Uma publicação partilhada no Facebook alega que a utilização prolongada de máscara contribui para a “inalação de micróbios nocivos” e que isso “pode contribuir para o cancro de pulmão em estágio avançado em adultos”. O utilizador do Facebook em questão cita um artigo do Contra Fatos como fonte para a informação que partilha. O site aponta como linha editorial o debate dos factos. “Um facto não é uma verdade incontestável. Queremos mostrar o outro lado dos factos, o lado que a maior parte dos média esconde ou finge não existir”, refere o mesmo.

Por sua vez, o Contra Fatos cita um estudo da revista Cancer Discovery para avançar que “a inalação de micróbios nocivos pode contribuir para o cancro do pulmão em estágio avançado em adultos” e que “o uso prolongado de máscaras faciais pode ajudar a criar esses patogéneos perigosos”.

O site brasileiro afirma que “os microbiologistas concordam que o uso frequente de máscaras cria um ambiente húmido no qual os micróbios podem crescer e proliferar antes de entrarem nos pulmões. Esses micróbios estranhos viajam pela traqueia e entram em dois tubos chamados brônquios até chegarem a pequenos sacos de ar cobertos por vasos sanguíneos chamados alvéolos”.

O estudo citado pelo site foi publicado na revista Cancer Discovery, uma publicação que pertence à Associação Americana para o Estudo do Cancro. No entanto, à agência Reuters, os dois autores do estudo em que se baseia o artigo do Contra Fatos sublinharam que a investigação não envolve a utilização de máscaras em nenhum momento e que “não há evidência científica” que relacione o estudo com a utilização de máscaras.

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James Tsay, um dos investigadores, avança que os pacientes que participam no estudo foram recrutados anos antes da pandemia, “entre 2013 e 2018”. Também sublinham que a utilização de máscaras “não era comum durante o período de estudo” e que, por isso, “é extremamente improvável que [a utilização de máscaras] influencie as conclusões do estudo”.

Outro dos autores do estudo, Leopoldo N. Segal, sublinha que “não há evidência científica para suspeitar de que a utilização de máscara aumente a quantidade de bactérias orais que chegam aos pulmões” e que a “principal fonte destas bactérias nos pulmões é a boca e a oro-faringe [parte da faringe que está por trás da boca]”. À agência Reuters, Leopoldo N. Segal conclui que “a quantidade destes micróbios orais está dependente da higiene oral e do consumo de alimentos” e que é normal encontrar estas bactérias “na cavidade oral de praticamente todos os indivíduos”.

Os autores do estudo afirmam que são “várias as diferentes hipóteses que justificam os níveis destes micróbios que podem ser detetados nos pulmões”. Por exemplo, “uma aspiração das próprias secreções orais” ou uma “menor capacidade de as expulsar”.

São justificações corroboradas pelo presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, António Morais. Em declarações ao Observador, o médico fala numa associação abusiva e em falta de rigor:

Há uma associação abusiva que é feita com as máscaras o que claramente não é rigoroso, o estudo não é feito neste contexto. Efetivamente, as máscaras poderão criar condições de retenção de micro-organismos e até da sua proliferação, nomeadamente se mantivermos um tempo exagerado no seu uso. No entanto, os micro-organismos que se vão encontrar nesta circunstância são aqueles que exalamos do nosso interior, nomeadamente aqueles que estão habitualmente alojados na nossa oro-faringe, pelo que não haverá nenhuma alteração em relação ao que já é habitual. A referência adicional que respiramos mais com a boca e assim podermos aspirar os micro-organismos com maior facilidade, por o nariz estar coberto, não é manifestamente verdadeira, como todos nós podemos constatar.

António Morais defende ainda que a relação entre a presença de micro-organismos nos pulmões e o cancro em estágio avançado é uma hipótese:

Este trabalho formula uma hipótese, para o que dá uma explicação fisiopatológica, mas é meramente uma hipótese e não uma associação estabelecida. Verificam a presença de alguns micro-organismos em doentes com cancro do pulmão em estádios avançados. Daí a haver uma causa-efeito, ou uma associação com fases mais graves da doença, é um passo mais arrojado. Uma associação deste tipo exigiria, para além da observação da presença estatisticamente significativa dos microrganismos referidos no contexto do cancro do pulmão, a sua validação. Isto é, a confirmação em outros estudos e uma conexão comprovada entre os micro-organismos e a doença, dado que a mera presença dos micro-organismos pode apenas ser um achado ou uma coincidência. Por exemplo, a evidência de substâncias cancerígenas provenientes do tabaco e a sua relação com o cancro do pulmão demorou décadas a ficar estabelecida.

Conclusão

A publicação defende que há uma relação direta entre a utilização de máscara e o cancro do pulmão em estágio avançado, e isso é falso. O estudo em que se baseia o argumento não refere máscaras em nenhum momento, os participantes no estudo foram recrutados antes da pandemia de Covid-19 (2013-2018) e, por isso, a utilização de máscara não era tão comum. Os autores do estudo afirmam que “não há evidência científica” que relacione as conclusões da investigação com o uso de máscaras faciais e que “a quantidade destes micróbios orais está dependente da higiene oral e do consumo de alimentos”.

Também o presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia fala numa “associação abusiva”. António Morais explica que a máscara não provoca nenhuma alteração nos micro-organismos presentes nas cavidades orais.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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