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O Bloco nunca defendeu a saída do euro? /premium

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A eurodeputada e candidata do BE às Europeias, Marisa Matias, veio detalhar o que pensa afinal o BE sobre o euro. Devia sair ou não? A arquitetura é má, disse, mas o BE nunca quis sair. É mesmo assim?

A frase

“"Não defendemos a saída do euro, nunca o fizemos"”

— Marisa Matias, Entrevista ao Eco, 25 de março de 2019


O Bloco de Esquerda tem sido um partido especialmente crítico do projeto europeu e de alguns dos seus instrumentos, como é o caso do Tratado Orçamental Europeu sobre o qual propôs e continua a propor (no manifesto do BE para as Europeias) que seja feito um referendo. As regras europeias, tem dito o Bloco, “acentuam os desequilíbrios entre os estados-membros”. O manifesto volta a apontar o que o partido tem dito nos últimos anos: “As desigualdades da arquitetura da UE e do Euro”. Uma posição que já fez o Bloco de Esquerda ter um discurso mais radical sobre a moeda única do que o que tem hoje — e um pouco diferente do que Marisa Matias disse esta terça-feira em entrevista ao Eco.

O que está em causa

Na entrevista, a candidata bloquista é questionada sobre a exata posição do partido que representa em relação à moeda única e começa por falar nos “sacrifícios” que ele já trouxe aos portugueses e volta a falar na necessidade de “reformas profundas porque os objetivos que estão inseridos na política do euro reforçam, pela própria arquitetura do euro, os desequilíbrios macroeconómicos e não promovem a coesão”. “É uma moeda que não favorece a coesão económica, social e territorial”, diz ainda Marisa Matias que logo depois lembra que durante a crise grega “o Bloco endureceu a sua posição em relação ao euro, naquela conjuntura”.

Recorda também que nessa altura o que o Bloco defendia era que “qualquer país sob chantagem não devia fazer sacrifícios que destruíram completamente a economia, levaram a mais privatizações, a mais cortes nos salários e nas pensões e pobreza”, como aconteceu com a Grécia. Mas uma coisa é o que se passou na Grécia, conclui logo a seguir. “Não defendemos a saída do euro, nunca o fizemos”. 

Quais são os factos?

Em março de 2017, depois de uma reunião da Mesa Nacional do partido (o órgão máximo entre convenções do partido) a posição do partido era, no entanto, bem mais radical do que Marisa Matias dá a entender nesta entrevista. Foi a própria líder bloquista, Catarina Martins, a dizer no final da reunião que tinha sido aprovada uma resolução a propor  “claramente que, para recuperar a capacidade democrática” do país sobre a economia e a finança, “é urgente preparar o país para o cenário de saída do euro ou mesmo de fim do euro”.

A tal resolução ditava mesmo que “a aliança do Partido Socialista à esquerda não interrompeu o seu curso “centrista”, nem a sua subordinação às regras do euro e dos tratados europeus. É essa subordinação que mantém intactos os problemas de fundo do país – o desemprego de massas e a sangria dos juros da dívida”. O caminho, defendia então o BE, para “recuperar a capacidade democrática do país sobre a economia e a finança é urgente preparar o país para o cenário de saída do euro ou mesmo de fim do euro”.

Uma posição, de resto, muito semelhante à que o PCP defende há anos em relação à moeda única e que nem sempre o Bloco de Esquerda acompanhou, basta recordar as palavras de Francisco Louçã, em 2011 (ainda líder do BE), quando dizia que uma saída do euro “só favorece a destruição de uma política europeia que é importante para a resposta à austeridade, e coloca a esquerda na posição inaceitável de propor a austeridade contra o seu povo”.

Anos mais tarde, numa entrevista ao Observador, o próprio Francisco Louçã (já não era líder nesta altura), dizia claramente: “Acho que o euro é prejudicial à economia portuguesa. Este debate é muito sério. Fomos os únicos economistas em Portugal a fazer as contas, dizendo às pessoas que têm uma solução muito difícil. Mas a pior de todas é continuarmos a matar o país. Por isso é preciso pensar na saída do euro”.

A linha da preparação da saída foi-se acentuando, mas hoje, de facto, no manifesto do Bloco às Europeias, ela é inexistente — ainda que continue a apontar os erros na origem da moeda única: “No momento em que a integração europeia se tornou uma ameaça para a própria democracia, o lugar da esquerda internacionalista é só um: defender, sem hesitações e com todas as esquerdas europeias, a democracia e os direitos que a compõem. O Bloco de Esquerda não prescinde, em nome do Euro, do seu programa político. Nem se furta aos combates que se travam nas instituições europeias, por mais difíceis ou desiguais”. Mas não ao ponto de Marisa Matias poder dizer que esta situação nunca foi pensada pelo partido que representa.

A inversão de discurso até já foi apontada pelo adversário da esquerda nestas Europeias. João Ferreira do PCP usou a sua página no facebook para uma provocação ao Bloco:

Conclusão

A própria posição que o Bloco de Esquerda defendia até aqui nunca chegou a sair de uma zona cinzenta. É um facto que o partido não defendeu a saída do país do euro com todas as letras. Escudou-se sempre em frases como “preparação para uma saída” ou em “preparar um cenário de saída”. Posições suficientemente ambíguas para não se poder dizer que o Bloco defendia abertamente o rompimento com a moeda única. Mas não tão ambíguas assim que não permitam afirmar que a ideia da saída estava lá. Ou seja, o “nunca” de Marisa Matias, acaba por se enganador, aproveitando uma posição de base do Bloco de Esquerda que nunca foi, também ela, clara.

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