As eleições de Domingo mostraram que muitos portugueses gostam mais da “novidade” do que se imagina. Há sinais claros disso nestes resultados a começar pela vitória do PS  que soube criar uma novidade política em 2015: a geringonça. E foi com base na ideia de a avaliarem que Costa fez a sua campanha e ganhou.

Mas a novidade de 2015 foi ter governado sem ter ganho as eleições o que hoje já não é assim. Costa tentou agora gerar uma meia-novidade mas muito menos mobilizadora: uma geringonça mais alargada. A novidade final poderá ser a de ter que governar sozinho, ou até ainda vermos o actual líder do PSD oferecer-se para ajudar em nome da “interesse  nacional”.

Do lado de Rio, a novidade foi conseguir recuperar de uma impopularidade nunca vista e conseguir em campanha impedir a maioria absoluta do PS, o que sendo um mérito, é pouco para um partido como o PSD que com Passos Coelho e Portas teve dois milhões de votos. Rio tentou ele próprio parecer um novo político, procurou ser diferente e à sua maneira pressentiu que parte da sociedade portuguesa se mobiliza pela novidade. Mas esta novidade tem que ser autêntica e chegar às propostas e não se ficar apenas pelo “estilo”. Rio quis fazer tudo ao contrário porque viu aí uma novidade para chegar a centenas de milhares de eleitores que não podiam virar-lhe as costas. Mesmo assim viu perder cerca de 400 mil eleitores e viu-os irem votar no líder da geringonça, nos novos partidos (PAN, IL, Chega) e também a ficarem em casa, por apatia ou por falta de atracção.

A primeira novidade foi buscar jovens para cabeças de lista na maioria dos grandes distritos, mas sem os promover devidamente ao papel de novos talentos do PSD; a segunda novidade foi a de publicamente vetar e secundarizar os adversários políticos mostrando a força aparente de um homem de convicções que sacrifica o pragmatismo da unidade interna; a terceira novidade foi a de não ser cabeça de lista, mostrando humildade; a quarta novidade era que concorria mas não desejava propriamente ser deputado, desvalorizando a função em nome da sua sinceridade.

Em plena campanha lançou outra novidade: as talks, que seriam o momentum desse novo político, que não faz comícios, não discursa mas ao invés explica, conversa, como assisti durante 2 horas em Leiria, com um programa político a que recorreu mas  pareceu não sentir; onde não apresentou grandes ideias inovadoras, mas abordagens já estafadas como a de propôr subsídios às famílias para combater a crise demográfica ou estudar os cenários macro-económicos para aplicar as margens da receita fiscal sem nos mobilizar com ideias fortes de crescimento; ou falar de cultura como um território de subsídios em vez de promover uma visão das economias da cultura; ou falar da agricultura como um eixo económico envelhecido, sem perceber o que realmente mudou no sector. Sem frescura, as novidades da sua performance não tiveram sucesso pois o estilo não venceu sobre as ideias.

Num país que teve um longo autoritarismo com Salazar e um longo moderadismo democrático a partir do 25 de Novembro de 75, em que PS, PSD e CDS tiveram sempre no seu conjunto o apoio de mais de 80% dos eleitores, hoje esse grande “centrão moderado” da esquerda à direita, vale pouco mais de 60%. Essa perda abriu caminho aos partidos “sem rostos” que em círculos maiores como Lisboa são praticamente “uninominais”, como aconteceu com o Livre ao apostar em Joacine Katar Moreira. Uma estratégia que Rui Tavares desenhou ao perceber que há eleitores órfãos no actual sistema de representação. A novidade foi numa única eleição ter mais 3 partidos e ter 7 deputados eleitos a partir de uma certa segmentação ideológica,  como o PAN que viu na ecologia, a IL na fadiga fiscal ou o Chega na questão da segurança, as novas bandeiras de protesto e da esperança dos cidadãos.

E é nesse sentimento de esperança nas novas ideias que o PSD terá que saber liderar. Voltar a falar dos mesmos temas com as mesmas receitas não é o caminho. Como se viu, a ambição não pode ser a de querer ter também um Centeno mas saber fazer a diferença. O PSD terá que saber liderar uma grande agenda de crescimento da riqueza e não se focar só no controle do défice. Terá que saber juntar áreas como tecnologia e saúde, ter inovação e rasgo na organização das políticas sociais, saber generalizar e saber costumizar, saber liderar nas novas economias e liderar a transição energética ou a revolução da mobilidade. Terá que saber estimular internamente e competir internacionalmente na captação de talentos e de empresas estruturantes e fazer muito mais do que ter importantes eventos de inovação tecnológica. Não podemos continuar a ter investimento público em I&D para os ver emigrar porque a nossa indústria e a nossa economia não tem capacidade para os receber. Ter gerações mais educadas é um privilégio e um activo social e económico. Sinceramente não acho aceitável que o futuro do PSD passe pelo colaboracionismo com o  PS no caso de fracasso de uma nova geringonça ou por ficar à espera passivamente de um falhanço a prazo na governação. A novidade agora está em perceber que temos que perceber os portugueses e os resultados e fazer uma mudança interna para influenciar a transformação deste país já a partir da oposição. Se os bons talentos do PSD que compreendem este ADN se unirem será mais fácil.