Crónica

Como é bela a vida num país sem populismo /premium

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O PR comenta o descarrilamentos dos eléctricos. Os hospitais públicos recusam doentes. Saída para a crise? Adoptar uma coelha selvagem e também um ex-criador de vacas reconvertido energeticamente.

Terça-feira, 11. O tiroteio voltou a eclodir e a matar. Desta vez foi num mercado de Natal, em Estrasburgo. A cada atentado terrorista temos uma espécie de guião: quem começa por matar é o tiroteio. Depois admite-se que alguém terá segurado a arma. Em seguida temos um razoável compasso de espera até que se avançam os elementos que confirmam o que já se suspeitava: o autor do atentado é muçulmano e fez questão de o sublinhar, no momento em que matava. O Estado Islâmico também celebra a mortandade mas, segundo o novo mantra jornalístico, não estamos perante um verdadeiro terrorista islâmico. A questão do “verdadeiro terrorista islâmico” está a tornar-se uma espécie de alargamento do conceito de denominação de origem dos vinhos e enchidos àqueles que, além da infelicidade de não consumirem os produtos atrás citados, passam à prática o seu desejo de matar em nome de Alá. Por mais que o terrorista islâmico grite que “Alá é grande!”enquanto dispara sobre os desgraçados que se cruzam no seu caminho temos de evitar a expressão “terrorista islâmico”. Por fim, mas não menos importante, com 29 anos e 27 processos judiciais em França e na Alemanha, Chérif Chekatt   classificado como “S”, ou seja como perigoso para a segurança da França, estava contudo em liberdade. Como é que isso é possível? O enquadramento legal na UE não está feito para responder ao terrorismo: mesmo com ficha “S”, um estrangeiro que tenha conseguido a nacionalidade francesa  dificilmente pode sequer ser expulso para o seu país de origem . Como tantos outros presos de delito comum Chérif Chekatt ter-se-á radicalizado ainda mais numa daquelas prisões em que quem manda são os fundamentalistas. Como de costume acenderam-se velas e fizeram-se as declarações piedosas do costume sobre as vítimas de mais este incidente. Até que um novo tiroteio volte a eclodir e a matar voltaremos a ignorar o assunto.

Quarta-feira, 12. Um doente com uma lesão grave numa mão, decorrente de um acidente de trabalho com uma rebarbadora, foi enviado do hospital de Setúbal para o hospital de São José, onde deu entrada cerca das 18 horas. No Hospital S. José estava avariado o equipamento necessário à cirurgia e foi decidida a transferência do doente “para outra instituição com capacidade para a intervenção” . O Hospital de S. José tenta transferir o doente para  Santa Maria. Mas Santa Maria recusou. Ou melhor dizendo não o recusou mas também não o recebeu. Como explica a sua administração Santa Maria nega ter recusado o doente, simplesmente não o conseguiu atender porque estão  “a atravessar um período que não é de funcionamento normal”. (Traduzindo, os enfermeiros estão em greve). O hospital de S. José tentou de novo transferir o doente, agora para S. Francisco Xavier mas esta unidade tinha uma intervenção a decorrer e não pôde também receber o doente. Pelas 21h, ou seja três horas depois de o doente ter dado entrada em S. José, chega um sim:  o serviço de cirurgia plástica de Vila Nova de Gaia aceitou receber o doente. Pelas 22.35 horas foi  determinada a transferência do doente para Gaia. Às sete horas da manhã do dia seguinte o doente acabou finalmente por entrar no bloco operatório em Gaia.

… É isto: tornámo-nos reféns do Estado! A verba disponível vai para as suas corporações e a cada dia que passa essas corporações reforçam o seu poder através do monopólio da prestação de serviços: este homem não poderia ter sido operado num hospital privado de Lisboa? Aliás, para lá do sofrimento a que foi sujeito nesta longa espera, não se gastou muito mais dinheiro ao SNS levando-o para Gaia? Quem disse  que o SNS implica sermos tratados num hospital público e não naquele que melhor se ajusta naquele caso? O que está em causa na perseguição aos privados na área da Saúde (tal como na da Educação) é a transformação dos utentes em escudos humanos nas guerras sindicais. Logo, ou se põe fim a este entendimento de que o SNS presta serviços exclusivamente nos hospitais públicos ou, recusados de hospital em hospital, acabaremos a dar a volta a Portugal para sermos atendidos. E no fim, ainda teremos de ouvir que não fomos recusados simplesmente, como explicou a administração do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, que integra o Santa Maria, “a avaliação feita foi essa e o doente foi tratado com o que de melhor há no Serviço Nacional de Saúde (SNS)” Imagine-se onde teria acabado o doente se tivesse sido tratado com o pior! Quiçá na Venezuela!

Quinta-feira, 13.  O PAN apresentou Francisco Guerreiro como seu cabeça de lista às próximas eleições europeias. Escreve o PAN sobre o seu candidato: “Atualmente reside em Cascais, é casado e tem duas filhas uma das quais nascerá, estima-se, a 05 de março. A família é também composta por dois gatos (casal) e uma coelha selvagem, todos adotados. O seu hóbi centra-se na leitura e na recolha de lixo, nomeadamente em florestas e nas praias nacionais.” Convenhamos que o comunicado deve ter sido redigido pelos “dois gatos (casal)” (curioso este detalhe informativo sobre a conjugalidade dos gatos mas convém não aplicar a heteronormatividade aos felinos: estes constituirão  um casal hetero ou homo?) e pela “coelha selvagem adoptada” seja isso o que for do ponto de vista da coelha (se é coelha não é adoptada porque adoptadas são as crianças e se é selvagem o seu lugar não é ao pé das pessoas) pois não só não se percebe se  Francisco Guerreiro lê nas florestas e apanha lixo nas praias, o contrário ou nada disso. Mais misteriosamente ainda sabemos que uma das filhas nascerá “estima-se, a 05 de março” mas ficamos sem saber se a outra filha já nasceu ou se ainda não tem data estimada para o nascimento. Convém contudo que não nos deixemos iludir pela  ignorância e apalhaçamento deste tipo de prosas, pois aquilo que delas sobressai é uma visão arrogantemente urbana da sociedade.  Esta élite urbana, os urbanitas, chamam-lhe os espanhóis, de que o PAN representa o lado mais histriónico, está a perseguir o mundo rural, para o efeito cada vez mais apresentado como ignorante. Não por acaso as vacas substituíram os cafés no discurso do Portugal atrasado que o progressismo vai combater: nos governos Sócrates o então responsável pela ASAE anunciava o fim de metade dos cafés “por não cumprirem a legislação comunitária ou por não terem viabilidade económica”. Agora é o ministro do Ambiente e da Transição Energética (só o nome deste ministério é um programa!) a declarar necessária uma redução entre 25 a 50 por cento de bovinos para “descarbonizar o país”. Em conclusão,  ou se metem os urbanitas na ordem ou o mundo rural, o tal para que os urbanitas aprovam tantos planos de apoio e repovoamento, vai acabar a ser alvo de campanhas de adopção do tipo  “Adopte uma coelha selvagem e também um ex-criador de vacas agora reconvertido energeticamente à neutralidade carbónica.” Vai ser um sucesso. Em Lisboa, claro.

Sexta-feira, 14. Um eléctrico da Carris descarrilou na zona da Lapa, em Lisboa, causando 28 feridos ligeiros. O facto em qualquer outro lugar do mundo seria da competência dos técnicos de transportes e da responsabilidade da empresa ou instituição que gere esses transportes. Em Portugal não.  De imediato, vindo desse local misterioso onde parece estar em estado vigília constante à espera de um facto para comentar,  surgiu o Presidente da República e logo desatou a falar naquele estilo “assim e o seu contrário”: “Felizmente houve uma capacidade de resposta imediata e muito eficiente e o número de pessoas que já foi resgatado é muito superior àquelas que falta desencarcerar”. Continuando neste registo de “explicador para tontos” o Presidente da República acrescentou ou minguou que no caso vai dar ao mesmo“Vamos esperar, a ver se o saldo global é um saldo que não tenha vítimas que não sejam feridos”, “Estão em curso ainda muitas diligências, primeiro em relação ao número de pessoas que estão a ser desencarceradas”. A esta intervenção efectivamente esclarecedora juntou-se a decisão da Junta de Freguesia da Estrela de garantir apoio psicológico aos sinistrados e suas famílias. Perante tanta palavra do PR e iniciativa da junta, o que disse o presidente da CML que desde há dois anos tem a tutela da Carris? Nada, O que explicou o vereador Miguel Feliciano Gaspar que tem os pelouros da Mobilidade e Segurança? Nada. Finalmente  a Carris, empresa responsável pelo eléctrico, anunciou laconicamente  que vai abrir um “inquérito minucioso” para apurar quais as razões que levaram ao descarrilamento. Nem sei se teremos tempo para ler tanto inquérito; assim que me recorde temos a leitura prometida e adiada do inquérito sobre as “armas roubadas/afinal não roubadas/talvez desviadas/ quiçá devolvidas” de Tancos mais o inquérito ao  desvio de meios corrido em 2017 nos fogos de Mação. Mas parafraseando o nosso Presidente da República: vamos esperar pelo desencarceramento dos inquéritos.

Em resumo, Portugal é um país a salvo do populismo. Ou melhor dizendo, um país em que os populistas que nos governam conseguem não ser contestados pelos populistas na rua.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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