Corria o ano de 1994. A Câmara Municipal de Lisboa, dirigida por Jorge Sampaio com o apoio da primeira geringonça do país, levava a cabo uma operação de reabilitação urbana designada Projeto Integrado do Castelo (PIC).

Preparava-se a Capital Europeia da Cultura que ocorreria nesse ano, sonhava-se com a Expo’98 que viria daí a quatro anos, o dinheiro corria a rodos e o PCP com o pelouro da reabilitação urbana da Câmara Municipal de Lisboa, propunha-se a grandes feitos.

O bairro do Castelo era um excelente protótipo para essas proezas. Era uma das mais pequenas freguesias de Lisboa, com 134 edifícios, 410 habitações e uns 750 habitantes. Em nome da reabilitação urbana desataram a expropriar e propunham-se fazer uma espécie de bairro social em pleno centro histórico da cidade.

Não faltava dinheiro. A degradação de muitos dos edifícios após décadas de abandono legitimava a intervenção. E muitos, já eram propriedade municipal. Pelo caminho, apareceu o vetusto edifício que servia de sede ao Grupo Excursionista do Castelo, cujas instalações, muito degradadas, foram fechadas (é proibido utilizar a palavra despejo) e a quem foi prometido que as mesmas seriam reabilitadas. Disseram-lhes que demoraria uns meses…, mas não disseram quantos.

Infelizmente, como é habitual nestas coisas, os anos passam e as “atenções” foram mudando para outras paragens, conforme as notícias empurraram a câmara e os senhores vereadores para outros temas mais populares e candentes, ao sabor dos ventos que iam soprando.

E do Plano Integrado do Castelo, nada restou.

Jorge Sampaio deixou a Câmara e candidatou-se a Presidente da República. Sucedeu-lhe João Soares. Os vereadores do PCP com o pelouro da reabilitação urbana, também saíram. Pelo meio fizeram-se umas restruturações dos serviços. Mudaram-se dirigentes e muitos técnicos.

Vieram as eleições de 2001, depois as de 2005, até que a Câmara caiu e houve as eleições intercalares de 2007. Tinham decorrido 13 anos e a sede do Grupo Excursionista do Castelo continuava degradada, sem obras e fechada. Pela câmara passaram vários Presidentes, muitos vereadores, dezenas de dirigentes e agora chegava António Costa. Por esta altura, o Projeto Integrado do Castelo já era uma lembrança longínqua de uma operação megalómana, que se propôs fazer do bairro do Castelo uma versão de Nowa Huta adaptada à reabilitação urbana dos anos 90.

Em junho de 2010 o JN noticiava a indignação dos moradores do Castelo por causa do aumento dos preços das entradas no Castelo de S. Jorge e recordava a situação de abandono desta coletividade centenária e do bairro. Um dos entrevistados, ainda diretor da coletividade tem uma frase premonitória: “A Câmara só quer que morram todos os habitantes do bairro para ficar com isto à sua maneira, está a perceber?”

Dez anos depois desta reportagem do JN, li agora a notícia do Público que me alertou para este caso. A Câmara Municipal de Lisboa para além de não cumprir com a sua palavra de arranjar a sede desta coletividade centenária, decidiu agora vender o edifício para sanar um litígio que tem por resolver há 18 anos com uma empresa imobiliária por causa de umas expropriações na zona da Ameixoeira.

De facto, 26 anos é uma eternidade para quem espera pela realização de uma promessa, mas é um ápice para quem se “esquece” de a cumprir.

Este episódio trouxe-me à memória um outro ocorrido há cerca de dois anos quando revisitei a Rua João do Outeiro, em plena Mouraria, onde já não ia há uns 25 anos. E lá estava ele. O prédio com o número 46. Emparedado, ao abandono, em ruínas, tal como tinha ficado em 1989, poucos meses depois de ter ameaçado colapsar e numa operação de emergência se terem retirado os seus moradores para local seguro. Só que este edifício foi então expropriado pela câmara, tinha projeto para ser reconstruído e reutilizado. Assim ficou e assim está na posse da câmara há mais de 30 anos. Tal como o edifício de gaveto da Travessa do Poço da Cidade com a Rua do Diário de Notícias no Bairro Alto ou o Pátio da Pascácia no número 74 da Rua de Santa Cruz do Castelo.

Por um destes dias, ainda veremos a Câmara Municipal de Lisboa realizar um evento de homenagem às coletividades de cultura e recreio da cidade, elogiar a sua história e o papel que tiveram na vida dos nossos bairros, lançar umas quantas lágrimas de crocodilo por aquelas que se finaram por causa da malvada “lei dos despejos”. O Grupo Excursionista do Castelo é uma dessas coletividades centenárias de Lisboa que há 26 anos ficou sem sede, quando a câmara os “despejou” e lhes prometeu uma sede reabilitada no bairro onde nasceram em 1906 e no edifício onde sempre estiveram desde 1922.

Lisboa tem uma câmara municipal a quem sobra em dinheiro o que lhe falta em memória para cumprir as suas promessas e obrigações. Há sempre um pretexto ou uma amnésia para descartar responsabilidades do passado e encontrar algum governo ou antecessor para ficar com as culpas.

Só que no caso do Grupo Excursionista do Castelo cabe perguntar a Fernando Medina, que é useiro e vezeiro a descartar-se de responsabilidades, quanto vale a palavra do seu antecessor Jorge Sampaio, dada há 26 anos. Talvez numa próxima homenagem como a que foi realizada em janeiro passado, alguém tenha de perguntar a Jorge Sampaio se a mesma inclui este tipo de “esquecimentos”…