A cidade, o metabolismo urbano e os jardins do paraíso

A cidade tipológica do mundo urbano-industrial é a cidade do automóvel e das grandes densidades urbanísticas, cuja massa e volumetria se sobrepõem à morfologia e aos valores culturais do território. As fronteiras da cidade foram ultrapassadas e os perímetros urbanos alargados, as infraestruturas rasgaram o território envolvente e as barreiras naturais, a alteração do uso dos solos promoveu a especulação e a irracionalidade urbanísticas. Nesta sequência desordenada desapareceu a unidade espacial entre a cidade e o campo.

A cidade inteligente e criativa do futuro só pode ser um espaço socialmente construído para o exercício pleno da cidadania. Por isso, a minha tese para o futuro da cidade inteligente assenta num princípio de prudência e bom senso: as tecnologias digitais tornam a cidade mais inteligente, mas é o urbanismo nas suas várias dimensões que torna as tecnologias digitais muito mais inteligentes e criativas.

Do urbanismo à urbanidade, uma grelha de leitura em dez tópicos

  1. Uma cidade mais descompartimentada, com maior conexão das suas funções urbanas, mais aberta e com maior escrutínio por via do acesso aos dados públicos;
  2. Uma cidade com espaços mais partilhados, com maior hibridação de funções públicas e privadas e, sempre que possível, uma cidade coproduzida com os seus cidadãos;
  3. Uma cidade mais circular e solidária, não apenas pela mutualização de áreas de trabalho com outras cidades, mas, sobretudo, uma cidade que tem como seu símbolo distintivo, uma ética do cuidado em direção aos grupos mais desprotegidos;
  4. Uma cidade em interação com o ator-urbano, um cidadão multitarefas e multifunções, mais personalizado e solidário, o símbolo da urbanidade diligente do século XXI;
  5. Uma cidade com um modelo económico e social muito diversificado ajustado à natureza de cada bem comum e com um risco moral mínimo entre os seus concidadãos, isto é, onde todos os custos e benefícios externos são conhecidos e explicitados;
  6. Uma cidade em que as novas funcionalidades e utilizações permitidas pelas tecnologias digitais interagem com a arquitetura do espaço público e as aglomerações habitacionais;
  7. Uma cidade com uma relação privilegiada com a sociedade sénior, não apenas na sua mobilidade, mas em todos os aspetos relativos à sua qualidade de vida;
  8. Uma cidade com uma relação privilegiada com as áreas naturais e agrícolas adjacentes, tendo em vista a construção de um sistema produtivo local (SPL) e a promoção de consumos de proximidade, mas, também, espaços terapêuticos de recreio e lazer;
  9. Uma cidade muito interativa em termos culturais, artísticos e recreativos e contribuindo para uma nova estética urbana, a construção do génio e o espírito do lugar;
  10. Uma cidade que mostra o seu virtuosismo tecnológico e digital, mas que pratica a arte da dissimulação, isto é, a ocultação da tecnologia e dos seus dispositivos em ordem a não afrontar ostensivamente o bem-estar e a liberdade do cidadão.

O plano verde e os jardins do paraíso

Agora que se fala tanto em turismo e em turistificação, agora que o ciclo ascendente parece comprometido, nunca é tarde demais para enfatizar dois temas fundamentais intimamente ligados: por um lado, sublinhar a distinção paisagística, os espaços verdes e a visão orgânica de cidade, por outro lado, relevar os recursos imateriais da memória, do imaginário e da cultura no planeamento da cidade. Em ambos os casos, a referência aos jardins do paraíso de Gonçalo Ribeiro Telles revela-nos uma ilustração absolutamente deslumbrante.

Eis os pressupostos do plano verde da cidade inteligente de Gonçalo Ribeiro Telles:

  • A cidade não é um puzzle de unidades territoriais desenhadas pela forma como a estrutura viária se relaciona com o tipo de edificação;
  • As estruturas não-identificáveis e os vazios urbanos não garantem, só por si, a constituição de uma estrutura verde útil e eficaz;
  • Os espaços verdes não podem ser espaços residuais, mas espaços substanciais que organizam o espaço;
  • A cidade não é um conjunto zonado de áreas independentes, só identificáveis pelo modo como o automóvel se relaciona com os blocos residenciais;
  • A cidade deve ultrapassar o convencionalismo inadequado da composição vegetal que hoje envolve, por exemplo, o tratamento ajardinado em rotundas e faixas de separação;
  • A imagem da cidade deve ser defendida através de um sistema cartografado de vistas que determine a dimensão dos edifícios, a distribuição e forma da vegetação e o enquadramento das infraestruturas;
  • No planeamento da cidade do século XXI é fundamental considerar “unidades operativas” de conteúdo ecológico com autonomia de planeamento, sempre que necessário, sem as quais estará em causa a sustentabilidade biofísica, a qualidade ambiental e o abastecimento alimentar;
  • Neste sistema compreensivo e orgânico de vasos comunicantes, o plano verde é um instrumento essencial na conceção dos espaços exteriores da cidade cuja autonomia do desenho é exigida pela retaguarda biofísica e cultural que lhe é própria e pela prática das artes que desde há muito servem a construção da paisagem viva.

Os jardins do paraíso

Quando se fala de distinção paisagística, amenidades e recursos da memória e do imaginário é quase obrigatória uma referência aos princípios éticos e estéticos enunciados pelo Arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles a propósito dos seus “jardins do paraíso” que são uma espécie de poesia da natureza, um passeio romântico através de uma paisagem de inspiração estético-literária. Passemos em revista esses princípios e apreciemos a sua elegância.

Em primeiro lugar, aposte na “sublimação do lugar” tornando-o ameno e feliz.

Em segundo lugar, invista na “presença da água”, na sua serenidade estética, que confere um movimento ritmado e uma dinâmica musical ao jardim.

Em terceiro lugar, invista em espécies que sublinhem a “pujança da natureza e a sua diversidade biológica” e que enaltecem o ritmo da vida.

Em quarto lugar, tire partido da “luminosidade natural dos espaços”, o esplendor da luz é conseguido através do contraste sombra-claridade e da harmonia das cores.

Em quinto lugar, deixe-se influenciar pela “geometria e a profundidade das perspetivas”, o recorte dos sucessivos planos valoriza distâncias e formas.

Em sexto lugar, promova a “integração do jardim na paisagem envolvente” sempre que esta seja ordenada e bela.

Em sétimo lugar, aceite a “ordem natural como base da conceção do jardim”, ou seja, deixe-se inspirar pela ordem da natureza.

Em oitavo lugar, valorize os “aspetos culturais da paisagem”, pois a ordem cultural é a ordem da humanidade.

Em nono lugar, evite os excessos e exalte a” simplicidade no ordenamento das coisas”, não faça decoração pela decoração, ou seja, decorativismo.

Em décimo lugar, um jardim e uma paisagem são fruto de conceções e projetos e nunca de arranjos ou decorações, pelo que a sua “grandeza e beleza decorre do que lhes é essencial na medida certa”.

A eloquência e a elegância destes princípios falam por si. Percebe-se agora melhor a razão pela qual os conceitos de paisagem global e unidade de paisagem presidem à sua conceção do ordenamento e dos sistemas de produção. Ou seja, com Gonçalo Ribeiro Telles, o fator ecológico, o fator produção e o fator cultura não estão compartimentados em “silos administrativos” e reclamam, por isso, uma outra conceção da política administrativa e da administração da política. Tão simples como isso.

Nota Final

Os sinais distintivos territoriais são a imagem de marca de um território. Um desses sinais é a distinção paisagística. Num tempo de “turismo total” não é apenas a gentrificação das vilas e cidades que nos deve preocupar, é, também, a ludificação excessiva e, sobretudo, o critério e o modo como dispomos e usamos recursos escassos como a água, o solo e a vegetação, no fundo a paisagem global que nos acolhe. Não simplifiquemos, pois. Todos nós somos, cada um à sua maneira, cuidadores da paisagem. Mas não nos iludamos. Há uma literacia própria da paisagem, que necessita de ser convenientemente abordada, sob pena de a nossa perceção da paisagem ser um crime de lesa-pátria e um mau serviço prestado ao país. Talvez seja o tempo de voltar ao unitarismo de outros tempos, regressando à política e às causas públicas, reabilitando o discurso ideológico sobre a ocupação do nosso território, antes que o tenhamos de recuperar num qualquer leilão de ocasião aqui ou no estrangeiro.