Melo não gosta de ir “à pendura”, prefere guiar. E Cristas aceita votos “de todos os lados”

14 Maio 2019

O CDS esteve em Coimbra, nas zonas fustigadas pelos fogos de 2017. Melo começou de camião, a mostrar as más acessibilidade, Cristas ajudou a mostrar exemplo da casa recuperada da D. Laura.

Para conduzir um camião pesado de transporte de mercadorias é preciso carta própria, e essa Nuno Melo não tem. Logo, foi no lugar do pendura. O trajeto era pela Nacional 2, entre a Ponte de Louredo, em Vila Nova de Poiares, e a sede da empresa de transporte de mercadorias Transfraga — caminho que, conta quem o faz diariamente, é muito “acidentado” e passa por localidades que até já têm muros danificados, tal é a vibração dos camiões a passar para lá e para cá.

“Mesmo quando vai de pendura, o CDS tem feito a diferença”

A ideia da viagem era precisamente mostrar que há um estudo feito sobre um caminho alternativo, para ligar a A13 ao IP3, sem passar pelas localidades e para facilitar o escoamento das mercadorias. O estudo, conta ao Observador Paulo Carvalho, da associação empresarial de Vila Nova de Poiares, até chegou a ser apresentado há meio ano ao ministro competente. Que era quem? Pedro Marques, até há pouco ministro do Planeamento e das Infraestruturas, e hoje candidato do PS ao Parlamento Europeu. “Disseram-nos que estavam a estudar essa alternativa”, conta, estimando um gasto de cerca de 80 milhões de euros para a construção daquele troço de 22 quilómetros. Dinheiro esse que, complementaria Nuno Melo, podia ser amenizado com recurso a fundos europeus próprios para as acessibilidades.

PAULO NOVAIS/LUSA

Melo, já se sabe, não tem carta de pesados e por isso teve de viajar no lugar do pendura. Gostou? Nem por isso. Quer dizer, “quando o condutor tem melhor capacidade do que o pendura, devemos deixá-lo conduzir”, começaria por responder, entendendo a provocação dos jornalistas como um paralelismo à liderança do CDS, onde Melo deixou o caminho aberto para Cristas. Mas rapidamente faria marcha atrás ao perceber que o paralelismo podia ser feito com a velha coligação PSD/CDS, que nas últimas eleições andavam de mão dada. “A vocação do CDS é pilotar, não é ser pendura, e tudo o que o CDS faz, e a lista de pessoas que tem, mostra que o CDS era melhor a conduzir, só não teve ainda os votos para isso”, disse. Assim como assim, “mesmo quando vai de pendura, o CDS tem feito a diferença”.

Estava lançada a bicada ao partido tendencialmente amigo. E não seria a única. A caravana do CDS seguiu para uma visita a uma empresa de produção e distribuição alimentar ali ao lado, a Nutriva, na mesma zona que, em outubro de 2017, ficou rodeada pelo fogo. O objetivo era mostrar um “bom exemplo” de superação perante as dificuldades envolventes. No meio dos bolos, doces, sobremesas, croissants, pães, pães de Deus e pastéis de nata em processamento, Nuno Melo admitira que era guloso. “Gosto muito de bolos, mas também como uma frutinha”, para manter a forma. “Laranja, por exemplo?”, provocariam os jornalistas novamente. “Nós gostamos muito de comer uma boa laranja no CDS”, respondeu entre risos, numa alusão ao PSD.

Para o PSD, Melo vai soltando umas “bocas”, aqui e ali, mas é para o PS e o Governo que vão os ataques. “Viemos aqui ver as enormes potencialidades do interior e dar o exemplo de empresas que, com dificuldades, se instalaram e reinvestiram”, dizia, para depois ser questionado sobre o facto de aquela empresa do setor alimentar ter beneficiado de fundos comunitários em 2016 e 2018. “Mal fora que o Governo não aprovasse alguns projetos, o importante é que os fundos devem ser aproveitados no máximo possível e isso não está a acontecer”, disse. No final da visita, e enquanto uns comiam uns pastéis de nata e trocavam dois dedos de conversa, Pedro Mota Soares subia para uma bicicleta que embelezava o cenário e começava a pedalar. Só que de Coimbra até Bruxelas são 1880km de viagem… ainda terá muito que pedalar.

Dois anos depois dos fogos, D. Laura tem a casa reconstruída. Empurrão de Cristas?

A poucos quilómetros de Vila Nova de Poiares está Oliveira do Hospital, outros dos concelhos mais afetados pelos fogos. E é para lá que segue a caravana centrista, já com Assunção Cristas a juntar-se ao grupo. Cristas já ali tinha estado em dezembro, e deparou-se com muitas casas cuja reconstrução estava parada, por falta de pagamento aos empreiteiros, e entregues ao abandono. A casa de Laura, de 95 anos, era uma delas. Boa notícia: a casa está pronta e vai mudar-se para lá já este sábado, depois de dois anos a viver em casa da filha.

A que se deveu o “desbloqueio” do processo, que acelerou a reconstrução? Ao CDS, pois. Assunção Cristas puxa a si os louros, por ter ido ali em dezembro e ter “dado visibilidade ao caso”. Seguiram-se reportagens de programas de televisão, e a pressão aumentou. “Foi com a pressão adicional da nossa presença que as coisas se desbloquearam”, conta, sublinhando que o caso de Laura era visto como “prioritário”, pelo que “ainda há muito por reconstruir e por fazer”. Com 95 anos, Laura diz que já não vai gozar a casa nova e só se lembra da sua “casinha” que foi destruída. Ainda assim, Cristas deseja-lhe uma boa mudança: “Entre com o pé direito”.

PAULO NOVAIS/LUSA

Nuno Pereira, da Associação de Apoio às Vítimas dos incêndios, concretiza os números daquilo que Cristas diz que ainda está por fazer: de um total de 220 casas validadas para reconstrução em Oliveira do Hospital, ainda só foram recuperadas cerca de 60%. “Mas o que nos preocupa não é o que já foi feito, é o que está por fazer, e sobretudo aquelas casas que foram destruídas pelos fogos mas não foram validadas para reconstrução por um critério ou outro não preenchido, como o facto de a habitação estar inserida numa zona agora considerada reserva. “Centenas de pessoas nunca vão voltar a ter casa”, diz. Ao seu lado, um senhor servia de exemplo: “Vou construindo à medida que for conseguindo…”

De braço dado com Nuno Melo para não escorregar no terreno sinuoso, Assunção Cristas rejeita a ideia de que falar dos fogos de 2017 em plena campanha eleitoral para as europeias seja aproveitamento político. “É compromisso com as pessoas que dissemos que não abandonaríamos”, respondeu. “O nosso dever é estar no terreno, olhar à volta e ver que os fundos da floresta não estão a ser executados e que a recuperação prometida das casas é lentíssima. Por isso, o nosso compromisso é estar junto das pessoas que dizem que se sentem abandonadas pelo Governo”, atira ainda.

Ouvidas as queixas dos que continuam à espera e aplaudida a casa que espera Laura no sábado, Assunção Cristas deu a visita por terminada. Mas não sem antes ouvir de um dos populares um pedido de desculpas inusitado: “Desculpe lá, é que eu sou do outro lado…”, diria o senhor meio sem jeito, dando a entender que não tem por norma votar no CDS. Cristas não fez caso disso. Pondo-lhe a mão no ombro, disse: “Não faz mal, nós aceitamos votos de todos os lados”. E seguiram os dois rua fora, braço no ombro, lado a lado.

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