O rumor cresce em situações de crise, conflito e catástrofe e o coronavírus enquadra-se perfeitamente na última. No início da quarentena, fomos bombardeados com rumores de escassez, infortúnio e todo tipo de cura em potencial, o que resultou na corrida às prateleiras dos supermercados com carrinhos a abarrotar de pão, enlatados e – é óbvio – papel higiênico!

Depois, vieram as más notícias que são consideradas mais “vitais” do que as boas, especialmente, quando se tratam de avisos e nos permitem tomar certas medidas e precauções.

Quando os rumores e as informações falsas se tornam tão presentes no dia-a-dia, originam debates e trocas de ideias entre nós. Com isto, seremos vítimas daquilo que criamos? A necessidade de confirmar ou refutar informações afeta a vida social das pessoas, sendo que somos nós a propagar a mesma informação da qual somos vítimas? Entrámos num ciclo, um boato cria conflito, cria debate, cria opiniões, que criam novos boatos e rumores, são certamente um fenómeno social que, afeta a nossa vivencia diária e a perceção das situações.

A crise e a diversidade sociocultural podem favorecer a eclosão de rumores, e alguns meios de comunicação e redes sociais contribuem para a sua rápida disseminação. O rumor expressa-se de várias maneiras: na forma de desinformação, preconceito, histórias pessoais que se tornam globais e em certos formatos de teorias da conspiração baseadas numa alegada intriga secreta, entre outras. Pode assumir-se como uma forma de “contaminação” através de redes sociais, como se fosse um mecanismo de influência com a intenção de distrair a atenção, de causar medo ou de informar a sociedade.

Nestes tempos penosos, o rumor acaba também por ser um meio de exteriorizar desejos e temores pessoais. Uma vez que, é enquadrado num conjunto de traços psicológicos da pessoa, é normal que esta lhe adicione, ainda que involuntariamente, as suas crenças, os valores, os preconceitos, os estereótipos ou as suas esperanças.

Quando aquilo que ouvimos nos oferece uma interpretação “caprichosa” da realidade adequada à nossa vida, inclinámo-nos a acreditar e a transmitir essa (des)informação.

Algumas pessoas veem a retransmissão de determinada informação como uma forma de dedicação para com o outro, esperando também serem reconhecidas pela utilidade das suas informações e/ou serem valorizadas socialmente pelo acesso a informação limitada aos outros.

Em casa e mantendo o contato com o mundo exterior pelo telemóvel, o e-mail e redes sociais, os rumores podem ser encaminhados para centenas, milhares ou dezenas de milhares de pessoas com uma rapidez vertiginosa.

Atualmente, muita dessas conversas entre colegas de trabalho tem por tema a sua situação laboral, o encerramento da empresa, demissões, problemas financeiros e operacionais são alguns exemplos de situações que se não forem conduzidas com a devida razoabilidade, podem resultar em rumores com consequências na vida das pessoas (ex., efeitos emocionais para os trabalhadores) e nas organizações (ex., imagem e sustentabilidade).

Vivemos num contexto de incerteza e ansiedade em que é urgente analisar a informação, nomeadamente transmitida nas redes sociais, com capacidade crítica, procurando fontes rigorosas, lendo cuidadosamente o que realmente está a ser transmitido. Importa, ainda questionar a crença numa história, sobretudo, em momentos de crise e de pânico. Por outro lado, ter a consciência que os rumores podem ser poderosos, e podem até ser autoproféticos.