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Entre as ideias que fazem o seu caminho no espaço público quase sem contestação, uma das mais curiosas é a ideia da esquerda de que “a saúde não é um negócio”. É difícil perceber onde vão as pessoas buscar estas ideias, desde logo porque são ideias que não fazem sentido. “Negócio” é uma forma económica para designar uma longa série de operações complexas pelas quais as pessoas alocam e rentabilizam recursos, por vezes a longas distâncias no espaço e no tempo. A saúde é, claro, um negócio, como são negócios todas as actividades humanas com alguma importância. Suponho que aqueles que o negam pretendem de facto dizer que não deve ser um negócio livre. É difícil compreender em que é que a limitação da concorrência pode melhorar um negócio. Não há nenhuma evidência de que impedir organizações privadas na saúde melhore os cuidados. Pelo contrário: o monopólio estatal, com o seu desprezo pelos indicadores objectivos de eficiência (como é o lucro) traduz-se geralmente em iniquidade, desperdício e nepotismo.

O caso mais recente a convocar a fúria da esquerda contra os privados foi o conflito com a ADSE. A ADSE exige a devolução de parte das verbas (38 milhões de euros) cobradas por serviços prestados nos anos de 2015 e 2016 com o argumento de que foi enganada. Os privados dizem que, nessas condições, não estão interessados em continuar a trabalhar com a ADSE. Tal bastou para serem logo acusados de quererem “lucrar” com aquilo que fazem. Isto foi dito por Jerónimo de Sousa sem se rir. Não deixa de ser divertido ver a esquerda, que passa o tempo a dizer que os privados não fazem falta, despeitada como uma noiva abandonada no altar com a intenção dos privados de cancelarem a colaboração com a ADSE. Aparentemente, só o Estado pode recusar acordos.

A acusação que é feita aos privados assenta na disparidade entre os preços cobrados por diferentes prestadores para um mesmo serviço. A acusação é um exercício de descaramento e má fé. A esquerda e o conselho directivo da ADSE pretendem que os privados definam preços concordantes. Mas a cartelização, que é o nome que se dá à concertação de preços entre entidades concorrentes, é geralmente proibida nos países civilizados, incluindo Portugal. É ao cliente, neste caso a ADSE, que cabe comparar preços e negociar com os prestadores condições de serviço que considere aceitáveis. Antes da prestação do serviço e não depois. Era isso que devia ter sido feito e não foi. E não sou eu quem tem de saber como é que isso se faz. Não é o meu trabalho. Há uma série de burocratas que são pagos para isso e que obviamente não fizeram bem o trabalho deles. Quem são?

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