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Uma família em isolamento, dia 21

“E então, o que vamos fazer hoje?” A frase repete-se quase todos os dias. Não é bem uma pergunta, é um desafio atirado à parede para ver se cola. Ou atirado ao ar para ver onde cai.

Às vezes resulta, as miúdas agarram a deixa e começam a sugerir coisas. “Panquecas para o pequeno-almoço.” “Não, almoçar panquecas.” “Panquecas ao almoço e ao jantar.” “Fazemos os trabalhos só à tarde e agora brincamos.” “Ver televisão até doer os olhos.” “Pintar a parede da sala como quisermos.” “Tudo o que quisermos e o pai hoje não trabalha.” “Pintarmos o corpo com aguarelas.” Raramente – se é que alguma vez – dizem “arrumar a casa”, “fazer logo as camas”, “despachar os trabalhos”, “ajudar a fazer o almoço” ou “arrumar a cozinha”. Preciso de acrescentar eu essas buchas e negociar onde as vamos incluir. E, de caminho, deixar claro o que é negociável e o que não é.

Uma filha tem seis anos, a outra tem sete. Isto significa que muitos interesses são comuns e o que agrada a uma agrada também à outra. Quando não acontece, não há problema. A Madalena tem as suas preferências e tempo de antena, a Carolina também. São diferentes, há que respeitar isso.

Mas há dias em que nada disto resulta.

Entramos hoje na quarta semana de confinamento e começam a faltar as estratégias – temos de as procurar de outra forma – para manter o interesse em atividades dinâmicas e a vontade de as concluir. Há dias em que faço eu listas de ideias e elas riscam o que não querem e acrescentam o que lhes apetece (há coisas que não podem riscar). Há dias em que a mãe – que sai de casa de manhã para trabalhar e chega ao fim o dia cansada mas ainda arranja energia para ideias durante as horas em que não está – atira umas boas sugestões. Há dias em que preparamos isto à noite para se deitarem com aquele bichinho na cabeça e, na manhã seguinte, já saberem o que vão fazer. E também já experimentei um par de vezes mudar os planos todos à hora de almoço para ver se as animava um pouco e lhes dava mais pica para a tarde. Não resultou.

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Sei bem o que defendem os especialistas em desenvolvimento infantil. A importância das rotinas, dos horários, a segurança de saberem com o que vão contar, a expectativa da aproximação de um momento bom, a preparação para a aproximação de um momento que não lhes agrada. Cumprir as horas das refeições, manter uma alimentação variada e equilibrada, respeitar os momentos de brincadeira (apenas brincadeira), interagir com elas em algumas situações, deixá-las estar à vontade noutras. Sair por curtos períodos para correrem ao ar livre. Sei isso tudo.

E sei também que a internet tem gigabytes de ideias, sugestões e propostas de atividades a desenvolver com crianças nestas circunstâncias – não havia antes, porque nunca tínhamos passado por isto, mas há agora. Também sei que o mindfulness e técnicas de respiração e meditação podem ser boas ferramentas, que a yoga para os mais pequenos (e para os adultos) é uma excelente ajuda. E sei que alguns pais e mães não precisam de nada disto porque as dinâmicas familiares conseguem encontrar maneira de funcionar nestes tempos novos – que bom para eles. E sei que os contactos por videochamada com a família e os amigos são importantes.

E também sei que isto vai passar, que não dura para sempre. E que o Ministério da Educação está a trabalhar na melhor forma de lidar com as aulas no terceiro período e que a telescola deverá ser uma solução e que a partir da próxima segunda-feira as coisas poderão mudar.

E também sei que a verdadeira dificuldade e a verdadeira guerra trava-se é nos hospitais, e que lá é que estão os heróis, lá que é salvam vidas. E que a nossa curva de novos infetados parece continuar a crescer devagar e o número de óbitos a lamentar parece manter-se relativamente controlado, em comparação com outro países – e que isso que se passa  “lá fora” nos dá a sensação de que todo este sacrifício “cá dentro” está a valer a pena.

A sério, eu sei isso.

Mas esta é a realidade aqui em casa. A nossa realidade. E, perdoem a presunção, acredito que seja a realidade de milhares de famílias. Começam a faltar as ideias e as estratégias e os caminhos e as soluções para lidar com o isolamento e para manter a cabeça de dois adultos e duas crianças no sítio certo e a carburar bem. Isto já não é novo, isto é a vida real. Era uma novidade há três semanas, agora é uma realidade. Já não é só um desafio, é uma constante. Estes já não são os tempos dos arco-íris e das palmas e dos aplausos à janela. Isso ajuda, mas não resolve.

Começa hoje a quarta semana e esta porra não está a ser fácil. Na verdade, já sabíamos que não ia ser fácil. Aceitar isso é meio caminho andado para procurar novos caminhos – e, se for preciso, procurar novas ajudas. Está a ser difícil e não disfarçar e não gastar muita energia emocional a fingir que vamos todos sair mais fortes disto pode ser um bom caminho. Pelo menos para os adultos. Para as crianças, por elas, vamos continuar a dizer-lhes que vai passar. Tudo passa.

“E então, o que vamos fazer hoje?” Vou perguntar às miúdas. Pode ser que tenham ideias melhores que as minhas.

Veja também (Diário de Uma Família em Isolamento):

Dia 1. Sabe o nome do seu vizinho?

Dia 2. Teletrabalho? Vocês não têm filhos pequenos, pois não?

Dia 3. Vai para dentro, olha que te constipas, pai

Dia 4. Jantar de grupo, hoje. Por vídeo? Cada um na sua casa.

Dia 5. #vaificartudobem, mas antes disso estamos a ficar mal

Dia 6. Domingos que parecem outro dia qualquer, sempre iguais

Dia 7. Uma quarentena para ler as mensagens todas no WhatsApp

Dia 8. “Quando é que isto acaba?” Não sei, filha 

Dia 9. E os professores dos nossos filhos, como estão a lidar com isto?

Dia 10. Já chegou. Um dos nossos está infetado

Dia 11. Rotinas 0 – 1 Sanidade mental. Que se lixem as rotinas

Dia 12. Agenda: às nove no Instagram ou às dez no Skype?

Dia 13. Como explicar o que aconteceu na Ponte 25 de Abril?

Dia 14. Os vossos pais também não param em casa?

Dia 17. “Sim, vai mesmo ter que ir às urgências”

Dia 18. Pão, vinho e Bruno Nogueira. O que mudou em três semanas

Dia 19. O medo lá fora – a minha filha não quer sair de casa

Dia 20. A vida em suspenso