Futuro

A sabedoria dos motoristas de autocarro

Autor
  • Patrícia Fernandes
202

Ao ouvir os motoristas de autocarro falar, nas longas viagens que ligam o Minho à Beira Interior, fica no ar a nostalgia de um futuro próximo e um aviso para o abismo geracional que estamos a viver.

A viagem de autocarro que liga Guimarães à Covilhã dura quatro horas e cinquenta minutos. Quatro dias por semana, o mesmo motorista traz o carro de volta ao Minho. Saindo de casa antes das sete da manhã, regressa mais de treze horas depois praticamente sem oportunidade de participar na vida familiar normal. Os dias sucedem-se de modo tão constante como o conta-quilómetros vai registando a estrada fora, numa solidão apenas interrompida pelos cortes dos colegas ou os breves minutos de paragem nas centrais.

À medida que acumulam quilómetros, vão retendo o passar do tempo no que muda à sua volta, como se o ato de conduzir não fosse apenas uma experiência no espaço mas também no tempo, conforme vão notando a mudança nas paisagens, nos modos das pessoas, nos hábitos das cidades pequenas. Notam sobretudo as pessoas que faltam, num país que foi perdendo população no interior mais interior mas também no interior do litoral. E de como foi envelhecendo, ao mesmo tempo que as cidades maiores foram crescendo e aquilo a que chamam modernização foi cobrindo de tijolo, cimento e ferro uma vida diferente.

Revelam-se, em geral, despreocupados com a ameaça futura da condução automatizada. Talvez porque não acreditem que chegue a tempo de os atingir. Ou talvez porque lhes seja difícil acreditar que um trabalho tão exigente e desgastante possa simplesmente ser substituído por uma máquina, o que exporia de modo ultrajante a absoluta desvalorização do esforço que lhes sai, há anos, do corpo. Mas veem à sua volta o fim de um mundo de trabalho que faz falta. Faltam picheleiros, eletricistas, trolhas, pintores. “Queremos fazer obras em casa e não há maneira de os apanhar. Os miúdos querem ir todos para a universidade ou trabalhar nos computadores. Não querem trabalhar a sério, não querem uma vida suja. Eu percebo, mas estas coisas fazem falta.” Enquanto os números confirmam as suas intuições básicas, com um desemprego jovem três vezes superior ao  desemprego geral.

Os motoristas da Beira falam sobretudo da terra. De árvores e enxertos, do azeite, da colheita, de burros, da chuva que falta. Ainda sabem todos os truques que gerações demoraram a acumular. Como lidar com os caprichos da natureza, ouvindo-a e respeitando-a, mas tentando sempre dar-lhe a volta, como as crianças em torno da mãe. Sentem como esse saber de gerações vai falhando à medida que a água cai menos vezes e com mais intensidade, a terra seca e arde, o verão se prolonga e a primavera demora a chegar ou chega demasiado cedo, transtornando tudo à sua volta. Mas ainda sabem tratar a terra e os animais e lamentam o fim de uma história. É que não têm a quem contá-la. “As crianças agora só conhecem cães e gatos. Todos os outros animais são carne depilada que está à venda nos supermercados. Não sabem nada da terra, não gostam de sujar as mãos.” Conhecem melhor os animais longínquos porque aparecem reluzentes nos materiais didáticos das escolas, que organizam visitas aos jardins zoológicos. Mas sabem muito pouco de um país que é o seu, da sua fauna, da sua flora e, sobretudo, de uma sabedoria que se acumulou em gerações que viveram de outro modo.

O contraditório afirma que os miúdos agora sabem mais sobre outras coisas. Viajam mais, conhecem pessoas de todos os lados, fazem férias em países que os mais velhos não conseguem pronunciar, vivem na internet experiências tão válidas como aquelas que deram forma à vida dos seus avôs e bisavôs. Mas talvez seja possível falar – e talvez pela primeira vez – de um gap geracional, espaço vazio entre mundos de vida que resulta de a nova geração não reconhecer valor à sabedoria acumulada pelas gerações mais velhas. Afinal, todas as respostas parecem estar online, à distância da ponta dos dedos que colocam perguntas nos motores de busca. Maximizamos o espírito da modernidade enquanto corte com a tradição e o passado. Levamos o Sapere aude! kantiano às últimas consequências. E, por isso, quando se ouve os motoristas de autocarro falar, nas longas viagens que ligam o Minho à Beira Interior, fica no ar a nostalgia de um futuro próximo: a nostalgia por uma sabedoria perdida. E perante esse abismo geracional e do que isso significa na experiência do que é viver, ecoa o aviso do metro londrino para esta perda e este salto e para a reflexão sobre se queremos este futuro que se está a desenhar. Mind the gap.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Global Shapers

O futuro é de quem o planeia /premium

Duarte Gouveia

Ao longo da nossa história temos tido uma enorme dificuldade em pensarmos onde queremos estar daqui a 20-30 anos e em fazer caminhar o país numa determinada direção. A ênfase nunca é no longo-prazo.

Futuro

A Tecnologia e o Orgulho da Civilização

Nuno Cerejeira Namora

Em 2017, a economia digital representou 4,6% do PIB português contra 13,8% no Reino Unido. A expectativa de que este valor venha a crescer ao longo da da próxima década é enorme.

Futuro

Mudança digital, recomposição das cadeias de valor

António Covas

Depois da mecânica, da eletricidade, da computação e internet, é chegada a vez da revolução digital e inteligência artificial. Os seus efeitos serão positivos, mas, também, contraditórios e paradoxais

Inovação

#PortugalMaisDigital!

Rogério Campos Henriques

É importante existir um movimento que incentive a utilização dos recursos digitais existentes na sociedade por todos os cidadãos, de forma consciente e informada. E este é o grande propósito do MUDA.

Crónica

Amorfo da mãe /premium

José Diogo Quintela

O Governo deve também permitir que, no dia seguinte ao trauma que é abandonar a criança no cárcere escolar, o progenitor vá trabalhar acompanhado pelo seu próprio progenitor. Caso precise de colinho.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)