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O cancro é um fungo que pode ser curado com bicarbonato de sódio?

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Uma publicação partilhada no Facebook afirma que o cancro é um fungo curável com bicarbonato de sódio. Mas é tudo uma mentira disseminada por um médico condenado por fraude e homicídio involuntário.

A frase

“'Cancro é um fungo! E o bicarbonato de sódio ajuda a curar o cancro', diz oncologista ”

— Portal Mundão Espetacular, 29 de abril de 2018


O cancro é um fungo que pode ser curado com recurso a bicarbonato de sódio. Esta é a promessa que páginas como o Portal Mundão Espetacular — mas também outras, como o Universo Cético e o Portal Mania de Tudo — estão a partilhar no Facebook há pelo menos um ano, com um número significativo de partilhas nas últimas semanas. Essa informação é falsa. O cancro é, na verdade, uma doença que surge quando as células se começam a dividir descontroladamente após sofrerem mutações genéticas. E o bicarbonato de sódio não só não é uma cura para essa doença, como pode levar ao desenvolvimento de outras.

Esta teoria baseia-se nas palavras de um ex-médico italiano chamado Tulio Simoncini, que em setembro de 2007 lançou um texto onde afirma ter provas científicas de que “a causa do cancro é uma infeção por um fungo comum, o Candida albicans“.

Capturas de ecrã às páginas do documento em que Tulio Simoncini afirma que o cancro é causado por um fungo e que pode ser atacado com bicarbonato de sódio. Créditos: NEXUS

Nesse texto, Tulio Simoncini insiste que “o Candida albicans claramente emerge como um candidato isolado para a proliferação do tumor”, nomeadamente por causa da rapidez com que esse fungo prolifera. Simoncini, que se apresenta como oncologista, deixou de poder exercer medicina em 2003 por aplicar tratamentos sem fundamento científico e potencialmente perigosos. E confessa ter tido dificuldade de ver esta sua teoria aceite pela comunidade científica: “Tentei muitas vezes explicar esta teoria às instituições de topo envolvidas em assuntos do cancro, elaborando sobre este pensamento, mas sempre fui colocado de lado por causa da impossibilidade de enquadrar a minha ideia num contexto convencional”.

Isso tem dois motivos. O primeiro é que, de facto, o cancro não é causado por um fungo. Tal como explica ao Observador Paulo Cortes, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, “o cancro é uma doença que decorre de alterações ao código genético das células, que são clones”. Quando isso acontece, começam a dividir-se sem controlo. E adquire capacidade não só de invadir outros tecidos, como de sobreviver aos combates do sistema imunitário.

De acordo com o médico oncologista, não há nenhum cancro que tenha origem num fungo. “Em alguns casos, podem ser vírus a provocar estas alterações genéticas. Por exemplo, o cancro do colo do útero é provocado pelo vírus do papiloma humano [HPV], que infeta as células e provoca as alterações genéticas. O vírus da hepatite C pode causar cancro no fígado. Mas isso são vírus. Os fungos não têm essa capacidade”.

Então, o que justifica o facto de alguns cancros crescerem tão rápido e se espalharem para outros órgãos? Nada tem a ver com a possibilidade de eles serem causados por um fungo, como sugere Tulio Simoncini. Na verdade, os cancros podem desenvolver-se muito depressa porque as células que os compõem têm a capacidade de se espalharem pelo organismo através do sistema circulatório e do sistema linfático. É ao andar à boleia do sangue e da linfa que surgem as metástases — novos tumores que se desenvolvem longe do original.

Esta falácia não é o único motivo pelo qual Tulio Simoncini encontrou resistência por parte dos colegas quando tentou apresentar as suas ideias sobre o cancro. Um ano antes de lançar o polémico texto a afirmar que o cancro era causado por um fungo, Tulio Simoncini foi condenado a uma pena de cinco anos e meio de prisão pela morte de Luca Olivotto, um jovem de 27 anos com um cancro no cérebro.

Tulio Simoncini, ex-médico italiano condenado por homicídio involuntário e abuso profissional por tratar um doente com bicarbonato de sódio. O paciente tinha cancro no cérebro e morreu por causa do tratamento fraudulento. (Créditos: Simoncini Cancer Therapy)

O então médico tinha prometido curar o paciente sem sessões de quimioterapia, por exemplo, mas com a injeção intravenosa de grandes doses de bicarbonato de sódio. Mas Luca Olivotto morreu ao fim de quatro meses com uma paragem cardiorrespiratória que, na conclusão dos médicos legistas e do tribunal, foi provocada pelo consumo desse composto. Tulio Simoncini foi acusado de homicídio involuntário e prática abusiva da profissão. Mas foi libertado com pena suspensa ao fim de dois anos.

É daqui que vem a segunda afirmação falsa do artigo que tem circulado no Facebook e que já se tornou viral. Tulio Simoncini afirmava que o bicarbonato de sódio podia curar o cancro: “Relativamente à possibilidade de haver curas farmacêuticas disponíveis, coisa que infelizmente não existe hoje, parece útil, na tentativa de encontrar uma substância anti-fungos que seja bastante difundida e, portanto, eficaz, considerar a extrema sensibilidade do Candida ao bicarbonato de sódio”.

O que Tulio Simoncini argumenta é que, como o fungo supostamente causador do cancro tem uma “acentuada capacidade de se reproduzir em ambientes ácidos”, o bicarbonato de sódio, por ter um pH mais alcalino, podia baixar a acidez do organismo e retardar o desenvolvimento do Candida: “Se se encontrassem tratamentos que pusessem o fungo em contacto direto com altas concentrações de bicarbonato de sódio, deveremos conseguir ver uma regressão das massas tumorais”, defende o ex-médico.

Ora, esta teoria tem dois problemas. A primeira já foi desmontada em cima: o cancro não é causado por um fungo, portanto atacar um suposto fungo em nada terá influência na regressão da doença. Na verdade, sublinha a Cancer Research UK, uma instituição britânica de investigação sobre o cancro, “este nem sequer é o tratamento usado para tratar infecções fúngicas comprovadas, muito menos o cancro”.

Paulo Cortes explica ao Observador que o tratamento proposto por este ex-médico não faz sentido por causa “do nosso estado de homeostasia”: “Estamos em homeostasia quando estamos em equilíbrio. O corpo humano tem tendência a permanecer nesse estado e a resistir àquilo que o ameace”. E acrescenta: “Também já houve alturas em que se jurava que a água de Monchique, por ser mais alcalina, curaria o cancro. Mas isso também se provou ser mentira”.

O Cancer Research UK alerta que “há boas evidências de que altas doses de bicarbonato de sódio podem levar a consequências sérias e até fatais“: “Como o corpo resiste fortemente a tentativas de alteração do pH, geralmente eliminando o bicarbonato através dos rins, existe o risco de que doses grandes possam afetar significativamente o pH em torno de um tumor”.

Quando isso acontece, o doente pode desenvolver um problema chamado alcalose, que é o aumento na alcalinidade dos fluidos do corpo. Quando o sangue que circula nas artérias tem um pH superior a 7,5, o paciente pode começar a sentir tonturas, enjoos, vómitos e espasmos musculares. A solução, quando existe, é tomar medicamentos que voltem a equilibrar o pH dos fluidos corporais.

Ou seja, não só o bicarbonato de sódio não cura o cancro como pode nem sequer ajudar na recuperação, mesmo nos casos em que a doença está a ser atacada com os tratamentos convencionais, como a quimioterapia ou a radioterapia.

Conclusão

As informações veiculadas pelo texto que tem sido muito partilhado no Facebook são completamente falsas. O cancro não é causado por um fungo, mas é antes uma mutação genética das células do corpo. E não pode ser combatido com bicarbonato de sódio, não só porque o corpo tem tendência a eliminá-lo como porque, quando não o faz, pode levar ao desenvolvimento de doenças graves. Essa teoria partiu de um antigo médico que perdeu a cédula profissional por os tribunais — e a comunidade científica — terem detetado fraudes nas suas investigações. Fraudes tão graves que levaram à morte de um paciente, o que levou à condenação do ex-médico.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook e com base na proliferação de partilhas — associados de reportes de abusos de vários utilizadores — nos últimos dias.

O Observador é signatário e entidade verificada pelo International Fact-Checking Network (IFCN)
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