Política

Deus nos ajude (em 11 pontos) /premium

Autor
  • Miguel Pinheiro

Em França, a nostalgia da guilhotina. Em Portugal, a opção económica pela ditadura. Na Aliança, eurocalmos misturados com eurofuriosos. Nos media, o Estado. No PSD e na JS, o pântano. Deus nos ajude.

1. Nas manifestações dos “Coletes Amarelos”, sente-se a nostalgia da guilhotina. Mas quem se entusiasma vendo a violência do sofá esquece que, em democracia, um carro em chamas não pode valer mais do que um voto numa urna.

2. Na análise aos “Coletes Amarelos” há ainda um equívoco histórico e um preconceito moderno, que unem Le Pen e Mélenchon: o de que, quando quer ser ouvido, o “povo”, coitado, só sabe falar como “povo em armas”. Eu prefiro sempre o “povo” que troca a adrenalina de uma montra partida pela tranquilidade de uma fila de voto.

3. O problema é que Macron preferiu o cálculo à coragem. Depois dos distúrbios do último fim de semana, o Presidente francês decidiu suspender o aumento de impostos que levou aos distúrbios. É a nostalgia de Maria Antonieta.

4. A seguir a Angola, a China. Portugal recebeu com inusitada reverência os líderes de duas ditaduras, colocando-se voluntariamente na dependência económica de regimes autoritários. Temendo a liberdade dos grandes empresários donos do seu dinheiro, a classe política portuguesa prefere sempre o conforto de negociar com ditadores. Com eles, é mais fácil resolver os “irritantes” que forem surgindo.

5. Mudando de assunto (mais ou menos): Marcelo Rebelo de Sousa lançou o debate sobre se a salvação dos media está na ajuda do Estado. Claro que não está. Afinal, se vários jornais portugueses que receberam dinheiro de inspiração estatal estrangeiro não se salvaram, porque é que as coisas haviam de ser diferentes com o dinheiro de inspiração estatal português?

6. De resto, a questão é meramente teórica porque, na prática, o Estado português, sempre muito amigo, já ajuda vários media. A embaixada jornalística à Feira do Livro de Guadalajara, por exemplo, foi um caso simbólico de amor desvelado do Governo por alguns jornais, televisões e rádios.

7. A Aliança arrisca ter uma cisão antes de ter um voto. Para as eleições europeias, que serão o seu primeiro desafio, o partido de Pedro Santana Lopes não tem uma doutrina, nem uma ideia, nem uma inclinação — tem uma confusão. Na lista de candidatos, mistura eurocalmos com eurofuriosos. No discurso, mistura o “profundo europeísmo” de Paulo Sande com o horror à “obediência cega de Bruxelas” de Carlos Pinto.

8. Santana Lopes vive numa contradição insuperável: quer conquistar os votos dos eleitores irritados com o poder, mas quer ser visto por quem tem o poder como um político bem comportado; quer mobilizar quem está fora do sistema, mas quer a bênção de quem está dentro. Assim, vai ser difícil.

9. Rui Rio lamentou que, “na política, namora-se o eleitorado de uma dada maneira e, depois, quando casamos com o povo, ele divorcia-se de nós porque estava a contar com uma coisa e depois sai outra completamente diferente”. Tem absoluta razão: imagine-se o que seria um líder partidário prometer um “banho de ética” no namoro e, depois de casar, atrever-se a levar o pântano para dentro do quarto.

10. Ao contrário de Rio, os “jovens turcos” do PS não prometeram um “banho de ética”; mas, à semelhança de Rio, não se importam de conviver com o pântano. Na JS, apoiam uma candidata que já conseguiu o jackpot da artimanha política, colocando na sua biografia informações falsas sobre a formação académica e acrescentando ao seu currículo informações falsas sobre os cargos que ocupou. A próxima geração de jotinhas está bem entregue. E o líder do PS, António Costa, está tranquilo porque o assunto, claro, não lhe diz respeito.

11. Nestes temas, de resto, António Costa mantém-se coerente até ao fim. Em Borba, apareceu um corpo, apareceram dois, apareceram três, apareceram quatro, apareceram cinco. E o primeiro-ministro continuou sentado na sua cadeira, tentando convencer-nos que não tem nada a ver com uma estrada que muita, muita gente sabia que ia cair. Pelos vistos, o truque resultou.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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