Há uma publicação viral no Facebook que afirma que os infetados pelo novo coronavírus sem sintomas não são “casos reais de positivos” para a presença de SARS-CoV-2. A mensagem já foi partilhada por mais de uma centena de pessoas, mas é falsa: mesmo os doentes assintomáticos testam positivo para o novo coronavírus, ou seja, estão realmente infetados.

A longa publicação em causa está dividida em 20 questões, todas elas com uma resposta — tudo para desmascarar a “verdadeira farsa da Covid-19”, como sugere a mensagem. Uma das perguntas interroga se os “assintomáticos são casos reais de positivos”. E a resposta surge logo a seguir:

O ser humano possui muitos microrganismos e vírus no corpo e isso não significa que você seja uma pessoa doente ou infectado, ou que tenha o vírus, porém, os vírus que são supostamente “tão agressivos” apresentam alguns sintomas nos pacientes porque o corpo libera alarmes de um intruso (febre, dor de cabeça, vômito, etc.) e de acordo com a teoria de Koch a resposta é NÃO”.

Mas esta explicação está errada. Em primeiro lugar, a publicação peca por invocar imprecisamente os Postulados de Koch. A teoria foi desenvolvida por um microbiólogo em 1884 e estabelecia quatro critérios para se determinar se havia uma relação causal entre um micróbio e uma doença.

De acordo com os postulados, “o microrganismo deve ser encontrado em abundância em todos os organismos que sofrem da doença, mas não deve ser encontrado em organismos saudáveis”. Para se concluir sobre essa relação, “o microrganismo deve ser isolado de um organismo doente e cultivado em cultura pura” e, uma vez introduzido num segundo hospedeiro, “causar doença quando introduzido num organismo saudável”. O último passo era isolar o microorganismo novamente: se fosse semelhante ao recolhido na primeira pessoa, então a relação entre ele e a doença estava comprovada.

Mas estes postulados estão desatualizados à luz da ciência moderna e já não são usados pela comunidade científica atualmente — que prefere os Critérios de Bradford Hill, apesar de também estes serem constantemente debatidos, como é natural na investigação científica. Há 136 anos, quando a teoria de Robert Koch foi concebida, os cientistas não sabiam o que eram os vírus, o microscópio eletrónico ainda não tinha sido inventado e desconhecia-se que havia quem pudesse estar infetado por um agente infeccioso mesmo sem demonstrar sintomas da doença.

A Covid-19 é uma das doenças em que isso pode acontecer: de acordo com o Inquérito Serológico Nacional — um estudo do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), Associação Nacional de Laboratórios Clínicos e Serviço Nacional de Saúde (SNS) que tinha por missão revelar a extensão da epidemia em Portugal —, 44% das pessoas com anticorpos específicos contra o novo coronavírus nunca tinham tido qualquer sintoma da doença.

A questão é que, de acordo com a evidência científica mais robusta, as pessoas assintomáticas podem ter cargas virais tão altas como os doentes que desenvolvem sintomas de Covid-19. Por outras palavras, uma pessoa sem febre ou dificuldade respiratória pode ter uma quantidade de vírus semelhante à de uma pessoa com todas essas manifestações da doença.

Ora, para determinar se uma pessoa é ou não portadora do SARS-CoV-2, as autoridades de saúde portuguesas estão a usar os chamados testes RT-PCR em tempo real, que detetam a presença do material genético do vírus. Se a análise assinalar a presença de ARN viral na amostra recolhida, o teste é positivo; mas se não o encontrar, o teste é negativo. Isso não depende dos sintomas que a pessoa testada apresenta.

Estes testes são altamente sensíveis à presença de ARN viral e, por isso, altamente fiáveis — logo, os falsos negativos são muito poucos e os falsos positivos são ainda mais raros. Estes últimos só ocorrem se houver algum erro no procedimento da análise laboratorial, como a contaminação de uma amostra com o vírus existente noutra amostra. Como estes testes são feitos em laboratórios de alta biossegurança, esses casos são muito escassos.

Conclusão

Não é verdade que os testes positivos feitos a doentes assintomáticos sejam falsos. Mesmo os infetados que não apresentem sintomas da Covid-19 têm material genético do SARS-CoV-2 no organismo — material esse que é detetado pelos testes de diagnósticos utilizados pelas autoridades de saúde. Estes testes são altamente sensíveis, por isso têm uma alta fiabilidade.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA1: este artigo foi produzido no âmbito de uma parceria de fact checking entre o Observador e a TVI

NOTA2: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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