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“Casados à primeira vista”: o que nos ensina e nos engana

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É constrangedor e dá-me pena ver tantos destes concorrentes desesperados pela pressão que sofrem pois querem que tudo corra bem, mas não dão espaço ao outro, nem se conhecem a eles mesmos.

Para quem não conhece, “Casados à primeira vista” é o mais recente “reality show” da SIC. Em que consiste? Procura a sua cara metade e quer casar? Alguns especialistas, desde psicólogos a coaches de relações indicam-lhe o seu “match” perfeito e vai conhecer na cerimónia de casamento a pessoa com quem passará o resto dos seus dias. Depois do enlace, o casal segue diretamente para a lua de mel e será exposto a muitos desafios por parte da equipa de especialistas, bem como acompanhados pelos mesmos ao longo de várias semanas.

O programa despertou a minha atenção logo no primeiro momento, mas também achei obviamente um disparate. Como é possível casar-se com alguém que não conhecemos nem escolhemos? Mais tarde, reconheci que o programa não aparece por acaso. Para ter uma opinião, gosto de investigar e ouvir várias perspetivas e não me pareceu que fosse o “BBC Vida selvagem” que são a maioria dos reality shows. Eu e a minha mulher temos sido assíduos espectadores.

Não me revejo totalmente, também, no chorrilho de opiniões de “especialistas” que logo acorreram a deitar abaixo o programa. Concordo com eles em que o programa não faz sentido como forma real de se casar, outro assunto é que é impossível haver instrumentos de “matching” eficazes. Dos que conheço e da experiência de 3 anos e 50.000 pessoas que estão no site de online dating que giro, é muito possível o matching ser eficaz. E pergunto a estes senhores, o que dizem deste artigo científico que aponta que 1/3 dos casamentos nos EUA já começam online (e baseados em instrumentos de matching), há evidências de que estes casamentos são mais fortes e além disso que aumentam o casamento inter-racial.

Também sugeria que estes especialistas se pudessem atualizar, lendo também este artigo do The Economist. Senhores, estamos no século XXI. E por ser católico, não quer dizer que não aproveite o que tem de bom este meio e ajude muitos casais a realizar os seus sonhos.

O online dating e este programa têm, por isso, pontos de contacto. Então em que ponta é que se lhe pode pegar este programa? Há um contexto sociológico em que aparece:

  1. Mesmo que a ideia de casar sem conhecer nem escolher a pessoa seja má, este programa deseja resolver um problema premente para cada vez mais pessoas, neste caso o público mais velho/ maduro. 40,4% dos portugueses são solteiros (Censos) e muitos deles o são involuntariamente, desejam uma relação para a vida com toda a felicidade e compromisso associados. Nos EUA e Brasil, por exemplo, os números aproximam-se dos 50%. Em resumo, nunca houve tantos solteiros. Em particular, estas pessoas não são nenhumas idiotas, desejam ser felizes como eu e o leitor e muitas têm o sonho nobre de melhorar-se a si próprias e fazer outras pessoas felizes. A questão é se o sabem fazer ou exista quem as ajude a tal.
  2. Muitos concorrentes revelam que já não sabem o que fazer e então “deixam aos especialistas a decisão”. Esta é uma frase muito repetida. É compreensível. Confessam que já tentaram de tudo mas não conseguem e desistem. Por outro lado, pensam nas suas vidas: haverá suficientes pessoas disponíveis para a relação? Ou pelo menos que o revelem? É por isso que, por outro lado, admiro-as, tal como as que usam o online dating (pelo menos com o objetivo de relações duradouras). Não se conformam, verbalizam o seu problema, tomam uma ação. É um início corajoso e elogiável. É melhor do que os que se conformam, não se responsabilizam e nada fazem pelo seu problema e enchem a sua vida de tristeza e ressentimento para si e quem está à sua volta.
  3. O programa tem uma engenhosa justificação. Os concorrentes estão a fazer o “caminho inverso”. Primeiro: compromisso. Depois: conhecer-se. O que não é estúpido de todo, dada a incapacidade geral revelada nos números para o compromisso. Com esta constatação, alguém se lembrou de criar estes programas em que se tomam medidas “drásticas” de comprometer alguém antes, de modo a fazer o caminho, passo por passo, para o amor. Tanto que os especialistas, e bem, aconselham a que se construa primeiro uma amizade e depois dar tempo para a intimidade e para o amor, por fim. Como é possível conhecer idiossincrasias, manias, personalidade da pessoa se começamos por sexo? Não sou um santo neste campo, mas percebi a dada altura na minha vida o bem que fazia saber esperar. O sexo, numa fase muito inicial da relação vai obviamente turvar tudo isto. Depois vem a verdade. A premissa do programa é que o amor desafia-nos e faz-nos pessoas melhores. Sem o assumir, nisto é cristão, mesmo que os meios depois sejam os errados.
  4. Já ultrapassámos a fase histórica do casamento arranjado, mas os indianos têm um conceito interessante. Os mesmos têm também casamentos arranjados e uma teoria, a do chá frio. Se há tantos casamentos que começam quentes e vão esfriando, estes propõem o inverso. Que tal começar frio e ir aquecendo? Consta que funciona para muitas pessoas, até porque vem adicionado de outros fatores importantes para o matching eficaz, religião e interesses familiares comuns. Honestamente, já vi casais ocidentais mais infelizes do que alguns casais amigos indianos neste regime. Não estou a advogar este sistema, ainda para mais, tem outras características da cultura que não são tão abonatórias, como o tratamento que é dado às mulheres, desde o aborto à violação. Apenas registo que para alguns funcionou e que a ajuda de terceiros não é de descartar.

Porque não funciona e a ideia do programa é desastrosa:

  1. Mesmo com toda a ajuda da psicologia, da tecnologia e do desenvolvimento pessoal para encontrar a cara metade, estas têm de ser ajudas e não “imposições”. Não nos enganemos, dado o desespero, há quem queira colocar as suas decisões noutros. Isto não é boa opção. As ajudas são imprescindíveis, mas a decisão é de cada um. No online dating é diferente, o algoritmo gera uma sugestão de compatibilidade. Ainda para mais, quem procura tem mais hipóteses de escolha, tempo e privacidade para tal.
  2. Infelizmente o resultado principal deste programa nos casais (a assegurar de que é genuíno e não fabricado), é de que, ou o matching é falhado ou depois de casar as pessoas se sentem logo pressionadas patologicamente para que corra bem e este convívio não é feito de espaço, tempo e respiração livre. As relações, neste programa, começam pela verdade (os que esperam antes de mais intimidade) e muitos não aguentam e acabam. É óbvio que não aguentem pois só compreendemos quem amamos. Como poderei aturar certo defeito da minha mulher se não a amo?
  3. Há muitas pessoas com variados problemas por resolver consigo próprias e que, por isso, dificilmente, se envolverão numa relação. Por outro lado, outras com várias feridas e relações passadas difíceis de ultrapassar.
  4. Faz um favor aos incautos e cínicos, os quais vão ver o programa e continuarão com as mesmas frases de café, “vais casar, vais p’á forca”, de taxista indignado como, “isto o casamento já se sabe, não funciona”, ou de feminista ressentida, “os homens são todos iguais”.
  5. É uma pobre forma de brincar com o casamento e torná-lo descartável. Mesmo que falemos apenas de um contrato civil, não é sério avançar com algo assim com a hipótese à partida de divórcio (mesmo que exista muitas pessoas que já o façam numa situação normal)

O namoro serve para isto: crescer consciente mas livremente, preparar-se para a relação, conhecer-se a si próprio e ao outro, dar o seu tempo aos demais e aos seus gostos pessoais. Só quem se conhece e se ama, pode amar, dar algo que recebeu e receber do outro. É constrangedor e dá-me pena ver tantos destes concorrentes desesperados pela pressão que sofrem pois querem que tudo corra bem, mas não dão espaço ao outro, nem se conhecem a eles mesmos. Falo da Eliana e do Hugo, por exemplo. Vê-se que transportam inseguranças graves e “enjaulam” literalmente o “cônjuge” com o seu controlo.

Em resumo, mesmo que existam condicionalismos sociológicos a ter em conta, esta é uma experiência a evitar por qualquer pessoa que queira encontrar a cara metade. Já o online dating, tem muitas virtudes, como demonstrei.

António Pimenta de Brito formou-se em Língua e Cultura Portuguesa (língua estrangeira) pela FL-UL e depois fez um MBA em gestão, no ISEG-UL e o 1º ano de PhD em Gestão no ISCTE-IUL. Tem trabalhado em empresas nos últimos 12 anos. Fez formação em Comunicação na Harvard Kennedy School e na European Dignity Watch, em Bruxelas. Recentemente tornou-se empreendedor e docente ao criar a primeira Pós-Graduação em Portugal em Gestão de Organizações Religiosas, no ISEG-UL e é atualmente corresponsável pelo site internacional em língua portuguesa, fundado na Áustria, www.datescatolicos.org, dá palestras e escreve sobre o tema das relações e casamento.

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