Uma pequena fábrica ou um grande atelier? Os 170 anos da Viúva Lamego /premium

31 Março 2019957

Há 170 anos, erguia-se uma oficina de olaria em Lisboa. Hoje, ainda não sabemos o que chamar à Viúva Lamego. Fábrica? Atelier? As histórias, a arte e as pessoas dentro deste espaço de criação.

1849 foi ano de censo em Portugal. Sob o reinado de D. Maria II, o levantamento demográfico concluiu que ainda faltavam umas dezenas de milhar para chegarmos à marca dos três milhões e meio. Nesse ano, em meados do século XIX, ficámo-nos pelos 3.411.454 habitantes. António Bernardo da Costa Cabral, Conde e Marquês de Tomar, tomou posse como primeiro-ministro e nasceu a Confederação Maçónica Portuguesa. O Brasil celebrava 27 anos de independência e a construção do Palácio da Pena, em Sintra, ia praticamente a meio (só em 1854 é que ficou ao gosto da rainha e do seu príncipe consorte). Em Lisboa, Maria José enfrentou a forca, depois de ter matado a mãe e espalhado pedaços do corpo pela zona da Graça. Já o Porto recebeu Carlos Alberto (hoje nome de uma praça no centro da cidade), exilado depois de lhe ter sido retirado o trono da Sardenha.

No mesmo ano, a capital portuguesa via nascer um novo edifício, ali para os lados do Intendente. O nome, aliás, já estava pegado ao largo, depois de D. Diogo Inácio de Pina Manique, intendente-geral da polícia, ter fixado ali a sua residência. O ilustre senhor morreu em 1805, mas deixou a sua marca. O dito largo já tinha grande tráfego — ligava o centro da cidade e os subúrbios, imagine-se –, mesmo antes da abertura da oficina de olaria de António da Costa Lamego, um jovem empresário que via o seu negócio crescer a olhos vistos. Passaram 170 anos e a paisagem da artéria lisboeta mudou. O Chafariz do Intendente, originalmente localizado no largo, foi transladado para o outro lado da Rua da Palma em 1917 (e lá continua), a Avenida D. Amélia acabou por ser rebatizada em 1910, com a implantação da República, passando assim a ser conhecida como Avenida Almirante Reis.

© Homem Cardoso

Ficaram os azulejos que, embora não sejam tão antigos como o próprio edifício, falam certamente mais alto. De Lisboa, a empresa que, anos depois, viria a ganhar o nome Viúva Lamego chegou aos quatro cantos do mundo, resultado da abertura das suas técnicas e dos seus artesãos às ideias de artistas, designers e arquitetos. Em 170 anos de história, houve altos e baixos e, mesmo quando deixámos de ouvir falar dela, a casa manteve-se em funcionamento, longe da vista, mas a contar os dias para regressar ao largo que a viu nascer.

Em Sintra, de onde se vê o palácio que a realeza ergueu enquanto António construía a sua primeira fábrica, trabalham atualmente mais de 50 pessoas. A empresa passou por muitas mãos, mas o presente é risonho. A “viúva” continua a somar pretendentes — dos estúdios de arquitetura que, do outro lado do mundo, mantêm namoros à distância a casamentos de uma vida, como o que mantém com o mestre Cargaleiro há cerca de 70 anos. Ao mesmo tempo, a modernização tem sido tão necessária como delicada. Numa pequena fábrica (ou grande atelier) como esta, a pintura à mão, a vidragem tradicional e o traço dos artistas não é algo que esteja à mercê da massificação. Fala-se da otimização dos processos e das tecnologias de apoio que conduzirão a Viúva Lamego ao crescimento. O caminho já começou a ser traçado, a rota ajustada a novas exigências. Aqui, a arte continua a ter lugar cativo.

Três fábricas e milhões de azulejos: 170 anos de Viúva Lamego

Erguida nesse ano de 1849, a primeira fábrica foi um marco numa zona conhecida já na época pela proliferação de oficinas de cerâmica e olarias. António da Costa Lamego, o oleiro empreendedor, tinha então 31 anos. O edifício manteve o aspeto puramente industrial até 1965, ano em que Luís Ferreira, no papel de primeiro diretor artístico da empresa, decidiu cobri-lo com os azulejos que hoje permanecem visíveis. Era propaganda em forma de arte pelas mãos do pintor ceramista, também conhecido como Ferreira das Tabuletas.

As fachadas são das primeiras obras de arte públicas da fábrica e o mote para as décadas seguintes. Aos poucos, a produção de António da Costa Lamego distinguia-se das restantes produções nacionais pela componente artística que pautava o seu trabalho. “É algo que não se pode atribuir a uma única pessoa. A partir dos anos 30, começámos a ter residências artísticas, com um grande foco no trabalho direto com os artistas. Mas esse hábito já vinha de trás. O Ferreira das Tabuletas era, ele próprio, um artista. Faz parte do ADN da empresa e quem esteve à frente dela, em cada uma das épocas, soube cultivar isso”, afirma Miguel Almeida Mendes, diretor comercial da Viúva Lamego, ao Observador.

O atelier de pintura da antiga fábrica da Viúva Lamego

O mesmo autor que marcou a azulejaria oitocentista em Portugal assinou, pela Viúva Lamego, os painéis que decoram o átrio e a sala grande da Cervejaria Trindade, também em Lisboa, repletos de elementos maçónicos, por influência do proprietário da fábrica de cerveja, o industrial Manuel Moreira Garcia.

Em 1876, com a morte de António da Costa Lamego, a oficina ganhou oficialmente o estatuto de fábrica e a denominação Viúva Lamego, já que foi a mulher a assumir a gestão da empresa. Mais tarde, a herdeira viria a incluir o cunhado nos comandos da fábrica. Durante mais de um século a empresa ficou nas mãos de duas famílias — aos Lamego juntaram-se os Garcia. O século XX trouxe mudanças. Até então, a produção dividia-se entre artigos utilitários em barro vermelho, azulejos em barro branco e faiança. A azulejaria acabou por brilhar mais do que tudo o resto.

Os anos 30 foram decisivos. Eduardo Leite, o mestre que já em 1929 tinha trabalhado com a Fábrica de Cerâmica da Viúva Lamego nos quase 16.000 azulejos que cobrem a Capela das Almas, no Porto, é convidado para dirigir a fábrica. E ter um artista à frente da produção teve consequências. O mestre assume o cargo em 1933 e dá força aos Casulos, nome dados às residências artísticas que puseram nomes bem conhecidos da cerâmica portuguesa a trabalhar diretamente com os artesãos da Viúva Lamego. Entre eles estiveram Alves de Sá, Jorge Barradas, Querubim Lapa e Maria Keil, embora o recorde de longevidade pertença a Manuel Cargaleiro.

O pintor e ceramista pisou pela primeira vez a fábrica em 1947. Nessa altura, já a morada era outra. Em 1941, a Viúva Lamego mudou-se para Palma de Baixo, junto a Sete Rios, ainda em Lisboa. Essa viria a ser a casa dos célebres azulejos portugueses durante meio século. Entre 1991 e 1992, uma nova casa, a atual. A fábrica volta a mudar-se de armas e bagagens, desta vez para a Abrunheira, uma zona industrial perto de Sintra. A produção nunca parou, nem com a mudança de gerência. Há cerca de 14 anos, a empresa foi vendida ao Grupo Aleluia Cerâmicas. “A Viúva Lamego era um ente estranho dentro de um grande grupo de cerâmica industrial. Os processos são diferentes, as dinâmicas são diferentes, os clientes são diferentes e a lógica de gestão é totalmente diferente. A Viúva Lamego vende azulejo a azulejo, a grande indústria vende ao metro cúbico e aí os tempos são diferentes. Aqui, precisamos de muito tempo”, recorda Miguel Almeida Mendes.

A primeira fábrica da Viúva Lamego, no Largo do Intendente, em Lisboa

O referido grupo sofreu o impacto da crise. Em 2016, recorreu ao Processo Especial de Revitalização (PER) com o objetivo de renegociar dívidas no valor de cinco milhões de euros. Gonçalo Conceição comprou a marca e assumiu o comando da empresa há precisamente dois anos. Desde então que, na fábrica da Abrunheira, o número de funcionários quase duplicou, bem como a faturação (aí, sem o “quase”). As instalações não são propriedade da empresa, algo que a direção quer reverter nos próximos anos. No Largo Intendente, no centro de Lisboa, o edifício decorado com azulejos continua a dar espaço à loja da Viúva Lamego. Ao lado, onde outrora laborou a fábrica, coexistem outros negócios, nomeadamente a loja A Vida Portuguesa. As marcas estão lá, mas a empresa histórica de azulejaria já não é a proprietária dos imóveis.

As histórias da Abrunheira: “Não é uma fábrica, é um atelier industrial”

Há uma hesitação comum na hora de definir a Viúva Lamego. Uns chamam-lhe pequena fábrica, outros grande atelier, se bem que a denominação de fábrica atelier acaba por ser a mais consensual. A empresa vive uma nova fase desde que, há dois anos, foi parar às mãos de Gonçalo Conceição. De empresário da banca a, como o próprio diz, “fiel depositário” de uma marca que é património de um país inteiro, não foram só os números que pesaram na hora da aquisição. Gonçalo é a figura cimeira dessa nova era e, como tal, o protagonista de uma história de encantamento pelos azulejos portugueses. “Não é uma fábrica, é um atelier industrial”, confessa em conversa com o Observador. “Competimos com o mundo de atelier, mas temos legislação industrial”, continua.

Nos anos 2000, Gonçalo Conceição deixou a banca, depois de ter fundado o Banco Primus com mais dois sócios. Dedicou-se à reestruturação de empresas industriais e a Viúva Lamego, então inserida na Aleluia Cerâmica, por sua vez parte do grupo Prebuild, foi um feliz encontro no caminho. A Aleluia acabou por ir parar às mãos do fundo Oxy Capital. “Perguntei o que iam fazer à Viúva Lamego”, recorda. No banco, responderam-lhe com outra pergunta: “Quer comprar?”. O investidor guarda os valores para si, apenas garante que comprou a empresa sem dívidas. “Tem um capital com potencial brutal, ainda mais hoje do que já achava na altura”, remata.

É caso para dizer que a ocasião fez o investidor, embora Gonçalo Conceição não tenha sido alheio a argumentos do foro emocional. Viúva Lamego era o nome e os azulejos que conhecia desde criança. Conhecia a família que, durante décadas, esteve à frente da empresa. “Mistura muito o saber fazer dos artesãos com uma realidade nova para mim, a arte. E há uma grande aposta na arte pública, que vejo como uma forma de integração de comunidades e de as pessoas desenvolverem um sentimento de pertença em relação ao espaço público”, revela. Ainda assim, quando assumiu o comando da empresa, em março de 2017, houve espaço para surpresas. Conta que contratou uma equipa de informáticos para reunir numa única caixa de e-mail todos os contactos recebidos em endereços da empresa. Sem qualquer ação de divulgação, a Viúva Lamego recebia pedidos de consulta e encomendas todos os dias, de mercados tão longínquos como o Japão e a Austrália.

© Homem Cardoso

A partir daí, o primeiro ano foi de investimento e aprendizagem. Gonçalo fala numa “empresa historicamente deficitária” e orgulha-se de, nestes dois anos, ter feito crescer o número de trabalhadores de 27 para 53 e duplicado a faturação. Com 57 anos, o empresário pensa no futuro. “O modelo transgeracional tem de prevalecer. E, daqui a dez anos, quanto mais robusta estiver a casa, maior será o leque de opções”, afirma. Se o caminho são os próprios filhos? Uma fundação? Os trabalhadores? Para já, pensa no espaço que a Viúva Lamego ainda tem para crescer. O exercício de equilíbrio entre volumes de produção e padrões de qualidade é complicado, mas garante que, sem desvirtuar a marca e os processos artesanais, a margem é ainda grande. “Esse é o problema bom”, refere. Nos últimos tempos, diz ter passado muito tempo com o mestre Cargaleiro. Provavelmente, o próximo passo é fazer, ele próprio, um curso de cerâmica.

“Já viu a colega ali a fazer o metro de Paris?”

Dentro da fábrica, maquinaria e trabalho manual coexistem. A primeira é útil sobretudo para preparar o barro, além dos plotters de corte, importantes para preparar o azulejo para a pintura e das impressoras 3D, hoje essenciais na produção de protótipos. A 60 quilómetros daqui, a Viúva Lamego faz a sua própria extração. A mistura é, por isso, exclusiva. Entre secagem, vidragem e cozeduras, um único azulejo é manipulado durante horas a fio. Pode mesmo ter de ir ao forno uma terceira vez, no caso dos acabamentos metalizados e dos materiais com resistência ao gelo. Duas salas ao lado, o ambiente muda radicalmente. O barulho das máquinas dá lugar ao silêncio, a luz natural entra pelas janelas e os movimentos automatizados dão lugar a pinceladas minuciosas.

Manuela Guerreiro chefia o departamento de pintura da Viúva Lamego. Está na fábrica há 40 anos © Kimmy Simões/Observador

Manuela Guerreiro é a chefe da equipa de pintura e está na Viúva Lamego há 40 anos. Chegou com 17, sem qualquer formação técnica na área da pintura ou da cerâmica. Tudo o que aprendeu foi aqui, no departamento onde começou a trabalhar desde o primeiro dia. Hoje, coordena uma equipa de 16 pessoas, com funcionários de longa data, como ela, e novas aquisições. Ressalva o período menos bom da empresa, altura em que a quantidade de trabalho caiu a pique e muitos colegas aceitaram acordos para irem embora. Manuela ficou e assistiu a uma espécie de renascimento. “Voltámos ao que éramos antigamente”, assinala. “Há dois anos que estamos a crescer. Veio gente jovem que se empenha e que gosta de trabalhar com os mais seniores. É um prazer coordená-las, adoram aprender”, partilha Manuela. Atualmente, as novas contratações de que fala resultam de protocolos estabelecidos entre escolas e a empresa. António Arroio, Belas-Artes e ESAD são as principais proveniências de quem chega para trazer sangue novo à oficina centenária. É como diz Manuela: “Já trazem o gosto, agora ganham a prática”.

Sem querer, quando chegou à fábrica, na altura localizada em Palma de Baixo, Manuela já trazia um elo familiar com a empresa. “O meu bisavô fez as chaminés da Viúva Lamego, lá em Palma. E também tinha lá um tio. Faz parte da história da minha família”, recorda. Outras há que vieram em peso trabalhar para a fábrica: pais, irmãos, mulheres, maridos. Chefiar dá trabalho, mas quando é preciso volta a pegar no pincel. Em cima de uma das bancadas está um pesado livro com obra do islandês Erró. As reproduções destes cenários caóticos, inspirados pelos universos da banda desenhada e da pop art, são comuns, além de serem os favoritos de Manuela Guerreiro. “Os artistas que vêm para aqui trabalhar connosco dão muita dinâmica à empresa. No mesmo dia, podemos fazer n desenhos e ter n maneiras diferentes de trabalhar. Não há rotinas, é um desafio todos os dias”, exclama.

Em 2016, o Pop Galo de Joana Vasconcelos foi o primeiro objeto tridimensional que a Viúva Lamego cobriu com azulejos planos. Ao todo, foram 17 mil © Luis Vasconcelos

Trabalhar aqui é conviver com o tradicional e com o contemporâneo, ao mesmo tempo. Ao fundo da sala, um grupo de pintoras trabalha nos desenhos mais tradicionais da casa. Todas menos uma. A incumbência é diferente e diz respeito ao projeto de Manuel Cargaleiro, cujo atelier fica mesmo ao lado, para a estação de metro de Champs-Élysées-Clemenceau, em Paris, mais especificamente para uma nova extensão até ao Grand Palais. Obras megalómanas não são uma novidade aqui. Manuela volta a Erró, para quem, em 2015, a fábrica produziu uma fachada para um prédio na Islândia. Com 14 metros de altura e a figura de um palhaço, o projeto foi difícil. A fachada era curva, obrigado a montar o painel com azulejos de tamanhos diferentes. Durante três meses, cinco pessoas trabalharam só nisso.

O pintor francês Hervé di Rosa também tem atelier fixo dentro da fábrica. Volta e meia, está aqui a trabalhar. Do outro lado da sala, no chão, estão dois pequenos painéis partidos. São um trabalho da brasileira Adriana Varejão. “Estavam inteiros, tivemos de deixá-los cair”, explica Manuela, justificando a opção da artista plástica. Encontramos azulejos tridimensionais de Maria Ana Vasco Costa ali, os da nova estação de metro de arroios noutra mesa e mais Erró pelo meio. A imagem de uma fábrica fica para trás, o atelier de pintura é o coração da Viúva Lamego.

“Quando vim para cá pintar, nem sabia o que era um azulejo”

Fernando Duarte é outra das peças fundamentais nesta engrenagem criativa. Numa sala do primeiro andar, que muitas vezes também partilha com artistas, não se limita a passar para os azulejos os desenhos que chegam à Viúva Lamego. Recebe direções e pedidos específicos e concretiza-os com o próprio traço. Aconteceu com um painel para o Museu Vasa, em Estocolmo, mas também com uma figura de Fernando Pessoa, atualmente em curso, destinado ao restaurante de um português em Lile, França. Estamos perante uma composição clássica, a azul e branco. Mais do que reproduzir, Fernando cria.

Fernando Duarte, pintor da Viúva Lamego há 26 anos © Kimmy Simões/Observador

Está na empresa há 26 anos. “Quando vim para cá pintar, nem sabia o que era um azulejo”, exclama. “Na altura, tinha 28 anos e comecei pelo mais primário. Não tinha curso de desenho, não tinha nada. Simplesmente fazia meia dúzia de guaches em casa. Moro aqui na Abrunheira e, na altura, uma vizinha disse-me: ‘Ó Fernando, gostas tanto de pintar. Olha que ali naquela fábrica pinta-se. Sem saber o que era, trouxe guaches e telas e vim cá”, conta. A habilidade e o desplante valeram-lhe o emprego.

Atualmente tem vários projetos em mãos. Além de um Fernando Pessoa, está a restaurar um antigo painel que uma família tinha na varanda. A restaurar e não só, que a dita família quer acrescentar dois metros à peça. Conclusão: Fernando anda para trás e para a frente com esboços de bebés, daqueles gordinhos, bem ao gosto setecentista. Do outro lado da sala, está outro painel com motivos asiáticos, mas este está a ser feito de raiz para um restaurante da moda e, ao que parece, mais não pode ser revelado. O desafio não é apenas técnico, é criativo e envolve pesquisa. O Vasa não é o único exemplo. Recentemente, Fernando testou vários materiais até conseguir satisfazer o pedido de um artista que queria dar ao azulejo a textura de uma tela. É toda a vida a aprender”, conclui.

“O que está nesta sala nasceu comigo”

Em 1990, a Viúva Lamego tinha uma exigente tarefa pela frente: mudar a fábrica de Palma de Baixo, em Lisboa, para a Abrunheira, em Sintra, sem parar a produção. Ana Paula Jarego, engenheira de formação, foi um reforço contratado para ajudar no processo. “A laboração nunca parou, fomos desativando setores e quando um deixava de funcionar lá, começava a funcionar aqui logo no dia seguinte”, explica ao Observador, na sala onde reúne centenas de pigmentos e as respetivas amostras. Hoje, com 28 anos de casa, faz parte da direção. O seu campo de ação é, no mínimo, abrangente — encarrega-se da gestão da produção e das equipas, da orçamentação dos trabalhos e de controlar os custos, mas também do desenvolvimento do produto. O número crescente de projetos especiais assim obriga e Ana Paula trouxe a eficiência para dentro da fábrica.

© Homem Cardoso

“O que está nesta sala nasceu comigo e foi sendo desenvolvido ao longos dos anos. Quando entrei, a área técnica não existia, ainda tínhamos fornos a lenha e fazíamos e preparávamos as tintas e os vidros de raiz, a partir das matérias-primas básicas”, explica. Quando entrou, as coisas mudaram e as fritas e vidros começaram a ser comprados aos fabricantes já preparados. “O foco da nossa diferenciação seria depois desenvolver as cores e os materiais de acordo com a especificações de cada projeto e não tanto estarmos a fazer o que os fabricantes fazem muito melhor do que nós”, conclui. Dez minutos antes, Ana Paula discutia um tom de laranja ao telefone. Para onde quer que olhemos, nesta sala, só vemos amostras de cores que se multiplicam por tons. São centenas e a busca por novas tonalidades e acabamentos nunca acaba realmente.

“É preciso ter muito cuidado”, responde quando questionada sobre trazer a tecnologia para dentro de uma fábrica com 170 anos. “Tem havido uma grande preocupação em não perder a raiz da marca porque, de facto, a pressão para evoluir para produtos mais baratos e soluções mais económicas é muita”, esclarece. Mas a Viúva Lamego continua a ser uma empresa e, como tal, vive de resultados. A ginástica de Ana Paula entra novamente em ação. O maior desafio é otimizar os processos sem penalizar a qualidade do produto e, nessa tarefa, há curvas que podem ser desenhadas e aperfeiçoadas, equipas e esforços reorganizados. Por outro lado, há cedências que não podem ser feitas. “Não se conseguem cores como temos aqui com corantes baratos. Para termos uma ideia, hoje, coze-se uma produção em ciclos de meia hora. Aqui, o ciclo mais curto que temos é de 23 horas e há produtos que precisam de mais tempo. Mas também não podemos demorar muito tempo a entregar as encomendas. É preciso ver onde é possível cortar tempos, cortar consumos”, continua.

Em 28 anos, Ana Paula Jarego acumulou centenas de amostras de cor numa única sala © Kimmy Simões/Observador

Hoje, a Viúva Lamego chega aos quatro cantos do mundo. Um trabalho acrescido para quem está à frente do desenvolvimento de produto. “O maior desafio é a multiplicidade de projetos que nos aparece, com características muitos distintas. A Viúva Lamego fazia azulejos para fachadas em Lisboa. Neste momento, fazemos fachadas para a Islândia, que tem neve e gelo, mas exatamente com o mesmo aspeto”, explica. Ao comportamento dos materiais face às condições climatéricas, há normas europeias e legislação específica de cada país que os azulejos têm de respeitar. É frequente, por isso, ver peças serem enviadas para laboratórios acreditados. Passar nesses testes é só uma parte do processo. Ao mesmo tempo, gerem-se prazos, ajustam-se os meios de produção e desenvolve-se o trabalho criativo.

Tal como Gonçalo Conceição, Ana Paula Jarego pensa no futuro. A entrada de novos funcionários, já com formação especializada, é uma garantia de continuidade. “Preocupava-me que na anterior administração não houvesse estratégia para isso”, admite. Passar know how é uma das prioridades dentro da empresa. Trazer pessoas novas não é só uma questão de números — “há também a energia e isso nota-se”, termina.

Do azul e branco à banda desenhada: a Viúva Lamego e a arte

Miguel Almeida Mendes, diretor comercial, não tem dúvidas quanto ao segredo da longevidade da Viúva Lamego. A relação estreita com os artistas e a estratégia de “portas abertas” do atelier, cultivada sobretudo deste os anos 30, década em que surgem os Casulos com as primeiras residências, não só levou o nome da empresa além-fronteiras como a colocou em espaços de fruição pública, à vista de todos e, em muitos casos, em lugares que fazem parte do quotidiano de milhares de pessoas. Falamos do metro, de praças e jardins.

Mural de Maria Keil em Lisboa © Wiki Commons

Aqui, Maria Keil é o nome incontornável. A artista portuguesa, que morreu em junho de 2012, com 97 anos, encetou relações com a fábrica de azulejos no final dos anos 50. Da responsabilidade do marido, o arquiteto Francisco Keil do Amaral, as primeiras estações do Metropolitano de Lisboa inauguraram com intervenções da sua autoria, à exceção da da Avenida. Tal como fez com o painel “O Mar”, na Avenida Infante Santo e também esse concluído em 1959, Maria Keil revolucionou a estética do padrão pela composição de azulejos. Curiosamente, no caso do Metro, a autora nunca foi paga por nenhuma das obras, ainda hoje visíveis nas estações do Intendente, Martim Moniz, Anjos, Praça de Espanha, Entre Campos, Marquês de Pombal, Restauradores, entre outras. A colaboração chega até ao início dos anos 70, com a inauguração de novas estação — Arroios, Alameda, Areeiro, Roma e Alvalade. “Dezanove estações por amor ao arquiteto!”, disse numa entrevista à Fundação Calouste Gulbenkian, citada pelo jornal i. “Só havia dinheiro para as linhas e para as carruagens, mais nada. Parece que era assim, uma miséria desgraçada. Então o Chico teve a ideia genial de pôr azulejos por serem baratíssimos”, recordou ainda.

Manuel Cargaleiro chegou à Viúva Lamego com apenas 20 anos. Aos 92 continua por cá e tem o seu próprio atelier dentro da fábrica. A extensão da estação do metro de Paris agora em curso é só um exemplo de como fez o nome da empresa portuguesa chegar mais longe. Se ao mestre da azulejaria a marca centenária reconhece o papel de residente, sobre Álvaro Siza Vieira recai o o título de embaixador. Em dois momentos chave da história da azulejaria contemporânea, o Pritzker português redefiniu, tal como Keil tinha feito nos anos 50, o gosto pelo azulejo. “Ele colocou os azulejos outra vez no mapa. Eles estiveram proscritos na arquitetura de exterior durante anos, muito por causa do que se fez na primeira metade do século XX — dos azulejos industriais que cobriam as fachadas, alguns de gosto bastante duvidoso. Siza Vieira teve a coragem de romper com isso ao fazer a fachada do Pavilhão de Portugal, para a Expo’98, e depois com os Terraços de Bragança, um projeto de 2004”, conta o diretor comercial.

Em 170 anos de história nada se perdeu, tudo se foi acumulando. Hoje, os artesãos da Viúva Lamego continuam a ser capazes de reproduzir a imagética bicolor do século XVII e, ao mesmo tempo, de replicar linguagens tão distintas como a pop art de Erró, presente na estação de metro do Oriente e no hotel Art’s, também no Parque das Nações, ou o traço de André Saraiva, autor dos 1000 metros quadrados pintados à mão que deliciam os instagramers, no Jardim Botto Machado. Rem Koolhaas, outro Pritzker, quis misturar estas linguagens. O resultado está à vista na Casa da Música.

Casa da Música, um projeto do arquiteto Rem Koolhaas

“A azulejaria tradicional portuguesa — o azul e o branco — sempre exportou. Os Estados Unidos e a Austrália são os mercados mais tradicionais. Normalmente, os novos países têm um maior gosto por criar ligações com o passado. E nós, das fábricas mais tradicionais, seremos talvez a maior. Temos a capacidade de abraçar grandes projetos e de entregá-los a tempo, em qualquer parte do mundo. Nisso, diria que somos os únicos”, refere Miguel. A singularidade e a especificidade valem à Viúva Lamego contactos de todo o mundo. Um dos atuais projetos é uma fachada para a loja de uma grande cadeia na Madison Avenue, em Nova Iorque. Curiosamente, o cliente chegou à Abrunheira referenciado por um atelier de arquitetura australiano. Na outra costa, em Los Angeles, outro projeto: replicar os azulejos da Igreja de Santa Maria de Marvila.

Joana Vasconcelos, outra agente de exportações do azulejo português e a prova de que os desafios dos novos tempos são reais. Em 2016, apresentou ao mundo Pop Galo, um Galo de Barcelos com dez metros de altura. Pela primeira vez, a Viúva Lamego teve de cobrir um objeto tridimensional com azulejos planos. Dezassete mil, no total, pintados à mão e colocados um a um. Em fevereiro deste ano, outra peça da artista — Coeur de Paris — instalada na cidade luz, mais exatamente em Porte de Clignancourt, no 18º arrondissement. Grande e vermelha, é composta por 4.000 de azulejos perfurados. À noite, acendem-se os LEDs instalados no interior e o coração bate. Joana Vasconcelos não dá descanso à “viúva”. O projeto atualmente em curso é uma piscina para os jardins da fundação Jupiter Artland, em Edimburgo.

Mural do islandês Erró no Parque das Nações, em Lisboa

Com Maria Ana Vasco Costa, a Viúva Lamego tem explorado o azulejo tridimensional. Primeiro para o Museu Nacional do Azulejo, depois para o restaurante Loco e mais recentemente na fachada de um prédio das Janelas Verdes. A artista é uma das residentes da fábrica e símbolo da nova geração que, todos os dias, testa a permeabilidade dos artesãos. “Nunca ouvi ninguém dizer que não era possível. A maior parte dos projetos são novos desafios, mas tanto os novos como os mais antigos na casa abraçam-nos com um espírito jovem. Há muita tentativa e erro e alguns destes projetos demoram muito mais tempo a serem preparados do que a serem executados”, explica Miguel.

Está mais do que provado que a idade não é uma questão, nem de um lado nem do outro, e que conceitos como “velho” e “novo” são, na verdade, relativos. Exceção que se abre para as 17 décadas que a Viúva Lamego comemora em 2019. Um posto, agora novamente assegurado pela estratégia que quase sempre soube manter. Sem uma data de nascimento exata, a fábrica assinalou o aniversário redondo em janeiro e convidou Joana Astolfi para intervir nas montras da loja, no Largo do Intendente. A arquiteta fez dos cacos arte na primeira de muitas colaborações. Haverá uma mensagem subliminar. Se sim, apostamos que, aos 170 anos, a “viúva” parte a loiça toda.

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