Regressou a chuva ao ocidental canteiro lusitano, largos meses volvidos de prolongada ausência. Depois duma noite de arrebatada invernia, de temporal desfeito (José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis), escuta-se o sussurro das águas lá fora, o chapinhar dos carros na beira na beira dos caminhos. Quem soergue as persianas para contemplar o temporal, qual expectador no conforto da sua habitação, olhando o baldaquino das nuvens, confirma sem surpresa as previsões da meteorologia – davam chuva para hoje. A chuva, correndo, precipita-se para abraçar a janela; os pingos, tamborilando, brincam na vidraça. É necessário abrir as arcas, os guarda-fatos, exumar a roupa de inverno. Há que calçar as botas, vestir os quispos, as gabardinas, os impermeáveis; é importante não esquecer o guarda-chuva. Ao atravessar o umbral da porta, as poças de água, como um chão vidrento, refletem a molhada casaria (Cesário Verde, “Cristalizações”, O Livro de Cesário Verde ); o ar frio sopra, gelado, na face; os regatos, a escorrer dos algerozes, erguem o seu canto; um eflúvio telúrico ergue-se do leito de folhas secas, onde se consumam as núpcias entre o Céu e a Terra.

Mas a chuva, ao contrário do sol, quando nasce, não é igual para todos. Advertia Heráclito (c. 535 a.C. – c. 475 a.C.), que as águas do rio se modificam no seu percurso; pois podia ter acrescentado o mesmo das águas da chuva. A mesma chuva que rega os campos, também alaga as plantações. Em excesso, provoca inundações nos EUA, nos países da Europa, e da Ásia. A escassez de chuva, por outro lado pavimenta de mosaicos secos e gretados o continente africano, onde, como o cavalo de Átila, no chão que calca nenhum rebento torna a nascer. A escassez de água afeta mais de 40% da população mundial, número que deverá sofrer um aumento nos próximos anos, como consequência das alterações climáticas e da gestão inadequada dos recursos naturais. Também em Portugal, onde estiveste, chuva, quando chamámos por ti nos verões que passaram?

Neste contexto, a Assembleia Geral das Nações Unidas incluiu a disponibilidade e a gestão sustentável da água entre 17 metas globais, que intitulou de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), uma agenda de ação tendo como horizonte o ano de 2030 como horizonte. Envolve questões de desenvolvimento económico sustentável, justiça social, trabalho, saúde, educação, combate às alterações climáticas e preservação dos recursos naturais. No que diz respeito ao acesso aos recursos hídricos, o documento pretende assegurar a universalidade, qualidade e sustentabilidade no abastecimento de água e saneamento de águas residuais; a proteção e requalificação dos ecossistemas aquáticos e terrestres; a promoção do uso sustentável, equilibrado e equitativo de água de boa qualidade; o aumento da resiliência face a inundações, secas e outros fenómenos extremos decorrentes das alterações climáticas («Transforming our world: the 2030 Agenda for Sustainable Development». United Nations – Sustainable Development knowledge platform.). Para não falar de que a água representa a fonte mais importante de energia renovável.

Na realidade, é indiscutível o lugar central que a água assume na natureza. Tales de Mileto (c.624 a.C. — 546 a.C.) afirmava que a água era a substância primordial (arché), na qual todas as coisas teriam a sua origem. Descrevia a terra como “lenho flutuante” sobre a água cósmica, jangada planetária poderíamos chamar-lhe, circum-navegando, ano a ano, em torno do farol solar. Tamanha era a atenção que Tales dedicava ao referido elemento, que, segundo um relato de Plutarco (c. 46 d.C. – c. 120 d.C.), enquanto sondava as alturas em busca de indícios de pluviosidade, Tales tropeçou e caiu. Platão (c. 427 a.C. – c. 347 a.C.), por sua vez, no diálogo Teeteto, acrescenta que Tales caiu num poço. Procurando água no firmamento do céu, foi debaixo dos pés que a encontrou. Não obstante o caricato da situação, este episódio é considerado o momento fundador da filosofia ocidental. Séculos mais tarde, Friedrich Nietzsche (1844-1900) diria que “a filosofia grega parecia começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas”, uma vez que, nesta expressão, embora apenas em estado de crisálida, se encontrava contido o pensamento tudo é um” (Friedrich Nietzsche, A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos). Foi um pequeno passo para o homem que caiu, mas um grande passo para a filosofia, que despontou.

A ciência veio a confirmar a relevância da água para a vida e, em particular, para o ser humano. Foi na água que, pela primeira vez, despontou a vida neste planeta, azul sobre o cenário negro do Universo, tonalidade que lhe é oferecida pelo manto aquático que recobre três quartos da sua superfície. À semelhança de Tales, é ainda água que procuramos no firmamento, como acontece nas missões espaciais que buscam sinais de vida em outros planetas.

Sabemos atualmente que a água representa aproximadamente 60-70% da composição corporal, o que, por maioria de razão, veio confirmar a admirável intuição de Tales, no que à natureza do homem diz respeito. A água é, de facto, o principal constituinte celular, sendo um agente indispensável na manutenção do equilíbrio hidro-eletrolítico do organismo, na regulação da temperatura corporal, no normal funcionamento dos órgãos e nos desempenhos físico e cognitivo.

Daí que a Direcção-Geral de Saúde (DGS) tenha lançado, este verão, a campanha de divulgação “Água – A Nova Mega Bebida”, que pretende salientar a importância da água, como componente essencial para uma alimentação saudável. Numa era em que as bebidas açucaradas assumem lugar de destaque dos media e as garrafas multicolores de bebidas espirituosas enfeitamos escaparates dos bares, nunca é demais salientar as virtudes destas claras e frescas águas de cristal (Luís de Camões, Rimas), bebida mais simples, transparente e saudável.

Esta água é a mesma que vem das chuvas: a água que cria, a água que revitaliza, a água que regenera. Imagem perfeita do devir e do retorno, a água retoma o seu ciclo, na viagem que empreende entre o Céu e a Terra. O bailado da chuva continua, entre a coreografia dos guarda-chuvas coloridos.

Médico, Assistente Convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.