Podia afirmar que existe um recurso, uma mercadoria ou diria, uma ​Camellia sinensis​ na raiz de todos os problemas britânicos. A ​Camellia sinensis​ é vulgarmente conhecida por “planta do chá” e os coletes vermelhos do séc. XIX necessitavam da sua essência no conforto das suas casas, uma quasi-dependência cultural. A China era um dos principais fornecedores dos hábitos requintados da alta Londres. O mercado entre o Império Britânico e a China da dinastia Qyn apesar de lucrativo, tendia fortemente para os mercadores chineses. A vida de um comum camponês chinês não era fácil. As drogas pesadas serviam muitas vezes de refúgio às amarguras da vida. Os mercadores britânicos começaram a descarregar grandes quantidades de ópio aquando carregavam os seus valiosos sacos de chá. Sendo um produto ilegal e imensamente procurado, o ópio era rapidamente vendido a preços altíssimos. O desequilíbrio na balança mercantilista começou lentamente a tender para o lado britânico. Contudo, como efeito secundário, apoderou-se lentamente pela China uma crise de opiáceos. O Imperador Daoguang, certo das suas convicções, dá ordem para se confiscar violentamente a mercadoria britânica nos portos chineses. Para os britânicos a resposta era óbvia : guerra! Ou duas para ser mais exacto, a 1o e 2o guerra do ópio. À marinha mais poderosa do mundo, os chineses não eram rivais. Na sua derrota, a China foi obrigada não só abrir o seu mercado interno ao investimento estrangeiro como também a ceder gradualmente a região de Hong Kong.

Na verdade os primeiros europeus a chegarem à região foram portugueses, nomeadamente o navegador Jorge Álvares em 1513. Os portugueses, derrotados após a batalha de Tamão, conseguiram apenas negociar o empréstimo de Macau, cidade vizinha de Hong Kong. Até ao final das guerras do ópio, Macau era o centro de comércio para os estrangeiros à procura de fundar fortunas. Contudo a influência e o poderio da grande “oficina do mundo” – título do império britânico no séc.XIX – gradualmente concentraram em Hong Kong a economia da região.

A ocupação japonesa da cidade durante a 2o guerra mundial foi incessantemente dura mas resistida. O impacto na economia local foi brutal. A cidade viu literalmente as suas artérias marítimas serem fechadas. Atrocidades contra a população civil era comuns. A cidade habituada à rotina de liberdade passou a viver em estado de sítio, sem nem liberdade nem rotina. Contudo o principal efeito na cidade devido à 2o guerra mundial não advém diretamente do Império do Japão mas sim da China fragmentada. A guerra civil chinesa entre forças nacionalistas e comunistas torna o país vizinho num surto de imigrantes e refugiados. As portas da cidade são inundadas de chineses à procura de segurança. A classe alta chinesa – nomeadamente muitos empresários de Shanghai – chegam à cidade para começar uma nova vida após a tomada Maoista da China. É certo que a imigração chinesa para Hong Kong sempre foi alta dado as oportunidades económicas em fusão pela cidade. Mas nada que se comparasse. A cidade não estava estruturalmente pronta para o fluxo contínuo e em massa de novas entradas. A falta de alojamento, as rendas altíssimas, a falta de água, a tensão entre nacionalistas e comunistas chineses – que explodiu num

motim em 1967 – tudo parecia estar a correr mal ao domínio britânico. Mas não estava. Na verdade, Hong Kong destacava-se em toda a Ásia. A defesa das suas estruturas democráticas, a concentração incomparável de riqueza nas suas ruas, a concepção de liberdades fundamentais – tanto sociais como econômicas- , o apego à educação superior e a alta expectativa e qualidade de vida da sua população. Até mesmo alguns dos seus problemas elementares, como as evidentes desigualdades económicas, seriam relativizadas pela região, isto é, ser pobre Hong Kong não significava o mesmo que ser pobre na vizinha China comunista.

Mas as feridas da 2o guerra mundial causadas ao império britânico eram incuráveis. O Reino Unido chega à década de 90 incapaz de fazer frente aos novos gigantes asiáticos. O controlo de Hong Kong fechava ao Reino Unido as portas do mercado chinês – que já se previa na altura vir a tornar-se uma das maiores economia do mundo. A primeira-ministra Margaret Thatcher, inicia o processo de entrega da soberania de Hong Kong à República Popular da China no sentido de restaurar relações e não isolar futuramente a economia britânica do mercado asiático. Assim nasce o acordo para o sistema de “um Estado, dois sistemas” que resultou na manutenção da independência administrativa e económica da cidade de Hong Kong mas tornou-a efectivamente parte da “mainland” China.

Chegamos agora a 2047. Esta data, pouco discutida, é a meu ver essencial para o futuro de Hong Kong. O acordo prevê a manutenção do sistema de “um Estado, dois sistemas” mas apenas até 2047. Ao contrário do que nos é partilhado nos media, Hong Kong será integrada na administração chinesa no ano de 2047. Os pequenos passos que a China vem tentando dar na sua interferência dos assuntos internos de Hong Kong surgem da necessidade de iniciar uma integração gradual do território. Faz todo o sentido para o partido comunista chinês que a cidade venha a mudar lentamente de cor, de hábitos e de tendências para que a sua integração oficial em 2047 não seja resistida. São princípios de anexação antigos, bem descritos por personalidades como Maquiavel. Um povo democrático – como é o caso da população cantonesa – não esquece facilmente o sabor da liberdade. Isto significa que, ou Hong Kong vai ceder forçadamente à China, ou a China até 2047 se vai aproximar gradualmente dos princípios cantoneses. É difícil prever num prazo tão longo penso em duas possibilidades. Hong Kong continua a resistir mas a perder lentamente a sua coesão interna até se tornar pacificada. Neste cenário, uma imigração em massa de Hong Kong para países como o Reino Unido ou Austrália parece-me lógico. Ou, Hong Kong resiste até ao fim e por fim assumimos o início de uma ocupação militar da cidade – à semelhança do que a China já faz em regiões como o Tibet e Xinjiang.

A história está repleta de ironias e Hong Kong é um bom exemplo. Uma cidade que nasceu de uma intervenção colonialista mas em que lhe é imposto um sistema mais liberal e democrático do que aqueles presentes em seu redor. Uma cidade de conteúdo europeu mas fundida de estética asiática. Uma cidade que desejava ser livre dos tiranos britânicos mas que hoje se sacrifica a defender os ideais e as instituições que eles deixaram – a presença da bandeira britânica nas manifestações do último ano é constante. Uma cidade onde a democracia tem um prazo limite.