Ano Novo de 2018 de Kim Jong-un, onde uma das palavras mais utilizadas foi nuclear — um total de 24 vezes. “De maneira alguma os EUA deverão começar uma guerra contra mim e contra o nosso país. Todo o seu território continental está dentro do alcance de um ataque nuclear nosso — e o botão nuclear está sempre na minha secretária”, advertiu.

Em resposta, Donald Trump escreveu no Twitter que o seu botão nuclear era “maior”. “E funciona!”

A troca de ameaças entre os dois líderes deixou de ser um fait-diver, aumentando a olhos vistos a possibilidade de uma guerra nuclear num futuro próximo. Tanto que, a 13 de janeiro, um erro humano levou a que fosse decretado um alerta real para um míssil que, afinal, não existia.

Porém, o discurso de Ano Novo de Kim Jong-un teve outro elemento que, perante a perspetiva de um holocausto nuclear, não mereceu a atenção devida — e viria a marcar os meses que se seguiram, virando uma nova página no reinado de quase seis anos do ditador norte-coreano. É que se é verdade Kim Jong-un disse “nuclear” 24 vezes durante o discurso de Ano Novo, também o é que disse “Sul” em 25 ocasiões.

“Abriremos as nossas portas a quem quer que seja da Coreia do Sul, incluindo do partido no poder ou da oposição, organizações e personalidades de todos os quadrantes, para diálogo, contacto e viagem, se desejarem honestamente a concórdia e a união nacionais.”
Kim Jong-un, no discurso de Ano Novo de 2018

Para o “Sul”, a forma como se refere à Coreia do Sul, Kim Jong-un falou sobretudo num tom que parecia procurar reduzir a tensão e deixava uma promessa para 2018: “Abriremos as nossas portas a quem quer que seja da Coreia do Sul, incluindo do partido no poder ou da oposição, organizações e personalidades de todos os quadrantes, para diálogo, contacto e viagem, se desejarem honestamente a concórdia e a união nacionais”. A partir daí, tudo mudou — mais que não seja à superfície.

Kim Jong-un, o diplomata inventado

Seguiram-se meses em que, de repente, a palavra “diplomacia” passou a fazer parte do léxico da Coreia do Norte. Dois dias depois do discurso de Ano Novo, a 3 de janeiro, a Coreia do Norte e a Coreia do Sul decidiram reabrir o canal de comunicação entre os dois governos. A 9 de janeiro, comprometeram-se a competir nos Jogos Olímpicos de Inverno, na Coreia do Sul, com uma única equipa de hóquei no gelo feminino. Durante esse evento desportivo, uma das irmãs de Kim Jong-un, Kim Yo-jong, entregou ao Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, um nota escrita pelo irmão a convidar o líder sul-coreano a ir a Pyongyang.

Em março, por fim, uma delegação em representação de Moon Jae-in foi recebida em Pyongyang. Ali, ficou acordada a realização de uma cimeira inter-coreana. Depois, a delegação sul-coreana viajou até Washington para se encontrar com Donald Trump. No final da reunião, os representantes de Moon Jae-in deram uma notícia inesperada: a pedido de Kim Jong-un, entregaram a Donald Trump um convite para uma cimeira entre a Coreia do Norte e os EUA. O Presidente norte-americano, que se gaba de dominar a “arte do negócio”, aceitou.

Ainda em março, Kim Jong-un fez algo que ainda não tinha feito desde que se tornou Presidente da Coreia do Norte: foi ao estrangeiro. Mais propriamente, foi à China, antigo aliado do regime de Pyongyang que nos últimos anos tem aumentado o tom nas críticas a Kim Jong-un, ao ponto de apoiar a aplicação de sanções contra aquele aliado. Porém, com a intenção declarada de reduzir a tensão na região, Xi Jinping convidou Kim Jong-un a visitá-lo em Pequim. Foi uma visita relâmpago, mas simbólica: foi a primeira visita de Estado de Kim Jong-un desde 2011. O bom augúrio entre os dois países foi confirmado com uma segunda visita do ditador coreano à China, em maio.

Foi debaixo da sombra da cimeira de 12 de junho que Kim Jong-un e Moon Jae-in se encontraram em abril de 2018. Ali, os dois líderes desfizeram-se em apertos de mão e abraços, fielmente seguidos por câmaras sempre que os dois não estavam fechados dentro de uma sala de negociações.

Em abril, Kim Jong-un atravessou a fronteira para a Coreia do Sul, onde se encontrou com Moon Jae-in. No final, comprometaram-se com “uma nova era de paz" (KOREA SUMMIT PRESS POOL/AFP/Getty Images)

Das conversas que tiveram à porta fechada, saíram a público algumas declarações inesperadas de Kim Jong-un. Primeiro, uma piada. Em referência aos testes nucleares que marcaram o seu reinado, disse entre risos ao seu homólogo sul-coreano: “Vou garantir que não interrompo o vosso sono mais vezes”. Depois, o reconhecimento de uma falha. Referindo que gostaria de receber Moon Jae-in na Coreia do Norte, Kim Jong-un disse sentir “vergonha” do estado da estradas do seu país, admitindo que podiam atrapalhar uma visita oficial do sul-coreano.

No final da cimeira, os dois líderes assinaram um documento onde ambas as partes se comprometiam com uma “uma nova era de paz” e com a “desnuclearização da Península da Coreia”. E, da parte da Coreia do Sul, a Coreia do Norte conseguiu arrancar a garantia de que seriam dados “passos práticos” para estabelecer a “ligação” e “modernização das ferrovias e estradas”.

Se tudo correr como planeado, Kim Jong-un terá dentro de pouco tempo menos estradas esburacadas com que se envergonhar. O resto, nomeadamente a desnuclearização da península — que de um lado significa o desmantelamento nuclear da Coreia do Norte e do outro a retirada das forças militares norte-americanas destacadas na Coreia do Sul, já Seul por si só não é uma potência nuclear — é um objetivo ainda por concretizar. E que, necessariamente, depende daquilo que for decidido a 12 de junho, entre Kim Jong-un e Donald Trump.

Já muito se escreveu sobre os dois líderes, os seus feitios difíceis, a inflexibilidade em abandonar objetivos previamente fixados e a imprevisibilidade com que atuam. Alguns aventam até a possibilidade de, salvaguardadas as distâncias, um ser a versão do outro. John Cha hesita em ver as coisas dessa forma. “Pode ser que se diga isso numa noite de copos. São os dois pouco convencionais, sim. Mas, olhando para a experiência de cada um, eles são completamente diferentes”, diz.

Para Balázs Szalontai, professor do Departamento de Estudos da Coreia do Norte da Universidade de Coreia, em Seul, Kim Jong-un é o menos imprevisível dos dois, tudo porque atua dentro da mesma linha do seu avô e do seu pai. “A decisão aparentemente abrupta de mudar do confronto para uma ofensiva de paz não difere muito da tática tradicional da diplomacia norte-coreana. Isto aconteceu várias vezes ao longo da História”, conta. “Primeiro, cometem um ato extremamente agressivo. Depois, mostram um ramo de oliveira.”

Por outro lado, diz John Cha, chegar a este patamar de negociações seria impensável para Kim il-Sung ou Kim Jong-il. Agora, Kim Jong-un, o mais inexperiente da dinastia Kim, vai ter pela frente um Presidente dos EUA. Mas, se o seu ar ocasionalmente amigável ou ausência de rugas fazem pensar que Kim Jong-un vai jogar à defesa em Singapura, o autor desfaz essa ideia: “Ele não vai a Singapura para ser um gajo fixe. Ele tem um arsenal de armas nucleares à disposição, portanto não vai estar ali a dizer: ‘Vamos todos ser amigos, malta!’. Nem pensar. Ele é assim quando tem Dennis Rodman pela frente. Com Donald Trump, muda tudo”.

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