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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Um breve Beginner's Guide para a Web Summit (porque manual para iniciantes não teria piada) /premium

Vasco Mendonça e Francisco Peres fizeram o guião possível para que não perca pitada da Web Summit na próxima semana. Dizem que não é tarefa fácil, mas necessária para continuar a sorrir cinicamente.

É oficial: já não há bilhetes para a edição de 2019 da Web Summit. A Igreja do Empreendedorismo volta a ter casa cheia para o retiro espiritual favorito da maioria dos portugueses que votaram Iniciativa Liberal.

Se achou esta referência algo desajustada, é possível que o resto do texto não lhe vá agradar. Se não apanhou a referência, estudasse. Se captou a referência e sentiu os músculos do seu rosto a ensaiar algo semelhante a um sorriso, obrigado por estar connosco. A todos os outros, incluindo os indivíduos normais que não foram referidos neste parágrafo mas que tencionam ir à Web Summit, pedimos que continuem a ler.

Podíamos ter optado por uma modesta “introdução à Web Summit”, mas não seria a mesma coisa. Isto só lá vai com um Beginner’s Guide (manual para iniciantes, em português). Porquê, pergunta o leitor, quando podia ser um guia para principiantes, totós, ou até idiotas? Porque, e já o dissemos uma, duas, três vezes, o mesmo português que que ganha vida própria nas mãos de um Luís de Camões, de um Fernando Pessoa ou até de um Jorge Jesus, pode servir para muita coisa. Mas não serve para esta gente. Não, senhores. Ou melhor: nope!

Por isso, permitam-nos explicar algumas coisas que devem saber antecipadamente, caso esta seja a primeira vez que vão à Web Summit.

Coisas que devem ou não perder, dependendo do tipo de pessoa que são

Edward Snowden vai pôr a liberdade em risco para vir a palco contar-nos a história da sua vida. Uma origin story (história original) que promete ligeiramente menos do que o Joker.

Outro grande ícone da liberdade, Brittany Kaiser, a estrela do documentário da Netflix “The Big Hack” (Nada É Privado: O Escândalo da Cambridge Analytica, na versão em português) vai falar sobre a possível reeleição de Trump. Se ainda não viu, não vamos spoilar, dizemos apenas que ela comoveu milhares de telespectadores que viram o momento em que foi obrigada a fugir do Ocidente para se esconder num dos melhores hotéis que o Sudoeste Asiático tem para oferecer.

[Veja o trailer de “Nada É Privado: O Escândalo da Cambridge Analytica, no qual Britany Kaiser é uma das figuras centrais]

No palco principal, há dois destaques para quem gostar de marionetes: Tony Blair e a Robô Sofia. Por falar em bonecos, Ronaldinho vai fazer a sua segunda entrada no Web Summit. São só dez minutos, mas não pensem que, com isso, ele não consegue brilhar: relembramos que, na sua primeira participação, em dois minutos, Ronaldinho conseguiu evacuar o Pavilhão Atlântico (agora, é o Atice Arena) quando apareceu em palco com um tradutor que o ajudasse com o Inglês — porque ele não sabia falar inglês.

E o que seria de um evento de tecnologia sem um rapper com demasiados interesses e dinheiro no bolso? Pois é, este ano teremos Jaden Smith, o filho de Will Smith, que irá falar de como poupar água e, simultaneamente, ganhar mais dinheiro com isso. Não vemos o tema a transformar-se no novo single de Jaden, mas vai seguramente ser um daqueles PowerPoints que nos fará sentir melhor connosco mesmos.

[O videoclipe da canção “Icon”, do rapper Jaden Smith, que vai estar na abertura da Web Summit]

Marcelo Rebelo de Sousa vai recuperar de um cateterismo em contrarrelógio para distribuir beijinhos a pessoas que preferiam que ele lhes desse dinheiro. O Presidente da República não sabe, mas não há investimentos seed (para projetos em fase muito inicial) em forma de afeto. Por outro lado, é perfeitamente possível que alguém tenha lançado uma ICO (explicação mais à frente) para abraços e beijinhos. Uma ICO é uma Initial Coin Offering, uma espécie de venda de moeda digital que é suficientemente entusiasmante para convencer muita gente a abrir os cordões à bolsa e suficientemente complexa para que a maioria de nós não saiba o que está a fazer.

Mas esta é apenas uma das muitas formas de alguém ficar com o dinheiro dos outros, que foram inventadas neste século, e nisso a Web Summit é todo um mundo. Mas calma, não é má de todo.

[o resumo da edição do ano passado, no link abaixo]

Teremos também figuras cimeiras do mundo empresarial, como o diretor de produto da Uber, que vai explicar detalhadamente as 20 variações do mesmo produto que a Uber vai lançar nos próximos anos, 20 das quais apresentarão prejuízos nos primeiros 20 anos de atividade. Este deverá, aliás, ser um tema dominante entre as melhores cabeças pensantes do evento, mas não espere que saia uma grande solução de Lisboa.

Estes eventos são um pouco como as cimeiras G-um-número-qualquer. Saíremos do evento plenos de confiança num mundo melhor, mas esse otimismo esfumar-se-á daí a três estações de metro, quando percebermos que dois terços dos humanos não utilizam desodorizante.

"Uma ICO é uma Initial Coin Offering, uma espécie de venda de moeda digital que é suficientemente entusiasmante para convencer muita gente a abrir os cordões à bolsa e suficientemente complexa para que a maioria de nós não saiba o que está a fazer."

Se tudo isto falhar, teremos sempre Eric Cantona, ex-futebolista que há algumas semanas deixou toda a gente com vergonha alheia numa gala da FIFA, quando resolveu apresentar um manifesto social impercetível, enquanto um conjunto de pessoas com fatos mais caros do que um bilhete VIP para a Web Summit aguardavam de forma acrítica e bastante confortável pelo anúncio do melhor futebolista do ano. Imaginem quando se dirigir a uma plateia que está interessada nas suas ideias.

‘Stages’, ‘confs’, ‘summits’ e até uma ‘university’: uma suruba de sinónimos

Isto são tudo nomes que se dão a pequenos palcos rodeados por algumas cadeiras desdobráveis. Não vão ver aqui nenhum dos “Cabeças de Cartaz”: regra geral, se estiver incluído nesta ou qualquer outra lista de “A não perder,” vai-se passar no palco principal.

[Foram estes os oradores a não perder da edição do ano passado]

Mas há muitos outros palcos, como o Future Societies, onde uma série de pessoas que olham para Black Mirror e vêem boas ideias e caminhos a seguir (é cedo para voltarmos a falar de gente que vota na Iniciativa Liberal?) vão discutir temas como “Donald Trump has been a successful president” (Donald Trump tem sido um presidente de sucesso, na tradução para português) e “Has technology replaced religion? (A tecnologia substituiu a religião?, na tradução para português)” Gostávamos muito de estar a ser engraçados, mas aqui os louros pertencem somente à organização.

"É verdade: a Web Summit é o tipo de sítio onde as pessoas se vão questionar, até 2030, se os Uber vão voar, quando a maioria de nós se questiona se a Uber aguenta aberta até 2020."

No palco chamado Auto/Tech, não muito surpreendentemente vai falar-se de carros. Carros que voam, carros que se conduzem sozinhos, carros partilhados, carros inteligentes. É verdade: a Web Summit é o tipo de sítio onde as pessoas se vão questionar, até 2030, se os Uber vão voar, quando a maioria de nós se questiona se a Uber aguenta aberta até 2020.

Se está a ler um Beginners Guide, então recomendamos que passe pela Startup University. Este é o equivalente de um campo como Al Farouq, onde outros jovens igualmente iludidos eram treinados pela Al Qaeda, e merece uma visita antropológica.

E o leitor faz da vida o que quiser, mas pode ter a certeza que, a nós, não nos vai apanhar no Corporate Innovation Summit. Primeiro, adormecemos em cada uma das primeiras três vezes que tentámos escrever aquelas três palavras. Parece que é o palco onde os parceiros vão orar (leia-se, quem pagou para ser convidado para falar). Parece, mas não investigámos a fundo porque queremos mesmo, mesmo, mesmo manter a nossa distância.

Aviso: este evento é impróprio para cardíacos

A fórmula da Web Summit não é parva. Aliás, é bem mais esperta do que a maior parte das pessoas dispostas a pagar mil e tal euros por um bilhete para esta espécie de TED Talks — se os TED Talks fizessem um evento só com oradores previamente rejeitados por não serem interessantes o suficiente.

A fórmula é esta: as palestras são todas muito curtas. Os debates também. Há mesas redondas que não têm tempo sequer para apresentar todos os intervenientes. O moderador senta-se, agradece às pessoas por terem vindo e vocês não sabem se é porque o evento está prestes a começar ou se já acabou.

"Se as pessoas passarem o dia a correr e encararem isto como uma prova de esforço, eventualmente o seu cérebro começará a receber menos oxigénio, o que significa que teremos menos disponibilidade mental para perguntarmos a nós mesmos coisas como “esta palestra é meia desinteressante não é?”, “estou a aprender alguma coisa aqui?” ou “ que série de pequenas más decisões e grandes erros é que eu tomei para acabar enfiado nesta espécie de Comic Con para con-artists?”

E a fórmula também é esta: acontece tudo ao mesmo tempo. Na primeira vez que fomos à Web Summit, estavam uns jovens da Macedónia a gabarem-se de que tinham descoberto uma forma de fazer dinheiro com notícias falsas, uns cientistas ingleses a explicarem que tinham inventado uma forma inteligente de fazer propaganda política através de anúncios individualizados e aquela que viria rapidamente a ser a ex-namorada de um dos escritores deste artigo a trocar mensagens com um dos voluntários – tudo nos mesmos 15 minutos. Se calhar devíamos ter prestado mais atenção a todas estas coisas do que aquela que, de facto, prestámos.

Se acham que tudo isto é uma hipérbole dos autores, pensem outra vez. Há quem fale do que acontece neste evento como se fosse um Iron Man das relações sociais: Networking is hard work, and it’s important to prepare mentally for it. Often this means missing some of the talks during the day to catch up on sleep but, as mentioned, you can get access to those videos later. Your main priority while you’re here is simply to start conversations with strangers and hope they lead to exciting new places. (Em português: “Fazer contactos é uma tarefa difícil, e é importante que te prepares mentalmente para ela. Muitas vezes isto significa que percas algumas das conversas durante o dia, para que possas repor o sono, mas, como dissemos, podes aceder a esses vídeos mais tarde. A tua principal prioridade enquanto estiveres aqui é simplesmente começar conversas com estranhos e esperar que elas te levem a novos e excitantes lugares).

Aprofundaremos a análise deste parágrafo quando recuperarmos a vontade de viver.

"Não é um trabalho fácil, mas é necessário para que vocês possam sorrir cinicamente perante a multitude de ocorrências maioritariamente irrelevantes que nos separa a todos da morte, a começar pelos próximos dias."

Mas a fórmula é, digamos, exatamente essa. Se as pessoas passarem o dia a correr e encararem isto como uma prova de esforço, eventualmente o seu cérebro começará a receber menos oxigénio, o que significa que teremos menos disponibilidade mental para perguntarmos a nós mesmos coisas como “esta palestra é meia desinteressante não é?”, “estou a aprender alguma coisa aqui?” ou “ que série de pequenas más decisões e grandes erros é que eu tomei para acabar enfiado nesta espécie de Comic Con para con-artists?”

Seja como for, estes dois guardiões da verdade empresarial não perderão um segundo. E por guardiões da verdade entenda-se idiotas. Não é um trabalho fácil, mas é necessário para que vocês possam sorrir cinicamente perante a multitude de ocorrências maioritariamente irrelevantes que nos separa a todos da morte, a começar pelos próximos dias.

*Vasco Mendonça é publicitário e co-CEO da associação recreativa Um Azar do Kralj

*Francisco Peres escreve artigos a fazer pouco de anglicismos mas tem como títulos profissionais as palavras copywriter e content strategist. Até à data de publicação deste artigo trabalhava com várias startups, mas suspeita que isso está prestes a mudar.

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