Desde o 25 de Abril, nenhum político português se afirmou nos termos do título desta crónica. Esta talvez seja a maior derrota da direita portuguesa durante a história do regime democrático. Há, naturalmente, explicações poderosas para tal derrota. A mais óbvia, e a mais referida, é o peso da herança do Estado Novo. O Salazarismo tem sido o grande fardo da direita portuguesa. Cada vez que um político de direita ousa tentar sair do armário ideológico mais antigo da democracia portuguesa, as brigadas das esquerdas e dos sociais democratas envergonhados indicam logo, com maior ou menor brutalidade, o caminho de volta para o esconderijo da vergonha. E os políticos de direita, obedientes, continuam no armário 44 anos depois do 25 de Abril.

Há, no entanto, problemas mais profundos do que o Salazarismo, apesar de estarem de certo modo ligados ao Estado Novo. Ao primeiro podemos chamar educação política durante o Estado Novo. Muitos dos líderes da direita portuguesa foram educados, ideologicamente, durante o Estado Novo, quer através da formação universitária nas escolas do regime, como até através da convivência com as elites salazaristas e marcelistas. Os políticos que vieram da política do Estado Novo para o PSD e o CDS enfrentaram um grande desafio: a articulação de um discurso de direita para o regime democrático. Obviamente teriam que ser capazes de derrotar a colagem das direitas ao Salazarismo pelas esquerdas. Mas a direita não deve desculpar-se com as estratégias das esquerdas. O papel dos socialistas, comunistas e bloquistas é fazer a vida difícil à direita, e devemos reconhecer que o têm feito de um modo muito eficaz.

Sá Carneiro e mais tarde Lucas Pires tentaram construir um discurso liberal de direita, mas morreram cedo e muito longe de terem terminado a sua contribuição para a formação de uma direita democrática em Portugal. Ninguém jamais saberá o que teriam alcançado. Freitas do Amaral, Rebelo de Sousa e Cavaco Silva poderiam ter articulado um discurso democrata-cristão mas, tirando o primeiro (derrotado pela combinação fatal de fraqueza e ambição), nunca tentaram. Cavaco reduziu a democracia cristã à esfera privada e acreditou sempre que o sucesso económico e a competência financeira substituiriam a ideologia. Enganou-se. Muito à semelhança de Cavaco, Rebelo de Sousa tornou-se um pragmático exemplar, tendo feito o necessário para ser eleito Presidente, e fará de novo o suficiente para ser reeleito. Mas se existir uma dimensão ideológica na práctica política de Rebelo de Sousa é a democracia cristã. Ele perceberá, quando já for tarde, que o seu maior fracasso terá sido a incapacidade de articular um discurso democrata cristão de direita. A imortalidade de Mário Soares deve-se, antes de qualquer outra coisa, à coragem e convicção com que se afirmava “socialista, republicano e laico.” No plano da definição ideológica do seu campo político, nenhum socialista estará acima dele. Rebelo de Sousa não será para a direita o que Soares foi para a esquerda.

O segundo problema das direitas foi a incapacidade de construir um discurso internacionalista e europeísta. Este problema é de resto partilhado por muitas outras direitas europeias. O nacionalismo dominou o pensamento das direitas europeias entre a Revolução Francesa e o início da integração europeia. Em França, os discursos das direitas foram, em grande medida, dominados pelas correntes legitimista (e contra-revolucionária) e Bonapartista, cujo expoente máximo na século XX foi De Gaulle. Na Alemanha, o pensamento nacionalista de Herder e de Hegel a Ranke e a Fichte dominou as tradições políticas de direita. A redução da direita ao nacionalismo culminou, tragicamente, no Nazismo de Hitler, no regime de Vichy e, em Portugal no Estado Novo (em Itália no fascismo de Mussolini e em Espanha no regime franquista).

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O desastre da II Guerra Mundial e as longas décadas de ditaduras (a qual só terminou em Portugal em 1974) forçaram as direitas na Europa continental a separarem-se do nacionalismo e a construírem discursos internacionalistas e europeias. As experiências foram diferentes de país para país. Na Alemanha e em Itália, as direitas reconstruiram-se à volta do pensamento democrata-cristão e liberal (este último sobretudo na Alemanha). Em França, o nacionalismo, na versão Gaullista, foi mais resistente, mas as direitas acabaram, de um modo pouco estruturado, a reconstruirem-se com um discurso conservador e liberal. Em Espanha, de um modo mais consciente do que em França, o PP conseguiu combinar conservadorismo, liberalismo e democracia cristã nas suas doutrinas políticas. Em todos estes casos, as direitas libertaram-se dos fardos totalitários e autoritários

Portugal foi a excepção. As direitas portuguesas não se conseguem afirmar com orgulho e convicção. Como se a integração europeia nunca tivesse chegado aos partidos de direita (apesar de elegerem deputados europeus). Em Portugal, as direitas são envergonhadas, assustadas e incapazes de mobilizar ideologicamente o seu eleitorado. Continuam bem fechadas nos seus armários e quando abrem a porta é para se afirmarem como “não esquerdas”. O resultado dessa vergonha colectiva foi, desde 1995, só terem governado quando o PS falha, como aconteceu entre 2002 e 2005 e entre 2011 e 2015. No resto, estão condenadas à oposição, o que de resto é merecido para quem não tem coragem ideológica.

Usando uma comparação vinda do futebol. A direita está no banco e apenas joga quando o PS se magoa e tem que sair. Mas mal o PS recupera, a direita volta logo para o banco. Eis a dimensão dos fracassos históricos das lideranças do PSD e do CDS desde 1974. E, o pior de tudo, é que não parecem ter vontade de aprender.