Rádio Observador

Floresta

As lições que continuamos a não querer aprender

Autor
  • António Cláudio Heitor
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É mais fácil culpar o desleixo, a mão criminosa e a falta de gestão dos proprietários, do que assumir o erro de centrar as questões no combate. A raiz do problema está na desertificação do mundo rural

Em 1995 segundo o INE foram produzidas 379 mil m3 de toros de madeira de folhosas para serração, valor que em 2015 foi de apenas 23 mil m3. Segundo o ICNF em 1995 existiam 280 mil hectares de folhosas caducifólias e área que cresceu para os 320 mil hectares em 2015. Ou seja, apesar do aumento da área de folhosas caducifólias, a produção de madeira para serração desceu em 20 anos para menos de 10%.

Em 1999 existiam em Portugal 3.584.000 ovinos e 630.000 caprinos, valores que em 2015 desceram para 2.043.000 e 373.000 respetivamente.

A realidade do abandono e dos incêndios mostra-nos bem o real significado dessas (e de outras) estatísticas agrícolas, fruto de uma estratégia errada que sempre menosprezou o papel da produção agrícola e florestal como ferramenta de prevenção e diminuição do risco de incêndio.

Não podemos negar que nos últimos anos foram resolvidas algumas questões importantes em matéria de combate a incêndios. Contudo a escolha política de basearmos a estratégia principalmente no combate significou na prática uma corrida constante para nos adaptarmos às sucessivas alterações das características do fogo, em parte resultado das alterações nas paisagens rurais.

Mas o que poderíamos ter feito de diferente? O que significa investir mais na prevenção do que no combate?

Imaginemos que tínhamos conseguido revitalizar a indústria de serração e que hoje conseguíamos produzir o dobro do que produzíamos em 1995, e ao mesmo tempo se tivéssemos conseguido manter condições para termos o mesmo efectivo animal de pequenos ruminantes. Qual seria o impacto na área ardida?

Imaginemos então o resultado de políticas de promoção do uso de madeira nacional na construção, no mobiliário e como matéria-prima para utensílios do dia-a-dia, complementadas, por exemplo, com estratégias de valorização da madeira e da floresta enquanto “produtores de serviços de ecossistema”? Qual seria o resultado se essas políticas tivessem sido assumidas de forma consistente por todos os governos desde 1999? Teríamos hoje menos incêndios e menos área ardida?

Qual teria sido o resultado da incorporação defesa do nosso Mundo Rural, dos nossos produtos agrícolas e da nossa floresta em todos programas escolares? Será que os alunos da década de 1990 teriam hoje as mesmas escolhas no supermercado se tivessem sido ensinados na escola sobre o impacto das nossas escolhas enquanto consumidores? E se ao mesmo tempo tivéssemos promovido o produto gastronómico “borrego e cabrito” por exemplo através das cantinas públicas? Será que hoje precisaríamos de andar a “cortar mato” e a limpar as bermas das estradas?

Qual teria sido o resultado de campanhas constantes de valorização das diversas profissões rurais junto da população estudantil? Possivelmente não conseguiríamos inverter a tendência de diminuição da população rural, mas será que estruturalmente o nosso tecido produtivo seria tão frágil? E a capacidade em investir seria a mesma? E será que a vontade em plantar diversas espécies seria maior?

É natural poderia estar tudo na mesmo, mas a verdade é que sem tentar nunca saberemos a resposta.

Continua a ser mais fácil culpar o desleixo, a mão criminosa e a falta de gestão dos proprietários, do que assumir o erro de centrar as questões no combate. E por não percebermos que a raiz do problema está na diminuição acentuada das actividades rurais nestas regiões, continuamos a ser entretidos por “sessões de arranque de plantas” e corte de erva na berma das estradas.

Como não estimulamos a economia e o consumo de produtos agro-florestais nacionais, continuamos a despejar dinheiro para medidas de “corte de mato” que na prática se mostram inúteis face a grandes incêndios.

E ano após ano, incêndio após incêndio, perdemos oportunidade de recuperar e fomentar o consumo de madeira nacional, de mostrar aos consumidores as vantagens em preferir produtos agrícolas portugueses e mostrar que nas férias vale a pena ir visitar as regiões do interior.

Mas como essa mudança de mentalidade não acontece por decreto e obriga a medidas corajosas que provavelmente não produzem resultados eleitorais, é mais fácil dar a desculpa do abandono, das alterações climáticas e do envelhecimento, que de facto não se mudam, mesmo quando repetidas até à exaustão.

Essa é a principal lição que não aprendemos, a mudança necessária da mentalidade colectiva face aos incêndios e hoje enquanto sociedade deixamo-nos envolver em discussões intermináveis sobre determinadas espécies, indústrias, classes profissionais, culpabilizando e penalizando os proprietários, sem alterar a “consciência e o comportamento global”.

Mudámos os instrumentos de política depois de 2003? Em mesmo depois de 2017? Não, continuamos a insistir nos mesmos modelos de apoio ao investimento, privilegiando os aspectos tecnocratas, como a localização, em detrimento da real valia técnica dos projectos, ou da sua capacidade em melhorar o acesso ao mercado e a opção por produtos com maior valor acrescentado para o proprietário.

Simplificámos a regulamentação depois de 2003? Não continuamos a ter uma teia de regulamentação rural dispersa por vários ministérios e organismos públicos que nunca chegam a estar coordenados entre si.

Mesmo quando confrontados anualmente com grandes incêndios teimamos em esforçar-nos mais em perceber se houve ou não mão criminosa, como se a dimensão do incêndio dependesse da razão da ignição. Escolhemos repetidamente deixar de fora do “sistema de prevenção” a necessidade de inverter a tendência galopante de abandono das actividades rurais e a consequente evolução da paisagem para um aglomerado cada vez mais denso e desordenado de vegetação.

Contudo, as lições importantes que já deveríamos ter aprendido em 2003, 2005, 2012, 2017 e 2018, continuam sem ser sequer assumidas como condicionantes fundamentais para inverter a tendência. E mesmo quando confrontados com os números que refletem a perda de vitalidade económica destas regiões, teimamos em optar pela resposta “são soluções estruturais que demoram décadas a dar resultados”. Ora já passaram décadas e os resultados das estratégias escolhidas são claramente piores. O que falta para mudarmos de rumo?

Gabinete Técnico da CONFAGRI

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