Uma lei universal, seja do ramo da física, seja numa perspectiva geral de interacção social, é que para cada acção existe uma reacção. Nem sempre as ubíquas reacções são aparentes: se, por um lado, qualquer bola de futebol ressalta no embate com o solo, não existe menos reacção, por outro lado, na força que uma mesa exerce sobre o objecto nela assente.

Para o comum português, a pessoa que se interessa pela actualidade sem que por ela perca o sono ou horas de lazer, existe um manto de imobilismo situacionista sobre o país: a geringonça é uma tosca construção que se arrasta pelos palcos folclóricos sob olhar cândido de pândego Presidente como calhambeque destinado a condução embriagada e que embate, com jeito plácido e inconsequente, nas multidões que compõem a realidade nacional.

Para o português órfão, que votou e voltaria a votar, nas mesmas condições de 1985, em Cavaco Silva para primeiro-ministro, a situação actual é angustiante. As condições conjunturais de então eram as de uma Europa em próspero crescimento, com o iminente colapso do comunismo para lá da Cortina de Ferro e a disposição para o financiamento europeu do progresso nacional após o custo do desmame austero levado à prática na primeira metade da década e concluídas pelo governo de Mário Soares, consequência do regabofe revolucionário de reformas agrárias e aleivosas e catastróficas nacionalizações. Com Cavaco Silva, os pequenos empresários, a burguesia aos olhos de sinistros marxistas, puderam, finalmente, sair do armário.

Três principais vertentes de pensamento à direita vieram à tona em Portugal nos últimos anos, não só mas sobretudo após a substituição do líder do PSD por Rui Rio.

A primeira vertente é a do esgotamento dos resquícios de PPD no PSD. Mantendo a aparente reverência por Sá Carneiro com a candura de que se adornam os mortos, a batuta de Rui Rio anuncia um inevitável regresso do PSD ao poder, após a decomposição natural da geringonça, pautada pelo regresso de barões e caudilhos centristas, desprovidos de objectivo além da perpetuação de um capitalismo de compadrio. Além do agravamento por tendência para feudos regionais, não se enxergará diferença significativa entre o governo de Rio e o primeiro governo de Sócrates.

A segunda vertente é a do aproveitamento dos piores cacos das juventudes partidárias com a tentativa de criação de novos partidos. Estes, dotados de marketing para incautos com tendências liberais e inspiração ideológica no mero carreirismo, surfando a onda das políticas identitárias importadas directamente das universidades anglo-saxónicas para terrace lounges e saunas lisboetas, pretendem, sob patrocínio da ALDE, repetir a façanha do PS ao agregar alegadas minorias oprimidas com o objectivo de um progressismo federal de integração europeia à revelia dos povos através do reforço dos poderes legislativos do Parlamento Europeu, esvaziando a democracia dos estados-nação em contra-ciclo com as tendências de uma Europa que, face à crise dos refugiados, encontra soluções democráticas no reforço dos seus direitos fronteiriços.

A terceira vertente é a de sobrevivência da política nacional e europeia face ao esvaziamento centralizador por homogeneização forçada da Europa e que pretende uma colaboração estreita entre países para que a União Europeia seja mais CEE do que UE centralista. É a vertente que procura que prevaleçam as especificidades regionais, que as tradições locais sejam deixadas ao natural processo evolutivo orgânico por oposição ao decreto supra-estatal esgotado de poder reivindicativo por elevada dependência económica e que responde aos anseios de um país de pequenas empresas ainda asfixiado pela baixa liberdade económica de hiper-regulações e cronyismo. É a vertente que não alinha nos discursos tolos de inovação e empreendedorismo sem que condições para tal sejam proporcionadas, libertando os agentes económicos do poder político. É a vertente que pretende redimensionar o Estado para que serviços essenciais possam ser prestados com racionalidade económica, tornando prioritária a independência económica dos mais carenciados em oposição às promessas da esquerda que tornam prioritária a dependência dos cidadãos pelo estado. É a vertente que pode trazer o PPD de volta ao PSD e que, conservando as ligações dos portugueses à cultura identitária da nação, permitirá colocar Portugal em linha com o crescimento do leste europeu, politicamente mais próximo da tendência de rejeição de uma Europa de inspiração soviética.

Que o português comum, o que não perde o sono nem horas de lazer com as imperceptíveis forças de reacção à geringonça, continue a ser poupado à necessidade de escolha não será de surpreender. Que o momento da escolha divida tanto os restantes, efectivamente colocando em causa laços de amizade e desfazendo em isolados átomos as pequenas moléculas da reacção nacional, também não. É que, afinal, tudo isto não é mais que o instinto básico de sobrevivência humana.