A viagem de autocarro que liga Guimarães à Covilhã dura quatro horas e cinquenta minutos. Quatro dias por semana, o mesmo motorista traz o carro de volta ao Minho. Saindo de casa antes das sete da manhã, regressa mais de treze horas depois praticamente sem oportunidade de participar na vida familiar normal. Os dias sucedem-se de modo tão constante como o conta-quilómetros vai registando a estrada fora, numa solidão apenas interrompida pelos cortes dos colegas ou os breves minutos de paragem nas centrais.

À medida que acumulam quilómetros, vão retendo o passar do tempo no que muda à sua volta, como se o ato de conduzir não fosse apenas uma experiência no espaço mas também no tempo, conforme vão notando a mudança nas paisagens, nos modos das pessoas, nos hábitos das cidades pequenas. Notam sobretudo as pessoas que faltam, num país que foi perdendo população no interior mais interior mas também no interior do litoral. E de como foi envelhecendo, ao mesmo tempo que as cidades maiores foram crescendo e aquilo a que chamam modernização foi cobrindo de tijolo, cimento e ferro uma vida diferente.

Revelam-se, em geral, despreocupados com a ameaça futura da condução automatizada. Talvez porque não acreditem que chegue a tempo de os atingir. Ou talvez porque lhes seja difícil acreditar que um trabalho tão exigente e desgastante possa simplesmente ser substituído por uma máquina, o que exporia de modo ultrajante a absoluta desvalorização do esforço que lhes sai, há anos, do corpo. Mas veem à sua volta o fim de um mundo de trabalho que faz falta. Faltam picheleiros, eletricistas, trolhas, pintores. “Queremos fazer obras em casa e não há maneira de os apanhar. Os miúdos querem ir todos para a universidade ou trabalhar nos computadores. Não querem trabalhar a sério, não querem uma vida suja. Eu percebo, mas estas coisas fazem falta.” Enquanto os números confirmam as suas intuições básicas, com um desemprego jovem três vezes superior ao  desemprego geral.

Os motoristas da Beira falam sobretudo da terra. De árvores e enxertos, do azeite, da colheita, de burros, da chuva que falta. Ainda sabem todos os truques que gerações demoraram a acumular. Como lidar com os caprichos da natureza, ouvindo-a e respeitando-a, mas tentando sempre dar-lhe a volta, como as crianças em torno da mãe. Sentem como esse saber de gerações vai falhando à medida que a água cai menos vezes e com mais intensidade, a terra seca e arde, o verão se prolonga e a primavera demora a chegar ou chega demasiado cedo, transtornando tudo à sua volta. Mas ainda sabem tratar a terra e os animais e lamentam o fim de uma história. É que não têm a quem contá-la. “As crianças agora só conhecem cães e gatos. Todos os outros animais são carne depilada que está à venda nos supermercados. Não sabem nada da terra, não gostam de sujar as mãos.” Conhecem melhor os animais longínquos porque aparecem reluzentes nos materiais didáticos das escolas, que organizam visitas aos jardins zoológicos. Mas sabem muito pouco de um país que é o seu, da sua fauna, da sua flora e, sobretudo, de uma sabedoria que se acumulou em gerações que viveram de outro modo.

O contraditório afirma que os miúdos agora sabem mais sobre outras coisas. Viajam mais, conhecem pessoas de todos os lados, fazem férias em países que os mais velhos não conseguem pronunciar, vivem na internet experiências tão válidas como aquelas que deram forma à vida dos seus avôs e bisavôs. Mas talvez seja possível falar – e talvez pela primeira vez – de um gap geracional, espaço vazio entre mundos de vida que resulta de a nova geração não reconhecer valor à sabedoria acumulada pelas gerações mais velhas. Afinal, todas as respostas parecem estar online, à distância da ponta dos dedos que colocam perguntas nos motores de busca. Maximizamos o espírito da modernidade enquanto corte com a tradição e o passado. Levamos o Sapere aude! kantiano às últimas consequências. E, por isso, quando se ouve os motoristas de autocarro falar, nas longas viagens que ligam o Minho à Beira Interior, fica no ar a nostalgia de um futuro próximo: a nostalgia por uma sabedoria perdida. E perante esse abismo geracional e do que isso significa na experiência do que é viver, ecoa o aviso do metro londrino para esta perda e este salto e para a reflexão sobre se queremos este futuro que se está a desenhar. Mind the gap.