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Matt Dunham - WPA Pool / Getty Images

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Uma vida ao lado da rainha: a história de Filipe, o "amado marido" (e "melhor corta-fitas do mundo") /premium

Com apenas 18 meses, fugiu do país de origem numa caixa de laranjas. Viveu longe dos pais e cresceu sem nação. Filipe morre aos 99 anos, para trás fica a história do longevo príncipe consorte.

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Filipe foi o marido de uma das mulheres mais famosas do mundo, mas o papel de consorte masculino não foi propriamente fácil: o duque caminhou na sombra de Isabel II durante a maior parte da sua vida, cuja história se confunde com a da própria monarquia europeia do século XX.

Morreu na manhã desta sexta-feira, dia 9 de abril, no Castelo de Windsor. Teve alta hospitalar a 16 de março, depois de cerca de um mês internado, na sequência de uma condição cardíaca pré-existente. “É com profunda tristeza que sua majestade a rainha anuncia a morte do seu amado marido, sua alteza real o príncipe Filipe, duque de Edimburgo. Sua alteza real faleceu pacificamente esta manhã no Castelo de Windsor”, lê-se no comunicado emitido pelo Palácio de Buckingham.

A infância de Filipe, o príncipe da Grécia e da Dinamarca

Foi o casamento com Isabel, já na altura herdeira ao trono, que lhe deu uma família. Uma casa, uma nação e uma nova religião também. A infância foi solitária. Nasceu com o título Príncipe da Grécia e Dinamarca em Corfu, em 1921, mas, com apenas 18 meses de vida, foi transportado numa caixa de laranjas para fora do país — ele, os pais e as quatro irmãs foram resgatados pela Marinha Real Britânica. A instabilidade política na Grécia, na sequência de uma guerra com a Turquia e a ascensão de um novo governo militar, forçou a família real a exilar-se. Filipe, o único filho do príncipe André da Grécia e sobrinho de Constantino I, rei que se viu obrigado a abdicar, era o sexto na linha de sucessão ao trono.

Enquanto Isabel II viveu uma infância marcada pela proximidade com a família, a do marido foi bastante mais turbulenta. Na sequência do exílio, a família fugiu para Paris onde ficaria a década seguinte. Segundo Philip Eade, autor do livro “Young Prince Philip”, o jovem era “adorado” pelos pais, mas foram poucas as vezes que os viu. A instabilidade da mãe, após abandonar a Grécia, fez com que as “crianças fossem regularmente mandadas para amigos e familiares”, comentou o autor à publicação Town & Country.

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Em 1931, a mãe é vítima de um colapso nervoso e dá entrada num sanatório na Suíça — a princesa sofria de uma depressão que poderá ter sido o resultado de uma “menopausa traumática”. O pai, descrito como um homem “profundamente infeliz”, muda-se para Monte Carlo e deixa-se ficar pelos casinos do Mónaco. As quatro irmãs mais velhas, casadas com aristocratas alemães, estabelecem-se na Alemanha. Aos 10 anos, Filipe está sozinho. Anos mais tarde, quando um entrevistador do The Independent pergunta ao duque de Edimburgo qual a língua que falava em casa, a resposta é: “O que quer dizer, ’em casa’?”. A infância difícil serviu muitas vezes de justificação para o extremo sentido de dever do príncipe, conhecido por ser intolerante ao falhanço e também pelas duras críticas.

O jovem príncipe em 1933 ©The Duke of Edinburgh

O jovem não viu a mãe, nem sequer recebeu qualquer palavra escrita, entre o verão de 1932 e a primavera de 1937. Sobre o aconteceu, Filipe terá comentado de forma estoica e anos mais tarde: “A família quebrou-se. A minha mãe estava doente, as minhas irmãs casadas e o meu pai estava no sul de França. Eu tinha de seguir em frente”. Sem pais, ficou ao cuidado de familiares do lado da mãe (os Milford Havens e os Mountbattens), cujos parentes tinham ligações à família real britânica, uma vez que Alice era a bisneta da rainha Vitória.

Ao cuidado dos tios, estudou em Inglaterra e, posteriormente, na Alemanha, numa escola detida pelo marido de uma das irmãs. Menos de um ano depois, regressou ao Reino Unido e ingressou no internato Gordonstoun, na Escócia. A educação formal foi-lhe garantida, mas os afetos foram encomenda que ficou por entregar. Foi nesta instituição que Filipe recebeu mais más notícias. Tinha apenas 16 anos quando a irmã Cecilie morreu: em 1937, o avião onde seguia com a família despenhou-se em solo belga (durante o funeral, Filipe foi fotografado na Alemanha ao lado de soldados nazis). Meses depois morria de cancro o tio e guardião George Mountbatten, aos 46 anos. “Quando ele precisava de um pai”, chegou a dizer Michael Parker, o primeiro secretário privado de Filipe, “simplesmente não havia ninguém”.

O tenente Filipe fotografado em agosto de 1947

Douglas Miller/Keystone/Getty Images

O acesso à Marinha Real aconteceu em 1939. Aos 18 anos ingressou enquanto cadete, antes do rebentar da 2.ª Guerra Mundial, e depressa distinguiu-se no mar. Durante seis anos serviu ativamente nos oceanos Índico e Mediterrâneo e esteve na Baía de Tóquio em 1945, aquando da rendição das forças japonesas. De acordo com a BBC, foi dos poucos membros da realeza a servir num papel tão combativo. Filipe é até mencionado em despachos dado serviço prestado no navio de guerra HMS Valiant em 1941 e, com apenas 21 anos, é nomeado o primeiro-tenente do HMS Wallace.

Foi precisamente durante esses anos marcados pelo conflito que conheceu a prima afastada, à data com 13 anos, que seria a sua futura mulher — ele e Isabel encontraram-se em 1934 num casamento e o amor entre ambos foi crescendo no decorrer da guerra, embora Filipe fosse considerado uma escolha controversa por ser estrangeiro e não possuir fortuna. O certo é que, findo o conflito, naturalizou-se britânico, renunciou ao título real e adotou o apelido Mountbatten de maneira a casar com a futura monarca.

Casamento por amor e as alegadas traições

Em julho de 1947, o noivado entre o tenente Filipe Mountbatten, de 26 anos, e a princesa Isabel, de 21, foi anunciado. Quatro curtas semanas após a notícia, a 20 de novembro, a cerimónia real ocupou a Abadia de Westminster.

Há mais de sete décadas, uma tímida princesa de apenas 21 anos, e com um vestido pago a cupões, subiu ao altar da Abadia de Westminister, em Londres, para casar por amor — contrariamente ao que a família e a sociedade esperariam. A cerimónia foi transmitida pela rádio e escutada por cerca de 200 milhões de pessoas. No evento, onde estiveram 2.000 convidados, não marcaram presença as três irmãs de Filipe cujos maridos tinham ligações Nazi (o pai morrera anos antes, em 1944). Parte da lua de mel foi passada no palácio rural de Broadlands, em Hampshire.

O casamento real em 1947

Keystone/Getty Images

O duque, segundo The Independent, chegou ao coração de Isabel envergando um alto sentido de dever, mas pouco afeto, num match que teve uma ajuda do tio ambicioso Louis Mountbatten. O príncipe consorte do Reino Unido — que com esta união foi agraciado com os títulos de Duque de Edimburgo, Conde de Merioneth e Barão de Greenwich —viveu quase 30 anos sem estado, entre 3 de dezembro de 1922 e 1949, algo que mudou apenas quando se mudou para a Clarence House enquanto marido da futura rainha. Até aí, nunca tinha tido uma casa permanente. Mas o casamento com Isabel não trouxe apenas acrescentos à vida de Filipe, ele que abdicou dos seus títulos e mudou até de religião — mais tarde, em 1952, abdicaria da carreira promissora na Marinha Real Britânica na sequência da morte do sogro.

Após o casamento, Filipe tentou mudar o apelido da casa real. De acordo com o biógrafo Gyles Brandreth, autor de “Philip and Elizabeth: Portrait of a Royal Marriage”, o duque terá mesmo comentando que era “o único homem no país” a quem não era permitido dar o nome aos próprios filhos. Após a morte da avó da rainha e do primeiro-ministro Winston Churchill — as duas figuras que, em vida, mais fortemente se opuseram à iniciativa — Isabel II emitiu uma ordem, em 1960, declarando que os seus descendentes sem títulos títulos reais podiam usar o apelido Mountbatten-Windsor.

Filipe e Isabel com os filhos Carlos e Ana

Keystone/Hulton Archive/Getty Images

Em 2017, Isabel II e o duque celebraram 70 anos de casamento. É o casamento mais longo da monarquia britânica, com a rainha a sobreviver a seis das suas oito damas de honor, entre elas a já falecida princesa Margarida. Apesar da longevidade, a união não ficou imune aos rumores de infidelidade por parte do duque, um tema que é até explorado ao de leve, mas nunca confirmado, na série “The Crown”, onde este é interpretado pelos atores Matt Smith e Tobias Menzies.

O burburinho em torno desse tópico não impediu, porém, a rainha de o elogiar profusamente em público, quando em 1997 fez a seguinte declaração: “O meu marido tem pura e simplesmente sido a minha força durante todos estes anos e devo-lhe uma dívida maior do que aquela que ele alguma vez vai exigir”.

Rainha Isabel e duque de Edimburgo casaram-se há 70 anos. Foi assim que aconteceu

O chefe da família e a influência no casamento de Carlos e Diana

A difícil infância, e a consequente falta de afetos, ajudou a definir o carácter de Filipe, que desenvolveu um alto sentido de disciplina que colocou, desde cedo, o dever acima de tudo — a vulnerabilidade ficaria sempre para a esfera privada. Ao The Independent, o duque de Edimburgo chegou a comentar: “Toda a gente tem de ter um sentido de dever. Um dever para com a sociedade, um dever para com a família”. Intolerante ao falhanço, exigente com o staff e consigo próprio, e bastante crítico são descritores associados à sua personalidade, ele que já antes disse a Michael Parker, o primeiro secretário privado, que o seu trabalho em primeiro, segundo e último lugar era “nunca desapontar” a rainha, ainda que tenha alegadamente ficado deprimido meses após a morte do pai da mulher.

Carlos e Diana. O desastroso noivado que mudou a história da família real britânica

Enquanto Isabel II é a chefe de estado, Filipe exerceu semelhante poder de influência no seio da família real: a ele compete-lhe supervisionar o funcionamento da propriedades rurais reais e também os assuntos familiares. De acordo com a biógrafa Penny Junor, Carlos pediu Diana em casamento após receber uma missiva do pai, o duque de Edimburgo, na qual este instruía o filho — e herdeiro ao trono — a casar com a jovem ou, então, a seguir em frente. Voltar atrás, terá dito o príncipe de Gales a um amigo, teria sido “cataclísmico”. Um total de 13 encontros, segundo Diana, foi o suficiente para que o mediático casamento acontecesse a 29 de julho de 1947. E ainda que o arcebispo que oficiou a cerimónia tenha declarado “Aqui está o material de que são feitos os contos de fadas”, as pistas de um fim ruinoso já vinham detrás, sobretudo da entrevista que o casal deu aquando do anúncio de noivado — à pergunta “Estão apaixonados?”, Diana responde “Claro”, mas Carlos opta por dizer “O que quer que estar apaixonado seja”.

Quase 40 anos após o casamento entre Carlos e Diana, a monarquia enfrenta um dos momentos mais críticos na sua já longa história, depois de Harry e Meghan Markle terem optado por abandonar as funções enquanto membros séniores da realeza, sem esquecer a polémica entrevista que o casal deu a Oprah Winfrey, a 7 de março. Mas ainda antes da conversa onde Meghan acusa um membro da família real de racismo, já a relação entre Filipe e o neto se tinha desintegrado, isto de acordo com uma biografia recente assinada por Ingrid Seward. A autora de “Prince Philip Revealed” alega que o marido da rainha não é capaz de compreender os motivos que levaram Harry a deixar a família para trás, ele que inicialmente terá gostado de Meghan e feito um esforço considerável para marcar presença no casamento real, a 19 de maio de 2018, apesar de ainda estar na ressaca de uma operação, semanas antes, à anca. De acordo com esta autora, citada pela Vanity Fair, Filipe comparou recentemente Meghan a Wallis Simpson, a norte-americana divorciada por quem Eduardo VIII do Reino Unido abdicou do trono.

As gaffes do “melhor corta-fitas do mundo”

Em 2009, Filipe tornou-se o consorte britânico com mais tempo de serviço, um título que antes fora pertença da rainha Carlota, consorte de Jorge III do Reino Unido. Era também o membro masculino mais velho da família real. Longe da vida pública desde 2017, mantinha o papel de patrono, presidente ou membro de mais de 750 organizações, às quais permanecia associado, ainda que já não participasse nos respetivos compromissos. Estava ainda envolvido com muitas instituições de caridade, de âmbito científico e tecnológico ou apostadas na preservação do meio ambiente e no incentivo ao desporto.

Longe de poder ingressar em atividades com conotações políticas e sempre na sombra da mulher, Filipe procurou o seu espaço na sociedade. O prémio que criou em seu nome em 1956, e que permanece atual, é um exemplo disso. Fundado em parceria com Kurt Hahn, diretor do internato Gordonstoun onde o duque estudou, pretende inspirar os jovens a desafiarem-se física e mentalmente através de um conjunto de atividades não académicas — já chegou a 140 países e já participaram 8 milhões de pessoas, esclarece a BBC.

Em vida, foram outros os interesses e paixões que o distinguiram, tal como facto de ter começado a usar um carro elétrico na década de 1960 e de ter sido o primeiro presidente britânico do World Wildlife Fund, entre 1961 e 1982 (foi presidente a título internacional durante 15 anos). O interesse pela preservação do ambiente parece ter andado de mãos dadas com o desporto — na sua juventude, Filipe foi amante de pólo e vela, além de piloto qualificado. Foi o primeiro membro da família real a voar para fora do jardim do Palácio de Buckingham num helicóptero e aos 70 anos já tinha completado 5 mil horas de voo.

Afastado dos afazeres reais há quase quatro anos, uma decisão tomada com o total apoio da rainha, não deixou de marcar presença no casamento de Harry com Meghan Markle, em maio de 2018 — estaria ele longe de imaginar que havia um Megxit no horizonte. Mas antes disso, e ao longo dos últimos anos, foram as numerosas gaffes em eventos públicos que, de certa forma, se tornaram na sua imagem de marca. Até 2017, Filipe participava em cerca de 300 eventos por ano, entre inaugurações, visitas, discursos ou refeições — não é por acaso que chegou a descrever-se como “o melhor corta-fitas do mundo”. Para a memória ficam gaffes como “As mulheres britânicas não sabem cozinhar”, “Declaro esta coisa inaugurada, o que quer que seja” ou “Eu iria para a cadeia se abrisse esse vestido”.

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