Uma família em isolamento, dia 19

A minha filha mais nova não quer sair de casa. A Madalena olha a rua pela janela da sala ou do quarto e não fica angustiada ao ver os passeios largos onde pode andar de trotineta, não fica triste com a ideia do grande relvado que se estende atrás dos prédios à nossa frente, não fica ansiosa com vontade de apanhar o sol que bate na fachada amarela do edifício de esquina. As vozes das poucas pessoas que por estes dias passam lá em baixo ou o som dos carros na avenida ao fundo não lhe causam inveja ou curiosidade. Não agora. Não nestes tempos.

Cá dentro está a irmã, está o pai, está a mãe quando chega do trabalho. Cá dentro tem brinquedos, tem bonecas, tem canetas coloridas para pintar, tem folhas onde desenhar. Cá dentro há uma televisão com desenhos animados, há bolachas, há leite, há cereais, há iogurtes, há pijamas quentinhos e almofadas fofinhas, há a cama dela, há a cama dos pais para onde foge às vezes durante a noite. Cá dentro é seguro. Lá fora está uma coisa chamada vírus, que não se vê. E que mata pessoas.

Uma das primeiras coisas que aprendemos quando nos nasce um segundo filho é esta: eles são diferentes entre si. Podem sair do mesmo útero e ter a mesma impressão digital genética. Podem ter a mesma educação e crescer na mesma casa, com os mesmos adultos. Mas são diferentes.

É assim com as minhas também. Uma gosta de dormir de meias, a outra não suporta os pés quentes. Uma acorda destapada com a cabeça no sítio dos pés, a outra é capaz de passar uma noite inteira quase sem se mexer. Uma tem de comer assim que se levanta (sob pena de uma tempestade de mau feitio), a outra é capaz de estar em jejum até ao meio-dia, se deixarmos. Uma precisa de falar e de verbalizar sentimentos e deitar cá para fora o que a angustia lá dentro, a outra só fala se quiser e não parece ralada com isso – por enquanto, pelo menos. A Carolina precisa de companhia e de correr e saltar e trepar às árvores e gastar energia, a Madalena só quer que a deixem estar, sossegada no canto dela, a brincar com o que lhe apetecer. Nunca isto nos pareceu preocupante, nunca isto nos alarmou – e não, não tem agorafobia. É sociável, gosta de fazer amigos e de brincadeiras ao ar livre. Mas agora não.

Há crianças mais sensíveis, outras menos. Umas mais reservadas, outras mais expansivas. Umas mais sensíveis para umas coisas, outras mais emotivas para outras. Aceitar-lhes as diferenças é também um passo importante para o nosso próprio crescimento. Uma coisa são os valores e os princípios que queremos passar aos filhos, outra é olhar para a educação que lhes damos como uma impressora 3D de comportamentos a moldar criaturas todas iguais. Não é isso que queremos, não é isso que fazemos.

Acontece, porém, que esta diferença de necessidades e personalidades das minhas filhas se acentuou ao longo das últimas três semanas, desde que estamos em isolamento voluntário, ainda antes do encerramento das escolas. Não é só feitio. É também conjuntura. A Carolina, de 7 anos, sofre por não ter rua. A Madalena, de 6, angustia-se com a ideia de sair do ninho.

O estado de emergência não proíbe passeios curtos com crianças ao ar livre nem a prática de exercício físico no exterior. Temos tentado conciliar as duas coisas nas saídas precárias que fazemos desta prisão domiciliária, mas é cada vez mais difícil convencer a pequena que anda assustada com o bicho que está lá fora. Bicicleta, trotineta, bola, disco, raquetes, corda, tudo serve de pretexto para jogos e brincadeiras no exterior. Umas vezes resulta, outras não. Em algumas ocasiões a corrida é bem aceite, noutras é o passeio de carro de janelas abertas e com o vento na cara que lhe agrada.

As notícias que nem sempre conseguimos filtrar – não vivemos numa bolha e também não as queremos alheadas da realidade –, as conversas que temos e os contactos que vamos mantendo com amigos e família através das redes sociais e videochamadas lembram a toda a hora que a casa é o sítio mais seguro do mundo e que não contactar com outras pessoas é a atitude mais responsável. Como explicar, então, que é bom sair daqui?

Quando tudo isto passar e quando enchermos a barriga de abraços e de toques de pele com as pessoas de quem gostamos, talvez precisemos de uma readaptação. Uns vão fazê-lo calmamente, outros vão explodir ao ar livre e alguns – graúdos e miúdos – precisarão de tempo. De ganhar novamente confiança no exterior. De sentir que é outra vez seguro tocar num baloiço, aceitar uma bolacha de uma criança que acabou de conhecer, emprestar um brinquedo a um amigo novo que acabou de fazer. Pode demorar algum tempo. Mas chegamos lá.

Veja também (Diário de Uma Família em Isolamento):

Dia 1. Sabe o nome do seu vizinho?

Dia 2. Teletrabalho? Vocês não têm filhos pequenos, pois não?

Dia 3. Vai para dentro, olha que te constipas, pai

Dia 4. Jantar de grupo, hoje. Por vídeo? Cada um na sua casa.

Dia 5. #vaificartudobem, mas antes disso estamos a ficar mal

Dia 6. Domingos que parecem outro dia qualquer, sempre iguais

Dia 7. Uma quarentena para ler as mensagens todas no WhatsApp

Dia 8. “Quando é que isto acaba?” Não sei, filha

Dia 9. E os professores dos nossos filhos, como estão a lidar com isto?

Dia 10. Já chegou. Um dos nossos está infetado

Dia 11. Rotinas 0 – 1 Sanidade mental. Que se lixem as rotinas

Dia 12. Agenda da quarentena: às nove no Instagram ou às dez no Skype?

Dia 13. Como explicar a uma criança o que aconteceu na Ponte 25 de Abril?

Dia 14. Os vossos pais também não param em casa?

Dia 17. “Sim, vai mesmo ter que ir às urgências”

Dia 18. Pão, muito vinho e Bruno Nogueira. O que mudou na nossa vida em três semanas