Justiniano Martínez, antigo secretário-geral do Partido Comunista de Espanha em Madrid, publicou em 2017 um texto de opinião no El País onde recordava os anos de clandestinidade em que atravessou a fronteira com exemplares do jornal Mundo Obrero às costas. Foi detido e torturado pelo regime franquista, “como testemunham as minhas vértebras”. Nos dias de hoje, estas credenciais de luta empenhada contra a ditadura valem pouco. Para o catalanismo radical, Martínez é um fascista pela simples razão de se opor à independência da Catalunha. Alegando o óbvio, o ex-dirigente comunista respondeu que o fascismo mata, o franquismo matou, e o uso frívolo de termos como “fascista” e “preso político” redunda num insulto à memória daqueles que, de facto, foram submetidos a sevícias e a privações de liberdade em consequência das ideias que defendiam.

Argumento semelhante foi defendido nas páginas do mesmo jornal por Julián Ariza, co-fundador das Comisiones Obreras, uma das principais centrais sindicais de Espanha. Lembrou os três julgamentos em tribunal especial onde foi acusado de delitos de opinião, de associação e de manifestação, um rol que lhe valeu mais de seis anos de cárcere. Concluiu, portanto, que qualquer comparação do momento presente à época franquista deveria envergonhar até aqueles que a apregoam. Ao denunciar a “loucura rupturista”, Ariza é também apelidado de fascista.

O opróbrio não conhece limites. O cantautor Joan Manuel Serrat, ícone da esquerda espanhola e divulgador da música catalã dentro e fora de fronteiras, é igualmente tratado como um perpetuador do legado do Caudillo. O acosso é intenso, pois Serrat nasceu na Catalunha e, segundo o nacionalismo mais acérrimo, está por isso obrigado a perfilhar as metas soberanistas. A lista de intelectuais e artistas que Francisco Franco conduzirá a partir do ataúde incluem a realizadora Isabel Coixet, o cantor Miguel Poveda, os escritores Eduardo Mendoza e Javier Cercas, entre outros. Muitos assumem-se de esquerda, muitos nasceram na Catalunha, muitos identificam-se com a cultura local. Pouco importa: como afirmou em tempos a consellera de Cultura do Governo autonómico catalão, são apenas “espanhóis que vivem na Catalunha”.

Esta lista de personalidades, muito incompleta, revela o elevado grau de sectarismo do nacionalismo catalão contemporâneo, um movimento que se arroga o direito a outorgar certificados de democracia e a decidir quem cumpre os requisitos para ser um verdadeiro catalão. Um nacionalismo que assenta na mobilização de uma tribo que se quer homogénea, que depende da marginalização de outros para existir.

A lista é também suficiente para demonstrar que a crise catalã não pode ser interpretada nos termos da dicotomia esquerda-direita, nem tão pouco resumida a um antagonismo entre os catalães e o resto de Espanha. A linha de fractura está na forma como cidadãos e partidos se posicionam em relação ao movimento independentista catalão, o que faz dele um tema central no espaço público. O resultado é a polarização geral da vida política. Por outras palavras, e paradoxalmente, para travar os ímpetos rupturistas Espanha colocou-os no centro da vida política e abraçou a cultura de sectarismo que emergiu nas fileiras do separatismo catalão. O país vizinho parece ter regressado à lógica frentista, de dois blocos opostos, com as vozes mais responsáveis a alertarem para o despertar das duas Espanhas imortalizadas no célebre poema de António Machado: “Españolito que vienes / al mundo te guarde Dios. / Una de las dos Españas / ha de helarte el corazón”.

Os socialistas do PSOE foram as primeiras vítimas do campo extremado. Negociaram com o independentismo, validando tacitamente um movimento ilegal (violou a Constituição e o estatuto de autonomia da Catalunha) que pretende impor uma democracia plebiscitária comunal em detrimento da democracia liberal e plural vigente. Sem surpresa, o PSOE foi acusado de traição tanto pela direita como por vozes no interior do partido. Não pôde, contudo, compensar estas críticas com resultados tangíveis no tabuleiro negocial: como as reivindicações nacionalistas são intransigentes e maximalistas, o PSOE teve de retroceder. Em resposta, o nacionalismo catalão acusou o Governo de españolismo (que, aos dias de hoje, é um eufemismo para fascismo), chumbou o Orçamento de Estado e, assim, forçou a convocação de eleições antecipadas. Bloqueado entre uns e outros, e a tropeçar em si próprio, o chefe do Executivo, Pedro Sánchez, tombou – e o independentismo demonstrou com actos concretos que prefere um ambiente conflitual a um Governo central disponível para dialogar. No centro-direita a lógica de trincheira é em tudo semelhante.

Em síntese, uns são traidores e outros fascistas. A estratégia eleitoral de todos os partidos consiste em enfatizar o radicalismo do adversário, circunscrevê-lo a esse espaço e assinalar os riscos de traição no caso de vitória do oponente – seja por via de concessões ao nacionalismo catalão, seja por via de cedências ao autoritarismo de direita. A sociedade e os partidos vão-se acantonando, o separatismo catalão beneficia do ambiente de conflito, e a normalização política torna-se cada vez mais difícil.

É certo que o separatismo catalão desencadeou a mais grave crise política das últimas quatro décadas. É também verdade que a polarização decorre, até certo ponto, do estertor do bipartidarismo. Mas a natureza identitária e, por isso, essencialista que caracteriza o conflito faz lembrar o poema onde Machado retrata um país inexoravelmente partido em dois, a Espanha que morre e a que boceja, uma das quais há de gelar corações. São estas as Espanhas que se apresentarão às legislativas do próximo dia 28 de Abril.

Analista de risco político