Manuel Reis: sociologia de um empresário da noite

15 Abril 2018504

João Pedro George leu os obituários publicados a propósito da morte do fundador do Frágil e do Lux. Depois procurou demonstrar que há uma lógica social nestes relatos individuais. E explica porquê.

“O mundo intelectual, que se julga muito livre de conveniências e convenções, sempre me pareceu cheio de grandes conformismos”,
Pierre Bourdieu

À laia de introdução

Já se percebeu que os obituários são propícios às narrativas enaltecedoras e glorificadoras, escritas num estilo vertiginoso que mistura o poético, o esotérico e o farfalhudo (como aliás tive ocasião de referir noutro local). Na verdade, dificilmente encontraremos um lugar tão utilizado pelos jornalistas e cronistas para exercitarem a sua inesgotável veia literária. Compreende-se: sobre os grandes indivíduos, aqueles que se elevaram acima dos seus contemporâneos, que eram rodeados de grande estima ou apreço, a quem eram atribuídas qualidades invulgares e que ocupavam lugares de relevo na sociedade, não é possível pensar com palavras pequenas. É necessário recorrer a uma prosa alucinante, salpicada aqui e ali de frases solenes, que estão para além do mero elogio, pois transmitem verdades supremas e encerram abismos de sabedoria, impõe-se, em resumo, aquilo a que Nelson Rodrigues denominava o “grande choro” ou a “grande dor” (1). Trata-se, afinal, de exaltar e celebrar a singularidade da pessoa que morreu, articulando a sua individualidade com a exemplaridade da sua trajectória biográfica (um processo que releva mais de um efeito de reconstrução hagiográfica, em particular daqueles que escrevem sobre ele, do que de experiências vividas). Foi assim com Manuel Reis, o empresário que, tendo fundado as discotecas Frágil e Lux, terá prestado grandes serviços à nação e sido responsável por grandes melhoramentos na nossa vida colectiva.

Não pretendo pôr em causa os méritos de Manuel Reis (que morreu a 25 de Março, com 71 anos), que terão sido certamente muitos (e não me custa nada acreditar que ele terá sido, se não o maior, ao menos um dos maiores empresários da noite lisboeta dos últimos 40 anos, caso contrário não haveria tanta discussão em redor do seu percurso biográfico e da sua influência pessoal), mas cujo verdadeiro impacto, a nível nacional, ainda está por rastrear e calcular. Ora, a avaliar pela forma como foi posta nos obituários, artigos ou reportagens sobre Manuel Reis, onde aquilo que mais sobressai é a insuficiência do seu enquadramento histórico, social e cultural, essa questão, longe de ter ficado resolvida, continua a ser uma fonte de grandes equívocos e mistificações. Talvez por causa da pobreza do debate intelectual no nosso espaço mediático. Talvez porque, estando demasiado orientadas na simpatia ou afeições pessoais pelo defunto e nos seus próprios interesses, muitas dessas pessoas não sejam as mais indicadas para o fazer. Ou talvez porque, como alguém dizia com alguma graça mas a propósito de outra coisa, exigir a uma cronista como Clara Ferreira Alves que não escreva crónicas atontadas é o mesmo que exigir a um médico ou a um hospital que não haja mortes.

Os terrenos que quero explorar aqui, e enumerando as ideias de forma caótica e muito concisamente, são:

  1. O processo de reverência biográfica, as múltiplas dimensões da admiração e seus rituais;
  2. O reconhecimento e definição de uma cultura comum a um pequeno grupo de indivíduos com grande influência no espaço público, mediático e artístico;
  3. Os princípios de organização que governam os acontecimentos mediáticos e o empenhamento subjectivo dessas pessoas nesses mesmos acontecimentos;
  4. As lógicas subjacentes e o seu significado para os actores;
  5. A produção de crenças no público leitor a respeito dos gostos legítimos e a fabricação de um determinado estilo de vida como objecto de desejo;
  6. A consequente estruturação simbólica do espaço social por certas elites mediáticas;
  7. O momento em que o singular se torna colectivo e a produção do geral a partir do particular;
  8. A função que os obituários preenchem e a sua utilidade para quem os comunica, apontando para as relações de interdependência em que se baseia a escolhas de certas palavras e, em geral, o uso de uma determinada linguagem.

Em síntese, tenciono abordar uma coisa óbvia que poucos gostam de reconhecer: que há uma lógica social em práticas consideradas eminentemente individuais. Para tal, começo por ater-me nada mais que às descrições que os jornais e as revistas nos deixaram nos dias subsequentes à morte de Manuel Reis.

Características da admiração por Manuel Reis

Como já afirmei, este texto não procura aproximar-se daquilo a que poderíamos chamar, de forma imprecisa e pouco rigorosa, a “vida real” de Manuel Reis. Interessa-me, isso sim, a figura de Manuel Reis enquanto personagem posta em cena nos jornais e nas revistas, bem como a função social que os relatos biográficos desempenham para um pequeno grupo de pessoas que goza de notoriedade no espaço público. Dito isto, a vida de Manuel Reis, apresentada nos obituários, assemelha-se a um conto moral, em que o protagonista marca um antes e um depois na História de Portugal, ou seja, um “Antes de Manuel Reis” (AMR) e um “Depois de Manuel Reis” (DMR). Não é de molde a admirar: os intelectuais, quando contam a sua própria história, gostam de lhe dar a forma de um combate feroz entre, por um lado, as forças audaciosas da emancipação e libertação dos indivíduos (encarnadas num artista ou intelectual), e, por outro lado, as forças repressivas e conformistas de um meio social estabelecido há muito tempo e que os não compreende, que procura puni-los ou castigá-los (o Estado ou os gostos e hábitos ditos “burgueses”).

Juntamente com o "Portugal Contemporâneo", os "Anos 80", a "abolição das convenções", a indiferença pelo "diktat" ou o respeito pela "diferença sexual", Manuel Reis é considerado, entre nós, um fundador e um divulgador de valores importantíssimos para as nossas sociedades, sobretudo nos dois últimos séculos.

Pois bem, como era o país AMR segundo os amigos e admiradores de Manuel Reis? Na contundente opinião de Fernando Câncio, esse Portugal AMR…

…era um país atrasado, periférico, tristonho, complexado, onde a maioria das pessoas se vestia de igual e os últimos lançamentos musicais só estavam, a custo, disponíveis em lojas de ‘discos importados’. Para saber o que se ouvia ‘lá fora’ tinha de se ter bons contactos, dinheiro, ou ouvir o programa do António Sérgio na Rádio Comercial e ler o Miguel Esteves Cardoso, que então escrevia num semanário entretanto extinto, o Sete, sobre música. As pessoas que se vestiam de ‘forma diferente’ eram insultadas na rua; aliás exibir o preto total que, mais os cabelos erguidos a laca, sabão e gel, era a marca distintiva da pequena tribo que frequentava o Frágil e o Rock House (e o Trumps, na Rua da Imprensa Nacional, no Príncipe Real), e que o Manel usou até agora, era caso para quase agressão – achava-se um desrespeito ver a cor do luto como moda (“O Soldado da Luz”, Diário de Notícias, 27/03/2018).

No dia anterior, já Augusto M. Seabra declarara o seguinte:

Parafraseando e contrariando um slogan político insistente sobre ‘a pesada herança do fascismo’, costumava eu dizer que culturalmente precisávamos de nos libertar da ‘pesada herança do antifascismo’, a velha cultura da oposição democrática. E foi entre o Frágil e o Expresso – A Revista, mais uma geração de artistas emergentes e de novas galerias que, quase de repente, achámos que já éramos sim pós-modernos, e seguramente afirmámos uma nova cultura cosmopolita. E nessa tão radical mudança o Manel Reis abriu portas (Público de 26 de Março de 2018).

Depois, e segundo Sérgio Hydalgo (programador musical da Galeria Zé dos Bois), “vivíamos numa cidade muito fechada e ele conseguiu do nada torná-la muito mais interessante. É por isso que crescemos com o imaginário do Frágil, porque ele conseguiu construir uma noite que não existia”.

Esse Portugal AMR, onde os relógios pareciam estar todos parados (“atrasado”, “periférico”, “tristonho”, “complexado”, “homogéneo” e politicamente da “velha esquerda”) passou a ter os dias contados a partir do momento em que Manuel Reis, ainda com 16 anos, rompeu o casulo, desembarcou em Lisboa, vindo do Algarve (onde nasceu em 1946), e viajou para fora dos limites pátrios, fazendo de Paris “a sua segunda casa, como recorda Joana Stichini Vilela em LX80” (citada no jornal Público). Porque, digamos assim, uma nova época começava a ser anunciada: o país DMR. Leia-se o que Vítor Belanciano diz sobre o Frágil: “De alguma forma, o Portugal contemporâneo começou ali, nessa época fundadora, pós-25 de Abril” (Público, 26/03/2018). Ou Clara Ferreira Alves, para quem “ali cresceram os prodigiosos anos 80, os da geração entalada entre a ditadura e a revolução, entre a repressão e a sida” (Expresso, 30/03/2018). De igual modo, Fernanda Câncio lembrou-nos que Manuel Reis “criou um lugar” onde se celebrava “aquilo que na altura se chamava ‘diferença’ e que, repito, só se pode denominar liberdade”, e José Paulo Martins, ex-sócio de Manuel Reis, defendeu que o Frágil era “um sítio” onde os homossexuais “eram bem recebidos”, onde a “comunidade gay” estava “mais à-vontade”.

Juntamente com o “Portugal Contemporâneo”, os “Anos 80”, a “abolição das convenções”, a indiferença pelo “diktat” ou o respeito pela “diferença sexual”, Manuel Reis é considerado, entre nós, um fundador e um divulgador de valores importantíssimos para as nossas sociedades, sobretudo nos dois últimos séculos: o cosmopolitismo, a modernidade e o bom gosto estético. Incorporar, interpretar e personificar a introdução, redefinição e difusão de tais valores goza hoje do mesmo estatuto outrora atribuído aos antigos missionários que tinham por missão propagar, em África ou no Oriente, a cultura e a civilização ocidentais. Associar e concentrar o novo, o moderno, o viajado, o original numa única pessoa, tornando-os indissociáveis da sua grandeza biográfica e profissional, é outro dos motivos que encontramos nos processos de estruturação e desenvolvimento dos mitos e das lendas. Vejamos como esses “princípios de excelência” se distribuem e repetem entre os nossos “fazedores de opinião»:

1) Cosmopolitismo:

Manuel Reis “não era um turista mas um cosmopolita” e “foi entre o Frágil e o Expresso – A Revista, mais uma geração de artistas emergentes e de novas galerias que, quase de repente, achámos que já éramos sim pós-modernos, e seguramente afirmámos uma nova cultura cosmopolita. E nessa tão radical mudança o Manel Reis abriu portas”, “terá havido um ou outro presidente de câmara, alguns arquitectos, novas instituições culturais e criadores que vieram consolidar o novo cosmopolitismo de Lisboa. Mas ao princípio houve o Manel Reis — e isso nunca o poderemos esquecer” (Augusto M. Seabra, Público, 26/03/2018).

2) Modernidade:

“Foi em Junho de 1982, numa altura em que o Bairro Alto era então uma zona marginalizada, que na Rua da Atalaia abriu portas o bar que ajudou a definir os anos 80 portugueses e por onde passaram desejos de modernidade e cosmopolitismo” (Cláudia Lima Carvalho, Público, 18/09/2014).

“O conteúdo estratégico e as ideias bem definidas fizeram deste espaço [Frágil] uma das grandes portas para a modernidade. Sofisticado e cosmopolita, aberto a uma sociedade que não se rege por padrões programáticos, mas sobretudo pelos que ‘tinham urgência de viver’” (José Paulo do Carmo, jornal i).

“O jornalista e fundador do Público conheceu melhor o Frágil do que o Lux e diz que foi o espaço da rua da Atalaia a mudar o paradigma do Bairro Alto ‘do lado provinciano para o cosmopolita’” (jornal i, 27/03/2018).

“Importa registar um cenário de modernidade” ou “as noites do Frágil provaram ser um íman irresistível para a elite mais avançada da modernidade pop nacional” (Rui Miguel Abreu, Expresso, 26/03/2018; publicado originalmente na Blitz de Maio de 2015).

“A antiga mulher da porta [Margarida Martins] chamou-lhe [ao Frágil] ‘sala de cultura’ numa entrevista ao Sol a propósito do encerramento do bar, em 2012. ‘Foi a primeira vez que fomos modernos e cosmopolitas à noite’, afirmou” (Lina Santos, Diário de Notícias, 25/03/2018).

“O Frágil era, acima de tudo, um ponto de encontro de artistas, jornalistas, políticos, intelectuais e por isso não se pode falar hoje na década de 1980 sem falar deste bar por onde passaram tantos desejos de modernidade e cosmopolitismo” (Claúdia Lima Carvalho, Time Out, 26/03/2018).

“Quando comecei a fazer moda no Bairro Alto, ele é que tinha inventado o Bairro Alto, ele é que criou aquele fantástico Frágil, aquelas festas maravilhosas, aquela abertura toda para a modernidade…” (Mário Matos Ribeiro, designer de moda, Observador).

Manuel Reis na ModaLisboa, com Ana Salazar, em 2003 © Rui Vasco/Global Notícias

3) Bom gosto ou elegância:

Manuel Reis “foi, além de um esteta, de um incansável e sofisticado perseguidor e produtor de beleza, de um cenarista (em teatro e ópera e moda), de um patrono de artistas (organizando exposições, dando palco, emprego, conselhos), acima de tudo um libertador”.

O “Manel no poleiro elegante”, “a sua elegância internacional”, “a gente que te rodeava era elegante porque a tua elegância era contagiante. Não era uma elegância de trajes ou modas, era natural como a água, ninguém tinha cheta para o logotipo. Nem sabíamos que existia” ou «o teu bom gosto na organização do espaço” (Clara Ferreira Alves, Expresso – Revista, 30/03/2018).

“A delicadeza e a elegância dele comovem-me” (Inês Maria Meneses, radialista da Radar, Observador).

“Ele tinha a visão muito própria dele e era muito cuidadoso em preservá-la, em manter um patamar de elegância exigente e ao alcance de poucos” (Pedro Ramos, locutor da Radar e organizador das noites Black Balloon, Observador).

“O realizador Joaquim Leitão recorda o ‘óptimo gosto’ e o ‘apetite pelas coisas incomuns’ do fundador de ‘um dos sítios mais emblemáticos de Lisboa do século passado’” (Público, 25/03/2018).

“Também João Soares, ex-ministro socialista da Cultura, num post no Facebook que acaba de publicar, presta homenagem a Manuel Reis e um tributo ao seu ‘bom gosto’, ‘sensibilidade’ e ‘talento’, que diz serem ‘raros’” (Expresso, 25/03/2018).

Essa elegância ou bom gosto estão lógica e inexoravelmente ligados ao “diferente”, ao “excêntrico”, ao que “subverte as normas e as regras”, e está fora de todos os moldes, ou seja, aquilo que, possuindo a virtude da originalidade, nos liberta da banalidade, do vulgar e do trivial:

“O Manel gostava de organizar festas de temáticas completamente fora do comum” (Augusto M. Seabra);
“O realizador Joaquim Leitão recorda o ‘óptimo gosto’ e ‘apetite pelas coisas incomuns’ do fundador de ‘um dos sítios mais emblemáticos de Lisboa do século passado’” ou “‘Tinha prazer em receber coisas fora do normal, era uma pessoa muito aberta a isso’” (Público).

Em face destes e doutros predicados, é natural que Manuel Reis irrompa nos discursos como uma espécie de herói da libertação dos Portugueses, alguém que, sozinho, apenas com o seu poder individual (dir-se-ia sobrenatural ou providencial), lutou contra o legado cultural e sociológico do salazarismo, rompendo de uma assentada com as leis morais e combatendo os preconceitos e as normas punitivas ou castradoras:

Esse carácter excepcional, que lhe permitiu enfrentar a moral dominante e o levou a perfilhar todos os desafios às estruturas mentais, a transtornar as categorias e os esquemas de percepção impostos pela sociedade, pelos costumes e pelas instituições, fez de Manuel Reis um inventor, um inovador e um transformador. Alguém que era capaz de criar vida e gerar movimento, um portador de inquietude – “ao longo dos anos nunca deixou de se inquietar” (Vítor Belanciano) –, em suma, um homem que, ao desrespeitar as tradições, os modelos do passado e o cortejo da opinião comum, escapou ao registo da normalidade e evitou a insignificância. Esta faculdade de “inventar” coisas novas (por oposição à imitação e à cópia, vistas como artificiais, falsas ou mesmo indignas) é, como todos sabem, uma marca distintiva dos talentos inéditos e um objectivo prioritário dos artistas. De todo este entrelaçado de características nos dão conta, também, os relatos hagiográficos dos nossos cronistas e jornalistas:

Este retrato do iniciador, do homem que "abriu uma brecha" (Augusto M. Seabra), daquele que se notabilizou por "ter acelerado o tempo de um país melancólico, sempre com elegância" (Vítor Belanciano), adquire um sentido ainda mais profundo quando a personalidade de Manuel Reis surge envolta em mistério.

Neste contexto discursivo, a imagem de Manuel Reis assume particular relevo quando coincide com a figura de um ser quase cósmico, omnipotente e omnisciente, que conseguiu regenerar, sozinho, toda uma época, toda uma cultura e toda uma sociedade. Em suma, um revolucionário:

Como todos os revolucionários, porém, Manuel Reis também teve de vencer alguns obstáculos: “Quando Pedro Santana Lopes, então secretário de Estado da Cultura, proibiu que se dançasse nos bares do Bairro Alto, o empresário encheu a pista de cadeiras” (Diário de Notícias). Não só revolucionário, porque “o Manel” (como é grafado por alguns cronistas, para trair familiaridade com o grande singular) (2) foi também um precursor, alguém que “tinha capacidade de olhar e antecipar” (Ana Soromenho), de abrir novos rumos, marcar novos territórios, rasgar novos horizontes. Ou seja, um visionário:

Este retrato do iniciador, do homem que “abriu uma brecha” (Augusto M. Seabra), daquele que se notabilizou por “ter acelerado o tempo de um país melancólico, sempre com elegância” (Vítor Belanciano), adquire um sentido ainda mais profundo quando a personalidade de Manuel Reis surge envolta em mistério, ou rodeada por uma aura onde se misturavam discrição e inacessibilidade, conferindo-lhe uma aparência quase imaterial:

Mas esse mistério é, ao mesmo tempo, revelador da sua comovente humanidade, como se torna patente na modéstia, na abnegação e na generosidade (espécie de “dádiva do carisma”) que brotavam da sua alma:

Filipe Faísca, Lúcia Azevedo e Manuel Reis, no Lux-Frágil, em 2007 © Savio Fernandes

Complemento obrigatório desta personalidade magnética e cativante era o seu sentido de justiça, pois Manuel Reis permanecia o mesmo perante grandes e pequenos, a todos tratando por igual, o que fazia dele uma pessoa, ao mesmo tempo, distante e próxima dos seres vulgares e correntes:

A renúncia ao renome, e a indiferença ou o desdém pelo estrelato, são reforçados pelo “efeito Pigmalião”. É que Manuel Reis, além de tudo o mais, ainda criou condições para o surgimento e afirmação de uma nova geração de artistas, os novos candidatos que tentavam entrar no altamente competitivo campo das artes:

Tão evidente era a sua superioridade que faz todo sentido incensar Manuel Reis como “Príncipe», como “Rei» e como “Mestre”:

Quando as barreiras da distância física eram quebradas e os admiradores se encontravam na tão desejada presença corpórea de Manuel Reis, muitos sentiam-se imobilizados, prestes a explodir de “orgulho”, de “honra” e de “privilégio”:

Este caudal de citações testemunha à saciedade que Manuel Reis inspirava um respeito próximo do sagrado ou do religioso, um atributo que é indefinível pela lógica e pela razão, mas que é comum a muitos indivíduos descritos com recurso às fórmulas hagiográficas tradicionais, que se tendem a renovar perpetuamente na história da cultura ocidental. De facto, sempre que se pretende orientar a compreensão dos indivíduos que se destacaram da colectividade – hoje os artistas, os grandes desportistas ou os líderes políticos como ontem os guerreiros, os príncipes ou os chefes militares –, há uma tendência para atribuir aos grandes singulares uma força “mágica”, de tal maneira que tudo o que eles dizem, fazem ou se relaciona com a sua vida parece possuir um halo de sagrado:

Porque inventou caminhos que nunca antes ninguém tinha explorado e modernizou a cultura portuguesa, tornando-a cosmopolita. Porque pôs tanta coisa em causa e operou uma libertação colectiva, integrando-nos no movimento principal da Europa culta e sofisticada. Porque abriu portas e incentivou os indivíduos a diferenciarem-se uns dos outros. Porque tocou várias artes e vários artistas, jornalistas, etc. Porque graças a ele todos os sonhos e todas as experiências passaram a ser possíveis (“foi um fazedor e concretizador de sonhos”, segundo Ana Soromenho). Porque teve a generosidade de ser um visionário num país rigorosamente medíocre e atrasado. Porque se converteu num exemplo. Porque fez tudo isso sem chamar demasiado a atenção sobre si. Por tudo isso (e por muitas outras coisas que não é possível espremer das palavras: “Quaisquer palavras que possa escrever nunca terão a grandiosidade deste homem”, confessa Dino Alves), Manuel Reis deveria estar sentado agora no trono que merece, numa rua com o seu nome, no Panteão, na imortalidade:

É precisamente isso – o tratar-se de uma situação-limite em que a linguagem tende a ser desordenada e intensa, e em que certas invariantes sociais costumam vir à superfície – que torna os obituários uma esplêndida base metodológica para perceber as constantes de alguns fenómenos sociais.

Estes exemplos, além de mostrarem a persistência e a enorme difusão da crença que tanto artistas como jornalistas têm no “além”, o investimento que uns e outros continuam a fazer na posteridade, servem como ponte de passagem para outros aspectos. Antes, porém, alguns esclarecimentos, que dirijo sobretudo àqueles que estão a pensar que este texto foi concebido para humilhar os amigos de Manuel Reis (ou, ao contrário, que a minha intenção é divertir os seus inimigos), gozando com as suas declarações, mais a mais num momento que, por estar carregado de emoções intensas, se caracteriza pelo derramar de palavras extremas e reacções instintivas.

É precisamente isso – o tratar-se de uma situação-limite em que a linguagem tende a ser desordenada e intensa, e em que certas invariantes sociais costumam vir à superfície – que torna os obituários uma esplêndida base metodológica para perceber as constantes de alguns fenómenos sociais e descrever as características fundamentais dos processos de interiorização e valorização da figura do “indivíduo” como princípio supremo das sociedades ocidentais, aquilo a que poderíamos chamar a “economia da excelência individual”. Isso torna-se particularmente elucidativo no campo da criação e representação artísticas, onde a “invenção estética do indivíduo” está no seu cerne mais profundamente inconsciente (e que tende a emergir, de forma concentrada, nestes momentos de explosão emocional).

Na realidade, a riqueza do material que os obituários de pessoas do meio artístico, ou muito próximas dele, nos oferecem e colocam à nossa disposição é imensa, daí que seja especialmente convidativa à descrição sociológica. Se alguns acham que estou a ser cruel e insensível, lamento muito, mas não me sinto obrigado ou amarrado a nenhum tipo de fidelidade à memória de Manuel Reis, nem a respeitar as posições dos profissionais da hagiografia, que glosam as mesmas ideias e lugares-comuns seja sobre Manuel Reis, seja sobre Herberto Helder, Mário Cesariny, etc.; e que vão continuar a fazê-lo, a toda a hora e a todo o instante, desde que isso lhes seja retoricamente rentável ou encontre eco na sua vaidade (renovando-a de tempos a tempos).

Repito: ao utilizar tantas citações não é meu objectivo meter todas a ridículo, nem admirar outras pela sua meridiana clarividência. Desde logo, porque é impossível saber quem tem razão ou quem é que está enganado relativamente à “vida verdadeira” (se é que tal coisa existe) de Manuel Reis, nem isso é importante para alguém que, como eu, pretende analisar a instauração de um consenso quanto à sua excelência biográfica, através do carácter repetitivo dos dispositivos retóricos utilizados nos obituários; e, ao mesmo tempo, identificar disposições e atitudes comuns específicas a determinados grupos com acesso privilegiado ao campo mediático.

O valor, como explica a socióloga francesa Nathalie Heinich, é uma consequência, e não uma causa, de um processo histórico e social que conduz ao reconhecimento da qualidade de um objecto ou pessoa (para que se perceba melhor: “nós não admiramos a Vénus de Milo porque ela é bela; ela é bela porque nós a admiramos” (3)), de modo que aquilo que me interessa é compreender e analisar esse processo. Por outras palavras, mais do que dizer “Manuel Reis foi um revolucionário porque foi um visionário” (descrição circular ou tautológica, pois seria o mesmo que afirmar que Manuel Reis é considerado grande porque era grande), a minha intenção é explicar porque é que “Manuel Reis passou a ser considerado um revolucionário e um visionário”. Creio que esta é uma forma, entre muitas outras, de contribuir para uma melhor compreensão de alguns fenómenos sociais (ou psicológicos, como é o reconhecimento da superioridade moral e social de um determinado indivíduo, algo que, se é que vos interessa a minha opinião sobre isto, me parece perfeitamente legítimo).

Processos de identificação e de estetização

Os obituários são instrumentos de celebração mas também operadores de distinção, sobretudo daqueles que se inscrevem na esfera de influência do morto que gozava de grande prestígio. Nesse sentido, mais do que mitificar o indivíduo Manuel Reis, rodeando-o de uma aura fascinante e irreal – a sua coerência, a sua perfeição, o seu visionarismo, o seu impecável sentido de justiça –, o que a retórica desses obituários nos mostra é uma parte da elite jornalística e artística lisboeta a fabricar os seus mitos e a realizar os seus rituais. Temos assim uma primeira função dos obituários: a legitimação das escolhas e comportamentos daqueles que foram “tocados” pelo falecido, ou, numa palavra, a valorização do seu estilo de vida. É que, ao conferirem uma dimensão fantástica à história de vida de Manuel Reis, essas pessoas estão a projectar, simultaneamente, uma imagem positiva e sedutora sobre si próprias e o seu passado, a sua juventude prestigiosa, em contacto precoce com muitos daqueles que substituíram a elite mediática do passado e impõem hoje a sua presença e domínio no palco da comunicação social.

Isso faz-se como? Historicizando o seu passado, construindo e rectificando essa imagem no presente, conferindo, a posteriori, uma racionalidade impecável às suas trajectórias pessoais. Por outras palavras o digamos: a reconstituição e inscrição na história social e cultural de toda uma época como actores dominantes, como modeladores dessa época. A este respeito, não há instrumento mais poderoso do que a nostalgia (sobretudo em relação à juventude, considerada a idade de ouro do ser humano), um mecanismo que serve para fixar o transitório, mas também para dar coerência a um mundo perdido do qual fizeram parte, tornando o seu conteúdo significativo não só para eles como para toda a sociedade. De certo modo, o Frágil está, para estas pessoas, como África está para tantos e tantos “retornados” que consomem, com o olhar turvo de lágrimas, aqueles álbuns de fotografias e alimentam o chamado “mercado da saudade”, onde encontramos títulos como Memórias de Benguela e do Lobito, Recordações de Moçambique ou África Desaparecida; ou aqueles DVD denominados Angola Saudade: 60-70 ou ainda Angola. No outro lado do tempo. É que, tal como África para os retornados (os quais, mais do que individualizar as ex-colónias pelo seu nome – Angola, Moçambique, Guiné, etc. –, tendem a referir-se sobretudo a “África”, como se ela fosse um único país de onde foram expulsos e não um continente composto de várias países), o Frágil representa uma totalidade, é a incarnação particular de um espírito geral que atravessa muitos dos nosso actores do espaço mediático: o Frágil era “um lugar onde qualquer coisa virava um acontecimento, onde tudo era especial” (Margarida Martins), “o Frágil virou símbolo de um tempo, de uma forma de estar”, era um “local com aura própria” (Mariana Madrinha e Sofia Martins Santos).

E tal como hoje os “retornados” conseguiram transformar a sua imagem, passando a ser considerados inovadores que revelaram um grande espírito de iniciativa (depois de, durante anos, terem sido considerados “racistas”, “fascistas” e “exploradores dos negros”, passaram agora a “empreendedores” e a “pessoas com uma invulgar capacidade de adaptação e de correr risco”), a actual elite mediática lisboeta (onde curiosamente se integram muitos “retornados”) conseguiu impor a sua orientação estética e a sua ascendência cultural, nomeadamente através da ostentação da sua familiaridade com um determinado ambiente de bom gosto, inovação e sofisticação. Exibir a sua pertença ao círculo íntimo de Manuel Reis ou, o que vai dar no mesmo, situar-se no lugar onde, por excelência, se inventou a modernidade, é uma forma de sugerir, mais ou menos intencionalmente, mais ou menos insidiosamente, que eles próprios encarnam a modernidade, o cosmopolitismo e a elegância, aquela que é conferida pela sempre indefinida e vaga noção de “bom gosto”; e de, no mesmo movimento discursivo – ou seja, através do esquema dualista da mudança de uma sociedade provinciana para uma sociedade urbana e cosmopolita – fazer cair no esquecimento que a cultura da década de 1960, por exemplo, já era cosmopolita, urbana e influenciada por modelos e correntes artísticas que vinham de fora, desde logo de França mas também de Inglaterra e dos Estados Unidos (vejam-se, por exemplo, os estudos de Marcos Cardão) (4), e que, para não irmos mais longe, também os artistas do Cinema Novo reivindicavam essa espécie de “exclusivo” sobre a modernidade, criticando a estagnação e autodefinindo-se como introdutores do novo e do moderno; e que, graças a eles, a cultura portuguesa, antiga e retrógrada, iria finalmente adquirir um ímpeto vanguardista e inovador. Opor-se a tudo o que vem de trás, fazendo tábua rasa das tradições e dos modelos do passado, com o argumento de que se vai construir um mundo novo, é um mecanismo narrativo típico das nossas sociedades. Parafraseando Emerson, nas sociedades contemporâneas cada minuto é sempre novo e o passado está constantemente a ser absorvido e esquecido, porque “só o que chega é sagrado”.

Manuel Reis à entrada do Lux, em Lisboa

Por conseguinte, o que está em causa, quando se critica estes obituários por serem elitistas, umbiguistas e gerarem sentimentos de exclusão, não é a triagem que se fazia à porta do Frágil (como sugere Fernanda Câncio), deixando entrar uns e barrando a entrada a outros. O essencial, a meu ver, é, por um lado, a incapacidade de integrar o cosmopolitismo e a modernidade em processos muito mais amplos, que resultam de factores de origem mais recuada. E, por outro lado, o facto de tantas pessoas do espaço público e mediático não conseguirem perceber (ou não quererem admitir) umas quantas coisas básicas: que o acesso privilegiado ao discurso mediático institucional faz deles “fazedores de opinião” e que isso lhes confere um poder que não está ao alcance da maioria – o poder de impor visões e divisões sobre a sociedade, de reproduzir imagens e narrativas sobre o país e as suas formações colectivas –, mas também uma responsabilidade que é conexa a esse poder: não contribuir para a intoxicação mental dos leitores com observações que amputam a realidade e a restringem a uma única narrativa dominante e redutora de todas as outras (ou vendendo-nos nacos de prosa que podem até ter muito estilo mas que, depois de desbastados, não passam de truques de prestidigitação para iludir as exigências da actividade intelectual).

Com efeito, quando esse poder não é rodeado das naturais cautelas que permitem evitar a redução das realidades a modelos de sentido único, sectários e superficiais, dando a falsa impressão de que todo um país se amoldou à benéfica influência de um indivíduo (Manuel Reis) e da sua corte de amigos e admiradores, é prestar um péssimo serviço à inteligência e à subtileza dos Portugueses.

Desde que o Frágil abriu, em 1982, que nasceram, cresceram e morreram indivíduos, grupos e espaços que desempenharam funções e papéis tão ou mais relevantes que Manuel Reis e as suas discotecas e restaurantes, mas que, pelos mais diversos motivos, não conseguiram, ou simplesmente não quiseram, estabelecer uma rede de contactos e de relações sociais com as pessoas que, tendo acesso à produção simbólica e discursiva, possuíam as ferramentas e o prestígio adequado para divulgar e publicitar os seus negócios, as suas criações e as suas histórias de vida.

Ora, é neste ponto, justamente, que reside o grande feito de Manuel Reis: ter-se sabido rodear de artistas (uns muitos conhecidos, outros nem por isso, ou que só mais tarde se tornaram conhecidos) e especialistas em vários campos (jornalismo, literatura, arquitectura, etc.) para assim dar projecção social e comercial ao Frágil, e, no mesmo gesto, desenvolver o seu negócio, dando-lhe simultaneamente um estatuto artístico. Muito provavelmente porque teve a perfeita consciência de que suscitar a adesão dessa nova elite artística, jornalística e intelectual, promovendo os seus valores estéticos e ideológicos (e a sua fidelidade, considerando-os habitués, através da criação de um ambiente social e estético homogéneo onde a diferença, o original e o fora do comum eram valorizados, não a título de excepção, mas de regra), é uma estratégia comercial bastante eficaz para quem pretende instalar-se solidamente no mundo da boémia nocturna e criar um renome de qualidade. Por esta razão singela: os jornalistas, os intelectuais e os artistas desempenham profissões de produção e representação simbólica, são responsáveis pela construção e reprodução dos sistemas de divulgação, diferenciação e enriquecimento estético. Cinco exemplos servem de ilustrações para o que acabo de dizer:

Eis um dos grandes méritos de Manuel Reis: ter percebido, naquela particular conjuntura socioeconómica (o pós-25 de Abril, quando uma parte das elites do antigo regime tinha sido decapitada, e todo o período de transição para a democracia), que uma nova elite social, artística e política estava em formação e que a melhor maneira de garantir o êxito de um negócio de diversão nocturna era distinguindo-se dos produtos classicamente consumidos pelas elites anteriores, e privilegiando os produtos cujos atributos eram os das classes dominantes emergentes, que começavam a ocupar cargos na imprensa, nas artes ou na política. A seguinte frase de Clara Ferreira Alves é, a esse respeito, significativa: “Ao almoço estava com o Mário Soares numa mesa e depois passava para a mesa da Lydia Barloff”. No Frágil, como noutros locais de distinção social, o êxito dependia tanto da qualidade das instalações e do profissionalismo dos seus empregados, como da capacidade de Manuel Reis para se tornar intérprete dos valores sociais dos seus clientes.

Outro dos talentos de Manuel Reis foi ter “inventado” (aqui sim a palavra “invenção” poderá talvez adquirir todo o seu relevo) uma nova categoria de empresário da noite, rompendo com a definição tradicional do papel que a sociedade atribuía ao empresário da noite e aos espaços de diversão nocturna, e operando a passagem do estatuto de dono de discoteca enquanto categoria profissional a um estatuto de criador artístico, que obedece às mesmas exigências de singularidade e de diferença dos seus clientes (que pertenciam maioritariamente, ou a isso ambicionavam, ao campo artístico). A hipótese mais provável, mesmo admitindo que se trata de uma conjectura puramente académica, é Manuel Reis ter instituído pela primeira vez, graças ao seu carisma e à sua inteligência empresarial, o corte entre o “negócio da noite” apenas como “negócio” e o “negócio da noite” como, também, uma “forma de arte”. Com o que contribuiu para fazer surgir um campo de empresários da noite homólogo do dos artistas (ao mesmo tempo que estabeleceu uma ligação estrutural entre elites de diferentes extracções), fixando assim um outro índice de eficácia para um novo tipo de empresário nesse sector de actividade. De facto, este processo de “estetização” da indústria do lazer, do ócio e do luxo pode aplicar-se igualmente a outros sectores de actividade, por exemplo ao mundo da moda e à gastronomia, que assistiram mais ou menos na mesma altura ao surgimento de novas personagens sociais com estatuto de artistas (ou próximo disso): o estilista ou designer de moda, no primeiro caso, e o conceito de chef de cozinha, no segundo.

Para documentar esta ideia da projecção dos valores da actividade artística no divertimento nocturno, em que este deixa de ser apenas divertimento para ser também arte (ou seja, um divertimento mais digno e mais nobre, que não é puro divertimento, que é muito mais do que isso), regresso às citações:

Como explica o sociólogo Georg Simmel, assim que a maioria começa a imitar as elites e a apropriar-se do seu estilo, aquelas abandonam este último e mudam para outra moda, adoptam uma nova que as distingue das massas, relançando assim o carrossel da moda. E assim sucessivamente.

Esta projecção das disposições artísticas e estéticas nos negócios de Manuel Reis explica a idealização e eufemização dos aspectos considerados impuros (e tantas vezes silenciados) pelos meios artísticos: o negócio, o dinheiro, a satisfação monetária. Porquê? Porque as ideias de criação estética e de negócio continuam a ser inconciliáveis na retórica artística (e apenas na retórica, entendamo-nos) destas pessoas. Não é decerto por acaso, mas por um efeito de mentalidade, que todos os obituários ignoraram olimpicamente o aspecto “impuro” dos negócios de Manuel Reis, ou seja, enriquecer, fazer muito dinheiro. No discurso dos artistas raramente o “metal vilão” aparece como motivo, ou personagem essencial, porque, como alguém disse (cujo nome me escapa agora), “é típico das classes dominantes conferirem às características simbólicas a prioridade sobre as características utilitárias e materiais”.

O carrossel da moda

Tal como não é referido que a passagem do Frágil para o Lux obedeceu ao “carrossel da moda”: a partir do momento em que passou a ser muito conhecido, o Frágil perdeu grande parte do seu poder de distinção e os habitués começaram a frequentar outros espaços que entretanto foram surgindo em Lisboa e que lhes permitiam continuar a satisfazer a sua necessidade de se diferenciarem da massa inculta, tosca e grosseira, constituída por pessoas “sem qualidades” ou, melhor dizendo, “sem particularidades”. Como explica o sociólogo Georg Simmel, assim que a maioria começa a imitar as elites e a apropriar-se do seu estilo, aquelas abandonam este último e mudam para outra moda, adoptam uma nova que as distingue das massas, relançando assim o carrossel da moda. E assim sucessivamente.

Mas a morfologia social dos negócios muda também, como é óbvio, em função de factores económicos (e não apenas dessa necessidade de manter a distinção). Assim, para expandir o seu negócio e fazer mais dinheiro, agora num período de consolidação da nossa democracia e sua internacionalização (Lisboa Capital Europeia da Cultura, em 1994, e Expo98), Manuel Reis precisava de dispor de locais mais vastos e sumptuosamente decorados e arranjados para receber um volume previsivelmente cada vez maior de clientes, entre os quais se começavam já a afirmar alguns indivíduos que se dedicavam às novas formas de arte emergentes. E, nesse sentido, a criação do Lux-Frágil, em 29 de Setembro de 1998, deve ser entendida, também, como um negócio em plena expansão – o negócio de Manuel Reis – e não apenas como um processo altruísta de “reconversão de zonas urbanas votadas ao esquecimento (…). No Cais da Pedra, em Santa Apolónia, acreditando que zonas esquecidas da cidade podiam ser rejuvenescidas através de lógicas diurnas e nocturnas em que coexistiam territórios de boémia, como espaços de restauração, lojas de discos, galerias de design ou de arte” (Vítor Belanciano).

Olhar para o umbigo

Chegados a esta fase, uma pergunta se impõe: mas afinal quem é que fazia parte dessa elite? Aí vão, um tanto ao acaso, as citações:

A nota mais curiosa não é tanto a repetição dos nomes ou a construção, em retrospectiva, de uma imagem do “grupo do Frágil” recorrendo sobretudo aos indivíduos que ocupam hoje posições de destaque (ignorando quase todos aqueles que entretanto morreram, com excepção de Al Berto, Eduardo Prado Coelho e António Variações; ou que, porque não se tornaram famosos, se tornaram invisíveis nas fotografias), porque isso faz parte das regras básicas do jogo mediático. Tão-pouco é importante saber que esses indivíduos, apesar de certamente terem estado integrados nesse grupo em graus variáveis (uns de forma mais episódica, outros de forma mais assídua, habitual ou regular), são convocados a bem de um retrato colectivo e de um ideal de grupo artístico, reunindo os pares num círculo e isolando-o dos outros. Tal como pouco importa a eventual utilidade estratégica ou promocional (preservar e ampliar a presença no conjunto do espaço público, mantendo as suas posições dominantes e a sua liderança cultural) destes obituários.

A questão capital é perceber que estes textos são laboratórios estupendos para quem quiser estudar as elites lisboetas, a sua constituição (por exemplo, através de fenómenos de auto-engrandecimento e de projecção de um suposto carácter excepcional, ou de títulos de nobreza social, sobre o seu passado), as suas tomadas de posição na estrutura dos estilos de vida, os valores que emanam e as suas categorias de percepção. Porque, bem vistas as coisas, os obituários sobre Manuel Reis colocam em jogo, em vários momentos, a identidade do sector lisboeta das elites, a começar pela forma como assumem que o Frágil e a sua clientela “injectou” em todo o país a sua (como dizê-lo?) verdade messiânica:

Fácil é constatar que, para estas pessoas, Lisboa é como uma árvore de tronco vastíssimo cuja copa lança uma sombra infinita sobre Portugal (vício a que também já se referiram João Miguel Tavares, no Público, e Valdemar Cruz, no Expresso). Em nenhum texto encontrei uma única prova empírica de monta que me convença que a acção de Manuel Reis, diferentemente de muitos outros bares, restaurantes, discotecas, etc. espalhados pelo país, tenha produzido, sozinha e isoladamente, um efeito tão estrondoso e tão geral. Aquilo a que assistimos, isso sim, é a um movimento (típico de quem vive na maior cidade de um país com grandes assimetrias regionais, onde se denota uma concentração excessiva das práticas culturais, sociais e institucionais na capital) de universalização que tende a fabricar o geral através do particular (Lisboa = Portugal). E que admite, a brincar a brincar, a formulação contrária: o resto do país não é verdadeiramente Portugal enquanto não se parecer com Lisboa. Basta citar um exemplo, retirado da caixa de comentários do Observador, para se perceber como algumas pessoas do “resto do país” olham para todo o alarido que tem sido criado à volta de Manuel Reis (o qual mereceu, de resto, honras de primeira página no jornal Público):

“Ao Manuel Reis. Vejo que eras importante na noite lisboeta, mas no país real não passavas de um cidadão anónimo, como as dezenas de milhar que se finam por razões naturais em cada ano. Não compreendo como todos os jornais te lembram, sendo jornais nacionais. Nós na província temos nos jornais locais uma secção de necrologia em que sabemos, finalmente e por vezes unicamente, a notícia de que alguém do nosso conhecimento se foi. O país não tem problemas nem casos de sucesso suficientes para encherem as páginas de jornais e isso deve-se aos jornalistas que temos. É uma espécie de censura ao contrário, por preguiça. Publica-se o que aparece à frente e não há pachorra para procurar o país que não é só Lisboa ou Porto” (Carlos Correia).

Arte da distinção

Como todos sabemos, o espaço social é um espaço onde as pessoas se aproximam, se distanciam ou se diferenciam umas das outras através dos bens materiais e das opiniões expressadas, mas também dos códigos de conduta e dos esquemas de classificação entre, por exemplo, o belo e o feio, o bom gosto e o mau gosto, o elegante e o afectado, o natural e o artificial, o saboroso e o insípido (ou intragável), o singular e o vulgar, o digno e o indigno, o extraordinário e o normal, o erudito (ou culto) e o popular (ou ignorante), etc. Normalmente, a legitimação dessas oposições hierárquicas entre o que é valorizado e o que é desvalorizado, entre o que é significativo e o que é insignificante é construída no espaço público da produção discursiva e simbólica. E possui, geralmente, uma retórica própria que tende a estabelecer o “distinto” como sinónimo de “qualidade” (a qual, por sua vez, tende a ser considerada como “inata”).

São vários os caminhos para a distinção social e a linguagem, não oferece dúvidas, é um deles, e dos mais importantes. Às nossas visões e divisões do mundo revelam-se no que vestimos, nos produtos que consumimos, etc., mas também no vocabulário que usamos (as próprias ideologias ocultam-se muitas vezes atrás da terminologia e não apenas nas dimensões, digamos assim, “práticas ou comportamentais” do quotidiano). O vocabulário remete, não raro, para sistemas de linguagem que configuram determinados grupos sociais e lhe dão uma coerência. Por exemplo, dizer “encarnado”, “moradia”, “retrete” ou “presente” em vez de, respectivamente, “vermelho”, “vivenda”, “sanita”, “prenda”, consideradas palavras contaminadas em certos meios sociais. Até o beijo, nestes casos, é um modo de distinção: dar só um beijinho na cara é (ou era) típico e diferenciador de uma determinada classe que tem uma opinião a seu respeito demasiado deslumbrada (para não lhe chamar outras coisas que poderiam ofender o vosso pundonor).

Portanto, os factores de integração que atestam a pertença a um grupo que cultiva a “arte da distinção” (como dizia Émile Benveniste, ser distinto é ser significativo) e se move na esfera restrita dos gostos legítimos são múltiplos e tendem a remeter para a rejeição da “vulgaridade” e da “mediocridade” das pessoas comuns, dos novos-ricos e dos arrivistas:

Dentro desta lógica, como referiram Thorstein Veblen (na sua “teoria da classe ociosa”) e, depois, Jean Baudrillard (na sua análise das sociedades consumistas actuais), o consumo de tempo livre e, sobretudo, a sua ostentação constituem igualmente um motor fundamental das condutas distintivas (não é por acaso que se costuma dizer que “tempo é dinheiro”). Ou seja, além das despesas monetárias e do bom gosto “inerente” a determinadas práticas e comportamentos sociais, também a organização do tempo livre pode ser decisivo, e costuma sê-lo frequentemente, na estruturação e segmentação dos estilos de vida distintivos. Os espaços de lazer, em particular aqueles que não são acessíveis à maioria, como é o caso de certos locais de divertimento nocturno ou de férias, são ambientes propícios para se criar e manter relações de confiança, de familiaridade e de sociabilidade com aquelas pessoas que detêm – e muitas vezes acumulam – volumes consideráveis das três grandes formas de capital: o capital económico (rendimentos, propriedade dos meios de produção, património material e financeiro); o capital cultural (qualificações escolares e intelectuais, cargos de influência nos sectores de produção simbólica, etc.); e o capital social (as redes de relações sociais, institucionais ou não, ou os apelidos sonantes, que são fonte de interconhecimento e inter-reconhecimento). Sobre este último, não deixa de ser curioso este excerto de Davide Pinheiro, publicado no jornal i de 27/03/2018, que exemplifica bem o processo de reprodução social através dos apelidos e de como esse “capital” pode ser mobilizado em proveito próprio: “Já a futura empresária d’A Vida Portuguesa, Catarina Portas, recordava ‘a primeira de todas as outras noites que se seguiram em data’. Com 16 anos, era a única discoteca [Frágil] onde podia entrar. Os pais, Margarida Maria Gomes de Sousa Lobo e Nuno Portas, conheciam o dono”.

Os obituários sobre Manuel Reis constituíram também uma oportunidade para essa elite jornalística e artística converter as suas histórias de vida em matéria-prima de tratamento estético, histórico e cultural. Desde logo, inscrevendo-as na tradição literária da boémia nocturna.

O consumo de tempo livre é um factor de distinção (relativamente a outros grupos que não dispõem nem do dinheiro nem das horas para usufruírem do lazer e da diversão nocturna) precisamente porque permite criar redes de contactos socialmente e economicamente vantajosas, ou seja, porque se trata de um tipo de consumo que possui um efeito multiplicador do capital social, que por sua vez pode ser convertido em capital cultural e em capital económico, e vice-versa. A teoria utilitarista das relações sociais, segundo a qual o tempo consagrado às relações deve ser considerado como uma forma particular de trabalho, que pressupõe um gasto de dinheiro, de tempo e uma competência específica, pode ser desagradável e cínica mas não é totalmente desprovida de pertinência. E torna absurda, no mínimo, a seguinte frase de Clara Ferreira Alves: “Não tínhamos um chavo, à parte isso tínhamos em nós todos os sonhos do mundo” (apetecia perguntar à Pluma Caprichosa se ela sabe realmente o que é não ter um chavo, ou como é que pagava as contas dos jantares no Pap’Açorda).

É no âmbito destas ideias que o discurso, nestes obituários, sobre o respeito pelas diferenças sexuais e étnicas no Frágil precisa de ser contextualizado (mas não negligenciado, porque os espaços de Manuel Reis foram decerto importantíssimos para a afirmação da diversidade sexual, desde logo a identidade homossexual):

Contextualizado porque, convenhamos, nem todo o tipo de pessoas “diferentes” eram ali admitidas: os negros e os homossexuais que não obedecessem aos códigos de vestuário, de estética e de aparência daquela elite artística, ou que fossem completamente desconhecidos daquele círculo social, eram muito provavelmente excluídos pelas porteiras, quer fosse Anamar quer fosse Margarida Martins. Daí que se possa dizer que esse tal respeito pela diferença convivia, simultaneamente, com uma certa “segregação social”, que impediria a entrada, no Frágil, por exemplo, de um cabo-verdiano do Bairro do Alto da Cova da Moura (Amadora) ou de um guineense da Quinta do Mocho (Sacavém). Uma segregação social que tende igualmente a silenciar ou menosprezar a voz dos então moradores do Bairro Alto (em particular os mais idosos) que sofreram com o ruído e viram as suas vidas completamente viradas do avesso por causa das “noites loucas” desta elite de lazer – “E podíamos levar o copo para o passeio, sentar por ali às quatro da matina, com a música ao fundo e as gargalhadas da Guida gorda” (Clara Ferreira Alves) –, para não falar das profissões que foram expulsas daquela zona da cidade ou “deslocalizadas” para as periferias e para outras zonas menos centrais da cidade.

O teatro da vida boémia

Nestas condições, os obituários sobre Manuel Reis constituíram também uma oportunidade para essa elite jornalística e artística converter as suas histórias de vida em matéria-prima de tratamento estético, histórico e cultural. Desde logo, inscrevendo-as na tradição literária da boémia nocturna. O estatuto de existência à margem, desta boémia lisboeta, impôs-se, desde logo e para começar, porque o Frágil foi criado num bairro (o Bairro Alto) que tinha má-fama e era frequentado, maioritariamente, por prostitutas, marinheiros, carteiristas, fadistas, jornalistas e outros trabalhadores nocturnos (como os tipógrafos e distribuidores de jornais), o que durante muito tempo alimentou um imaginário composto de ambientes sórdidos de marginalidade, violência, crime, etc. O que a assemelha a todas as outras boémias: basta ler as descrições literárias, sobretudo francesas, onde a boémia surge quase sempre associada, e se desenvolve, em meios conexos aos da prostituição e da marginalidade. Os traços característicos da boémia, já se sabe, são a independência, a liberdade, o cosmopolitismo, hábitos alegres e amores fáceis, sem horários fixos, os excessos, a excentricidade, quase todos inseparáveis daquilo que se considera ser a aprendizagem da verdadeira criação e originalidade artísticas:

Os indivíduos implicados na circulação dos valores artísticos da originalidade e da singularidade têm interesse, está bem de ver, em publicitar a sua existência mundana, desde que ela seja apresentada enquanto tal, ou seja, recheada de acontecimentos que, para corresponderem à imagem idealizada da vida dos artistas, têm de ser extravagantes e não podem parecer-se a nenhuns outros (nesse sentido, as descrições dos excessos e das loucuras dos clientes do Frágil obedecem também à representação que dos artistas fazem as outras pessoas). Mesmo que, para tal, se tenha de recorrer ao modelo das revistas cor-de-rosa, onde a vida mundana e semiprivada das festas e ocasiões sociais é oferecida à plausível curiosidade dos leitores, como acontece na página da Internet que reúne uma série de fotografias da época de ouro do Frágil (sobre isto leia-se o artigo de Cláudia Lima Carvalho, “Esteve nas noites do Frágil? Espreite aqui”, Público, 18/09/2014). Neste particular, vem a talhe de foice outra pergunta: as actividades culturais das elites interessam ao leitor médio? Aparentemente sim, a avaliar pela adesão (alguns autores marxistas chamar-lhe-iam “cumplicidade paradoxal dos dominados”) a muitas das classificações operantes nestes discursos. Repare-se nesta afirmação retirada também da caixa de comentários do Observador: “Morreu um visionário que fez mais para mudar e modernizar Lisboa, para mudar mentalidades, do que os políticos todos juntos!”.

Dinâmicas paradoxais e permanências estruturais

Identificados assim alguns mecanismos de produção de um colectivo e de formação de um bloco social, não será talvez supérfluo referir o paradoxo destas elites artísticas que assentam a sua identidade nos valores do diferente, do único, do original, do singular, do irrepetível, do raro, do inimitável. Refiro paradoxo porque os obituários sobre Manuel Reis mostram-nos outro aspecto para o qual vários sociólogos (Simmel, Heinich, Bernard Lahire) já chamaram a atenção: a definição da especificidade e da originalidade pessoal faz-se no cruzamento de pertenças colectivas. Dito de outra maneira, o que é único é-o através do que é comum e partilhado por um pequeno grupo, o que aponta claramente para duas dinâmicas antagónicas: o “eu” que pensa a sua especificidade através de um “nós” e da reivindicação de pertenças diversas. E testemunha “as dificuldades que os produtores simbólicos sentem em conjugar os critérios da singularidade e do trabalho em comunidade”. (6)

Também por isso, a muito propalada heterogeneidade e diversidade das vozes narrativas (e dos clientes dos espaços criados por Manuel Reis, sobretudo o Frágil), onde encontramos designers, actores, cenógrafos, músicos, criadores de moda, artistas plásticos, escritores, jornalistas, arquitectos, fotógrafos, deve ser problematizada:

Uma vez mais, trata-se de uma retórica que silencia as afinidades essenciais de um espaço – Frágil – que era, em tantas coisas, socialmente homogéneo. Era homogéneo nos recursos de muitos dos seus clientes (todos tinham dinheiro, pelo menos, para o frequentar, mas, sobretudo, tempo livre para usufruir, com alguma regularidade, dos espaços de lazer e divertimento nocturno); era homogéneo nas aspirações quanto à organização das suas vidas profissionais, materiais e simbólicas; e, como penso ter demonstrado, na unidade dos pontos de vista sobre Manuel Reis e sobre a forma como as suas próprias trajectórias se cruzaram com aquele empresário da noite (mesmo que, em alguns casos, essa unidade obedeça sobretudo a conveniências conjunturais).

Com efeito, os obituários sobre Manuel Reis elucidam-nos acerca do que é comum a estes sectores do meio cultural, que podem até parecer concorrentes ou divergentes mas que, no essencial, têm demasiadas parecenças, nomeadamente nos valores sociais que defendem e que tentam inculcar como legítimos e superiores; nos procedimentos e estilos de vida que pretendem impor e fazer respeitar; e ainda nos modos de pensar, que se repetem recorrentemente e que não são socialmente diversos, antes apontando para a permanência estrutural de crenças e valores sobre os quais todos ou quase todos concordam mais ou menos tacitamente. Colaboração cognitiva e intelectual, diga-se em prol da verdade, que os tem mantido ao abrigo de uma autoconsciência vigilante sobre os seus próprios discursos, como de resto é notório na forma invariavelmente inútil como reagem às críticas dos leitores e de outros actores do espaço público (veja-se Vítor Belanciano, “Os umbiguistas e o legado de Manuel Reis”, Público, ou Fernanda Câncio, “Ficar à porta da história”, Diário de Notícias, ambos de 02/04/2018). De uma coisa podemos estar certos: os textos sucedem-se, as palavras mudam ligeiramente, os termos e as expressões podem até ser substituídos por sinónimos ou eufemismos, mas as representações, as visões do mundo, os estereótipos, os temas pré-fabricados de discurso e os preconceitos sociais a que esses conceitos estão ligados reproduzem-se sistematicamente e apontam, usando a sempre estimulante terminologia de Clara Ferreira Alves, para “um colectivo soviético” (“Não se podia ter ponto de vista, a imaginação e a inteligência eram um colectivo soviético”, Expresso de 30/03/2018). E, assim sendo, tudo indica que esta elite encontrou num suposto anti-convencionalismo exterior o meio que lhes permitiu esconder e perpetuar o seu convencionalismo interior.

Algumas conclusões

Vai excessivamente longa a análise desta questão. Ainda assim, não queria terminar sem sintetizar algumas ideias que, apesar de sustentadas em sobejas citações, talvez careçam de melhor arrumação. A primeira é que o processo de reverência biográfica e de construção de lendas repousa num esquema relativamente simples, mas que não dispensa um certo número de operações que são constitutivas dos discursos hagiográficos: descontinuidade (um antes e um depois); oposição ao estabelecido e aos modelos reconhecidos e aceites pelas gerações mais antigas; conduta diferenciadora em relação à massa amorfa e indistinta (originalidade, singularidade, transgressão); mistério e carisma (desprendimento em relação à notoriedade e renúncia à exposição pública, discrição, recusa de dar entrevistas); generosidade, desinteresse ou humildade (capacidade de tocar e mudar muita gente). E, por fim, dramatização:

Em segundo lugar, ser-se cosmopolita, moderno, original e possuir um visual elegante, apesar de serem valores transmitidos socialmente desde, pelo menos, o século XIX, tendem a ser apresentados, por cada nova elite que ascende aos lugares dominantes, como uma invenção inédita e exclusivamente sua. Em terceiro lugar, a fixação e manutenção de padrões, de valores de consumo e de relações sociais resulta da convergência estratégica de condutas individuais (mesmo que não tenham sido vividas como estratégicas) que obedecem a múltiplos determinismos sociais (daí que os conceitos de “geração” e de “fenómeno de superfície”, utilizados por António Guerreiro no Público de 6/04/2018, me pareçam tiros de pólvora seca). Depois, além da função de inculcação de valores distintivos e de orientações estéticas (bom gosto, elegância, sofisticação, consumos requintados, etc.), as narrativas do tempo de lazer vivido no Frágil (o principal contexto a que quase sempre me fui reportando) servem para impor um determinado estilo de vida colectivo que, por merecer a pena ser observado, se torna objecto de deferência (ergo, de desejo e de inveja).

Por outro lado, é importante reforçar outra ideia transversal a tudo o que ficou aqui dito: a singularidade de um indivíduo será tanto maior quanto maior a quantidade de discursos que a confirmam e se cristalizam em torno dele. De modo que o atípico de Manuel Reis é sobretudo o resultado do cruzamento de discursos independentes entre si mas interdependentes na produção da sua singularidade.

Os nossos cronistas e jornalistas de Lisboa infundiram nos profanos (os que não conheceram pessoalmente Manuel Reis) a crença nas faculdades auto-evidentes e puramente individuais do fundador do Frágil enquanto criador da moderna, cosmopolita e elegante “noite portuguesa”. Uma invenção em que eles intervieram, de maneira tanta vez decisiva, graças ao calor da sua presença na pista de dança do número 126 da Rua da Atalaia. Mas também, e sobretudo, graças à inquietante tendência (um vício mais comum do que se pensa) para confundirem as suas memórias individuais com a memória de todo o País.

Notas de rodapé:

  1.  Em O Óbvio Ululante, Nelson Rodrigues relata uma cena num velório em que a mulher do falecido, chorando como uma dama das camélias (e saltando aos gritos para cima do caixão), nunca se lembrava de assoar o nariz: “Eis o que me pergunto, com justo pânico: – não estarei fazendo um involuntário deboche? Nem tanto, nem tanto e pelo contrário. Acaba de me ocorrer uma verdade realmente patética: – a grande dor não só não se assoa, como é humorística”.
  2. Paradigmático disso mesmo é a crónica de Clara Ferreira Alves, que intitulando-se simplesmente «Manel» (Expresso de 30 de Março de 2018), assume dimensões catastróficas.
  3. Charles Lalo, L’Art et la vie sociale, Paris, Doin, 1921.
  4. Em particular: Marcos Cardão, “‘A juventude pode ser alegre sem ser irreverente’. O Concurso Yé-Yé de 1966-67 e o luso-tropicalismo banal”, em Nuno Domingos e Elsa Peralta (org.), A Cidade e o Colonial. Dinâmicas coloniais e reconfigurações pós-coloniais, Lisboa, Edições 70, 2013, pp. 319-359; ou ainda Mário Lopes, “A obra-prima Blackground, agora e por fim”, Público, suplemento Ípsilon, 23 de Março de 2018.
  5. Há quem diga que a canção intitulada “Frágil”, de Jorge Palma – «Frágil / Esta noite estou tão frágil» – também foi escrita a pensar na discoteca de Manuel Reis.
  6. Apenas a título de exemplo, veja-se Nathalie Heinich, “L’élite artiste. Excellence et singularité en régime démocratique”, Paris, Gallimard, 2005.
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