“Há um mar à solta/Nas areias deste mar /Solta o mundo à minha volta/ Maré cheia e tudo gira”

Esta música dos Santamaria tem 20 anos e foi um êxito neste país à beira mar plantado. Hoje, não sei se a música tocaria nos corações dos portugueses como na época, porém, nos dias que correm esta música toca num ponto fulcral desta nova década: a areia!

A areia está a acabar! Eu sei que parece muito dramatismo tendo em conta os gigantes desertos do planeta. Porém, não é dessa areia que falamos. Referimo-nos à areia que gostamos de calcar com os pés descalços junto à água. Aquela com a qual construímos castelos de areia.

Ora, é precisamente a construção gulosa, não de castelos, mas de cidades que está a engolir milhões de toneladas da areia por todo o mundo.

Vejamos, 54 % da população mundial vive em áreas urbanas estimando-se que em 2050 a percentagem suba para os 66%, em especial devido ao aumento populacional da Índia e da China.

Para construir uma casa de tamanho médio são utilizadas 200 toneladas de areia, um hospital consome 3 mil toneladas e um quilometro de estrada, a módica quantia de 30 mil toneladas.

Por ano, precisamos de 59 mil milhões de toneladas de recursos naturais. Desses, 89% é areia! Depois da água, a areia, é o recurso natural mais explorado. Usamo-la no cimento, no vidro, nos aparelhos eletrónicos, no plástico, na cosmética e até na pasta de dentes! De acordo com Pascal Peduzzi somos uma sociedade construída sobre a areia. É essencial perceber que a formação deste recurso natural é lento e não tem o ritmo guloso do boom imobiliário. A escassez leva à dragagem de rios e à exploração de fundos marinhos. Estima-se, que cerca de 90 % das praias esteja a diminuir!

Tudo isto, tem um efeito bola de neve sobre o ambiente. Falamos na destruição de habitats; na destruição de leitos marinhos; no aumento da erosão; no aumento das secas; no aumento da probabilidade de inundações e nos casos mais extremos no aumento do número de refugiados climáticos. No caso da Indonésia já desapareceram 25 ilhas!

Nos últimos 40 anos, Singapura cresceu cerca de 130 quilómetros quadrados. Sabem como? Utilizando 637 milhões de toneladas de areia exportada da Indonésia, Filipinas, Vietname…. No entanto, muitos destes países, percebendo o que estava a acontecer às suas reservas naturais, cancelaram as exportações. Tal, fez disparar o preço da matéria prima em 200 %.

Singapura não é caso único. O Dubai, para edificar o famoso Burj Khalifa precisou de 110,000 toneladas de cimento e, para alimentar as ilhas Palm, devorou 385 milhões de toneladas de areia, muita dela exportada da Austrália.

Já a China, principal produtora mundial de cimento, utiliza 57% do que produz. De acordo com a ONU o que a China consome por ano daria para construir um muro de 27 metros de largura por 27 metros de altura ao longo do planeta. Ora, muita da areia utilizada provém do lago Poyang, uma das maiores reservas de água doce do mundo, que tem vindo a diminuir de tamanho ao longo dos anos.

Os exemplos estendem-se por vários países, mesmo a nossa vizinha Espanha, para regenerar a costa das Canárias tem usado areia exportada de Marrocos, tornando Essaouira uma costa rochosa.

Não significa que não haja leis a regulamentar a prática, o que falta mesmo é, vontade política para a sua implementação. No caso da Índia, as “máfias” são poderosas, e muitas vezes estão ligadas ao próprio poder político. A Índia extrai por ano cerca de 500 milhões de toneladas de areia, alimentando uma indústria de 42 bilhões de euros. Indústria essa, que explora pessoas em condições deploráveis, mergulham em rios, sem proteção, com um balde de lata para extraírem o famoso elo dourado.

Tendo em conta o peso económico desta indústria e a ávida necessidade, por parte destes países em crescimento, os próprios governos estão a borrifar-se para a implementação de leis neste setor. Se em países desenvolvidos se tenta reutilizar entulhos, processo lento, os países em vias de crescimento não têm esse tempo de espera.

Nesta nova década, urge criar-se uma regulamentação mundial, que seja eficaz na proteção de recursos naturais e não apenas na proteção de interesses económicos. Cada vez mais, temos de nos consciencializar que em determinados aspetos, como por exemplo, a questão climática, não pode haver fronteiras.

Precisamos assim tanto de destruir ecossistemas para construir ilhas artificiais com resorts?