Lá fora, BCP fala de política: “Uma maioria do PS seria boa” por afastar a “extrema-esquerda” /premium

20 Fevereiro 2019300

Miguel Maya já o disse, aos jornalistas: "O BCP não comenta política. Ponto". Mas numa apresentação a investidores, em Londres, o banco disse ver com bons olhos que a "extrema-esquerda" saia do poder.

O presidente-executivo do Millennium BCP, Miguel Maya, já o disse várias vezes aos jornalistas portugueses: “O BCP não comenta política. Ponto“. Mas numa apresentação a investidores, em Londres, o economista-chefe do banco revelou que veria com bons olhos que o PS tivesse uma maioria absoluta nas próximas eleições, para que a “extrema-esquerda” saísse do poder. O banco apresenta esta quinta-feira os resultados relativos ao exercício de 2018, com lucros que deverão superar os 300 milhões de euros — e que o mercado antecipa que poderão ser suficientes para que a administração abra a porta ao pagamento de dividendos, pela primeira vez em 10 anos.

Foi uma sessão fechada, apenas para investidores, no roadshow que foi feito no âmbito da emissão de títulos financeiros que o BCP realizou no final de janeiro (pelos quais acabaria por pagar um juro superior a 9%). Mas o Observador teve acesso à apresentação feita pelo economista-chefe do banco, José Maria Brandão de Brito, onde o banco “vende” Portugal como um país onde o “estouro foi grave, mas a recuperação tem sido inegável e firme, desde 2013“.

O evento, a 24 de janeiro, aconteceu no edifício da agência Bloomberg na Queen Victoria Street, na capital britânica. E, sendo 2019 ano de eleições legislativas (e europeias), os investidores e analistas presentes na sala questionaram o economista-chefe do banco sobre o que se pode esperar da política portuguesa, desde final de 2015 dominada pelo PS, apoiado no parlamento pelos partidos à sua esquerda.

Na resposta, José Maria Brandão de Brito começou por lembrar que “esta equipa fez um outro roadshow em 2015, quando a coligação de centro-direita venceu as eleições mas foi o Partido Socialista, em coligação com a extrema-esquerda, que tomou o poder”. O economista-chefe do BCP recordou: “As pessoas estavam muito preocupadas, eu próprio fiquei preocupado, porque estes são partidos de extrema-esquerda, são comunistas — havia muitos riscos potenciais”.

“A verdade”, pelo menos a “verdade” descrita aos investidores pelo representante do BCP, é que, “como podem ver, a consolidação das contas públicas manteve o ritmo e até acelerou. Em termos de política, não se fizeram grandes mudanças de relevância nos aspetos críticos como a legislação laboral, a concorrência, etc.“. “Portanto, diria que esta que foi a pior solução possível foi bem sucedida, pelo menos não foi má“, apontou José Maria Brandão de Brito, que, recorde-se, além de ser economista-chefe do BCP foi um dos 20 economistas que ajudaram a coligação Portugal à Frente — que juntou PSD e CDS — a preparar o programa económico para as eleições de 2015.

No final de 2015, "as pessoas estavam muito preocupadas, eu próprio fiquei preocupado, porque estes são partidos de extrema-esquerda, são comunistas. Mas esta que foi a pior solução possível foi bem sucedida, pelo menos não foi má".
José Maria Brandão de Brito, economista-chefe do BCP, numa sessão à porta fechada para investidores

Na perspetiva do representante do BCP, as próximas legislativas, “seja o que for que estas eleições trouxerem, será provavelmente uma solução melhor”. Ou seja, a julgar pelas sondagens mais recentes, que dão vantagem ao PS, a situação “poderá ficar na mesma mas é possível que os socialistas obtenham uma maioria absoluta, o que lhes permitiria governar sozinhos, sem necessidade de apoio parlamentar por parte da extrema-esquerda”.

Além de afastar a “extrema-esquerda”, Brandão de Brito assinalou que uma maioria absoluta do PS seria um resultado “positivo” porque “o PS é um partido de centro-esquerda, muito, muito alinhado com a estratégia europeia e o processo de integração”. Assim, o economista-chefe do BCP garantiu aos investidores presentes na sala que não via as eleições “como um risco, de todo — poderão até ser um fator positivo“.

BCP diz que estas são “opiniões pessoais” que não vinculam o banco

Estes foram comentários feitos pelo economista-chefe do BCP, perante um grupo de investidores estrangeiros que se deslocaram até à Queen Victoria Street para ouvir não só o que um grande banco como o BCP tinha a dizer sobre a economia portuguesa mas, também, para ouvir as palavras de representantes de outras empresas como a EDP, a REN e a NOS. Mas, contactada pelo Observador, fonte oficial do BCP (em Lisboa) recusa a ideia de que estes possam ser comentários que vinculem a instituição.

“O Millennium BCP não faz comentário político, apreciações sobre opções de natureza política do governo nem expressa preferência sobre soluções governativas”, indicou a fonte oficial do banco, argumentando que “comentários com essa natureza que possam eventualmente ter sido proferidos por colaboradores do banco, no âmbito de reuniões, vinculam exclusivamente a pessoa que as profere”.

A fonte oficial do BCP diz que “não seria aceitável condicionar” que um colaborador do Millennium BCP, mesmo um economista-chefe em missão internacional, transmita o que o banco considera ser, neste caso, uma “opinião pessoal“. “É recomendável e preferível que tal não aconteça em contextos profissionais, pois é fácil confundir a opinião pessoal com a posição do Millennium BCP” mas, defende a fonte, é “manifestamente abusivo — sobretudo conhecendo a posição tornada pública pelo CEO do banco — atribuir essa apreciação ao Millennium BCP”, apesar de a sessão de Londres ter sido organizada e promovida precisamente pelo BCP.

Portugal cresce (da forma certa) mas poupança é baixa

A principal mensagem com que o economista-chefe do BCP quis tranquilizar os investidores foi a de que, a partir do momento em que chegou a troika, “Portugal teve de agradar aos investidores e continua, hoje, sob vigilância”. Por outro lado, “há um consenso claro entre a população de que o país deve estar na zona euro, em contraste com outros países como Itália”, defendeu José Maria Brandão de Brito. “Os portugueses querem estar no euro e, para os portugueses, cumprir as regras europeias é uma coisa boa — o país não fez asneira e, basicamente, cumpriu as imposições da troika na resolução dos problemas económicos que existiam”.

"Em Portugal, os portugueses querem estar no euro e, para os portugueses, cumprir as regras europeias é uma coisa boa -- o país não fez asneira e, basicamente, cumpriu as imposições da troika na resolução dos problemas económicos que existiam"
José Maria Brandão de Brito, economista-chefe do BCP, numa sessão à porta fechada para investidores

Nesta fase, defende o BCP, está colocado para trás das costas o “estouro” económico que houve em Portugal — um “estouro” que, contrariando o que teorizam os manuais de economia, não foi precedido de uma fase de expansão brusca — o país vive “desde 2013 uma recuperação inegável e firme“, com uma “recuperação quase milagrosa na balança comercial” e uma “descida da taxa de desemprego de 17% para níveis inferiores à média europeia”.

A perspetiva do economista-chefe do BCP é que, “depois de um 2017 brilhante, em que o PIB cresceu mais de 3%, 2018 deverá fechar com um crescimento perto de 2%, o que não é muito mas está acima da média europeia e acima da maioria das estimativas sobre o crescimento potencial em Portugal”. Olhando para 2019, “é claro que a Europa está a abrandar, os mercados financeiros estão menos otimistas, mas o padrão de crescimento é mais ou menos o mesmo — um pouco mais lento mas ainda impulsionado pelo investimento e pelas exportações, o que é exatamente aquilo que é bom ver e que contrasta com os anos pré-crise“.

Otimismo excessivo podem rapidamente degenerar em pessimismo

O que preocupa mais José Maria Brandão de Brito é o facto de “a taxa de poupança ter vindo a cair, o que aconteceu, basicamente, porque a economia está melhor, as pessoas sentem-se melhor relativamente a si próprias e ao seu futuro — os índices de confiança continuam em níveis historicamente elevados — portanto tendem a consumir mais e a poupar menos”. O economista-chefe do BCP diz que “isto é bom mas cria algum risco futuro porque estados de otimismo excessivo podem rapidamente degenerar em pessimismo e, também, porque se as pessoas estiverem demasiado otimistas não irão poupar tanto e se houver um choque a ‘almofada’ financeira é baixa”.

Ainda assim, “olhando para a frente, há um risco de que o consumo baixe mais do que o que está previsto nas principais previsões, basicamente porque muitas coisas que têm vindo a impulsionar o consumo começam a desvanecer, a começar pelas taxas de juro muito baixas — as prestações médias desceram mas, agora, estão em subida ligeira — e o efeito da descida do petróleo também já desapareceu”.

“Para uma economia endividada como Portugal, o investimento tem de vir de recursos internos, caso contrário isso vai agravar a dívida externa”, acrescenta José Maria Brandão de Brito. Assim, o economista-chefe do BCP defende que “a taxa de poupança tem de aumentar“. “Isto é uma questão estrutural na economia portuguesa: as taxas de poupança das famílias são muito baixas, o que significa que será muito difícil financiar este processo de investimento com recursos domésticos — o que deixa como única alternativa recorrer aos mercados financeiros internacionais, tornando o país cada vez mais vulnerável a choques de confiança”. “Como sabemos, a confiança nos mercados financeiros pode esfumar-se em poucas horas”, alerta o especialista.

Quanto às finanças públicas, José Maria Brandão de Brito defendeu que “não faz sentido antecipar mais uma crise orçamental gerada internamente. Isso é algo que ficou para trás. Existem riscos, é claro, mas são essencialmente externos“. O economista diz que “ainda há problemas em Portugal, porque ainda está a acontecer uma limpeza face aos problemas do passado, mas a dinâmica do país é muito positiva e dinâmica. Claro que, se algo correr mal fora das fronteiras então, porque Portugal é uma pequena economia aberta, irá pagar o preço”.

Por sua vez, onde o BCP não vê quaisquer problemas (apenas um, em rigor) é na subida dos preços das casas em Portugal, sobretudo nas cidades de Lisboa e Porto. “Fala-se de ‘bolha’ porque os preços das casas estão a subir muito rapidamente, mas isso, apesar de ser um ingrediente de uma ‘bolha’ mas não é o único”, defende o economista-chefe do BCP, lembrando que “as bolhas normalmente são construídas à base de excesso de crédito, mas em Portugal grande parte das transações imobiliárias são feitas sem recurso a crédito — só 40% envolvem crédito hipotecário”.

O BCP, que tal como outros bancos tem aproveitado a melhoria do mercado imobiliário para “emagrecer” os ativos deste tipo no balanço, diz ter “alguma confiança de que ainda não estamos perante uma bolha, apesar de algumas dinâmicas de preços generosas” (a propósito, José Maria Brandão de Brito comentou que o problema do crédito malparado deixará, ao longo de 2019, de ser um tema para banca portuguesa).

A expectativa do economista-chefe do BCP é que os “preços das casas devem continuar a subir sem que isso signifique necessariamente um aumento da dívida hipotecária, o que é uma boa notícia para as dinâmicas do setor — só não é tão bom para os jovens que querem comprar casas”.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: ecaetano@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)