Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Uma sondagem publicada no mês passado pelo Centre d’Estudis d’Opinió, um instituto de estudos sociais na dependência da Generalitat (Governo autonómico da Catalunha), revela que 41,2% dos catalães se sentem tão espanhóis como catalães e 20,1% apenas catalães – os restantes inquiridos dividiram-se entre as respostas “apenas espanhol” (8,2%), “mais espanhol do que catalão” (2,8%) e “mais catalão do que espanhol” (17,4%).

Há outras respostas interessantes, sobretudo no plano cultural. Inquiridos sobre o idioma preferido para a leitura de livros, 47,4% optam pelo castelhano e 23% pelo catalão. Trocando os livros pelo cinema, as respostas são semelhantes: 49,1% prefere o castelhano e 13,1% o idioma autóctone. Se analisados em conjunto com os resultados das últimas eleições autonómicas na Catalunha, realizadas em 2017, os números desta sondagem mostram uma sociedade complexa. Não é pela rua ser ruidosa e violenta que os catalães se transformaram numa massa humana una e homogénea.

Entre os partidários portugueses do separatismo catalão, os mais rigorosos assumem que, de facto, não existe nem nunca existiu uma maioria favorável à independência. Acrescentam, contudo, que se trata de um mero detalhe, quase irrelevante, pois a minoria é muito eficaz na ocupação do espaço público. A democracia resumir-se-á, portanto, ao agitar de bandeiras e à capacidade de mobilizar as hostes, retirando a política das instituições democráticas e atirando-a para a rua, onde a vontade se mede em decibéis e a legitimidade se aferirá mediante a quantidade de carros e mobiliário público incendiados. Transforma-se a democracia no recreio do sectarismo, substituindo a razão e a lei pelas emoções sem freio.

O ruído é, aliás, tão complexo como a sociedade. Nos últimos dois anos, os partidos e movimentos independentistas foram uma família desavinda: além de perfilharem estratégias diferentes – uns defendem uma abordagem de pequenos passos e outros a ruptura abrupta –, têm vivido sob recriminações mútuas, numa constante transferência de responsabilidades pelo insucesso do ‘procés’, cada um reivindicando para si o verdadeiro pedigree nacionalista.  Evidentemente, o facto de alguns dos promotores da independência terem fugido para o estrangeiro e outros terem ficado na Catalunha e assumido as consequências penais dos crimes cometidos também contribuiu para a celeuma na família separatista. A distância entre o Junts per Catalunya, do Presidente da Generalitat Quim Torra, e a Esquerra Republicana é por demais evidente nos últimos dias.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Mas as dissidências não são apenas entre partidos, pois parece que a rua independentista começa a rejeitar as forças políticas que a fizeram nascer. No sábado passado, Gabriel Rufián, deputado da Esquerra Republicana nas Cortes em Madrid, foi forçado a abandonar uma manifestação em Barcelona entre apupos e insultos, acusado de ser um ‘botifler’ (traidor). O caso é significativo já que Rufián tem sido das vozes mais truculentas e militantes na crítica a Madrid e no compromisso absoluto com a causa independentista. Rufián perceberá agora o ditado espanhol “cria cuervos y te sacarán los ojos”. Quim Torra, que instigou o radicalismo dos Comités de Defesa da República dizendo-lhes “apreteu” (pressionem) e que aventou um entendimento étnico da nação catalã, deverá chegar à mesma conclusão em breve. Quem certamente já percebeu os erros cometidos foi Carme Forcadell, antiga presidente do Parlamento catalão e uma das pessoas condenadas pelo Tribunal Supremo, que afirmou em entrevista recente que “não tivemos empatia com a gente que não é independentista”, gente que “talvez não se sentiu tratada de maneira justa”.

A Catalunha é uma sociedade profundamente dividida. O independentismo lançou um anátema sobre os catalães que desejam manter os vínculos políticos com Espanha, acusando-os de fascismo e de colonialismo, e as próprias forças separatistas entregaram-se a guerras fratricidas que aprofundaram fossos entre elas. As instituições catalãs ficaram desacreditadas e os abismos sociais e políticos multiplicaram-se. Os tumultos dos últimos dias são, sobretudo, o reflexo de um conflito existente na própria Catalunha. Os apelos de diálogo com Madrid, ainda que bem-intencionados, são extemporâneos, pois sem recuperar as condições de convivência dentro da Catalunha todas as soluções serão insuficientes.