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A Euribor, os créditos e o guarda-chuva do banqueiro

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Defende a Associação Portuguesa de Bancos que o mínimo que a banca deve cobrar pelos créditos é o “spread”, ignorando as Euribor negativas. Faz sentido? Não. É justo? Também não.

Um banqueiro é alguém que nos empresta um guarda-chuva quando está sol e que nos obriga a devolvê-lo quando começa a chover.

Esta definição de bolso de fácil efeito tem uma parte de demagogia e uma parte de verdade. A demagogia é que o que se passa com a banca não é diferente do que se passa com a generalidade dos outros negócios. A verdade é que é mesmo assim: somos todos amigos quando a economia vai bem (ou apenas aparentemente bem) e o dinheiro barato chega para todos mas rapidamente nos tornamos adversários quando acabam os tempos de cigarra.

As posições que já se conhecem sobre o que devem os bancos fazer agora que as taxas Euribor caem para terreno negativo e ameaçam trazer os indexantes de muitos créditos bancários para níveis abaixo de zero é mais uma prova disso.

A quase sempre discreta Associação Portuguesa de Bancos abriu uma das raras excepções e tomou publicamente posição sobre o assunto – a propósito: por onde tem andado a APB nos últimos anos que não tem reparado nos escândalos da banca? Não tem uma palavra a dizer sobre os clientes que subscreveram papel comercial do GES aos balcões do Espírito Santo? Não tem uma tomada de posição forte contra aqueles que dão mau nome ao sector?

Defende a APB que o mínimo que a banca deve cobrar pelos créditos é o “spread”. Ou seja, que as taxas Euribor negativas não devem ser levadas em linha de conta, ainda que os contratos feitos com os clientes não prevejam qualquer excepção no cálculo dos encargos do empréstimo quando o indexante entra em terreno negativo – algo, de facto, inimaginável há apenas uns meses.

Faz sentido? Não. É justo? Também não.

Vamos ver porquê com algum detalhe porque os meandros do mercado financeiro nem sempre são imediatos para todos.

Não é por acaso que o cálculo do juro cobrado pela banca para a generalidade do empréstimos é feito da forma que é: toma-se como base de referência, ou indexante, uma taxa de juro de mercado – a Euribor a três ou seis meses são as mais utilizadas – e a esta se adiciona um “spread”.

O facto de se ligar o custo dos empréstimos a um indexante de mercado permite que os bancos garantam, à partida, que cobram aos seus clientes, no mínimo, o mesmo que pagam eles próprios pelos empréstimos que eventualmente tomem do mercado. As taxas Euribor são calculadas diariamente a partir dos financiamentos que os bancos fazem uns aos outros no mercado monetário.

Uma taxa Euribor a seis meses de 0,5% num determinado dia, por exemplo, significa que nesse dia os bancos emprestaram uns aos outros dinheiro pelo prazo de seis meses a uma taxa média ponderada de 0,5% – porque diariamente os bancos emprestam dinheiro uns aos outros, em função das suas posições excedentes ou deficitárias de tesouraria.

Portanto, se a Euribor sobe isso quer dizer que os bancos estão a financiar-se a taxas de juro mais elevadas nesse mercado. E se ela desce é porque o dinheiro ficou mais barato.

É, simplificando, como ter um preço de referência para o mercado grossista das maçãs, das batatas ou da carne de vaca.

Por cima deste custo do dinheiro para os bancos, soma-se então o “spread”. Este, por sua vez, incorpora dois factores: por um lado a margem de lucro do banco naquela operação e por outro o prémio de risco associado a cada cliente concreto.

Por isso é que, sendo o indexante igual para muitos clientes, os “spreads” são diferenciados. Um cliente considerado de baixo risco – bons rendimentos e sem sinistralidade bancária – conseguia, nos bons tempos, “spreads” de 0,3 ou 0,5 pontos percentuais. E outro, cliente do mesmo banco mas com rendimentos menores ou com uma situação profissional precária – e, por isso, com maior risco de poder falhar pagamentos no futuro – conseguia apenas 0,8 ou um ponto percentual de “spread” para um financiamento em tudo semelhante ao primeiro.

Aqui chegados temos então que os contratos garantem aos bancos que eles recuperam o preço a que eles próprios “compram” dinheiro mais a sua margem de lucro e prémio de risco. Esta lógica funciona sempre, independentemente de termos a Euribor negativa em 0,5%, por exemplo, ou positiva a 6%, como esteve há sete ou oito anos.

Se a Euribor fica negativa significa que a banca está, também ela, a poder financiar-se a juros negativos, isto é, a tomar dinheiro a outros bancos que pagam para fazer esse financiamento (emprestam 100 aceitando receber apenas 99 de capital mais juros, por exemplo).

A pergunta que deve fazer-se é então esta: devem as instituições financeiras ficar com esta margem para si ou transferi-la para os clientes? Devem, obviamente, passá-la para os clientes. Primeiro, porque os contratos a isso obrigam. Depois, porque não estão a dar nada que eles também não recebam. Por fim, porque se a lógica do cálculo se mantém quando as Euribor sobem bastante não se vê que moral possa haver para fazer um intervalo nessa mesma lógica quando as taxas descem para valores negativos. Essa moral só existiria se os bancos estivessem dispostos a colocar um “tecto” nas Euribor a cobrar quando estas ultrapassem um valor razoável – 5%? 6%? Estão? Não me parece.

O que a banca quer é aproveitar esta estranha e perigosa conjuntura – preços de bens e serviços em queda e taxas de juro negativas – para aumentar a sua margem financeira.

É verdade que os fantásticos “spreads” de apenas algumas décimas oferecidos nos anos de ouro do crédito abundante e barato tornaram-se entretanto maus negócios para algumas instituições, que tiveram entretanto que pagar custos de financiamento mais elevados. Mas esse foi um risco que os gestores bancários deviam ter acautelado devidamente em vez de se terem deixado cegar pela conquista de quota de mercado a qualquer preço e por ganhos no curto prazo sem acautelar o longo prazo.

Ser banqueiro é ter, sobretudo, habilidade na avaliação de riscos a médio e longo prazo. Se falham nesta matéria, os gestores bancários falham na essência da sua profissão. E devem, por isso, fechar as portas e mudar de profissão. De preferência sem transferir o custo da sua incompetência para os contribuintes. Numa economia de mercado pedir isto não é pedir demasiado, pois não?

Jornalista, pauloferreira1967@gmail.com

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