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Aos 66 anos, Rui Reininho continua irónico, sarcástico, arrojado e apaixonado pelo Porto, a sua cidade

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Aos 66 anos, Rui Reininho continua irónico, sarcástico, arrojado e apaixonado pelo Porto, a sua cidade

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Rui Reininho: “Nunca fui consensual e ainda bem. Prefiro que haja pessoas que não gostem de mim e me antagonizem” /premium

Prestes a lançar “20.000 Éguas Submarinas”, o segundo disco a solo e também o mais experimental, Rui Reininho fala dos livros que descobriu na pandemia, do medo da morte e da amizade com Rui Moreira.

Chega ao Ateneu Comercial do Porto como se estivesse em casa, e está, afinal é ali que moram muitas das suas memórias de infância. Recorda o Porto antigo, os tempos em que o insultavam na rua por usar roupa diferente, mas também a época de governação de Rui Rio, “um tipo vingativo, maldoso e rancoroso”.

Dono de um humor negro desconcertante, Rui Reininho fala sobretudo de amigos. Do encontro na noite portuense com Rui Moreira, dos livros de Camilo Castelo Branco que Tóli César Machado lhe deu, e que devorou durante o confinamento, ou dos 71 anos de Jorge Palma, que o fizeram acreditar que o tempo passa mesmo a correr.

Reininho faz 40 anos de carreira, mas não tem medo de envelhecer e muito menos da morte, apesar de já ter passado por ela várias vezes, uma delas no mar da Galiza, onde nadou todo nu. Com a pandemia e uma agenda de concertos vazia, sentiu angústia e desconsideração, mas também uma grande vontade de olhar para o futuro.

O seu novo álbum a solo, editado no dia 11 deste mês e cuja digressão vai passar por Viseu, Madeira, Braga, Porto e Lisboa, é, curiosamente, um pedaço do seu passado, bem mais experimental. Durante dois anos ressuscitou gravações e apontamentos antigos, até que reencontrou Paulo Borges, produtor do disco e antigo teclista dos GNR, e tudo ficou mais fácil.

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Aos 66 anos, Rui Reininho não perdeu a ironia, a coragem e o arrojo, sabe que não é consensual e isso agrada-lhe. Garante não ter nada a ensinar aos outros e acredita que no palco, como na vida, quase tudo se resume a cumplicidade.

Escolheu o Ateneu Comercial do Porto para fazermos esta entrevista, porquê?
É uma memória de infância para mim, o meu pai era sócio do Ateneu, os meus tios encontravam-se aqui, era uma espécie de clube inglês. Esta sala onde estamos agora era completamente misteriosa, tinha imensos jornais, havia muita gente a ler, mas alguns também a dormir. Eu tinha muita curiosidade e o meu pai, com o sentido de humor que o caracterizava, dizia-me: ‘não acordes aqueles senhores’. Depois lembro-me da biblioteca lá em baixo, onde há ainda uma primeira edição d’Os Lusíadas; levei muitos livros daqui para ler. O meu pai vinha aqui jogar bilhar ao fim da tarde com os meus tios e com os amigos, depois de sair do trabalho. Era um Porto diferente, nós morávamos ali na rua Fernandes Tomás, sou mesmo um homem da baixa.

Em que medida era um Porto diferente, como diz?
Havia outro ritmo no Porto antigo. Ainda hoje sonho com aquilo, é uma coisa zen para mim, lembro-me das festas aqui no carnaval e na passagem de ano, encontrava-se aqui uma comunidade de média alta burguesia, que competia um bocadinho com o clube portuense, cheio de snobs da Foz. Aqui vivia-se um espírito mais intelectual, mais liberal. É isso que me liga profundamente ao Porto e me deixa orgulhoso. Bem, isto quase poderia ser o fim da entrevista.

Foi embora uns tempos, mas acabou sempre por voltar…
Pirei-me nos anos 70 para a Europa, mas acabei sempre por voltar. A certa altura senti-me fisicamente asfixiado no Porto.

Porquê?
Fui um dos primeiros a usar socas holandesas, casacos de pele, brincos e cabelo pelos ombros, comecei a pensar que gostava de uma certa boémia e de ser artista. Por vezes era muito cansativo descer a rua e ouvir bocas como: “pareces uma mulher”; “que larilas”. Nos dias em que estava bem disposto até dizia adeus e acenava, mas noutros chateava-me. Lembro-me de estar no Majestic com um grupo de amigos anarcas e apanharmos um elétrico para a praia. Apesar do Porto ser uma cidade de praia quase ninguém andava de calções. Eu usava umas bermudas com flores e as pessoas em Santa Catarina aplaudiram-nos, pensavam que éramos um trupe internacional.

Como vê hoje a cidade a nível político, social e cultural?
De muitas maneiras. Tenho uma simpatia pessoal muito grande pelo Rui Moreira, não escondo, ele sabe, seria uma traição estar aqui a dizer o contrário. Ele sabe que tem aqui um amigo, o que no Porto é uma coisa muito importante e creio que muita gente não percebe estas coisas. Já era amigo dele muito antes de ser presidente da câmara. Conheci-o quando estava à frente de uma discoteca na Foz, tínhamos vários amigos em comum.

Mas o facto de serem amigos não quer dizer que concorde com todas as suas decisões.
Sim, mas ele também não se mete nas minhas músicas, entre amigos é assim. Acho importante o papel dele, felizmente suceder a um grande estupor, um grande sacana, um tipo vingativo e pequenino em termos de cabeça, maldoso e rancoroso. Não é um grande elogio para o Rui aparecer logo a seguir a outro Rui, mas pelos vistos para sermos reis nesta cidade termos de ser todos Ruis. Não podemos esquecer o Rui Veloso e tantos outros.

Suponho que nestas eleições autárquicas vote Rui Moreira.
Não, eu moro em Leça da Palmeira, por isso voto em Matosinhos. Com o toque anarca que continuo a ter, voto muito nas pessoas em eleições autárquicas. A minha ligação com o Porto era também muito afetiva pelo Paulo Cunha e Silva, antigo vereador da cultura e um homem muito importante que pôs isto a mexer numa altura em que tínhamos aqui o La Féria a fazer porcarias, musicais em playback e a dever dinheiro às pessoas aos artistas. Bem… se calhar estou agora… enfim, também me pode processar, sou como o Ricardo Salgado, só aos 90 anos é que me irão julgar.

"O sofrimento é a coisa mais horrível que existe. Durante estas calamidades nunca fui muito negativo, já ultrapassei muitas, algumas delas mesmo pessoais e que me pregaram sustos, mas não tenho medo de vos deixar, acho que, infelizmente para alguns, vou continuar a pairar noutra dimensão."

Fez 66 anos em fevereiro, em pleno confinamento pandémico. Ainda gosta de festejar os anos?
Não, as pessoas idosas como eu só festejam de dez em dez anos. O último festejo, os 60, foi aqui no Ateneu, no Salão Nobre. Soube no outro dia que o Jorge Palma chegou aos 71, acho que mesmo com aquelas polémicas e doenças todas é capaz de nos enterrar a todos. Tenho este humor negro, mas digo isto com muita amizade. Hoje em dia é um amparo quando conversamos uns com os outros, já nem falamos sobre música, falamos de amizade e do que sentimos, e isso dá ali um apoio.

A idade a passar é uma coisa que lhe faz confusão?
Não, só se for pelo sofrimento. Se fizéssemos esta entrevista na semana passada estava cheio de dores nas pernas, até pensava que ia ficar manquinho. O sofrimento é a coisa mais horrível que existe. Durante estas calamidades nunca fui muito negativo, já ultrapassei muitas, algumas delas mesmo pessoais e que me pregaram sustos, mas não tenho medo de vos deixar, acho que, infelizmente para alguns, vou continuar a pairar noutra dimensão.

Não tem medo da morte?
Não, quer dizer já a enfrentei umas duas ou três vezes. Neste último onde estive, chamei-lhe o sítio dos afogados.

Quer explicar?
Eu fujo muito para a Galiza, adoro as praias, aquilo é muito bonito, muito tépido, mas também muito traiçoeiro quando uma pessoa sai da baía. Lembro-me que uma vez fui atirado contra a falésia, a praia não tinha ninguém e decidi tirar a roupa e nadar nu, mas aquele mar começou a puxar-me e estava sozinho. Tenho a mania que nado bem porque aprendi a nadar no Futebol Clube do Porto, ainda vi uns surfistas, queria pedir ajuda, mas esperei, naquela altura pensei que ia ficar mesmo ali. Depois alguém lá em cima me puxou e disse que ainda não era a minha hora, mas parte de mim morreu ali, como também morreu em muitas outras circunstâncias. Nos anos 70 e 80 vi gente com SIDA, encontrei uma das minhas primeiras namoradas com um aspeto miserável aqui na baixa. Quando começamos a perder pessoas é que começamos a ganhar consciência do que era aquele camicase, a boémia e as relações desabridas, enfim, do que era ter sorte.

Acha que é um homem de sorte?
Sim, sou um homem de sorte com um bom sistema imunitário.

"Animais Errantes" é o primeiro single do seu novo disco a solo, o segundo da sua carreira com 40 anos

Afonso Sereno

Com concertos cancelados, como se entreteve durante os últimos tempos?
Graças ao meu companheiro Tóli César Machado [baterista dos GNR], que esteve a fazer uma limpeza e me ofereceu 80 livros do Camilo Castelo Branco, passei o tempo no confinamento a ler as “Novelas do Minho”, “Mistérios de Lisboa” ou a “A Doida do Candal”. Li muito à pala do vírus e trouxe-me uma coisa boa porque descobri que estou a começar a ler sem óculos outra vez, está a ver uma transmutação qualquer, é quase um milagre. Muita coisa cancelada, o que foi uma angústia, depois houve espetáculos um bocadinho desagradáveis para nós e não tão prazenteiros para as pessoas, sempre de máscara e com uma certa distância. O que fizeram aos artistas portugueses é uma desconsideração e uma falta de respeito. Já não estou a falar das esmolas do Governo, isso é obvio, estou a falar da desconsideração de que dizer isto ou aquilo anula-se. As pessoas têm uma expectativa e pura e simplesmente nada acontece. É como fosse uma relação afetiva em que recebemos uma mensagem a dizer que já não gostam de nós e, na verdade, a nossa relação artística é afetiva com toda a gente.

Era daqueles que achava que ia ficar tudo bem?
Odeio essa expressão, a pior coisa que me podem dizer é que vai ficar tudo bem. Se as coisas já não andam bem, como é que vai ficar tudo bem? O rock, o jazz e a dança são um flirt que temos com as pessoas, temos a vantagem de ter um one night stand com as terras onde vamos tocar. Quando vamos à Guarda e se tivermos sucesso temos a sorte de estar com as pessoas mais bonitas e mais cheirosas, podemos comer no restaurante mais simpático e tratam-nos super bem. Acho que é uma coisa que os políticos têm imensa inveja. Admiro muito as pessoas do teatro que conseguem estar uma semana no mesmo sitio, é uma coisa que às vezes me enjoa, fico farto, não da cidade, mas do resto. A pandemia cortou com todas estas coisas, ao mesmo tempo que sabemos que há um desejo no público, mas alguma coisa que nos impede de o satisfazer.

Numa crise como esta, a cultura é sempre a mais massacrada?
Não necessariamente, mas desta vez atacaram-nos mais fundo. Se virmos aqueles filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, nos bombardeamentos de Londres os artistas faziam peças de teatro no metro, tocavam e faziam sapateado, aqui não nos foi permitido fazer nada disso, é cruel. O que está feito, está feito, não penso muito no que está para trás, estou sempre com um pé no futuro.

"Nunca fui consensual e ainda bem, odiava ser consensual e quase papal. Prefiro que haja pessoas que não gostem de mim e me antagonizem, não vou ser agressivo com elas, não é da minha índole prejudicá-las ou fazer-lhes mal, ao contrário do que elas tentam fazer a mim, por várias maneiras."

Este disco é um passo em frente ou atrás?
Este disco tem um pé no passado, tive necessidade de gritar aquilo. Sou o jovem que era em 1977, fui buscar as músicas mais experimentais e a minha vida está toda ali, em 40 e tal minutos. O título [20.000 Éguas Submarinas] é o meu lado adolescente, com uma referência à obra do grande Júlio Verne, que me levou à ficção cientifica e às músicas que comecei a ouvir com os anarcas da cidade do Porto, como o jazz. Depois as idas à capital, lembro-me de ser menino e um dos meus prémio foi ir a Lisboa comer um gelado da Olá, que ainda não existiam no Porto. Sim, o Portugal antigo era tão bacoco quanto isso. Ao passado quero ir buscar as melhores memórias, o melhor que se escreveu e que se viveu.

O seu primeiro álbum a solo, “Companhia das Índias”, é de 2008. Volta a aventurar-se neste registo agora, porquê?
Quem me dera lançar sempre coisas, essa necessidade sente-se sempre. Às vezes acordo, penso eu, inspiradíssimo, e depois espeto-me a seguir. Tenho muitas gravações, e muitos apontamentos, esta oportunidade surgiu porque fiz o disco sem pressa, durante dois anos. Falei com o Paulo Borges [produtor], tocámos quatro anos juntos nos GNR e quando saiu pensei que ele era muito mais do que um instrumentista. Esteve muitos anos no Canadá e veio fresco, quando chegou cá achava estranho o José Mário Branco ou o Carlos do Carmo porque não tinha o nosso percurso.

O seu público é necessariamente o mesmo que vai ver um concerto dos GNR?
Espero que não seja o mesmo porque gosto de mudar de mesa. Em 2008, as pessoas ainda me perguntavam pelas “Dunas”, mas agora isto soa tão diferente que já não há esse risco. Tenho muitas personalidades, acho que o palco é muito isso. Há coisas a que não consigo resistir, aliás, não quero ser santo.

Tendo tantas facetas, em cima do palco e fora dele, que imagem é que acha que as pessoas têm de si?
Ah, têm muitas. Nunca fui consensual e ainda bem, odiava ser consensual e quase papal. Prefiro que haja pessoas que não gostem de mim e me antagonizem, não vou ser agressivo com elas, não é da minha índole prejudicá-las ou fazer-lhes mal, ao contrário do que elas tentam fazer a mim, por várias maneiras.

No ano passado gravou com os Glockenwise, uma banda de rock de Barcelos. Tem noção que é um ídolo ou uma referência para outros?
Não sinto que tenha nada a ensinar, é um prazer infindo convidarem-me, é quase como se estivesse ali num canto e alguém me chamasse para dançar.

Mas sente alguma responsabilidade ao estar nesse papel?
Não, sinto descontração. Noto que às vezes há uma certa reverência do outro lado do estúdio, mas digo-lhes para me tratarem como um deles, para não estarem com paninhos quentes e com complacência. Normalmente não levo produtores nem seguranças, uma pessoa entra ali e é vulnerável. Não sinto que tenha nada a ensinar, mas talvez a partilhar. Gosto de sorrir com eles e de sentir ali uma cumplicidade que é importante. Durante anos não partilhei palcos por timidez e insegurança, tive duas ou três pessoas com quem não gostei nada de estar em palco.

Quem?
Não vou dizer, algumas delas já morreram e não sabem.

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