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No entanto, não é só como cronista que Vasco Pulido Valente merece ser lembrado. A sua opinião, aliás, ganha fôlego se for enquadrada no seu trabalho histórico

MICHAEL M. MATIAS /OBSERVADOR

No entanto, não é só como cronista que Vasco Pulido Valente merece ser lembrado. A sua opinião, aliás, ganha fôlego se for enquadrada no seu trabalho histórico

MICHAEL M. MATIAS /OBSERVADOR

Vasco Pulido Valente e a História dos homens vencidos /premium

Poucos intelectuais na vida contemporânea portuguesa puseram tanto empenho no seu estilo literário como Vasco Pulido Valente. E poucos trabalharam com tamanha mestria a História das decisões falhadas.

Se não fosse por mais nada, só por isto já seria importante. Não há nenhum registo tão regular da democracia quanto as crónicas de Vasco Pulido Valente. Haverá, certamente, cronistas brilhantes de episódios esporádicos, bons resumos e interpretações sofisticadas da democracia portuguesa; no entanto, não há mais nenhuma visão tão constante quanto a de Vasco Pulido Valente. Durante anos o regime foi escrutinado ao dia ou à semana pelo seu olho desencantado, imune a euforias e a quem o sentido da História sempre livrou de megalomanias ou ideias de grandeza.

No entanto, não é só como cronista que Vasco Pulido Valente merece ser lembrado. A sua opinião, aliás, ganha fôlego se for enquadrada no seu trabalho histórico.

O percurso de Vasco Pulido Valente, seja porque ele o relatou em textos mais autobiográficos, sejam porque outros ou outras o fizeram por ele, é bastante conhecido. Nasceu numa família que misturava várias tendências políticas, da tradição republicana do lado Pulido Valente à tradição monárquica dos Correia Guedes, filtrada pela militância comunista dos pais. Pulido Valente nunca foi comunista, mas começou a escrever, como quase toda a sua geração, uns metros mais à esquerda do que acabou. As suas primeiras incursões literárias deram-se na revista O Tempo e o Modo, em que começou como responsável pelo “noticiário crítico”, onde expressava algumas opiniões um tanto ingénuas sobre política internacional, e acabou como uma figura importante na revista.

Pulido Valente escrevia sobre política como se estivesse no meio de literatos e sobre tudo como se ir contra a opinião fosse natural

Leonel de Castro/Global Imagens

Diz Pulido Valente que foi na revista que ganhou o estilo “engorolado” que nunca perdeu e, de facto, o Tempo e o Modo marca uma etapa importante no seu percurso. Não só porque é a revista que marca a sua entrada no mundo da imprensa de que nunca mais saiu, mas também porque, em Portugal, só O Tempo e o Modo permitia que um jovem ganhasse o calo político e literário que Pulido Valente ganhou. O Tempo e o Modo era uma revista católica, embora Pulido Valente não o fosse. É fruto do entusiasmo pelo Vaticano II e as peripécias da sua vida atribulada estão contadas em vários lados, desde crónicas do próprio Pulido Valente, às memórias de Alçada Baptista ou ao livrinho de Benard da Costa sobre os “vencidos do Catolicismo”. O certo é que a revista, embora se debruçasse sobre problemas pastorais de uma maneira hoje um tanto datada, também se dedicava a outros assuntos em que Pulido Valente foi ganhando experiência.

Na revista escreveram Mário Soares e Jorge Sampaio, Vieira de Almeida, Eduardo Lourenço, Almeida Faria e toda uma geração política e literária que teve no Tempo e o Modo o seu veículo de oposição, quer ao regime, quer à cultura literária vigente. Entre o Estado Novo e o neorrealismo estava O Tempo e o Modo, devoto do personalismo de Mounier (embora sem o ler com grande consistência) e de Agustina Bessa-Luís, que na altura fugia ao cânone mais apertado que a revista vértice cunhava.

Ora, Pulido Valente nunca perdeu parte daquilo que fazia o charme de O Tempo e o Modo. Escrevia sobre política como se estivesse no meio de literatos e sobre tudo como se ir contra a opinião dominante fosse natural.

O que mais cativa nos seus ensaios históricos é a ambição do Duque da Terceira ou o carácter trágico de Paiva Couceiro. A História de Pulido Valente é uma enorme análise de carácteres que deve tanto ao estudo, como à capacidade de análise psicológica e à mestria literária.

A reputação de O Tempo e o Modo fez-se com a naturalidade de uma opinião forte mas pouco consentânea com os padrões da época. E embora Pulido Valente olhasse com certa vergonha para alguns dos seus textos da época (a vergonha natural pelos textos de juventude), se esforçasse em relatar a experiência na revista com a circunspeção de sempre e desmerecesse alguns dos companheiros desse tempo, como Nuno Bragança, a verdade é que foi no Tempo e o Modo que o seu interesse pela política ganhou corpo.

Igualmente importante será, decerto o tempo passado em Oxford. Habitualmente, este tempo é referido como uma marca geracional – esteve fora como o estiveram vários intelectuais do regime, seja António Barreto seja Medeiros Ferreira. A ideia geral é a de que Portugal não tinha meios, sobretudo nas ciências sociais, para responder aos anelos intelectuais de uma sociedade que se começava a interessar pela sociologia ou pela economia de um modo mais abrangente, que não se satisfazia com a Universidade do Estado Novo. No entanto, para Vasco Pulido Valente, Oxford não se esgota numa fuga ao Estado Novo e num deslumbramento pelo estrangeiro. É certo que conservou para sempre algumas marcas de estrangeirado, uma anglofilia não escondida e um certo desprezo pela pequenez e saloia dos nossos feitos políticos e intelectuais. No entanto, Oxford é importante sobretudo por aquilo que deu ao seu modo de escrever História. Pulido Valente é um claro herdeiro da tradição inglesa, concentrada sobretudo nos grandes acontecimentos políticos e nas decisões humanas.

É óbvia a diferença, não dizemos apenas de perspetiva, entre o modo de descrever de Veríssimo Serrão, ou de Oliveira Marques e de Vasco Pulido Valente. Embora Pulido Valente não despreze os contextos de vária ordem, os problemas agrícolas ou industriais que enchem os quadros de dados de Veríssimo Serrão, a verdade é que a sua História, à maneira inglesa, é sobretudo a História dos grandes políticos e das suas decisões. Nesse sentido, é uma história muito mais humana e literária. Não por Pulido Valente escrever bem, mas porque o que sai da sua História são, sobretudo, personagens. O que mais cativa nos seus ensaios históricos é a ambição do Duque da Terceira ou o carácter trágico de Paiva Couceiro. A História de Pulido Valente é uma enorme análise de carácteres que deve tanto ao estudo, como à capacidade de análise psicológica e à mestria literária.

O vocabulário é queirosiano, as personagens, sempre vistas pelo seu pior ângulo, também, e o sarcasmo, embora menos divertido e mais desesperado, também deve muito a Eça

Leonel de Castro/Global Imagens

É certo que Pulido Valente não tem nenhum livro tão estruturado e estudado como O Poder e o Povo, sobre a primeira república, e que esse será justamente o seu livro mais importante. No entanto, talvez o mais interessante para perceber a sua ideia de História seja o seu projeto de biografias de alguns homens falhados do Portugal Contemporâneo, como Paiva Couceiro ou Marcelo Caetano. Nessa ideia está contido tudo aquilo que nos parece a essência do projeto histórico de Pulido Valente. Em primeiro lugar, a biografia é o género em que a sua História de tipo decisionista mais pode brilhar. Até pelo esforço da historiografia esquerdista em menosprezar a biografia e os feitos individuais, a ideia seria adequada a Vasco Pulido Valente; mas além disso, biografar Paiva Couceiro ou Marcelo Caetano quadra com a sua ideia de Portugal.

Todo o seu estudo do século XIX desemboca na ideia de um país perdido na sua pequenez, ainda com delírios de grandeza, que já não pode mascarar a falta de preparação estrutural com dinheiros vindos de fora. Ora, as biografias de Paiva Couceiro e de Marcelo Caetano são, de alguma forma, as biografias de figuras emparedadas por este mundo; que fazem um esforço hercúleo para o suplantar, mas que acabam vencidos por um país ou por um movimento atávico, raquítico, que não consegue de maneira nenhuma corresponder aos seus desígnios.

Ou seja, a sua historiografia não é, ao mesmo tempo, a historiografia ingénua que a Academia via nos heróis de Carlyle; o seu modo de fazer biografias é mais o de mostrar aquilo que o Homem não consegue fazer do que aquilo que consegue. É, verdadeiramente, uma História pessimista, não só pelo modo de olhar para o quadro geral, mas pela descrença na capacidade de o mudar.

Poucos intelectuais na vida contemporânea portuguesa puseram tanto empenho no seu estilo literário como VPV. De facto, desde que a ficção de alguma forma secou a ideia de literatura, poucos são os ensaístas que apuram o estilo como Vasco Pulido Valente.

É difícil não olhar para esta mundividência como tendo algo de autobiográfico. Encarcerado num país pequeno e numa “vozinha” de uma língua marginal, a personalidade de Pulido Valente, de um homem que não acredita nas suas próprias ambições, acaba por se revelar numa interpretação de um país que tem o seu interesse.

Poucos intelectuais na vida contemporânea portuguesa puseram tanto empenho no seu estilo literário como Vasco Pulido Valente. De facto, desde que a ficção de alguma forma secou a ideia de literatura, poucos são os ensaístas que apuram o estilo como Vasco Pulido Valente. É notória, na sua prosa, uma interpretação vincada de Eça de Queirós; o vocabulário é queirosiano, as personagens, sempre vistas pelo seu pior ângulo, também, e o sarcasmo, embora menos divertido e mais desesperado, também deve muito a Eça.

Ora, este estilo é importante porque casa com a própria interpretação que Pulido Valente faz do país. Um país ainda herdeiro do século XIX cabe no mesmo vocabulário de caciques, comendadores e arrivistas; os políticos de uma ambição ao mesmo tempo louca e pequena cabem nas demolidoras análises de Eça e de Pulido Valente; mas a falta do humor queirosiano, ou pelo menos a falta da sua leveza, também dizem muito de Pulido Valente. Na prosa de VPV nunca se consegue ver o distanciamento divertido de Eça. Pulido Valente não está pacificado com a pobreza intelectual dos seus congéneres e com as vistas curtas do seu país. E se isso lhe deu algum capital enquanto analista, por estar imune a todo o tipo de deslumbramentos, também mostra como devia ser difícil uma vida atormentada por um mundo que sabe não ser o seu mas de que não pode sair.

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