Não são necessários grandes estudos científicos para perceber que o uso de uma máscara dá, em certa medida, alguma proteção contra doenças contagiosas transmitidas entre pessoas através de gotículas e aerossóis respiratórios. Que a proteção oferecida por uma máscara depende do tipo de material de que é feita, da espessura de cada camada e do número de camadas protetoras que tem, também parece ser razoavelmente evidente para qualquer hominídeo com dois dedos de testa.

Os vídeos que mostram gotículas emitidas por sprays a alta pressão passarem através de vários tipos de máscaras são engraçados de se ver e provam que muitas máscaras são pouco eficazes na proteção contra aerossóis emitidos a … alta pressão. Mas não provam a sua ineficácia total na redução do fluxo de aerossóis emitidos pela respiração, conversa ou até espirro de um humano normal—que não tem pressão comparável à dos sprays.

Por isso, quando, em Fevereiro e Março, a sr.ª da DGS afirmava e repetia que o uso de máscaras pela população era pior que inútil, que era contraproducente, ou:

  1. Estava a brincar connosco; ou
  2. Esta conscientemente a mentir; ou
  3. Faltando-lhe dois dedos de testa, estava enganada.

Partindo do princípio de que:

  1. Quando queremos que brinquem connosco vamos ao circo ver palhaços, mas esperamos uma atitude e serviço profissional e competente dos serviços públicos como é a DGS, paga com o nosso dinheiro do IVA e do IRS;
  2. Esperamos e aceitamos ser enganados, com alguma paciência e humor, por mercadores e feirantes ambulantes, com quem falamos uma vez na vida, e aos quais adquirimos coisas sem importância e baratas, mas não por pessoas e entidades com as quais temos relações de longo-prazo, estáveis e “para a vida”, que fornecem bens e serviços essenciais e caros, nos quais parece se devem incluir os serviços públicos, o que requer que estes sejam exercidos por profissionais probos, retos, honestos e verazes;
  3. Que os serviços públicos, para valerem a pena e o nosso dinheiro do IVA e do IRS, devem ser providos com elevada competência, qualidade e profissionalismo, não por pessoas que parecem não perceber do assunto e/ou se estão a lixar para as consequências da sua negligência e incompetência;

parece que a dita sr.ª da DGS ou

  1. Devia assumir a responsabilidade pelo sucesso da política de combate à pandemia incluindo a excelente preparação do SNS no previamente anunciado início do surto, a coerência nas suas declarações públicas ao longo dos últimos meses e o êxito das medidas tomadas para contenção e supressão da pestilência, requerendo o prémio que legitimamente merece; ou
  2. Devia ser responsabilizada e devidamente premiada pelos mesmos sucessos por autoridade superior.

A evidente falta dessa responsabilização é um tirar da máscara à irresponsabilidade a que chegou a nossa vida pública e política. Outra face dessa máscara é a medida recentemente proposta e aprovada pelo ps/d, e entretanto promulgada pelo sr. PR, de tornar obrigatório o uso de máscara na via pública.

Se por um lado o uso da máscara dá alguma proteção contra o contágio por bactérias e vírus transmitidos por aerossóis respiratórios, por outro lado tem várias desvantagens. Uma destas desvantagens é desumanizar-nos. A face é aquela parte do corpo onde a nossa alma é mais evidente. Uma face consegue transmitir alegria ou angústia, antipatia ou cordialidade como nunca conseguirão fazê-lo uma nuca ou nádega. Por isso o uso de máscara é alienante, no sentido anglo de nos tornar aliens uns dos outros, estrangeiros e desconhecidos até para os nossos amigos que não conseguem perceber os nossos sorrisos e outras expressões minúsculas que, como sacramentos, tornam corporalmente visíveis os anseios do coração, as ambições da mente e os apetites do abdómen.

Se os srs. deputados do ps/d tratassem os portugueses como adultos e os considerassem pessoas imputáveis deixá-los-iam ponderar, pessoal e responsavelmente, situação a situação, se é oportuno por máscara ou se é preferível tirá-la. Nesta matéria não imporiam regras universais, que srs. deputados serão os primeiros a violar, em que qualquer pessoa razoável percebe que por vezes é prudente usar máscara, mas noutras o risco é baixo e os inconvenientes altos.

Se os srs. deputados acham que os portugueses não conseguem por si próprios tomar decisões razoáveis deste tipo, e se as decisões que os portugueses tomam põem em risco a capacidade de resposta do SNS e o equilíbrio do Orçamento do Estado, então porque não legislar também a prevenção de constipações e resfriados proibindo mini-saias e impondo o uso obrigatório de meias por períodos (renováveis) de setenta dias? Ou, já agora, impondo um uniforme único a todos os portugueses, um para o Inverno e outro para o Verão, ao estilo dos camaradas Estakline & Mau (1)?

Mas, se os portugueses são assim tão, tão irresponsáveis, que no seu próprio interesse se tem que lhes dizer e ordenar quando devem usar máscara, como é que se lhes confia esse importante e delicado encargo que é escolher quem os governa através de eleições livres? Se os eleitores são uns irresponsáveis, não será que escolherão governantes também eles irresponsáveis? E se os governantes que eles escolhem são irresponsáveis, que autoridade têm esses governantes irresponsáveis para impor um uso responsável de máscara?

(1) A representação comercial de produtos da linha Estákline e Mau em Portugal está a cargo de duas empresas de eventos, o PCP SARL e o BE SAII (2).
(2) SAII: Sociedade Anónima de Irresponsabilidade Ilimitada.

U avtor não segve a graphya du nouo AcoRdo Ørtvgráphyco. Nein a do antygo. Escreue coumu qver & lhe apetece. #EncuantoNusDeixam