Empreendedorismo

As duas características do empreendedor

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Se uma caraterística do verdadeiro empreendedor é a indiferença face à possibilidade de perder tudo o que investiu, a outra é estar preparado, e usar todo o engenho, para que isso não aconteça.

Os verdadeiros empreendedores, quer os políticos quer os empresariais, têm duas características que assustam o homem comum. E apesar de ambas serem o cerne do empreendedorismo, raramente são mencionadas pelos especialistas.

Uma é a disponibilidade de investirem tudo num projeto—e tudo significa tudo, inclusive a própria vida—e a relativa indiferença face à possibilidade de perderem tudo o que investiram.

Poucos empreendedores terão encarnado, de modo tão evidente, esta característica como Kinokuniya Bunzaemon 紀伊国屋文左衛門 (1669—1734), que um dia decidiu investir tudo o que tinha, inclusive a própria vida, em comprar laranjas a apodrecer em Kumano para as ir vender, durante uma tempestade, à grande e magnifica cidade xogunal.

“Entretanto o capitão Kichidayu tinha encontrado seis homens bem constituídos, que não davam muito valor à própria vida, e que tinham sido atraídos pela promessa de salário dez vezes o normal. Quando comunicou isto a Bunzemon este respondeu-lhe: ‘Então tudo está pronto e podemos partir amanhã de manhã. Vou enviar até à embarcação dez longas barras de madeira de cedro. Peço-te que as coloques bem firmes transversalmente e que nas extremidades delas lhes prendas pedras pesadas de modo a que o navio não balanceie tanto. Ouvi dizer que os barcos que viajam até ilhas distantes como Miyake-jima e Hachijo-jima e Iwo-jima vão aparelhados deste modo e assim, mesmo durante tempestades violentas, conseguem navegar em segurança.’

“Kichidayu, espantado pelo engenho do jovem patrão, observou: ‘Verdadeiramente lembro-me de ter visto esses navios ao largo da costa de Izu, mas já nem me recordava da razão de porque tinham as barras. De facto, diz-se que eles nunca se reviram, faça o tempo que fizer.’

“Prosseguiu Bunzaemon: ‘Ainda outra coisa, honorável Kichidayu. O navio chama-se Tenjin-maru, mas como esta viagem é especialmente arriscada e é e provável que ela signifique a sua destruição, vamos mudar-lhe o nome para Yūrei-maru [Navio Fantasma]. Vamos ainda imaginar que, apesar de ainda vivos, já estamos todos mortos e por isso vamos envergar kimono brancos [em sinal de luto]. Assim nada que aconteça nos poderá amedrontar porque, já estando mortos, não temos que temer nem os elementos, nem os espíritos, nem a própria morte.’

“O capitão foi ter com a sua tripulação contou-lhes os planos do patrão, que todos aceitaram, tendo ficado tão animados com a sua coragem que ainda mais se determinaram a vencer todos os medos e dificuldades. Bunzaemon, por seu lado, mandou um homem pintar na vela do navio “Yūrei-maru” em caracteres chineses, e no departamento de roupas da Daikokuya comprou oito kimono brancos. O seu Mestre, ao sabê-lo inquiriu espantado: ‘Bunzaemon, para que queres aqueles oito kimono brancos?’

“O seu protegido riu-se enquanto respondia: ‘Ao sair ao mar com esta tempestade, é possível que morramos todos. Como a probabilidade de perecermos é grande, mais vale que, no coração, nos consideremos já mortos. E como mortos que somos vamos vestidos de branco, com o zudabukuro ao pescoço e sankaku-zukin [faixa posta na testa dos mortos e que, dizem as lendas, é usada pelos fantasmas] na cabeça.’

“Quando a manhã chegou Bunzaemon pôs o seu kimono branco, despediu-se dos homens da Daikokuya e do seu Mestre, e dirigiu-se para a beira-mar. O mestre e a sua família, os empregados da Daikokuya, muitos habitantes de Kumano que o conheciam e também numerosos pobres que tinham beneficiado da generosidade das suas esmolas, todos o seguiram até à praia para lhe apresentarem saudações de despedida. Terminadas as praxes, Bunzaemon subiu a bordo e deu sinal para a âncora ser levantada e as velas içadas. Da praia, os que se tinham vindo despedir, levantaram as suas vozes chamando-o pelo nome e lamentando a sua partida e provável perda. O navio, levado pelo forte vento, rapidamente se afastou da costa e se meteu ao mar.

“Apesar do Yūrei-maru só ter içada a vela pequena dirigiu-se para leste com a velocidade de uma flecha. Num instante passou do Mar de Kumano para o Mar de Ise. Quando, ao fim do dia chegou ao Mar de Enshū o vento tornou-se mais forte e a chuva mais torrencial. As ondas enormes, altas como montanhas, atiravam o navio de um lado para o outro como se fosse uma folha caída num ribeiro e sempre que este escorregava da crista até ao ventre de uma onda os tripulantes sentiam com os olhos e com o estomago como se tivessem sido atirados para as profundezas abissais.

“Os seis robustos tripulantes, que até então haviam trabalhado com afinco e sem receio, começaram a sentir que o sangue se lhes esvaia dos membros e da cabeça, e entraram num estado de entorpecimento e descuido e apatia que os tornava incapazes de qualquer esforço, apesar do capitão, firme como sempre, correr daqui para ali a encorajá-los e a dar-lhes indicações sobre o que deviam fazer. Mas dos oito, o menos afetado pelo horroroso estado do mar era Bunzaemon que, tal como o capitão, acorria aonde era mais necessário a ajudar os marinheiros aparvalhados de medo encorajando-os com o exemplo e a palavra: ‘Ganbare!… Amanhã estaremos sãos e salvos em Edo!…Força que a vossa recompensa será grande.’

“Entretanto caiu a noite, mas sem que a intensidade da tempestade abrandasse. Apesar de nada ser visível aos olhos, o barulho das ondas e do vento ensurdecia os ouvidos. Gradualmente as forças e coragem dos seis marinheiros desapareciam. Disse um: ‘Esta é mesmo o tipo de noite em que o umibozu costuma aparecer.’

“Ao que o patrão respondeu com indiferença: ‘Se ele se atrever a aparece veremos o que esta espada lhe fará.’

“Nesse mesmo momento o homem de atalaia começou a correr para a popa a gritar: ‘O gigante do mar!’

“Todos os tripulantes, fora do seu juízo com medo, atiraram-se para dentro da cabine, mas Bunzaemon dirigiu-se resolutamente para a proa e, de facto, uma forma escura e indefinida com cerca de dez pés de altura levantava-se na frente do navio e movia-se na sua direção. Desembainhando a sua espada, esperou que o monstro se aproximasse e com a sua arma afiada golpeou-o de um ao outro lado. Depois regressou para ao pé do mastro onde estava Kichidayu. Perguntou este: ‘O que era?’

“Sorrindo, Bunzaemon respondeu: ‘Parecia-se com um gigante, mas na realidade não passava de uma coluna de nevoeiro que vinha ao nosso encontro. Suponho que era o que é usualmente chamado umibozu. Os marinheiros, ou cansados, ou enfraquecidos, ou amedrontados assustam-se antes de olhar bem para o que os assusta, como acontece frequentemente com mulheres e crianças.’

“Kichidayu, que não tinha deixado de sentir medo ao grito do vigia, sentiu admiração pelo sangue-frio de Bunzaemon e disse: ‘Confesso que não me senti muito corajoso ao ver aquela figura grande e escura, e tive de espremer toda a minha coragem para não fugir como os outros e não ser troçado por vós.’

“E como a tripulação ainda se encontrava encolhida de medo na cabine gritou: ‘Todos para fora. O nosso patrão matou o gigante!’

“A tropa arrastou-se para fora dizendo: ‘Deve ter sido quando ouvimos o guincho de há pouco.’

“Durante a noite a força do vento não amainou pelo que o navio dos mortos atravessou todo o Mar de Enshu e ao amanhecer estavam à entrada da Baia de Edo. À medida que por ela entravam o mar tornava-se muito mais calmo e um dos homens disse: ‘Agora estamos a salvo, honorável patrão. Já podemos ver o promontório de Haneda. Por detrás fica a Baia de Shinagawa. A esta velocidade com certeza que estaremos em frente de Edo pouco depois do nascer do sol. Desculpai-me o medo que senti ao pensar que iria ser comido vivo pelo umibozu no Mar de Enshu.”

“O patrão riu-se e respondeu: ‘Não sabes o que estás a dizer! Ao sair de Kumano passamos a ser mortos vestidos de kimono branco, com o zudabukuro ao pescoço e sankaku-zukin na cabeça. É um absurdo pensar que um homem morto possa ser comido vivo!’

“Depois, tornando-se sério, recitou uma estância do poema do bonzo Mansei [満誓, fl. séc. 8]:

“A que hei-de comparar esta vida?
Ao barco se faz ao largo ao amanhecer
E não deixa trilho atrás de si.”

“E acrescentou: ‘É errado ao homem querer agarrar-se ao que pensa que tem, porque o que hoje tem, amanhã ser-lhe-á tirado pela torrente cega e impetuosa e inconstante do destino. Quem tenta defender o que já tem está a lutar pelo seu ontem, ao passo que quem batalha pelo que ainda não tem está a conquistar o seu amanhã.’

“Ao entrarem na baía de Edo o capitão Kichidayu voltou-se para Bunzaemon e disse: ‘Mestre, mas que viagem! Num dia e numa noite percorremos uma distância que noutras circunstâncias leva uma semana a fazer. Termos chegado aqui sãos e salvos deve-se sem dúvida à vossa argúcia de fixar transversalmente as barras de madeira; se não fosse isso teríamos certamente naufragado.’”

Se uma caraterística do verdadeiro empreendedor é a indiferença face à possibilidade de perder tudo o que investiu, a outra é estar preparado, e usar todo o engenho, para que isso não aconteça. Porque Bunzaemon sabia que a Fortuna só favorece os que estão preparados, precaveu-se para a travessia durante a tempestade com dez longas barras de cedro.

Mas se Bunzaemon conseguiu levar as laranjas durante a tempestade até Edo, porque não o fizeram os outros mercadores de Kumano? Terá sido por estarem agarrados ao que tinham, como fazem também os macacos de Mindanau? E não será o maior drama nacional que tantos se agarrarem a “conquistas inalienáveis” passadas, em vez de lutar pelo que aí vem?

Professor de Finanças, AESE Business School

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