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Free to choose — três palavras emblemáticas da essência da economia de mercado. A liberdade de escolha pressupõe que quem escolhe é capaz de valorar as opções que tem, quer as recebidas, quer as conquistadas, e que é capaz de arcar com a responsabilidade das decisões concretas que toma. Todas as escolhas envolvem algum risco: às vezes pouco, outras muito. No entanto, a coragem necessária para tomar e implementar decisões não se encontra igualmente distribuída entre todos os seres humanos.

Daí a atração que a promessa socialista tem vindo a exercer sobre muitos: um estado benevolente que cuida das necessidades de todos, da habitação à educação, com o bónus acrescido de mais ‘igualdade’ na provisão dos benefícios prestados. Atração que se mantém apesar da experiência histórica mostrar que sempre que o socialismo começa a ser implantado, da Albânia ao Zimbábue, o resultado é invariavelmente um maior fosso entre os que, sendo nomenklatura, têm acesso a tudo o que querem e os outros que vêem a sua ânsia por igualdade concretizada numa miséria e carência que é semelhante para todos que não são nomenklatura.

Accept it or else… — é um princípio básico da organização socialista. Não aceitar o que o estado socialista nos quer dar, seja trabalho, seja vacina, não só demonstra a nossa ingratidão, mas também põe em causa a sua benevolência. Ou competência: sugere que o estado é incapaz de escolher, produzir e distribuir os melhores, mais adequados e mais desejados produtos e serviços que cada um necessita.

Assim é compreensível o escândalo da nomenklatura nacional quando algumas pessoas começaram a recusar a vacina d’AstraZeneca contra a Covid-19, dizendo que preferiam a vacina da Pfizer. Num sistema socialista de saúde “não são os utentes que escolhem a marca de vacina que podem tomar”, como noticia o Observador, citando um dirigente do SNS. Tal como num sistema socialista de provisão alimentar não são os consumidores que escolhem o que comem, nem quanto comem. À medida que o socialismo se expande e consolida, aquilo que o cidadão tem que aceitar, subserviente & agradecido, do estado, vai-se expandindo: escola, trabalho, habitação, alimentação, tap e vacinas. Else,

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No entanto, as circunstâncias e capacidades, aspirações e desejos, gostos e preferências de cada pessoa são muito diversos e bastante variáveis ao longo do tempo. Não existe estado, nem outra entidade humana por mais sofisticada que seja no uso de big-data ou AI, que tenha capacidade computacional para prever e gerir aquilo que todo e cada cidadão vai necessitar ou querer a cada momento para lho prover. A inconstância e capricho da condição humana não o permite. Por isso, a aceitação submissa pelo cidadão de tudo aquilo que lhe é fornecido pelo estado é condição necessária para a conservação do sistema. Assim, “recusar é impossível. A orientação é: o utente não escolhe”.

Quando essa aceitação submissa falha, o sistema socialista é posto em causa e surge o espetro do ‘capitalismo’. A economia de mercado, ao dar possibilidade às pessoas de escolher o que consomem e o que produzem, e de irem gerindo & adaptando instantaneamente essas escolhas de acordo com as suas necessidades objetivas e subjetivas, tem o potencial e tende a resultar num nível de bem-estar social mais elevado. O que torna a economia de mercado atrativa para quem, não sendo nomenklatura, sofre na pele as vantagens do socialismo.

Não é comum a nomenklatura confessar, honesta i publicamente, a sua incapacidade de gestão para justificar a falta de escolha dada aos utentes nos sistemas socialistas. No entanto foi isso que, num momento mais desprevenido, um alto-quadro do SNS terá afirmado recentemente a propósito da vacina contra a Covid-19: “não dá para escolher. Seria ingerível.”

Mas este lapso foi rapidamente corrigido. A resposta correta é: os utentes não percebem nada, e quem sabe o que é bom para eles são os camaradas dirigentes. Assim um destes camaradas veio justificar a inadmissibilidade de escolha pelos utentes “porque as vacinas aprovadas são igualmente boas e seguras”. Mas não disse em relação a qê são boas. Serão igualmente boas no que respeita à proteção conferida? Ou igualmente seguras em relação à incidência e gravidade dos efeitos secundários? A evidência parece indiciar que algumas vacinas são mais iguais que as outras.

Se há diferenças na bondade e segurança entre as vacinas aprovadas, como interpretar então a afirmação de que as vacinas aprovadas são igualmente desejáveis? O mais provável é todas elas serem igualmente boas e seguras para alcançar os KPIs que foram impostos à task force da vacinação, nomeadamente no Plano de Vacinação COVID-19. Um fenómeno comprovado em inúmeras áreas da economia e gestão é que o estabelecimento de objetivos quantitativos (‘quotas’ no léxico warxista) nas organizações leva à rápida consecução desses objetivos. E leva também a que esses objetivos sejam alcançados através da deterioração da qualidade do trabalho que esses indicadores pretendiam medir. É a chamada Lei de Goodhart: quando um indicador se torna objetivo, deixa de ser bom indicador de desempenho. Quando o sucesso do SNS é medido pelo número de vacinas Covid-19 aplicadas num certo período, não só os serviços de oncologia e cardiologia podem parar sem que isso belisque o desempenho do SNS, mas também a injeção de qualquer mixórdia rotulada como vacina Covid-19 para cumprir a quota serve para comprovar o sucesso do plano de vacinação e, consequentemente, demonstrar que o nosso SNS é cada vez mais o melhor do mundo.

Num sistema socialista as preferências dos utentes são sempre ingeríveis, desde que impliquem ter duas ou mais variedades de frascos na câmara frigorífica. É esta incapacidade de gestão que torna o socialismo impróprio para consumo humano.

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