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História

A vingança de Ungo-Daizenji

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Como seria o mundo se os operários venezuelanos e camponeses norte-coreanos, utentes da Carris e contribuintes deste país, emulassem Heishirō, o porta-sandálias, e não ficassem parados a queixarem-se?

A vida é dura e pode parecer injusta. Não só para as gazelas caçadas pelos leopardos e para os frangos vendidos nos mercados. Parece sê-lo igualmente para os operários venezuelanos e camponeses norte-coreanos. E, se bem que em grau diferente, também para os utentes da Carris e contribuintes deste país. Qual deve ser a nossa atitude face às injustiças da vida? Daquelas que sofremos nós-mesmos? Face às doenças, acidentes e prepotências de que somos vítimas? Esperar pela intervenção do Estado? Ou, pelo contrário, de alguma maneira seguir o exemplo de Makabe Heishirō 真壁平四郎 (fl. séc. 16—17), tal como transmitido pelo seguinte relato popular da sua vida?

“Numa manhã de frio intenso, o jovem castelão de Ōsaki, o honorável Date Masamune [伊達政宗, 1567—1636], decidiu ir da sua fortaleza até um pavilhão que tinha mandado construir em cima de uma colina, com vista larga, para dali observar a paisagem que a neve, com o seu vasto manto, tinha coberto de prateado. Vales e montanhas, ribeiros e árvores, campos e casas, tudo estava coberto de um branco virginal, rebrilhando sob ténues raios de sol.

“Não se importando nada com o frio cortante e amando o belo, Masamune seguia acompanhado por uns poucos serviçais. Uma vez chegado ao seu destino, entrou no edifício e, pouco depois, entrou em êxtase com a beleza que lhe chegava aos olhos. A certa altura exclamou: ‘Que cenário fantástico! O que se pode comparar com uma paisagem de neve? Diz-se que a neve antecipa um ano frutuoso. Quando a colheita é abundante, grande é o contentamento do povo, e a paz e a prosperidade reinam sobre a terra!’

“Enquanto sua senhoria falava assim sozinho, Makabe Heishirō, o porta-sandálias, esperava, da parte de fora da entrada. Tendo posto as geta  do seu Senhor no chão, colocadas uma paralela à outra e a apontar para o caminho de regresso, mais não tinha de fazer senão esperar que ele saísse. Eis senão quando Heishirō notou que um e outro floco de neve caíam em cima do honorável calçado e que se começavam a acumular. Apressou-se, com a sua manga, a limpar as sandálias senhoriais, mas pouco depois já estavam outra vez cobertas do pó gelado.

“Pensou Heishirō: ‘Assim nunca mais acabamos. O meu Senhor desdenha o uso de tabi, mesmo durante a estação mais fria, considerando tal um sinal de efeminação. Mas se puser os seus pés nus nestas geta  frias e húmidas, certamente apanhará uma constipação. Para ser um servo bom e fiel, é meu dever conservá-las, de algum modo, quentes e secas, para quando ele sair.’

“Assim, o bom rapaz, na singeleza do seu bom coração, abriu o quimono e pôs as duas pesadas e frias sandálias de madeira junto à pele do seu peito e barriga, e continuou pacientemente a sua espera.

“Uma voz anunciou: ‘Aí vem sua senhoria!’

“Heishirō mal teve tempo de tirar do colo as geta  e de as colocar na grande pedra que se encontrava imediatamente abaixo do último degrau de madeira, quando as duas portas do pavilhão deslizaram para dar passagem ao jovem, vigoroso e imperioso Masamune. Este calçou as geta, e estranhando, disse para consigo: ‘Mas o que é isto? Não está o meu calçado quente e agradável aos meus pés gelados? Como pode ser tal coisa com este tempo? Só pode haver uma explicação. Aquele preguiçoso e miserável e vil porta-sandálias de certeza que se sentou em cima delas! Sentou-se em cima do calçado do seu Senhor! Insolência insuportável! Insulto imperdoável!’

“No ardor da ira ao suposto insulto, Masamune pegou no pretenso ofensor pela gola, abanando-o violentamente enquanto gritava: ‘Grande besta! Como ousaste emporcalhar as minhas geta  sentando-te em cima delas? Insultaste-me perfidamente! Toma vilão…’

“E, dizendo isto, pegou numa das geta  que tinha sacudido para fora dos seus honoráveis pés, e atirou-a à cabeça do pobre serviçal. Masamune era forte e a geta  pesada. Quando a geta  o atingiu entre os olhos, Heishirō caiu no chão sem sentidos e a sangrar.

“Masamune, sem olhar para trás, começou a caminhar majestosamente de volta para o seu castelo, descalço, pois a sua ira era grande demais para o deixar esperar que outro par de geta  lhe fosse trazido.

“Ninguém ficou para trás a tomar conta de Heishirō. Nem ninguém se importou com o que lhe pudesse acontecer. Durante algum tempo, ficou onde tinha caído, até que o frio lhe trouxe de novo a consciência; lentamente e com dificuldade, voltou a assentar os pés no chão e a pôr o rabo no ar. Apanhou a geta  que o tinha atingido, e vertendo lágrimas que se misturavam com o sangue que lhe brotara da ferida, olhou-a pesarosamente durante alguns instantes. Depois, considerando a injustiça que lhe tinha sido feita pelo seu Senhor, murmurou rangendo os dentes de raiva impotente: ‘Bruto orgulhoso como és, Masamune, vais pagar por isto! O laço sagrado entre Senhor e vassalo que entre nós existia quebrou-se definitivamente. Sempre fui o mais devotado dos teus servos, mas, a partir de hoje, não descansarei até realizar a minha vingança contra ti, por este imerecido e cruel tratamento!’

“Voltando a pôr a geta  junto ao corpo, dentro do quimono, embora, agora, com intenção diferente da anterior, desceu a colina pelo lado oposto ao do castelo, e afastou-se carregando o seu ódio e as suas dores.

“A partir desse dia, Heishirō foi dominado por uma única ideia e intenção: executar uma vingança condigna ao nobre arrogante que lhe tinha aniquilado o sentimento de dedicação e abusado da sua bondade. Raciocinou assim: ‘Masamune é dáimio, mesmo que pequeno e pobre quando comparado com outros grandes senhores, enquanto eu mais não sou que um servo. Assassínio é impossível pois Masamune está sempre bem guardado, esteja acordado ou a dormir, para além de que ele mesmo é senhor de considerável força física e invulgar destreza marcial. Assim, tenho de recorrer a outros meios mais subtis.’

“Pensou longa e profundamente. Havia apenas duas pessoas de grau mais elevado que dáimio e que lhe poderiam causar dano: o Mikado e o Taiko. Mas como poderia uma pessoa de baixa condição como ele ganhar o ouvido de qualquer deles para os influenciar contra Masamune? A própria ideia era absurda. Era verdade, no entanto, que se vivia uma época de desordem e inconstância e impermanência, com guerras e traições e usurpações a ocorrerem constantemente, e inferior a sobrepor-se a superior; o valor e a fortuna faziam com que alguém com uma boa espada e um bom cavalo tivesse a oportunidade de subir até qualquer altura e poder e dignidade. Mas ele não era guerreiro, o seu braço era fraco, a sua mão desajeitada, sendo desastrado por natureza. Foi com um suspiro que teve de admitir que a consecução do seu objetivo não seria alcançável por essa via.

“Um fugaz pensamento despertou-lhe a atenção. Lembrou-se da história de Nichiren [日蓮, 1222—1282], o filho do pescador, que se tornara o Pilar do País, o Olho da Nação e o Suporte do Japão. Considerou que qualquer um, alto ou baixo, grande ou pequeno, podia tornar-se bonzo e que as possibilidades abertas por essa via eram ilimitadas. Não havia grau ou distinção dentro de um templo a que um homem, da mais baixa origem ou de mais fracos braços, não pudesse aspirar. Um bonzo erudito e com reputação de santidade tinha entrada em qualquer palácio e acesso ao ouvido de qualquer dignitário, mesmo ao do próprio Imperador.

“Nesse momento, Heishirō decidiu o seu futuro: iria tornar-se bonzo. Com este propósito apressou-se a chegar ao Miyako e a pedir a admissão no templo Ungoji, em Higashiyama, como acólito.

“No entanto a vida de acólito não é nada fácil. Antes de receber a ordenação tem de passar por todas as formas de ascetismo e renúncia e penitência. Tem também de servir aos seus superiores tal como um servo, obedecer-lhes e fazer todas as tarefas, por mais mesquinhas e odiosas que sejam. Heishirō passou por muitos maus bocados e sofreu muito no corpo e na alma. Uma pessoa comum teria sucumbido e desistido. Mas tal não aconteceu com Heishirō: nem por um momento sonhou em abandonar a missão que se tinha imposto. Estava determinado, enquanto tivesse vigor e existência, a vencer todas as dificuldades e a suportar todas a humilhações necessárias para atingir o seu fim. No entanto, era humano, e houve ocasiões em que o seu extenuado e macerado corpo quase não aguentou e em que o seu cansado e ferido espírito quase desistiu. Às vezes, parecia que os seus nervos não conseguiam suportar mais. Nesses momentos, olhava para um espelho e observava a cicatriz profunda que a sua testa exibia, e, tirando de um esconderijo a velha geta, dizia para consigo: ‘Coragem! Ânimo! Lembra-te de Masamune! A missão da tua vida ainda não está terminada.’

“Assim pensando, a calma e a fortaleza regressavam ao seu espírito cansado e aos seus membros extenuados, e, sentindo-se capaz do esforço, Heishirō aguentava e progredia.

“A pouco e pouco ganhou a confiança dos seus superiores e a admiração dos seus iguais, e a sua erudição mostrava progressos admiráveis. Quando chegou o momento em que considerou que pouco mais aprenderia em Ungoji, requereu transferência para outro templo onde pudesse progredir mais rapidamente em conhecimento e fama. O seu pedido foi prontamente aceite em Enryakuji, no Monte Hiei, o maior e o mais renomado local de ensino sagrado em todo o Império, e o jovem monge para lá se mudou.

“Vinte anos mais tarde, Jōben, pois este foi o nome que tomou ao ser sagrado bonzo, já era conhecido longe e perto devido à fama que a sua erudição e a observância inflexível e estrita e rigorosa dos princípios da mais austera piedade lhe trazia. Mas não estava satisfeito, pois ainda não se sentia em posição de atrair a atenção nem do Imperador, nem do Xogum. Tinha de subir mais alto. A sua fama tinha de chegar aos quatro cantos da terra para poder executar o seu objetivo.

“Assim, decidiu ir para o Império Florido do Meio, fonte de todo o conhecimento e erudição e sabedoria, único local onde poderia aprender todos os pormenores e minúcias da via da iluminação de que precisava e desejava e queria adquirir. Assim que surgiu a oportunidade, Jōben embarcou em direção à China. Ali ficou dez anos, entre um povo estranho, durante o qual visitou muitos templos famosos e bebeu a sabedoria de muitas fontes e acumulou a erudição de muitas escolas. A sua fama chegou aos ouvidos do Imperador Chinês, que lhe concedeu uma audiência e que graciosamente lhe impôs o novo nome religioso Issan-Kasho-Daizenji. Quando o número de dias da sua permanência no Império do Meio chegou ao fim, regressou ao País do Sol Nascente, já conhecido e afamado e célebre como homem sábio e austero e santo, considerado como o mais importante teólogo vivo pelos povos de toda as terras e regiões e países entre os oito oceanos.

“Após o seu regresso, Issan-Kasho-Daizenji voltou a Ungoji, o templo no Miyako onde tinha iniciado o seu noviciado. Há já muito tempo que não tinha notícias de Masamune. Foi uma desagradável surpresa saber que o objeto do seu ódio também tinha subido no mundo, que se tinha tornado o dáimio de Sendai, o mais importante Senhor das regiões setentrionais, um dos mais influentes dignitários do Império, respeitado, senão mesmo temido, pelo próprio Xogum. Mas isto apenas constituía um pequeno aborrecimento para Daizenji, obrigando-o a esperar pelo momento oportuno e a atuar prudentemente: um passo em falso podia deitar todo o seu trabalho de anos a perder.

“Pouco depois de se instalar na cidade imperial, o Mikado adoeceu, e tão gravemente que todo o conhecimento e toda a perícia dos médicos mais sábios provaram ser sem efeito e inúteis. Os mais altos oficiais e conselheiros da Casa Imperial reuniram-se então para discutir que medidas tomar e decidiram que, uma vez que todos os meios humanos eram vãos, a única esperança se encontrava num apelo à intervenção dos céus. E quem era o bonzo com carácter tão santo e rezas tão solenes e sabedoria tão profunda a quem poderia ser confiada esta missão? Um nome foi pronunciado por todos os conselheiros: ‘Issan-Kasho-Daizenji!’

“O santo homem foi então convocado sem demora ao palácio e ordenado a rezar com todas as suas forças aos poderes divinos pedindo a restauração da saúde do paciente imperial. Durante sete dias e sete noites, Daizenji isolou-se de toda a humanidade no Pavilhão do Dragão Azul, e durante este tempo jejuou e rezou para que a preciosa vida pudesse ser poupada. Na manhã seguinte, o Imperador começou a sentir-se melhor e a sua recuperação foi tão rápida que, a meio da tarde, já ninguém se lembrava da ansiedade dos dias anteriores.

“A gratidão do Augusto Dragão foi generosa e sem limites. Daizenji foi honrado com muitos sinais de reconhecimento e estima imperial, e todos os ministros, cortesãos e oficiais competiam entre si para o elogiar e obsequiar. Por nomeação imperial foi feito Mestre de Ungoji e recebeu ainda outra dignidade, a de Ungo-Daizenji. Ao receber este último grau, o bonzo exaltou pensando: ‘A consumação do meu desejo está finalmente ao alcance da minha mão. Só me resta encontrar um pretexto plausível para acusar Masamune de traição, missão em que ele próprio me ajudará com o seu carácter irascível e imponderado.’

“Ungo-Daizenji fez então os seus arranjos para estar bem informado de tudo o que Masamune dizia e fazia, o que não foi difícil porque tinha acesso a todos os bonzos do Império, e algum bonzo consegue sempre entrada quer em rico palácio e alto castelo ou em pobre choupana e baixa cabana.

“Mas o tempo ia passando. Já fazia mais de trinta anos que o humilde porta-sandálias tinha jurado vingar-se do injusto Masamune, e não tinham sido em vão os jejuns e vigílias, as leituras das sagradas escrituras, orações e meditações, durante todos os trinta e mais anos de vida espiritual que o tinham tornado num santo e ascético e sábio monge. Sem se aperceber, o seu carácter tinha sido objeto de uma grande transformação, tão gradual, que ele próprio, com todo o seu conhecimento, não se tinha dado conta nem ainda suspeitava. A sua mente e corpo tinham passado por um processo de purificação tal, que se tinha tornado incapaz de manter um sentimento tão baixo e fútil como o desejo de vingança. Agora que tinha o poder ao seu alcance, deixara de ter apetite para o exercer.

“Refletiu ele: ‘Odiar ou causar dano a um nosso semelhante é indigno de quem foi sagrado bonzo. Os ventos da paixão causam turbilhões e distúrbios nas mentes dos que estão perdidos no labirinto do mundo e do século, mas não devem influenciar quem entrou em religião. Quando um homem consegue ter visão espiritual deixam de existir Leste e Oeste, Sul e Norte: tudo isto são ilusões. Alimentei o meu ódio contra o meu Senhor Date durante mais de trinta anos, e graças à minha única paixão e ao meu desejo de vingança, subi com as minhas próprias forças à minha presente posição. Se o meu Senhor Date não me tivesse tratado injustamente que seria hoje de mim? Teria ficado Heishirō, o porta-sandálias, toda a minha vida. Mas o meu Senhor teve a indelicadeza de me atirar com uma geta  sem se preocupar com a retidão de tal ato ou se eu merecia tal castigo. Por isso fui levado ao ódio e jurei vingança e foi por causa desta minha decisão que me tornei bonzo, estudei duramente, suportei privações, de modo que naturalmente me tornei um dos mais influentes clérigos do Império, a quem até nobres e príncipes se dobram em reverência. Se olhar o assunto a esta luz, torna-se evidente que é ao meu Senhor Date que tudo devo. Nos tempos antigos, Shakamuni, voltando as costas a toda a glória terrena, subiu ao Monte Kantoku onde serviu como noviço sob o Mestre Arara. Apesar de ser príncipe, executou as tarefas mais vis ordenadas pelo Mestre que, sempre que o discípulo lhe parecia negligente, lhe batia com um bastão. ‘Que mortificante isto é’, pensava o neófito real, ‘eu que nasci para me sentar num trono, sou tratado deste modo como se não tivesse qualquer grau de nobreza.’ Mas o Shaka era um homem de espírito indomável. Quanto maiores eram as humilhações que sofria, tanto maior era a dedicação com que se aplicava aos estudos religiosos, de modo que, com apenas trinta anos, já tinha aprendido tudo o que o seu Mestre lhe podia ensinar e começou ele mesmo a instruir, introduzindo neste mundo a sagrada via do Budismo. Pode verdadeiramente ser dito que o sucesso espiritual do Shaka foi devido, em grande parte, senão mesmo na totalidade, àquele rigoroso e incansável Mestre que não lhe permitiu descanso. Que esteja longe de mim comparar o meu humilde ser com o do santo fundador do Budismo, mas mesmo assim é inegável que o pavilhão na colina ao pé do castelo de Ōsaki foi o meu Monte Kantoku, e que esta geta  foi para mim o bastão do Mestre Arara. Tenho, portanto, de ter no meu coração não desejos de vingança, mas sentimentos de gratidão ao meu Senhor Date, pois foi o seu ato irrefletido que estabeleceu a fundação do meu sucesso.’

“Assim, o sábio bonzo renunciou à sua intenção vingativa e um sentimento mais puro encheu o seu coração. A partir daquele momento, passou a considerar a geta  ensanguentada com reverência, oferecendo-lhe flores e queimando-lhe incenso, ao mesmo tempo que passou a orar fervorosamente dia e noite pela felicidade e longa vida do seu antigo Senhor, o honorável Date Masamune.

“Masamune, por seu lado, continuava a receber honras e a granjear a admiração de altos e baixos, e poucos senhores o igualavam em força militar ou riqueza. Com o reino em paz, Masamune começou a dedicar o seu tempo e forças às artes e à cultura. Tendo decidido a restauração de um antigo e venerando templo, Zuiganji, em Matsushima, e levantando-o da ruína, em que tinha caído, até ao seu antigo esplendor, procurava um bonzo, profundo em conhecimento e modelo em virtude, que pudesse tomar conta dele dignamente. Um dia inquiriu os seus conselheiros: ‘Como sabeis reconstruí Zuiganji e decorei-o com rico esplendor, mas ainda não encontrei religioso que possa ser seu superior. Desejo confiar este sagrado templo a um homem rico em conhecimento e santo em virtude, que possa continuar as suas antigas e venerandas tradições, e confirmá-lo como assento de piedade. Dizei-me, pois, quem é o mais digno bonzo dos nossos dias?’

“Responderam todos em uníssono: ‘O mais venerável bonzo dos nossos dias é Ungo-Daizenji de Ungoji, no Miyako.’

“Assim, Masamune decidiu oferecer o posto de primeiro bonzo de Zuiganji ao venerável Ungo-Daizenji. No entanto, como este era conhecido como sendo o conselheiro favorito do Imperador, era necessário que o Mikado desse primeiro a sua autorização. Masamune apresentou oficialmente a sua petição de acordo com o protocolo estabelecido, e privada e diretamente suplicou-o como favor pessoal. O Único Altíssimo, que nutria profunda afeição pelo grande general, prontamente acedeu ao seu pedido, e assim sucedeu que Ungo-Daizenji foi nomeado Superior de Zuiganji, em Matsushima.

“No sétimo dia após a instalação de Ungo-Daizenji em Zuiganji, Masamune foi apresentar os seus cumprimentos de boas vindas ao recém-chegado. Conduzido à sala de visitas do Superior, ao voltar a sua atenção para a tokonoma, ficou surpreso ao ver uma geta  velha e manchada, colocada em cima de um rico pedestal, ornado pela mais perfeita indústria de ourivesaria. Interrogou-se ele perplexo: ‘Que personagem célebre terá usado esta geta? Mas certamente é uma falta de cortesia, em grau inadmissível, decorar a tokonoma  com um objeto tão baixo, quando se recebe um dignitário tão alto como eu! Será possível que este bonzo tenha algum propósito especial para permitir tão estranha contravenção às regras das boas maneiras?’

“Nesse momento, a porta deslizou silenciosamente e um venerável homem sacramente paramentado entrou sem ruído. A sua face era pura como a de um asceta, mas desfigurada por uma profunda cicatriz entre as sobrancelhas. Ungo-Daizenji sentou-se frente ao seu convidado e, pondo as duas mãos no chão, inclinou-se profundamente várias vezes em respeitosa saudação. Masamune retribuiu de cada vez a cortesia com a devida cerimónia. Quando as saudações foram dadas por terminadas, Masamune não se conteve e perguntou: ‘Vossa Reverência condescendeu bondosamente em aceitar o meu pedido de vir para este local obscuro e insignificante tomar conta deste nosso templo. Estou subjugado pela vossa bondade e não tenho meios para vos agradecer. Sou um velho simples e tosco e não sei manejar palavras, por isso vos peço desculpa pela minha rudeza. Mas, Reverência, há duas coisas que me confundem, e apesar de este ser o nosso primeiro encontro e não ser marca de boa educação ser tão inquisitivo numa primeira entrevista, posso pedir-vos o favor de me explicardes a honra dada nesta tokonoma  a uma humilde geta  e também a feia cicatriz no vosso sobrolho, que tão mal assenta com a vossa reputação de santidade?’

“Salvo um pequeno sorriso, o bonzo permaneceu impassível enquanto o daimio pronunciava estas palavras, com a energia e impetuosidade características do jovem Masamune. Mas quando respondeu, um ouvido sensível poderia notar uma leve vibração de emoção: ‘Quanta é a minha alegria voltar a ver a vossa face e observar os vossos traços inalterados. Recorda-me os dias há muito passados da minha juventude.’

“Replicou o guerreiro: ‘As vossas palavras são estranhas. Como posso eu fazer recordar-vos da vossa juventude se nunca antes nos encontrámos?’

“Continuou o religioso: ‘Meu Senhor, peço-vos que tenhais paciência que vos explicarei tudo. Há muitos, muitos anos eu não passava de um servo, um porta-sandálias chamado Makabe Heishirō, que estava ao vosso considerado serviço. Assim, é natural que não vos lembreis de mim que não passava de um dos vossos mais humildes servos. Quando vós residíeis no Castelo de Ōsaki…’

“E Ungo-Daizenji continuou com a sua história a partir daquele dia de neve, há quase quarenta anos, não omitindo pormenor nem acrescentando fantasia. Não se poupou a si próprio, contando como ao longo de todos aqueles anos tinha sido alimentado por um sentimento de vingança, e que tinha vencido todas as dificuldades e ultrapassado todos os obstáculos sustentado apenas pelo seu desejo de ver o seu inimigo a comer pó e a beber lama. Masamune, espantado demais para emitir palavra, ouviu-o em silêncio.

“O bonzo concluiu: ‘Por fim, chegou a ocasião de fazer um pequeno serviço ao Imperador, que magnificentemente me recompensou com presentes e outros sinais de favor. ‘Agora é o meu momento!’, pensei eu. Mas, para minha grande admiração, percebi que tão vil paixão tinha deixado de existir no meu coração: o desejo de vingança tinha desaparecido. Comecei a ver-vos a uma luz diferente, e a considerar-vos como meu benfeitor. Se não fosseis vós eu seria ainda um porta-sandálias; se não fosseis vós, eu nunca teria conquistado os tesouros de sabedoria que agora domino; se não fosseis vós, eu nunca teria podido conhecer e aprender de tantos varões ilustres e sabedores, em dois diferentes países. Portanto, o meu ódio transformou-se em gratidão, e o meu desejo de vingança transmudou-se em sincero desejo que tenhais vida longa e descendência próspera. Oro diariamente para que alguma vez possa, em alguma pequena medida, recompensar-vos dos benefícios inestimáveis que vos devo. Vossa Senhoria agora perceberá porque eu prezo tanto esta velha geta, e porque tenho esta horrível cicatriz na minha face.’

“Masamune ouviu esta narrativa com espanto crescente e a mais profunda das atenções. Quando a conclusão chegou, disse emocionado: ‘O que Vossa Reverência acaba de me contar apanha-me desprevenido. Apenas lembro vagamente o incidente e a minha ira daquilo que considerei na minha arrogância ter sido grosso insulto. Não me espanta o vosso desejo de vingança, mas antes que a ele renuncies quando o podíeis reclamar. Grande é a vossa magnanimidade! Vós sois a prova de que a religião não é a abstração vazia que alguns lhe chamam. Humildemente vos peço perdão das ofensas passadas e que me inscreveis no rol dos vossos discípulos.’

“Deste modo, Masamune, que era de uma disposição nobre e franca, arrependeu-se da falta cometida na sua juventude, e o porta-sandálias conseguiu maior triunfo do que se tivesse obtido uma morte vergonhosa para o seu inimigo. A amizade despontou entre os dois e perdurou até serem separados muitos anos depois pela morte. O bonzo foi sempre bem-vindo no castelo, enquanto o Senhor progrediu nos seus estudos do sagrado e cresceu em virtude sob a orientação de Ungo-Daizenji.”

Será que a vida é mesmo injusta? Makabe veio a considerar a injustiça sofrida como uma oportunidade de desenvolvimento pessoal. Qualquer marxista o julgará, por esta conversão, como um alienado. Mas na realidade ele era um homem verdadeiramente livre: livre da mentalidade de vítima, desde o início, e livre de ressentimentos, depois. Um verdadeiro Homem.

E quem são os cativos de hoje? Não serão aqueles que continuam mentalmente agrilhoados às ideologias do ressentimento baseadas no marxismo bafiento do século 19? Como seria o mundo se os operários venezuelanos e camponeses norte-coreanos, os utentes da Carris e contribuintes deste país, emulassem Makabe Heishirō, o porta-sandálias, e não ficassem parados a queixarem-se?

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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