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António Barreto escreveu há dias um artigo no qual criticou aqueles que exigem pedidos de perdão por coisas passadas há muito. Houve gente de extrema-esquerda que não gostou. Aliás, nunca gosta quando esse seu objectivo político é posto em causa, mas raramente vem a terreiro defendê-lo. No contexto dos debates sobre racismo, escravatura, colonialismo e temas conexos, que têm marcado estes últimos anos, a extrema-esquerda politicamente correcta tem sistematicamente fugido da discussão dos factos concretos para se refugiar num argumento que, supõe ela, seria uma espécie de ás de trunfo do debate. Esse argumento é o de que os seus adversários se contradizem. Aqueles que, como eu, por exemplo, consideram que não se podem julgar os homens do passado à luz dos nossos critérios e valores actuais, mas que, ao mesmo tempo, não se coíbem de fazer menções elogiosas ao comportamento e às realizações de alguns desses homens, estariam, supostamente, em contradição e a incorrer, sem se darem conta disso, no anacronismo que condenam. Há uns tempos o meu colega José Neves acusou-me, no Facebook, desse tipo de contradição: “Se por um lado o nosso historiador (João Pedro Marques) prega que não podemos condenar os europeus que no passado se dedicaram ao tráfico de escravos, porque tal seria incorrer no famigerado pecado do anacronismo, julgando-os à luz de valores que não seriam os da sua própria época, por outro lado trata de recusar a necessidade de contextualização histórica quando quer elogiar os europeus que defenderam o abolicionismo”.

Mas este raciocínio, que fez e faz as delícias dos radicais de esquerda, está seriamente equivocado. Ao contrário do que José Neves pensa, eu, enquanto historiador, não quero elogiar ninguém nem costumo fazê-lo. Do que se trata é de uma constatação de facto — os historiadores não elogiam nem condenam, explicitam. Peguemos no exemplo da abolição da escravatura que José Neves usa. O que acontece é que as ideias e a acção dos abolicionistas foram muitíssimo elogiadas no seu próprio tempo. Não sou eu que, à distância de 200 anos tiro da cartola inesperados e despropositados elogios a Wilberforce, Clarkson e outros abolicionistas, foram os seus contemporâneos que profusamente os fizeram. Há milhares de exemplos do que estou a afirmar. Só em Portugal haverá centenas deles, bem documentados, escritos preto no branco, nos jornais da época, nos Diários das Cortes, em textos vários. Em 1836, por exemplo, Morais Sarmento abria a boca de espanto e elogiava os ingleses que tinham tido o arrojo de abolir a escravidão e de “se multarem em duzentos milhões de cruzados para pagar indemnizações aos senhores (de escravos)”. Aliás, a decisão inglesa de pôr fim à escravidão e de emancipar mais de 800 mil escravos provocou a admiração de todo o mundo. Os britânicos tinham plena noção disso e como dizia o bispo Wardlaw, num sermão proferido em Glasgow, no dia em que a lei emancipacionista entrou em vigor, “o mundo, envergonhado, imitar-nos-á”. Tinha razão pois não foi apenas no Ocidente que se elogiou e tentou imitar o abolicionismo britânico; foi, também, no mundo muçulmano, na China, no Japão. Eu, como historiador, limito-me a verificar esse facto, a interpretá-lo e a integrá-lo no tecido da explicação e do debate. E do mesmo modo que constato a enorme admiração que a acção abolicionista teve naquele tempo, em todo o mundo, também constato que, antes de meados do século XVIII foram raríssimos os que condenaram o tráfico de escravos e a escravidão, e por isso, censuro e confronto os que, agora, julgam e condenam, segundo padrões actuais, as gentes de Seiscentos ou Setecentos e nos exigem pedidos de perdão pelos seus actos. Não há, aqui, contradição alguma.

E também a não há no pensamento de António Barreto, ultimamente alvo do mesmo tipo de contestação por suposta incoerência. António Barreto afirmou que pedir desculpa por coisas ocorridas há muito é uma estupidez. Foi quanto bastou para que, nas redes sociais os opinadores do costume, viessem acusá-lo de incoerência. Miguel Vale de Almeida, por exemplo, acusou Barreto de ser “contra as reparações e pedidos de desculpa históricos”, mas de nada dizer “contra as celebrações e orgulhos históricos (quando, logicamente, ou se aceitam ambos ou não se aceita nenhum)”. Ora, isso poderá ser lógico na insípida geometria politicamente correcta de Vale de Almeida, mas não é psicológico nem sociológico, não é razoável. As pessoas e as sociedades humanas não se comportam dessa forma matemática e rigorosamente simétrica, como se estivessem permanentemente em julgamento perante o rei Salomão. Exigir que um povo — qualquer povo — e os cidadãos comuns deem tanto espaço e atenção a actos de celebração como aos de arrependimento e penitência é próprio de gente irrealista e que deseja ter uma relação sado-masoquista com a história do seu país. Ainda bem que o resto das pessoas não se comporta dessa forma nem vive amarfanhado por esses sentimentos de culpa nem pela correspondente necessidade de compra de indulgências, a doença do moderno mundo ocidental, porque não me consta que os outros tenham o mesmo tipo de incomodidades com os seus passados, os seus heróis e os seus bandidos.

Para ser rigoroso devo assinalar que, no arsenal mental da extrema-esquerda, há ainda um outro argumento a que poderíamos chamar o argumento da amálgama, segundo o qual poderá, para certas pessoas ou grupos sociais, não haver distinção nítida entre passado e presente. Nesse caso tudo seria presente, pelo que se justificariam os pedidos de desculpa como se eles se reportassem a coisas muito próximas ou actuais. No dizer de José Neves, “como não existe qualquer forma objectiva de determinar onde é que começa o presente e onde é que acaba o passado, pode dar-se o caso de hoje existirem comunidades para as quais certos acontecimentos são passado e outras para as quais esses mesmos acontecimentos são presente”.

Por outras palavras, o que José Neves nos diz é que não podemos impor os critérios de avaliação da nossa cultura como se fossem universais, válidos de uma forma unívoca para todas as outras culturas. Reconheça-se que tem, nisso, toda a razão. É verdade que não temos de impor os nossos critérios aos outros, tal como também é verdade que não temos de abdicar deles para agradar aos outros. Mas, dito isto, chamo a atenção de José Neves para aquela que é, essa sim, uma verdadeira contradição sua e de muita gente da extrema-esquerda politicamente correcta. É que a sua justíssima recomendação quanto ao respeito que devemos ter pelas relatividades culturais, também se aplica quanto ao passado: não podemos impor os nossos critérios de avaliação actuais como se eles fossem universais, válidos de uma forma unívoca para todos os tempos. Ou seja, o argumento de José Neves vira-se contra ele próprio e contra os que pensam do mesmo modo, e vem dar razão a António Barreto e a quem, como eu, defende que não se podem julgar os homens do passado à luz dos nossos critérios e valores actuais, assim como também não faz sentido pedir desculpa por comportamentos que eram, então, universalmente aceites e legais.

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