Na madrugada de 13 de Novembro de 1975, os operários da construção civil que cercavam S. Bento a dado momento gritaram “Vitória!” Eram 5h 20m. Há três horas que os delegados sindicais da construção civil estavam reunidos com o primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo. Nesse momento o governo cedeu à maior parte das suas reivindicações. Quando Pinheiro de Azevedo chega à varanda do Palácio de S. Bento para explicar aos manifestantes os detalhes do acordo é vaiado. Chamam-lhe fascista. É nesse momento que Pinheiro de Azevedo, furioso, diz “Badamerda mais o fascista!”

Não se percebe o que foi o PREC em Portugal nem o que somos hoje sem este frenesi do fascismo e dos fascistas que rapidamente acumulavam essa vergonhosa condição com o opróbrio de serem agentes da CIA. Por junto neste grupo cabia todo e qualquer um que estivesse no espectro político que ia do CDS ao PS. Com o avançar do PREC a acusação de fascismo e seus derivados já estava gasta e nos idos de Novembro de 75, os termos encavalitavam-se entre si numa espécie de delírio barroco, acabando-se muito simbolicamente com um secretário de estado socialista a ser impedido de entrar no respectivo ministério sob a acusação de ter sido “colaborador da super-PIDE” (ultrapassada a fase em que ao logo de 1974 os jornais se encheram com declarações de taxistas, merceeiros, ourives e caixeiros-viajantes que declaravam não ter sido agentes ou informadores da PIDE entrou-se em 1975 na fase da super-PIDE, uma fantasmagoria que nunca se detalhava o que seria, bastava dizer-se super-PIDE e logo ficava estampado o rótulo no nome e na cara do ódio de estimação daquele dia). Pinheiro de Azevedo respondendo à multidão “Badamerda mais o fascista!” é a mais sincera expressão da exaustão a que aquele estado de revolução anti-fascista permanente conduzira o país.

Esta espécie de corrida alucinada, este mundo dividido entre libertadores e reaccionários, este dia em que há sempre mais uma luta imperiosa, mais uma conquista que não se pediu mas é urgente, mais um progresso não se sabe para quê… que caracterizou o PREC está aí de novo. Só esta semana tivemos o caso da manifestação dos polícias que logo à partida tinham sobre si o ónus de alguns deles não serem de esquerda ou de extrema-esquerda. A isto juntou-se a mais destrambelhada acusação de que há memória: os polícias não fariam o gesto que indica zero, nome do seu movimento, mas sim uma exaltação de “ideias como o racismo, o nazismo, a xenofobia e o antissemitismo.”  Tal como em 1975 bastava usar um determinado tipo de óculos ou de sapatos para se ser fascista também agora juntar o polegar e o indicador tornou-se sinónimo de racismo e tudo o mais que venha à ideia do acusador de serviço. Aliás acabaremos rapidamente com os braços enfaixados pois é impossível estarmos a par dos gestos usados para expressar sentimentos criticáveis por esse mundo fora!

Também tivemos o dia da indignação contra a violência que só se pode dizer de género e tratada nas estritas linhas ideologicamente definidas: os agressores só são agressores se forem homens, brancos e cristãos. Dos outros agressores pouco rezam as notícias e as indignações. E das agressões entre homossexuais ou sobre os velhos ainda menos. E contudo existem e são numerosas.  Questionar a fundamentação da ideologia do género neste ano de 2019 equivale a alguém dizer-se anti-comunista em 1975: fica-se logo rotulado como primário para não dizer pior. Denunciar a degradação do SNS é querer entregá-lo às garras dos privados. Abordar a falência da Segurança Social é estar feito com o lobby das seguradoras…

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