História

As oito reflexões de Hideyoshi

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Não será que hoje se age, fala e se publicam tweets depressa demais? Se se toma uma decisão irrefletida e danosa, ao menos que haja coragem moral para se retificar o que houver a retificar. Ao menos.

Não vale a pena datilografar mais depressa se se cometem mais gralhas. Nem ler mais rapidamente se a compreensão e retenção diminuírem. Nem acelerar quando se vai na direção errada. Nem tomar uma decisão ou legislar em menos tempo se o resultado for um disparate ou uma injustiça.

Infelizmente, os conselhos de gerações de pais e professores, padres e psicólogos, para que haja mais reflecção antes de falar ou agir são cada vez menos seguidos. Pensar duas vezes antes de falar, contar até doze quando a irritação está a estalar, dormir bem uma noite antes de decidir, e tudo o que implica autodomínio, não está na moda. Não é problema novo, como esta crónica antiga demonstra:

“Quando o Taiko-sama [Toyotomi Hideyoshi 豊臣秀吉, c.1537—1598] encurralou Hōjō Ujimasa [北条氏政, 1538—1590] no seu bastião de Odawara, cercou-o com três grandes hostes, uma que marchou pela Estrada do Mar Oriental, outra que avançou pela Estrada das Montanhas Centrais e a terceira que veio pelo lado do mar. Acamparam, então, à volta do castelo trezentos mil soldados, uma enorme multidão de homens de duas espadas, cujas tendas se espalhavam pelos prados e colinas como uma grande cidade a perder de vista. E, uma vez que a fortaleza estava bem fornecida de vitualhas e a sua guarnição armada de uma determinação forte como o aço para resistir, Hideyoshi deu permissão aos seus oficiais para mandar vir para o acampamento as suas mulheres e concubinas, e comissionou trupes de atores e cantores, de malabaristas e todo o tipo de artistas, para entreter e divertir e animar os soldados e seus oficiais.

“Por um desses dias, o Taiko ordenou que um esplêndido espetáculo fosse dado, para o qual foi erigida uma enorme tenda, ao qual ele próprio fez questão de assistir com todos os seus generais. Quando o espetáculo estava a chegar ao clímax, com os músicos a fazer vibrar ben-ben as suas cordas, a ressoar jan-jan os seus metais, a bater don-don os seus tambores e os homens de armas a gritar e a aplaudir ritmicamente, chegou um samurai, de nome Hanabusa Sukebei [花房助兵衛, 1549—1517] um guerreiro já pesado em anos mas ainda lesto e vigoroso, com o fito de oferecer o serviço das suas duas espadas ao seu senhor, um dos generais de Hideyoshi. Era um homem da velha guarda, assíduo ao serviço e grave na conversa, reto e honesto como uma tábua de carvalho, que, ao passar em frente ao local em que a assuada se desenrolava, se sentiu vexado e ofendido pelo relaxe pouco marcial da tropa. Assim, pondo-se em sentido frente à entrada, gritou: ‘Tréguas à palhaçada! Será próprio de um grande comandante dissipar assim o vigor do braço dos seus homens?’

“Um dos guardas, rindo-se, respondeu-lhe com a seguinte estrofe:

No teu vetusto poço,
Podes tu, ó sapo, presumir
Incomodar a luz das estrelas?

“Outro, mais sério, acrescentou: ‘O saqué caiu-te mal ao jantar? Tem cuidado, não vá o mau humor do teu refluxo trazer-te mau sabor à boca e arrependimento ao coração.’

“Gritou Sukebei raivoso: ‘Nojo! Senhor e vassalos, sois vós cobardes e dissipados? Eu conheço bem as regras da guerra e os costumes dos acampamentos! Quanto ao Taiko, se ele dá prioridade a este disparate e patrocina este despautério em vez do assunto mais grave que cá o trouxe, é caso para perguntar se não será ele quem estará encharcado de saqué, ou pior!’

“Dito isto, cuspiu no chão e, dando meia volta, marchou dali com porte arrogante e semblante carrancudo.

“Os guardas ficaram indignados com esta atitude desrespeitosa e um deles seguiu-o para determinar o seu nome e patente. Depois de o espetáculo terminar, o incidente foi reportado. Quando o Hideyoshi ouviu isto, enraiveceu-se com extremo de ira, ao ponto de pontapear os zabuton que se encontravam no chão. Depois, mandando chamar o general que era suserano de Sukebei, cujo nome era Uesugi Kagekatsu [上杉景勝, 1556—1623], deu-lhe as seguintes ordens: ‘Vai e agarra o teu homem, chamado Sukebei, que se atreveu a insultar-me. Arrasta-o para fora do acampamento e crucifica-o de cabeça para baixo.’

“O general foi cumprir a ordem contrariado, arrastando suna-suna os pés, lenta e amarguradamente, pois sabia que o ofensor era um guerreiro honrado e alma justa, se bem que inflexível e quezilento.

“Mas antes de chegar aos seus aposentos foi alcançado por um mensageiro do Taiko com a intimação de comparecer outra vez à sua presença. Pensou ele: ‘Pobre fado o meu! Tal é a sua raiva que se esqueceu de ordenar o meu esventramento como dupla expiação da ofensa do meu vassalo; agora, com certeza vai corrigir o lapso.’

“Assim, regressou à presença de Hideyoshi em maior agrura que antes. Foi encontrar o generalíssimo a andar irado de trás para a frente nos seus aposentos.

“Disse o Taiko quando o general prestou obediência: ‘Refletindo no incidente uma segunda vez, ocorreu-me que a punição que ordenei se encontra muito justamente reservada para parricidas e matricidas. Assim, ordeno-te que crucifiques o salafrário ereto.’

“Ouvindo esta nova ordem, Kagekatsu retirou-se respeitosamente e encheu-se de fortaleza para ir cumprir as instruções tal como corrigidas. Mas, quando se preparava para chamar o seu lugar-tenente para o instruir nos pormenores da execução, chegou mais um estafeta, convocando-o para regressar ao quartel-general. Dizendo para consigo ‘e agora o que será?’, apressou-se a apontar os pés para os aposentos do Grande Comandante, que foi encontrar mais composto e calmo, sentado formalmente [o sentar formal, ou seiza, é feito dobrando as pernas e colocando o peso do corpo sobre os calcanhares] num zabuton. Disse-lhe Hideyoshi: ‘Repensei no assunto outra vez e cheguei à conclusão de que uma vez que o homem não é nem traidor, nem assassino, nem ladrão, a morte por elevação no madeiro não é apropriada. Assim, ordeno-te que desembainhes a tua espada, lhe cortes a cabeça e que a exponhas publicamente à entrada do acampamento.’

“Recebidas estas palavras, o general retirou-se. Mas mal tinha passado a guarda exterior quando, pela terceira vez, um oficial emissário, correndo, chegou chamando-o a nova audiência. Regressando perplexo, prostrou-se para ouvir o Taiko dizer: ‘Refleti mais uma vez sobre este caso. Uma vez que o que me ofendeu é apesar de tudo um homem de duas espadas, tem direito a uma morte honrosa. Assim, ele que execute seppuku. Envia-lhe uma espada curta e que tudo seja feito de acordo com o cerimonial.’

“Quando ouviu isto Kagekatsu sentiu-se aliviado da amargura que o incidente lhe causara, alegrando-se por Sukebei poder morrer honradamente e deixar um nome limpo aos seus descendentes. Foi pois, contente, fazer os preparativos necessários. Mas, outra vez, antes de ter tempo para lacrar a ordem, foi levado à sua presença um núncio com mandato de regresso. Desta vez, quando se apresentou ao Pacificador, encontrou-o sorumbaticamente a meditar com sobrolho franzido, mão no queixo e cotovelo na almofada, e teve de esperar longamente com a testa no tatami antes de lhe ser dirigida a palavra. Disse-lhe finalmente o Taiko: ‘Ocorreu-me se não estaria a ser, por acaso, mais severo do que o necessário para alguém cuja transgressão foi mais por palavra que por ação. Estou, assim, inclinado a exilar o teu desatinado servo para a ilha mais rochosa do extremo sul deste Império e a destituí-lo do grau de samurai. Executa, portanto, esta ordem, não omitindo a proclamação da pena, para que ela sirva de exemplo e assim restrinja a insolência.’

“Com isto, despediu-o, e o ouvinte partiu dizendo para consigo: ‘Finalmente aqui temos o derradeiro adeus.’ Mas, enquanto o seu pincel escrevia a ordem ao regimento, eis que chegou um quinto portador com ordem de retorno. Pensando que desta vez Hideyoshi não acrescentaria mais que algum insignificante pormenor à execução da ordem, Kagekatsu prostrou-se no limiar da entrada. Impaciente, o Taiko mandou que se aproximasse e disse: ‘Tenho estado a repensar o caso do teu vassalo chamado Sukebei. Aqui entre nós, estas palhaçadas com atores e músicos e saltimbancos não têm origem em qualquer descuido meu no que respeita ao objeto desta guerra nem na minha distração no que concerne à arte do combate, mas foram pensadas como estratagema para desanimar e descorçoar e abater o ânimo dos nossos inimigos, para que pensem que somos tão fortes que não consideramos este cerco mais do que um divertimento ou um passeio pelo campo. O teu rústico, no entanto, não sabia nada disto, e agarrou-se aos antigos preceitos do guerreiro, segundo os quais é parte da sabedoria nem temer adversário mais forte nem desprezar inimigo mais fraco. De todos os meus grandes vassalos aqui congregados, nem um abriu a boca para pôr em questão a minha estratégia, tu incluído. Só este velho guerreiro ousou falar. Assim, é evidente que ele é senhor de rara coragem. Por esta razão, decidi considerar a sua ofensa coberta e remir toda a pena que lhe cabia.’

“Com isto, Kagekatsu exultou de alegria e, despedindo-se, disse dentro da sua alma: ‘Ó feliz desfecho! Sejam louvadas todas a deidades por o meu soldado ter sido totalmente perdoado!’

“Assim, quando foi outra vez alcançado por um mensageiro com intimação de regresso, o seu espírito toldou-se de receio, não tivesse Hideyoshi reconsiderado o seu perdão e fosse repor a pena. Mas, quando se prostrou em frente do generalíssimo, viu-o relaxado a beber uma taça de chá. Pegando numa espada, produto da indústria mais perfeita, o Taiko deu-lha dizendo: ‘Fidelidade num guerreiro é o seu mais nobre combate. Diz ao teu homem que lhe ofereço esta espada em sinal de reconhecimento pela sua lealdade.’

“O outro, a transbordar de admiração, elevou respeitosamente a espada à sua fronte, e partiu à procura de Sukebei, a pensar consigo próprio: ‘Finalmente, aqui está a cauda deste fantástico episódio. Quem me dera ter sido eu a cuspir no chão à entrada da tenda!’

“Aconteceu então que, quando ia ordenar para que Sukebei comparecesse à sua presença, por uma sétima vez lhe chegou um embaixador a pedir-lhe que desfizesse os passos que tinha acabado de dar. Quando o viu, disse-lhe Hideyoshi: ‘Tinha querido dizer-te que um homem como este Sukebei merece mais do que ser simplesmente um dos teus soldados rasos. É meu conselho que lhe dês autoridade sobre cem samurai.’

“Pensou o outro: ‘Não há mais espaço para revisão adicional.’

“E, saindo cheio de felicidade com esta promoção do seu vassalo, mandou logo chamar o velho guerreiro para dar-lhe conhecimento da elevação que acabara de receber. Sukebei acabava de se apresentar quando o porta-mensagens do Taiko interrompeu as saudações habituais entre os dois. Pela oitava vez nessa noite, Kagekatsu apontou as suas sandálias na direção do quartel-general, totalmente confundido e incapaz de imaginar o que poderia o Supremo querer dizer-lhe agora. Tendo-se apresentado e feito a vénia com a cabeça até ao chão, o Taiko convidou-o a sentar-se numa almofada ao seu lado e disse: ‘O meu espírito voltou-se outra vez para o teu soldado Sukebei e finalmente consegui cogitar algo apropriado. Lembrei-me do que ocorreu com Sorori Shinzaemon [曽呂利新左衛門, fl. segunda metade do século 16], e parece-me que o teu Sukebei, na sua franqueza, seguiu a regra de Shinzaemon. Para além disto, é conhecido o episódio em que Tokiyori [北条时頼, 1227—1263], o regente Hōjō de há trezentos anos, nomeou Fujitsuna, até então um humilde camponês, um dos seus ministros.’

“Continuou Hideyoshi: ‘Pois bem, parece-me que não devo tratar deste caso de modo mais mesquinho do que Tokiyori usou para tratar com o camponês Fujitsuna, que fez exatamente aquilo que o teu vassalo fez. Assim, decidi que a Sukebei seja dada patente de general e que, daqui em diante, tome lugar entre os oficiais em quem mais confio. E esta é a minha última reflexão no que respeita a este assunto.’

“Dito isto, dispensou Kagekatsu, o qual partiu dizendo em espírito: ‘Abençoados os deuses, que esta foi a última, pois mais uma revisão e este meu vassalo tornar-se-ia não menos que Xogun.’

“E foi assim que o humilde Sukebei foi elevado à mais alta patente. É do conhecimento de todos que venceu nas mais famosas batalhas e que o seu nome decora o rol dos ilustres.”

Não será que hoje se age, fala e se publicam tweets depressa demais? Se se toma uma decisão irrefletida e danosa, ao menos que haja coragem moral para, como Hideyoshi, se retificar o que houver a retificar. Seja na política, na gestão, ou até na vida familiar e entre amigos.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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