Bloco de notas da reportagem no CDS. Dia 1. Sem Cristas, campanha começou murcha /premium

13 Maio 2019

Melo arrancou campanha oficial quase sozinho. Sem Mota Soares, sem Cristas, só com jotas. Houve feira e o mar como tema. Muitos quilómetros, pouca uva. Faltou garra para antever 12 dias de dar o litro

Depois de quase três meses de pré-campanha, espera-se que os candidatos cheguem ao primeiro dia de campanha oficial — hoje — com todo o gás e pujança, para mostrar que a partir de agora vai ser sempre a dar o máximo até ao fim. Apesar de o CDS já ter dado o tiro de partida para o sprint final na sexta-feira, com um mega jantar em Famalicão, não terá sido exatamente isso que se viu esta segunda-feira na caravana dos centristas, que andou por Ponte de Lima, Viana do Castelo e Vagos. Na agenda da noite, um jantar-comício em Coimbra deverá fazer as vezes de momento alto do dia. Pelo menos ao nível do discurso político.

De resto, e com Assunção Cristas em Lisboa devido ao debate quinzenal com o primeiro-ministro, Nuno Melo esteve na feira de Ponte de Lima a distribuir folhetos e beijinhos com o presidente da câmara, do CDS, ao lado, e os jotas a fazer barulho com os bombos e os cânticos. E foi também praticamente sozinho que esteve a apanhar plástico numa pequena praia deserta de Viana. A acompanhá-lo, apenas o número quatro da lista, Vasco Weinberg, especialista em assuntos do mar — companhia apropriada, diga-se, tendo sido o dia dedicado ao mar. Para primeiro dia, contudo, não houve presença de grandes figuras (nem o número dois, Pedro Mota Soares, esteve), não houve euforia (o bombo, o altifalante e as bandeiras da dezena de jotas da comitiva nacional fizeram o seu papel na feira, mas abrandaram no resto do dia), não houve grande mobilização. É certo que a regra é organizar as campanhas em crescendo, mas no primeiro dia não se pode dizer que tenha cheirado verdadeiramente a campanha mobilizadora.

“Isto é uma animação, para quem gosta de política não há nada como uma campanha”.

Quem o disse foi Assunção Cristas, não no dia de hoje, mas na véspera, quando esteve ao lado do candidato num almoço com militantes na Mêda. Disse-o em jeito de desabafo com os jornalistas, mas não podemos deixar de destacar a frase, visto que sentimos falta dessa animação de que falava.

Gostava de ser tratado por Melinho das Feiras? “Não me importo nada. Mas não se deve copiar o original, o Paulo é único”.

Para sermos fiéis à frase do dia, cá vai uma frase de Nuno Melo esta segunda-feira, em plena feira quinzenal de Ponte de Lima. Questionado sobre o porquê de ter na agenda pelo menos uma feira ou um mercado por dia, Melo invocou o legado de Paulo Portas — que inaugurou este tipo de campanha de proximidade, que vai aos sítios onde estão as pessoas — e até aproveitou para acusar os restantes partidos de o terem imitado.

Alto. Nuno Melo é “jeitoso”, “mais alto e mais bonito do que na televisão”, e quase nem precisa de distribuir folhetos porque “lá em casa já conta com o nosso voto”, como ouviu na feira de Ponte de Lima. Além de que se ajeita no contacto com a rua. Solta-se, não anda preso a um guião, e segue o rumo que tiver de seguir consoante as conversas que vai travando pelo caminho, esquecendo-se por vezes de distribuir os folhetos que tem na mão. Desta vez coube a Vasco Weinberg e à deputada do distrito, Ilda Novo, fazer o discurso automatizado: “Dia 26 de maio, não se esqueça de votar”. Nuno Melo não se prendia nas frases feitas. Um ponto alto. Outro foi o facto de, tendo sido o dia dedicado ao mar, o candidato ter falado efetivamente de Europa, de fundos europeus, dinheiros que podem ser mais bem aproveitados no país. Tema chato, o dos fundos, mas importante, e por isso não abdica dele. “Queixam-se de que não falamos de Europa, mas depois quando falamos não querem saber”, chegou a desabafar entre jornalistas enquanto a ação de recolha de lixo na praia de Viana começava e não começava. Ficou a ideia para a Europa (vai lançar uma por dia): “plástico zero”, ou seja, mais ajudas europeias para a limpeza dos mares.

Baixo. As duas ações de campanha do dia ligadas ao mar foram curtas, rápidas e pouco cativantes. A segunda foi na praia da Vagueira, em Vagos, onde o candidato se comprometeu perante um grupo de ativistas a levar a problemática do avanço do mar e da erosão da orla costeira a Bruxelas, bem como a pôr o assunto na agenda do CDS para as próximas legislativas. De resto, ao contrário do que aconteceu na campanha de Paulo Rangel, que contou com o apoio de Luís Montenegro e Salvador Malheiro em Espinho, Nuno Melo não esteve rodeado de figuras do partido. Nem Assunção Cristas, que só volta a aparecer na caravana amanhã pelas 11h, nem sequer o número dois da lista, Pedro Mota Soares, que esteve em Mirandela e na Guarda a fazer campanha (faz parte da estratégia do CDS dividir, por vezes, os dois trunfos da lista colocando-os em sítios diferentes). Nem outros deputados ou figuras de relevo do partido, que podiam simbolicamente ter aparecido no primeiro dia de campanha oficial. O debate quinzenal que houve esta tarde no Parlamento explicará algumas das ausências, como a de Assunção Cristas, e, pelo jantar, a deputada Cecília Meireles irá dar apoio ao candidato.

Fernando Fonseca é feirante na área do calçado “há muitos anos”. Faz duas feiras por mês, uma delas ao domingo. Encontramo-lo na feira de Ponte de Lima à conversa com o candidato do CDS, Nuno Melo, longe das câmaras de televisão. Queixava-se de que os políticos só aparecem nas feiras “para caçar votos” e não aparecem “nas horas que precisamos deles”. “Quando precisamos têm sempre a porta fechada, uma pessoa tem de esperar dias e dias para conseguir falar com alguém”, comentava. A crítica, contudo, seria mais para o presidente da câmara, Victor Mendes, também centrista, que estava ali ao lado. Melo chamou-o: “Olha que a reclamação é para ti”. “Também é preciso aparecer nas horas difíceis, e têm de ouvir as críticas que são construtivas”, continuava o feirante.

Recado dado, Nuno Melo e Victor Mendes seguiram feira fora, com as bandeiras e os cânticos da Jota a ressoar. É aí que perguntamos a Fernando Fonseca se vai votar nas europeias. Diz que só não vai votar se tiver feira, porque tem de trabalhar. E como faz feira aos domingos, é provável que calhe. “Sabe que há muito comércio aberto ao domingo que devia estar fechado, como ali na Espanha, assim é que devia ser”. Sobre as europeias, diz que são importantes, sim, apesar de longínquas. “É importante, pois, os nossos também lá estão, e estão lá a defender os nossos interesses”, diz.

O tema do dia era o “mar”. E mesmo sabendo que é um assunto europeu que não é muito apetecível para os holofotes mediáticos, Nuno Melo fez questão de falar dele, pela sua importância. “Portugal tem a terceira maior zona económica exclusiva da União Europeia” e, por isso, tem de ver alocados mais fundos do Mar 2020 à preservação deste ativo estratégico que é o mar, que está a ser altamente poluído pelo plástico. Daí ter defendido a medida Plástico Zero, pedindo reafetaçao dos fundos europeus à limpeza do plástico nas praias.

LUSA/ARMENIO BELO

De Ponte de Lima a Viana do Castelo, de Viana do Castelo a Vagos, de Vagos a Coimbra: 259 quilómetros percorridos neste primeiro dia de campanha oficial. Pelo meio, segundo fonte da comitiva, Nuno Melo terá ainda dado um salto a Espinho, mas não constava da agenda oficial. A ideia que fica é que os quilómetros são muitos, mas as ações são dispersas e o sumo do que fica pode correr o risco de se perder no caminho.

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