1 Voltou. Está aí e pronunciar-lhe o apelido desperta de imediato conjecturas e expectativas, o futuro olha-o com generosidade. Quando se soube que iria regressar ao país, surgiram alguns convites, recusou todos (não me deixa dizer quais) menos um: justamente aquele que melhor lhe pode definir o perfil e a simultaneamente a ambição: a Fundação Gulbenkian.

Carlos Moedas, 48 anos, passou cinco anos – 20014/19 — em Bruxelas, como Comissário Europeu para a Investigação, Ciência e Inovação. Dizem que deixou assinatura. E ele, também diz?

Ah, diz, diz. Por exemplo: deixou uma proposta para “o maior programa de sempre de ciência da União Europeia, 100 mil milhões de euros” (“não haverá outro maior no mundo, pela primeira vez chegamos aos 100 mil milhões, o programa actual é de 80 mil milhões”); deixou o lançamento do Conselho Europeu da Inovação com 10 mil milhões para Inovação e transformação do conhecimento em produtos — “uma das grandes dificuldades na Europa”; e logo no início da sua actividade na capital belga, em Novembro de 2014, “conseguiu desbloquear durante a crise do Ébola os primeiros 200 milhões de euros que deram origem à primeira vacina contra esta terrível doença”. Não é score modesto.

Enquanto isto, nunca porém Carlos Moedas ia perdendo o pé no país, nem Lisboa de vista: informadissimo, é bem relacionado à esquerda (demais?) e à direita (de menos?) e bem visto em Belém que adoraria patrociná-lo politicamente mas com o Presidente da República nunca se sabe, o que se sabe – ou sabia – é que muito lhe pronunciava o nome nos bastidores. Com afã.

2 O Comissário que deixará de o ser por agora, parece de facto abençoado por alguns deuses: em cima do indiscutível currículo há também o indiscutível prestígio fora de portas (coisa que sempre comove cá dentro), e as boas maneiras fazem o resto. Daqui a muito pouco tempo terá um gabinete na Avenida de Berna no andar reservado aos administradores da Gulbenkian, por convite que recebeu de Isabel Mota, presidente da Fundação, há já um bom par de meses. Sem definir ainda a especifica natureza do seu novo cargo (“ainda não está totalmente decidido”), sempre vai dizendo que “terá a ver com a transformação digital da Fundação e com a ligação entre a arte e a ciência.”

Tinham combinado os dois, Isabel Mota e ele, guardar recato até ser conveniente a ambos a sua publicitação, mas por amizade ou distração puseram um amigo comum no segredo: mais depressa que o som ou a luz, o “segredo” passou de bem guardado ao salto para os jornais e depois a tema nos jantares lisboetas. Um circuito muito português mas que parece não ter causado mossa de maior, tal o hábito destas coisas. A vida continuou.

3 Falei muitas vezes com Carlos Moedas no tempo da Troika. Levava a empreitada às costas como uma pesadíssima mochila, que nunca por nunca ser ele tirou. Fez o seu melhor, portou-se bem, levou a carta a Garcia. E já ninguém se lembra mas ele lembra, o PSD ganhou as eleições. Isto pelo lado político, técnico, profissional. Por outro — o humano, que não é de somenos — nunca houve arestas com outros interlocutores, não constam dissabores — que se saiba — não sobraram intrigas, nem ressentimentos, pelo contrário. Nunca até hoje deixou de almoçar com Pedro Passos Coelho nas suas vindas a Lisboa (voltaram a fazê-lo no final de Julho), de trocar mails com Vítor Gaspar, de querer saber de uns e outros. A dificuldade une mais do que separa, e como qualquer pessoa inteligente Moedas olha para a narrativa que vigora sobre o consulado da ex-coligação AD com uma espécie de distância filosófica: um dia alguém contará as coisas como elas foram.

Ele tem tempo.

Mas como me lembro de muito, também recordo alguns desses dias de feroz ansiedade nas moradas da coligação, as conversas com um preocupado Carlos Moedas, em S. Bento ou noutras instâncias, as coisas sempre a parecerem por um fio e depois a não estarem; ou então ele, falsamente imperturbável a contar-me os insultos que ouvia quando por milagre conseguia uns minutos livres ao fim de semana, tirava a mochila da “Troika”, saía com os filhos e era achincalhado em voz alta diante deles em livrarias ou à mesa dos hambúrgueres. Sim, também recordo uma boa coleção de histórias ou nunca contadas ou (sempre) enviesadas onde Moedas figurava mas, tal como ele, considero que alguém as ressuscitará um dia, seriamente escritas e descritas. Contos largos.

4 E a política? O seu PSD? perguntei-lhe eu, um destes dias. A ida para uma instituição com a “exclusividade” da Gulbenkian fechou esse patamar de acção e intervenção? Trancou-o de vez, pô-lo simplesmente entre parêntesis? A resposta veio por partes. Um: “sim a política interessa-o”; dois: “sim o PSD interessa-lhe”; três: “ mas”… Pausa: “mas o meu tempo talvez ainda não tenha chegado”. Eis um “mas” especial: consegue ao mesmo tempo pôr uma intenção a bom recato e simultaneamente sinalizá-la.

Estamos entendidos. Outra coisa seria avaliar apoios e circunstancias mas parece que é cedo.

5 Seja como for — política adiada, trancada, ou em banho maria — a passagem de Moedas por Bruxelas terá contribuído para (lhe) tornar verosímeis a tomada de quaisquer decisões partidárias, a veleidade de ambições políticas, a pretensão a destinos maiores. Depois se verá se o talento e a vontade política seguem. Mas ouvi-lo contar a sua caminhada internacional movendo-se com invejável segurança numa teia política e económica, sabendo contar a “petite” e a grande “histoire” ou retratar com palavras um mural de protagonistas de diverso grau e distinta qualidade, é perceber que ele ficou com o melhor e esqueceu o pior .E de caminho que deixou “marca” que é outro nome para dizer que deixou “boa impressão” e estas coisas contam: dão traquejo e conferem credibilidade. A Gulbenkian deve ter achado o mesmo e por sua vez Carlos Moedas achou muito naturalmente que “a Gulbenkian é a Gulbenkian”. Isto, em Julho, que foi quando conversámos. E como entretanto Rui Rio não deve ter um mau resultado e a vida do PSD talvez continue como está, deixou de haver pressa. A urgência saiu de cena, Moedas esperará.

Como os outros.

6 Pelo sim pelo não, resolvi perceber melhor. Para isso, pedi-lhe que falássemos, mas sugerindo levar um gravador. Será um dia destes e aqui mesmo, no Observador.