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Suzana Garcia impôs um ritmo rápido à arruada na Amadora

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Suzana Garcia impôs um ritmo rápido à arruada na Amadora

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Na Amadora, o "furacão" Suzana Garcia toma conta da campanha com o tema da segurança, mas PS sente que tem a vitória segura

À porta de Lisboa, a campanha na Amadora foi tomada pelo "furacão" Suzana Garcia. A incumbente Carla Tavares, do PS, com vitória na mira, responde com campanha discreta. O BE pode perder a vereadora.

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“Obviamente, facilita o serviço.” Suzana Garcia, a advogada que se tornou conhecida do grande público após anos a comentar crimes e casos de justiça nas manhãs da TVI, não hesita em assumir que a exposição mediática lhe dá uma vantagem considerável agora que se voltou para a política e concorre à liderança da câmara municipal da Amadora. “É evidente que as pessoas, quando olham para mim, não veem uma completa desconhecida. Associam a mim todas as coisas que eu defendi, pelas quais me fui batendo ao longo dos anos, numa estação de televisão — duas, na verdade, a TVI e a TVI24 — com as quais colaborei”, diz Suzana Garcia ao Observador, num banco de jardim no parque Delfim Guimarães, a meio de uma arruada pelo centro da cidade da Amadora.

Suzana Garcia (PSD, CDS-PP, Aliança, MPT e PDR) e Carla Tavares (PS) distribuem rosas na campanha eleitoral na Amadora

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

É o primeiro dia oficial de campanha rumo às autárquicas de 26 de setembro e na Amadora — e a disputa no concelho contíguo à capital, habitualmente conhecido como um dormitório para quem faz vida em Lisboa, é uma das mais acirradas da metrópole: a atual presidente, a socialista Carla Tavares, recandidata-se a um terceiro e último mandato. Em 2017, o PS ganhou a autarquia com 47,97% dos votos, o que lhe valeu uma maioria absoluta de 7 vereadores em 11. Este ano, a corrida parece encaminhada para uma nova vitória socialista, mas o surgimento de Suzana Garcia — descrita dentro da campanha social-democrata como um “furacão” — está a agitar as águas devido ao discurso securitário e aos slogans sonantes como “o sistema vai tremer”. Nas últimas eleições, o PSD só conseguiu eleger dois vereadores e, embora Suzana Garcia não admita publicamente outro resultado que não a presidência, dentro da campanha assume-se que aumentar o número de vereadores será uma vitória significativa (numa campanha que muitos críticos veem como um trampolim de Suzana Garcia para voos políticos mais altos).

Suzana Garcia chega à avenida Santos Mattos, de frente para a estação de comboios, com cerca de meia-hora de atraso, que a equipa justifica com uma agenda de campanha muito cheia. Por ali já estão cerca de 20 apoiantes da candidatura. As bandeiras são cor de laranja (embora Suzana Garcia insista em não se apresentar como candidata do PSD, mas de uma ampla coligação), grande parte dos apoiantes enverga t-shirts personalizadas com o lema “Dar Voz à Amadora” e até as máscaras, o merchandising eleitoral clássico do ano da pandemia, são da candidatura. Mas o que chama verdadeiramente a atenção de quem por ali passa são os dois carros elétricos da campanha, que dão voltas ao quarteirão com altifalantes que repetem até à exaustão as rimas do hino de campanha. Hermenegildo Carvalho, um dos membros da lista e candidato a vereador, vai organizando, agitado, a receção à cabeça-de-lista.

A chegada de Suzana Garcia é assinalada com um fortíssimo aplauso dos apoiantes, gritos de ordem de “SU-ZA-NA! SU-ZA-NA!” e um aumento de volume do hino de campanha, que já vai provavelmente na décima repetição desde que o Observador ali chegou. Suzana Garcia não se demora. Chega vestida com um fato azul-claro, pede que lhe entreguem os panfletos que deverá distribuir e assume de imediato a cabeceira do cortejo de apoiantes, que se lança pelas ruas adjacentes à linha férrea com uma velocidade impressionante. O rosto televisivo de Suzana Garcia, a única do cortejo a seguir sem máscara, é reconhecido de imediato por muitas pessoas, sobretudo idosos. “É a do Goucha”, ouve-se à passagem da candidata, que distribui abraços, fala alto e trata muitos dos que vai encontrando pelas ruas por “meus queridos” e “minhas queridas”.

Suzana Garcia passou a tarde do primeiro dia de campanha a distribuir rosas brancas a eleitores nas ruas da Amadora

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

O barulho da campanha de Suzana Garcia contrasta com a calma silenciosa do cortejo de Carla Tavares, a candidata socialista que vai dividindo os seus dias entre algumas ações de rua na cidade e o trabalho no executivo, que não parou — e que por estes dias, com os procedimentos associados ao arranque do ano letivo e à transferência do centro de vacinação do atual pavilhão gimnodesportivo para um outro pavilhão na Brandoa, até se intensificou. No dia em que o Observador acompanhou a arruada, dentro da estrutura de campanha de Carla Tavares, comentava-se que este sempre foi o ADN do Partido Socialista ali: sem carros de som, sem gritos, muito contacto com a população e muita distribuição de documentos. É uma campanha “low-profile” — que sempre foi assim e que Carla Tavares recusou fazer subir de tom para combater Suzana Garcia.

Em conversa com o Observador durante uma passagem pela câmara municipal para assinar os despachos saídos da reunião do executivo do dia anterior, a atual autarca contorna o tema Suzana Garcia, cuja eleição como vereadora é praticamente certa. Mas dentro da estrutura socialista no concelho, há quem lamente o estilo de campanha adotado pela ex-comentadora, baseado em “inverdades” e em “jogos de redes sociais” que contrastam fortemente com o modo sereno como até hoje as disputas eleitorais decorreram no concelho.

A primeira semana de campanha eleitoral na Amadora ficou marcada pela sondagem divulgada pela RTP e pelo Público — e que confirma grande parte das previsões. Se os resultados de dia 26 forem os da sondagem, feita pela Universidade Católica, o PS manteria a maioria absoluta (com sete vereadores em 11), a candidatura de Suzana Garcia elegeria três (mais um dos que os atuais dois do PSD, o que seria celebrado como um resultado positivo da aposta social-democrata) e a CDU manteria um vereador. Já o Bloco de Esquerda, que atualmente tem uma vereadora na câmara municipal, ficaria sem ela.

Carla Tavares, a atual presidente da câmara municipal da Amadora, numa arruada mais discreta pelas ruas da cidade

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Trata-se de Deolinda Martin, uma antiga professora do ensino primário que atualmente é vereadora e que encabeça a lista dos bloquistas à câmara municipal. Ciente da importância de manter uma representação no executivo amadorense, o Bloco de Esquerda jogou todas as fichas logo na primeira semana de campanha e enviou a líder nacional do partido, Catarina Martins, a uma ação de campanha na escola secundária Seomara da Costa Primo, no centro da Amadora, para elogiar as competências da candidata autárquica e para desferir duras críticas ao PSD: antevê uma “derrota moral” do partido de Rui Rio por se ter deixado “instrumentalizar” por Suzana Garcia, que está mais interessada numa “imitação da extrema-direita” do que em servir os interesses da Amadora.

Suzana Garcia e a segurança no topo das prioridades

Graça Rodrigues, de 67 anos, é florista no Centro Comercial Colina do Sol, em Alfornelos, há 17. É ali que Suzana Garcia se abastece de flores — a candidata gosta de girassóis, mas recentemente a maior encomenda tem sido de rosas brancas, que a advogada vai distribuindo às mulheres que encontra na rua durante as arruadas. “Já a conhecia de a ouvir falar na televisão e gostava muito dela. Tenho a certeza de que vou votar nela”, diz a florista ao Observador, minutos depois de Suzana Garcia passar na loja durante uma visita ao centro comercial. Porquê, perguntamos. “Porque alguma coisa tem de mudar.”

A florista não hesita em colocar os problemas de segurança no topo das suas preocupações. “Eu já fui assaltada e há aí muita droga. Alguém tem de fazer alguma coisa. É assim há tantos anos…”, desabafa Graça Rodrigues.

As próprias flores são um motivo para Suzana Garcia se atirar ao PS e a Carla Tavares, acusando os socialistas de terem imitado a sua candidatura e de também terem começado a distribuir rosas (mas vermelhas) aos eleitores nas ruas. Na campanha do PS, há risos quando se pergunta por esta polémica floral. “Eu há 17 anos que distribuo rosas nas campanhas”, diz um elemento da comitiva socialista. Afinal, a rosa vermelha é também ela um dos históricos símbolos do PS e uma presença comum nas campanhas socialistas. Mas a conversa com a florista Graça Rodrigues é apenas um de muitos exemplos de como o discurso securitário de Suzana Garcia lhe pode valer um bom resultado autárquico na Amadora.

Suzana Garcia encabeçou uma arruada pequena, mas ruidosa, pelas ruas da Amadora

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Algumas propostas de Suzana Garcia, como a criação de uma super-esquadra da PSP na Amadora ou o reforço da Polícia Municipal, têm sido criticadas por outras candidaturas por visarem o problema da segurança apenas pela via policial. Mas, apesar das críticas e das colagens ao discurso ultra-securitário da extrema-direita e do Chega, Suzana Garcia não abranda o discurso. Um cartaz colocado à entrada da cidade com a mensagem “Dia 26 de setembro os criminosos vão tremer” tornou-se num dos símbolos da campanha da advogada, que pretende transformar a Amadora no “concelho mais seguro do país”.

“Eu não faço discursos a pensar no que é que isso pode prejudicar-me ou não em relação a outros partidos. Eu faço discursos a pensar naquilo que é necessário e imperioso no concelho da Amadora”, diz Suzana Garcia ao Observador, quando questionada sobre se um discurso excessivamente centrado na necessidade de policiamento e de combate ao crime não contribui para que seja associada à extrema-direita. “Aqui no concelho da Amadora, acho que os partidos mais extremados, e dirijo-me concretamente ao Bloco de Esquerda e ao Chega, não vão ter sucesso. Acho que o povo da Amadora é um povo sensato e o Chega não é um partido sensato.”

Confrontada com as acusações de populismo associadas ao seu discurso, Suzana Garcia desembainha uma sondagem qualitativa realizada pela estrutura do PSD para a Amadora. “Vinha no topo da lista, de facto, a segurança, a habitação e a limpeza dos espaços públicos”, diz a candidata. “Portanto, o meu discurso tem de estar centrado e preocupado nos ensejos da população. A interpretação que os outros possam fazer sobre eu estar mais perto ou mais longe desses partidos é um problema dessas pessoas que fazem essas interpretações. Acho que já chegámos a um patamar em que só mesmo alguém profundamente néscio é que percecionava em mim qualquer coisa ligada com esses partidos. Se eu estivesse próxima deles, tinha aceite um dos múltiplos, múltiplos convites que me foram sendo feitos ao longo dos anos. Se eu declinei e se me comprometi com estes, é porque me revia nestes e não nesse.”

Durante a viagem de carro entre dois pontos da cidade — a zona da estação de comboios, onde distribuiu panfletos, e o centro de saúde de Alfornelos, onde denunciou a deterioração das instalações (onde, garante, entram “ratos do tamanho de coelhos” por enormes rachas na parede) —, apontou a outro alvo: os grafittis que poluem a paisagem urbana na Amadora. Olhando-os da janela do carro, sublinha a necessidade de punir quem os faz.

Suzana Garcia entre durante uma das curtas viagens entre as muitas ações de campanha de um dia cheio

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Suzana Garcia sabe fazer campanha. Comunicadora treinada por anos de televisão, alterna entre o passo apressado, o sorriso rasgado e a conversa demorada com alguns que se mostram abertos ao voto nela. “Minhas queridas, um convite, dia 26 não fiquem em casa”, atira a três idosas que lancham numa mesa de café, deixando-lhes o panfleto, uma carta em que se dirige a cada eleitor com um conjunto de promessas que incluem triplicar a área verde por habitante, requalificar centros de saúde, transportes públicos gratuitos para jovens e idosos, 1.500 bolsas de estudo, o fim das “barracas” e, claro, o endurecimento do combate à criminalidade. “Não tem de ser uma fatalidade que a Amadora esteja condenada a ser um dos concelhos mais inseguros do país”, escreve Suzana Garcia na carta que deixa a quem se cruza com ela na rua.

Dentro do cortejo social-democrata, há quem admita que já esteve menos confiante no início da campanha — mas que a adesão dos amadorenses ao discurso de Suzana Garcia tem sido visível com o avanço da pré-campanha. O maior desafio é, como admitem alguns dos membros da estrutura da campanha de Suzana Garcia, mostrar às pessoas que a candidata é mais do que uma celebridade televisiva e tem um projeto político. É incontornável que a cara de Suzana Garcia é conhecida quase exclusivamente pela televisão. Uma das três idosas do parágrafo anterior terminou a interação com a candidata com um desejo: “Deus queira que vá para a câmara.” Mas até durante essa conversa uma delas esclareceu: “É a da TVI.”

Para o aparelho social-democrata na Amadora, é esse o desafio. E a própria candidata admite que não basta ser famosa — embora a notoriedade pública a ajude a chegar às pessoas. “A minha imagem pública é aquela que eu tenho sempre. A TVI, o que fez, foi amplificar o acesso à minha imagem que outras pessoas já tinham no decurso da minha profissão”, diz ao Observador. “Mas isso dá-me só visibilidade. Não me dá o sumo que estas pessoas querem. Você não vota nas pessoas só porque as conhece. Vota na pessoa porque se revê nela. Claro que essa visibilidade me ajuda a chegar ao eleitorado, mas isto é um eleitorado, não são só audiências para ver quem é que consegue ganhar mais. Este eleitorado está agora preocupado em querer saber, em perscrutar quais são os meus valores, qual o projeto que tenho para eles, e se se revêem em mim ou não para fazer os votos.”

E é difícil mostrar aos eleitores que é mais do que uma personalidade da televisão? “Acho que isso é uma dificuldade mais do comentariado político nacional do que do povo.”

“A segurança não é só um polícia em cada esquina”

A arruada de Carla Tavares, que o Observador acompanhou dois dias depois sensivelmente nas mesmas ruas perto da estação de comboios, é o exato oposto da de Suzana Garcia. As diferenças entre a incumbente e a principal opositora são evidentes: certa de uma vitória eleitoral, Carla Tavares mantém-se discreta e opta por exibir os trunfos de dois mandatos — uma pequena revista de 40 páginas com o título “cumprimos” e com uma extensa lista de objetivos cumpridos nos últimos anos. Por outro lado, embora não seja tão rapidamente conhecida nas ruas como a adversária-celebridade, é reconhecida por muitos como “a presidente”. Alguns para elogiar, outros para deixar críticas sobre passeios estragados ou deficiências na recolha de lixo.

“A Amadora melhorou muito com a doutora Carla”, diz ao Observador Emídio Vieira Carriço, 74 anos, depois de uma breve conversa na rua com a recandidata. “Sobretudo, essas pistas que fizeram para se fazer exercício. É que eu sou um gajo que não pode estar parado, percebe? Agora com a quimioterapia ando mais parado, mas não pode ser. Desde que ela veio para aqui, a cidade melhorou em muitos aspetos.”

Carla Tavares durante uma arruada na manhã de quinta-feira no centro da Amadora

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

O homem, intercetado por Carla Tavares a caminho da padaria para comprar o pão da manhã, garante, alto e bom som, que estará lá no dia 26 para “fazer a cruzinha”. A alternativa social-democrata representada por Suzana Garcia não o convence. “Não vou julgar os outros, mas acho que não tem…” Deixa a frase em suspenso, mostrando-se pouco convencido pela proposta da ex-comentadora. Como sempre acontece com os presidentes em exercício, a campanha não é imune a críticas audíveis. “A minha rua está uma vergonha”, ouve-se. Alguém recusa a rosa vermelha e verbaliza que votará em Suzana Garcia. Carla Tavares segue sempre serena e cumprimenta dezenas de pessoas que a conhecem do quotidiano. Nasceu cá, estudou cá, o filho estudou cá, as pessoas conhecem-na, explica-se dentro do cortejo.

Mas também aqui há uma exceção. José António Cravo, dono de uma loja de roupa há 45 anos no centro da Amadora, lamenta que Carla Tavares não ande mais na rua. É certo que José António é eleitor em Almada, mas é ali que passa a maior parte do dia. “Tem de vir mais para a rua para as pessoas a conhecerem”, pede-lhe. Maria Augusta, funcionária da mesma loja e residente na Amadora — num prédio nas imediações dos Paços do Concelho —, confirma que vê poucas vezes a presidente, mas está confiante na opinião do seu filho e da sua nora, que lhe garantem que Carla Tavares tem feito um bom trabalho. Por outro lado, contrapõe, “a Suzana Garcia não conhece a cidade”.

A campanha de Carla Tavares é feita, inevitavelmente, em “part-time”, já que continua a ser presidente da autarquia e há trabalho de expediente a fazer. A arruada dura cerca de duas horas. Antes do meio-dia, a comitiva socialista chega ao central parque Delfim Guimarães, onde Suzana Garcia havia feito campanha dois dias antes. Ali, depois de um breve, mas inesperado, encontro com uma candidata do Bloco de Esquerda à junta de freguesia da Venteira, a autarca detém-se em conversa com um conjunto de idosos sobre o estado de degradação da calçada portuguesa do jardim. O problema? As raízes dos pinheiros antiquíssimos que ali residem, que a autarca classifica como, “provavelmente, as árvores mais antigas da cidade”, mas a solução não deverá agradar a todos, reconhece Carla Tavares. As raízes já estão a estragar o saneamento e os pinheiros terão de ser cortados.

A presidente e recandidata regressa aos Paços do Concelho antes do meio-dia depois de uma arruada, para uma hora de trabalho antes de almoçar

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Mas não há tempo para mais. A autarca já olha nervosamente para o relógio: é preciso voltar aos Paços do Concelho, a poucas dezenas de metros dali, para assinar uma série de despachos relacionados com decisões tomadas na reunião de executivo do dia anterior. Acompanhamo-la na curta caminhada, pontuada por muitos “bons dias” e subimos até ao oitavo andar do moderno edifício da câmara municipal. É lá que tentamos perceber o estado de alma da autarca. O que pensa das sondagens e do “furacão” Suzana Garcia que veio introduzir um fator de disrupção na corrida autárquica na Amadora? “A verdadeira sondagem é dia 26. A Amadora decidirá”, começa Carla Tavares, repetindo o clássico discurso político de desvalorização das sondagens. Mas acrescenta: “Entendo que a cidade precisa da estabilidade para a sua governabilidade.”

Apesar de, entre os seus apoiantes, ouvirmos acusações de populismo contra Suzana Garcia, Carla Tavares evita falar abertamente da candidata-fenómeno que está a marcar a campanha na Amadora. “Aguardamos serenamente, continuamos a trabalhar”, diz, lembrando que já o fez em 2013 (como vice-presidente candidata à presidência) e em 2017 (na primeira recandidatura). “Todos os candidatos nos merecem o maior respeito. O PS manteve o seu caminho e estamos focados na nossa proposta para a cidade. Conhecemos muito bem a cidade.”

“Cada partido faz a campanha que entende que melhor defende as suas propostas para a cidade, quando tem propostas para a cidade”, prossegue. Se as sondagens se revelarem corretas e tudo se mantiver mais ou menos na mesma, é certo que Carla Tavares continuará presidente da câmara da Amadora, mas também que Suzana Garcia será eleita vereadora. Depois da retórica inflamada que tem marcado a campanha da ex-comentadora, será fácil a convivência no executivo? “Quando estamos por princípios para a cidade, por valores para a cidade, por paixão pela cidade, encontram-se sempre pontos de convergência. Para lhe ser sincera, neste momento isso não é uma preocupação.”

Carla Tavares alterna por estes dias entre a campanha e o trabalho de presidente de câmara

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É nas questões da segurança que Suzana Garcia e Carla Tavares mais divergem. Se a ex-comentadora de assuntos criminais insiste numa solução focada essencialmente no policiamento, Carla Tavares recusa desligar os problemas da segurança de outras questões estruturais da sociedade amadorense. “A segurança está sempre ligada às políticas educativas. Não é com um polícia em cada esquina. Não defendemos aos dias de hoje a super-esquadra. A polícia deve estar nas ruas, próxima das pessoas”, diz a autarca, lembrando contudo o grande investimento feito já no último mandato na instalação de fibra ótica e de mais de uma centena de câmaras de videovigilância na cidade. “A descida sob o ponto de vista de crimes registados também se cruza com a diminuição que vamos tendo do insucesso escolar e de retenções. A segurança não é só um polícia a cada esquina”, insiste.

Bloco pode perder única vereadora

A história eleitoral na Amadora não se conta, porém, apenas com PS e PSD. O executivo municipal inclui, além de sete elementos do PS e dois do PSD, um vereador da CDU (Amável José Alves) e uma do Bloco de Esquerda (Deolinda Martin). A mais recente sondagem, publicada pelo Público e pela RTP, aponta para a manutenção de um vereador da CDU (desta vez o candidato é António Borges), mas para a queda da vereadora do Bloco de Esquerda, que se recandidata ao cargo.

Ambos os partidos, que lutam pela representação no executivo municipal, aproveitaram a primeira semana oficial de campanha para chamar os líderes nacionais a jogo: Jerónimo de Sousa para um comício nos bombeiros voluntários da Amadora logo no primeiro dia de campanha e Catarina Martins para uma visita a uma escola secundária no segundo dia.

A coordenadora do Bloco de Esquerda acompanhou a candidata e vereadora Deolinda Martin no início da campanha eleitoral

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A escola secundária Seomara da Costa Primo, batizada com o nome da primeira mulher a doutorar-se em ciências em Portugal, é um exemplo do “melhor que a escola pública pode ter”, disse Catarina Martins no final da visita, ao lado de Deolinda Martin, que “foi professora toda a sua vida na Amadora”, que “gosta de cá viver” e que quer ajudar a “resolver os problemas” da comunidade. A coordenadora do Bloco não poupou nos elogios à vereadora, lembrando que “quando o PS estava a mandar demolir bairros sem soluções, a Deolinda estava nos bairros em frente aos bulldozers”.

Mas é precisamente na educação que o Bloco de Esquerda está a centrar uma boa parte da sua mensagem com vista à reeleição (difícil, a julgar pelas sondagens) da sua vereadora. “Em 2019, 470 alunos da Amadora entraram no ensino superior, contra os 4.500 de Oeiras. Temos de perceber o que há aqui”, comentava Deolinda Martin, no final da visita da coordenadora nacional. Há alguns problemas já detetados, acrescentou: poucos candidatos às bolsas oferecidas pelo município e muitos estudantes de classe média e alta (por exemplo, da zona de Alfragide) a irem estudar para as secundárias de Lisboa.

A aposta na educação é, por outro lado, a melhor maneira de contribuir para a solução dos problemas da segurança, defende Deolinda Martin, lembrando que entre os cerca de 1.800 alunos daquela escola secundária se encontram 35 nacionalidades, incluindo centenas de alunos dos PALOP — que estão entre as pessoas mais discriminadas no concelho. “Temos 101 nacionalidades a viver na cidade e esta escola tem 35. Mas, se for andar pela cidade, estas nacionalidades não se vêem espelhadas na gastronomia, na música, no artesanato, na cultura. Isto retira às pessoas uma relação de pertença com a cidade. Temos de incluir, respeitando as diferenças.”

Deolinda Martin é vereadora pelo Bloco de Esquerda, mas a sondagem mais recente indica que o partido pode perder representação no executivo

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Por outro lado, o clima de insegurança muitas vezes apontado à cidade da Amadora resulta de um conjunto de outros fatores que não uma presumível tendência natural para o crime que teria de ser resolvida exclusivamente com policiamento. “Quem trabalha a horas e não tem um contrato não tem, de certeza, o bem estar que tem uma pessoa que está vinculada, estável, com uma remuneração equilibrada e com direitos. E há também questões da saúde. Temos milhares de munícipes que não têm médico de família. Isto também é uma preocupação na cidade. E, por exemplo, eu não gosto de viver numa cidade que fecha às 21h. Se eu quiser, numa noite quente, ir tomar um café, não tenho uma esplanada aberta, tenho de deslocar-me para outro concelho para o fazer. Isto propicia um ambiente de insegurança”, explica Deolinda Martin.

“Há uma componente policial, que a outra candidatura advoga e que eu acho que não funcionou na Amadora. Todos nós percebemos que quando a polícia vem de uma super-esquadra vem em momentos de tensão e que o resultado é sempre desastroso. O policiamento que nós advogamos é o policiamento de bairro, em que o polícia conheça as pessoas e as pessoas conheçam o polícia. Para sinalizar os casos de violência doméstica, dos idosos em solidão ou abandonados. Para intervir até de forma pedagógica no bairro”, acrescenta a ainda vereadora bloquista. “Há aqui uma componente que nos distancia.”

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