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Teste PCR na África do Sul
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Quase 100 amostras da nova variante, Ómicron, foram sequenciadas na África da Sul

Luke Walker/Getty Images

Quase 100 amostras da nova variante, Ómicron, foram sequenciadas na África da Sul

Luke Walker/Getty Images

Ómicron tem mais de 30 mutações e pode estar bem mais disseminada. O que se sabe sobre a nova variante?

B.1.1.529 surgiu em África, mas já chegou à Ásia e Europa. A Organização Mundial de Saúde critica o encerramento de fronteiras. A variante tem 30 mutações e ainda não se sabe que impacto terá.

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Ómicron é o nome da nova variante identificada no Botswana e na África do Sul e que até agora era definida apenas pelo código B.1.1.529. Tem um conjunto alargado de mutações, mais de 30, sobre as quais ainda se desconhece como podem interferir com o vírus, mas é possível que esteja mais disseminada do que se sabe até ao momento.

Até esta quinta-feira, tinham sido analisadas quase 100 sequências genéticas do vírus, mas nos próximos dias haverá mais dados dos laboratórios sul-africanos, garante ao Observador Nicksy Gumede-Moeletsi, virologista na Organização Mundial de Saúde (OMS África).

A nova variante, classificada esta sexta-feira como variante de preocupação pela Organização Mundial de Saúde e pelo Centro Europeu para a Prevenção e Controlo da Doença (ECDC), causou um alerta a nível mundial, com casos detetados na Bélgica, Israel e Hong Kong, além dos países africanos, e fez vários países fecharem as fronteiras com a África austral, contrariando as recomendações da OMS. Essa é aliás recomendação da União Europeia, deixando contudo a decisão final para cada estado, sendo que muitos já o fizeram (Espanha, França, Itália, Alemanha, Áustria, Reino Unido e Grécia, por exemplo).

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Qual a possível origem da B.1.1.529?

A acumulação de mutações (mais de 30) nesta variante é compatível com o facto de se ter originado numa pessoa com uma infeção crónica, disse Ravi Gupta, professor de Microbiologia Clínica da Universidade de Cambridge. Francois Balloux, diretor do Instituto de Genética na University College de Londres, concorda: “Provavelmente desenvolveu-se durante uma infeção crónica numa pessoa imunocomprometida, possivelmente com VIH/sida”.

A infeção crónica com coronavírus, que faz com que uma pessoa demore muito mais tempo a eliminar a infeção do que outros doentes, pode acontecer com mais frequência em pessoas com comorbilidades ou com sistemas imunitários debilitados, como acontece com os doentes infetados com VIH ou com sida — uma doença com elevada prevalência naquela região africana.

Nicksy Gumede-Moeletsi, virologista na OMS África, diz ao Observador que “é uma hipótese forte, mas os dados científicos disponíveis ainda não permitiram confirmá-lo” — assim como também não descartaram a hipótese.

Como é que a nova variante foi detetada?

A Rede de Vigilância Genómica da África do Sul (NGS-SA) detetou um grande número de vírus da variante B.1.1.529 na última análise semanal realizada com amostras de Gauteng, uma província da África do Sul. Das amostras recolhidas para análise entre 14 e 23 de novembro, 70% (71) pertenciam a esta variante, segundo comunicado de imprensa do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis (NICD). Mesmo que algumas amostras sejam anteriores a essa data, Nicksy Gumede-Moeletsi garante que todas as amostras são do mês de novembro.

A variante Ómicron também foi detetada no Botswana, com quatro casos conhecidos, e anunciada pelos dois países quase em simultâneo. “A exportação para a Ásia [nomeadamente o caso de Hong Kong] implica que estará mais disseminada do que os dados genéticos implicam por si”, disse Tom Peacock, virologista no Imperial College de Londres.

A virologista da OMS África, baseada na África do Sul, concorda: se o caso de Israel teve origem num viajante do Malawi é possível que já haja mais casos no país, ainda que não haja nenhuma comunicação oficial sobre isso.

"Ainda não sabemos muito sobre esta variante, o que sabemos é que tem um grande número de mutações.”
Maria Van Kerkhove, Organização Mundial de Saúde para a Covid-19

Em que países foi detetada a B.1.1.529?

Foram identificados quatro casos (de pessoas vacinadas) no Botswana, que faz fronteira a norte com a África do Sul, e várias dezenas em Gauteng, província da África do Sul. Nicksy Gumede-Moeletsi diz que apesar de só terem sido detetados casos numa província, os dados que serão recebidos de outros laboratórios durante esta sexta-feira ou no fim de semana vão mostrar, provavelmente, casos em outras províncias de África. O mesmo comentário fez Tulio de Oliveira, diretor do Centro de Resposta Epidemiológica e Inovação da África do Sul.

Fora de África, o primeiro caso foi identificado em Hong Kong. Um homem de 36 anos, que tinha viajado da África do Sul no dia 11 de novembro, estava em quarentena no Hotel do Aeroporto Regal quando testou positivo, descreveu o South China Morning Post. O segundo caso positivo foi uma mulher de 62 anos, que tinha vindo do Canadá, e que estava instalada no quarto do outro lado do corredor do hotel. O homem foi acusado de ter provocado a infeção da mulher vinda do Canadá por usar uma máscara com válvula (que só filtram o ar que entra e não o ar que sai). Ambos os infetados estavam totalmente vacinados.

Em Israel foi detetado o caso de um viajante vindo do Malawi e na Bélgica o de uma viajante do Egito. Em Portugal, João Paulo Gomes, investigador do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, disse que a variante ainda não foi detetada. “É um motivo de preocupação, mas não é motivo de alarme total”, referiu.

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Qual o risco de ter muitas mutações?

“Ainda não sabemos muito sobre esta variante, o que sabemos é que tem um grande número de mutações”, disse Maria Van Kerkhove, especialista da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a Covid-19, esta quinta-feira. “E a preocupação é que, quando temos um número tão grande de mutações, pode ter um impacto no comportamento do vírus.” Na verdade, a Ómicron tem mais do dobro das mutações da variante Delta.

O primeiro passo, explica a especialista, é perceber onde se localizam essas mutações e se podem afetar a capacidade dos testes de diagnóstico detetarem os casos positivos, se interferem nos tratamentos ou se reduzem a eficácia das vacinas. “Há muito trabalho a ser feito”, diz. “Mas vamos precisar de algumas semanas para perceber o impacto desta variante.”

Que mutações são essas?

A nova variante, explica o comunicado da NGS-SA, tem um elevado número de mutações que já tinham sido identificadas noutras variantes de interesse ou de preocupação — como a C.1.2 (uma variante em vigilância na África do Sul), Beta e Delta —, mas também várias mutações novas. Neste momento, a Ómicron é considerada suficientemente diferente das variantes C.1.2, Beta e Delta para se considerar que teve um caminho evolutivo distinto.

Na lista estão 33 mutações e alterações na proteína spike (a que dá o aspeto coroado ao vírus), que serve para entrar nas células humanas e onde se ligam os anticorpos desencadeados pela vacina — A67V, Δ69-70, T95I, G142D, Δ143-145, Δ211-212, ins214EPE, G339D, S371L, S373P, S375F, K417N, N440K, G446S, S477N, T478K, E484A, Q493K, G496S, Q498R, N501Y, Y505H, T547K, D614G, H655Y, N679K, P681H, N764K, D796Y, N856K, Q954H, N969K, L981F.

O facto de muitas destas mutações já antes estarem a circular na África do Sul, em outras variantes, poderia permitir que as pessoas tivessem anticorpos e pudessem estar de certa forma protegidas, disse Susan Hopkins, médica e conselheira chefe da Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido. São, naturalmente, precisos mais estudos, mas Nicksy Gumede-Moeletsi adianta que entre os casos da nova variante estão pessoas que já tinham estado infetadas e pessoas totalmente vacinadas.

Francois Balloux, da University College de Londres, por sua vez, está intrigado com a combinação das mutações P681H e N679K. “É uma combinação que vemos muito raramente. Suspeito que, em geral, não seja ‘estável’, mas até pode ser que seja em combinação com outras mutações”.

Uma boa notícia é que uma das alterações permite que a variante seja detetável com um teste diagnóstico, dirigido a um gene específico, sem ser necessário fazer a sequenciação genética completa do genoma de cada amostra — a mesma alteração que tinha a variante Alpha. Os outros alvos dos testes PCR parecem manter-se inalterados e, portanto, os diagnósticos não estarão, por enquanto, comprometidos, refere a NGS-SA. Neste momento, ainda se está a verificar se os testes rápidos de antigénio se mantêm eficazes na deteção desta variante.

Esta variante vai disseminar-se depressa?

A médica e conselheira chefe da Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido, Susan Hopkins, disse que o número efetivo de reprodução da variante Ómicron na província de Gauteng, na África do Sul, é de 2. Ou seja, cada pessoa infetada pode, potencialmente, infetar outras duas, o que fará com que o surto tenha um crescimento exponencial. A virologista da OMS África confirma este dado.

Um dos primeiros cálculos a fazer sobre uma nova variante é este número efetivo de reprodução, ou seja, a capacidade de uma variante se espalhar — chama-se R e é definido como a condição inicial de quantas pessoas podem ser infetadas por outra e pode variar ao longo do tempo. O valor proposto por Susan Hopkins não se verificava desde o início da pandemia, antes das primeiras restrições terem sido impostas, refere o jornal The Guardian.

“Não temos visto níveis de transmissão como este desde o início da pandemia, devido a todas as medidas de mitigação que tomámos. É um grande problema ter uma tão alta transmissão, com este tipo de vírus, numa população onde o vírus pode fugir às respostas imunitárias.” 
Susan Hopkins, Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido.

Vale a pena referir que Gauteng, cuja capital é Joanesburgo, tem cerca de 38% da população vacinada, segundo o Ministério da Saúde sul-africano — ou seja, não estão na mesma situação que no início da pandemia —, mas têm, ainda assim, uma taxa de vacinação mais baixa que alguma das outras regiões (algumas quase nos 50%).

Que impacto terá na população?

Até ao momento não existem indícios de que provoque sintomas diferentes das restantes variantes conhecidas e, tal como nos outros casos, existem indivíduos que se mantêm assintomáticos apesar de infetados. A virologista da OMS África confirma que “a severidade da doença ainda não está determinada”.

A NGS-SA e laboratórios associados estão a estudar se a variante consegue escapar ao sistema imunitário. Além disso, foi montado um sistema de vigilância nos hospitais para verificar se há internamentos com esta variante e como evolui a doença nessas pessoas. Pelo que se sabe até ao momento, a NGS-SA afirma que “é possível que haja algum escape parcial ao sistema imunitário, mas que é provável que as vacinas continuem a oferecer elevados níveis de proteção contra hospitalização e morte”.

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Além da importância da vacinação na prevenção da doença grave e morte, os especialistas reforçam que as medidas não-farmacológicas, como boa ventilação, uso correto de máscaras, distanciamento físico e higienização das mãos e superfícies, “comprovadamente previnem a disseminação de todos as variantes de SARS-CoV-2”.

“É possível que haja algum escape parcial ao sistema imunitário, mas é provável que as vacinas continuem a oferecer elevados níveis de proteção contra hospitalização e morte.”
Rede de Vigilância Genómica da África do Sul

Quantos casos de infeção existem na África do Sul?

A África do Sul registava 2.465 novos casos de infeção com SARS-CoV-2, a 25 de novembro, na última atualização do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis (NICD). Destes, 1.950 (79%) tinham sido registados na província de Gauteng, que está já a crescer exponencialmente em relação às restantes regiões do país.

“É muito claro, pelos dados, que várias partes de Gauteng apresentam um rápido aumento da infeção”, disse Joe Phaala, ministro da Saúde da África do Sul.

De forma geral, a África do Sul tinha uma taxa de positividade (razão do número de testes positivos, pelo número de testes realizados) de 6,5%, uma subida em relação à taxa do dia anterior (3,6%) e superior à taxa de 4% recomendada para se manter o número de casos e cadeiras de transmissão sob vigilância.

Que voos de e para estes países estão banidos?

“Todo e qualquer país está em risco, porque as pessoas se movem”, afirma Nicksy Gumede-Moeletsi. Isso não quer dizer que a virologista e a OMS concordem com a restrição nas viagens. “É uma abordagem muito agressiva.”

“Encerrar fronteiras ou proibir voos vai provocar um estigma sobre os países onde foram detetados os casos. O risco é que outros países não anunciem os casos da variante com receio de serem sujeitos às mesmas restrições”, reforça. O ideal, diz a virologista, seria obrigar a quarentena todos os viajantes vindos da África do Sul ou África austral.

A partir desta sexta-feira, África do Sul, Botswana, Eswatini, Lesoto, Namíbia e Zimbabué estarão na lista vermelha das viagens de Inglaterra com os voos banidos de e para estes países. O ministro dos Negócios Estrangeiros sul-africano considerou a decisão precipitada, mas depois disso muitos outros países implementaram medidas restritivas, incluindo Israel, Alemanha, Áustria, Itália e República Checa. O mesmo poderá acontecer com os restantes países da União Europeia, que recomendou restrições de viagens para estes países, ainda que a decisão final caiba a cada Estado.

“Baseados na nossa experiência e compreensão das variantes Alfa e Delta, sabemos que a ação precoce é muito melhor do que a ação tardia”, disse Ewan Birney, diretor-geral adjunto do Laboratório Europeu de Biologia Molecular (EMBL). “Pode acontecer que esta variante não seja uma ameaça tão grande como foi a Alfa e a Delta, mas as consequências potenciais de não agir sobre a possibilidade de o ser são graves.”

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